Passagens sobre Imoralidade

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A Necessidade da Mentira

A imoralidade da mentira n√£o consiste na viola√ß√£o da sacrossanta verdade. Ao fim e ao cabo, tem direito a invoc√°-la uma sociedade que induz os seus membros compulsivos a falar com franqueza para, logo a seguir, tanto mais seguramente os poder surpreender. √Ä universal verdade n√£o conv√©m permanecer na verdade particular, que imediatamente transforma na sua contr√°ria. Apesar de tudo, √† mentira √© inerente algo repugnante cuja consci√™ncia submete algu√©m ao a√ßoite do antigo l√°tego, mas que ao mesmo tempo diz algo acerca do carcereiro. O erro reside na excessiva sinceridade. Quem mente envergonha-se, porque em cada mentira deve experimentar o indigno da organiza√ß√£o do mundo, que o obriga a mentir, se ele quiser viver, e ainda lhe canta: “Age sempre com lealdade e rectid√£o”.
Tal vergonha rouba a for√ßa √†s mentiras dos mais subtilmente organizados. Elas confundem; por isso, a mentira s√≥ no outro se torna imoralidade como tal. Toma este por est√ļpido e serve de express√£o √† irresponsabilidade. Entre os insidiosos pr√°ticos de hoje, a mentira j√° h√° muito perdeu a sua honrosa fun√ß√£o de enganar acerca do real. Ningu√©m acredita em ningu√©m, todos sabem a resposta. Mente-se s√≥ para dar a entender ao outro que a algu√©m nada nele importa,

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Agora que estou a envelhecer e me aproximo do patriarca, eu também sinto que uma imoralidade anunciada é mais punível do que uma acção imoral. Chega-se ao assassínio por amor ou por ódio; à propaganda do assassínio, apenas por maldade.

Ter-se vergonha da sua imoralidade: é um degrau na escada em cujo extremo se tem também vergonha da nossa moralidade.

Se os governos quiserem hoje ser √ļteis √† sociedade, se eles n√£o quiserem adiantar a √©poca do terr√≠vel cataclismo que espera um estado de coisas fact√≠cio em que o dolo e imoralidade e o lud√≠brio do povo ocupa uma parte t√£o consider√°vel, eles ter√£o que olhar mais pelo povo que padecia em sil√™ncio sem se queixar porque j√° nem mesmo se sabe queixar.

A moralidade moderna consiste em aceitar o modelo da própria época. Considero que uma forma da mais grosseira imoralidade é o facto de qualquer homem de cultura aceitar o modelo da sua época

A moralidade moderna requer que as normas da sua época sejam aceites. Que um homem culto possa aceitar as normas da sua época parece-me a pior das imoralidades.

Entre as palavras e as ideias detesto esta: toler√Ęncia. √Č uma palavra das sociedades morais em face da imoralidade que utilizam. √Č uma ideia de desd√©m; parecendo celeste, √© diab√≥lica; √© um revestimento de desprezo, com a agravante de muita gente que o enverga ficar com a convic√ß√£o de que anda vestida de raios de sol.

Há épocas de tal corrupção, que, durante elas, talvez só o excesso do fanatismo possa, no meio da imoralidade triunfante, servir de escudo à nobreza e à dignidade das almas rijamente temperadas.

O Princípio Fundamental da Sociedade

Abster-se reciprocamente de ofensas, da viol√™ncia, da explora√ß√£o, adaptar a sua pr√≥pria vontade √† de outro: tal coisa pode, num certo sentido tosco, tornar-se bom costume entre indiv√≠duos, se existirem condi√ß√Ķes para tal (a saber, semelhan√ßa efectiva entre as suas quantidades de for√ßa e entre as suas escalas de valores e a homogeneidade dos mesmos dentro de um s√≥ organismo). Logo que, por√©m, se quisesse alargar este princ√≠pio, concebendo-o at√© como pr√≠ncipio fundamental da sociedade, revelar-se-ia imediatamente como aquilo que √©: vontade de nega√ß√£o da vida, princ√≠pio de dissolu√ß√£o e de decad√™ncia. Aqui √© preciso pensar-se bem profundamente e defender-se de toda a fraqueza sentimentalista: a pr√≥pria vida √© essencialmente apropria√ß√£o, ofensa, sujei√ß√£o daquilo que √© estranho e mais fraco, opress√£o, dureza, imposi√ß√£o de formas pr√≥prias, incorpora√ß√£o e pelo menos, na melhor das hip√≥teses, explora√ß√£o, – mas para que empregar palavras a que, desde h√° muito, se deu uma inten√ß√£o difamadora?

Também aquele organismo dentro do qual conforme acima se admitiu, os indivíduos se tratam como iguais Рe tal se dá em toda a aristocracia sã -, tem de fazer, no caso de ser um organismo vivo e não moribundo, ao enfrentar outros organismos, tudo o que os indivíduos dentro dele se abstêm de fazer entre si: terá de ser a vontade de poder personificada,

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Imoralidade Fatal

A acusa√ß√£o de imoralidade, que nunca faltou ao escritor corajoso, √© ali√°s a √ļltima que resta a fazer quando n√£o se tem mais nada a dizer a um poeta. Se fordes verdadeiro em vossas pinturas; se, √† for√ßa de trabalhos diurnos e nocturnos, conseguirdes escrever a l√≠ngua mais dif√≠cil do mundo, atiram-se-vos a palavra imoral ao rosto. S√≥crates foi imoral, Jesus Cristo foi imoral; ambos foram perseguidos em nome das sociedades que derrubavam ou reformavam. Quando se quer matar algu√©m, acusam-no de imoralidade.

O √āmago da Virtude

Haver√° fil√≥sofos que pretendem induzir-nos a dar grande valor √† prud√™ncia, a praticarmos a virtude da coragem, a nos aplicarmos √† justi√ßa ‚ÄĒ se for poss√≠vel ‚ÄĒ com maior empenho ainda do que √†s restantes virtudes. Pois bem: de nada servir√£o estes conselhos se n√≥s ignorarmos o que √© a virtude, se ela √© una ou m√ļltipla, se as virtudes s√£o individualizadas ou interdependentes, se quem possui uma virtude possui tamb√©m as restantes ou n√£o, qual a diferen√ßa que existe entre elas. Um oper√°rio n√£o precisa de investigar qual a origem ou a utilidade do seu trabalho, tal como o bailarino o n√£o tem que fazer quanto √† arte da dan√ßa: os conhecimentos relativos a todas estas artes est√£o circunscritos a elas mesmas, porquanto elas n√£o t√™m incid√™ncia sobre a totalidade da vida. A virtude, por√©m, implica tanto o conhecimento dela pr√≥pria como o de tudo o mais; para aprendermos a virtude temos de come√ßar por aprender o que ela √©. Uma ac√ß√£o n√£o pode ser correcta se n√£o for correcta a vontade, pois √© desta que prov√©m a ac√ß√£o. Tamb√©m a vontade nunca ser√° correcta se n√£o for correcto o car√°cter, porquanto √© deste que prov√©m a vontade. Finalmente,

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