Passagens sobre Mantos

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O ímpio aceita um presente debaixo do manto para distorcer o direito

O ímpio aceita um presente debaixo do manto para distorcer o direito.

As Ilhas e as Flores

Percorreu um trilho ao longo da manh√£ e sentou-se a comer entre as az√°leas. Quando um dia voltasse a partir, talvez nada lhe fizesse tanta falta como as flores. As hort√™nsias e as √°rvores-de-fogo, as beladonas e as cam√©lias, as magn√≥lias e as olaias: encantava-o a cad√™ncia a que floriam naquela ilha ‚ÄĒ e depois ainda havia os hibiscos, os jarros e os mantos infinitos de erva azeda, sempre prontos a acorrer a algum sobressalto da meteorologia, para que nunca faltasse a cor.
Podia dizer-se o que se quisesse sobre as ilhas, menos que fossem claustrofóbicas. Não as ilhas onde houvesse flores.

O Noivado do Sepulcro

Vai alta a lua! na mans√£o da morte
J√° meia-noite com vagar soou;
Que paz tranquila; dos vaivéns da sorte
Só tem descanso quem ali baixou.

Que paz tranquila!… mas eis longe, ao longe
Funérea campa com fragor rangeu;
Branco fantasma semelhante a um monge,
D’entre os sepulcros a cabe√ßa ergueu.

Ergueu-se, ergueu-se!… na amplid√£o celeste
Campeia a lua com sinistra luz;
O vento geme no feral cipreste,
O mocho pia na marmórea cruz.

Ergueu-se, ergueu-se!… com sombrio espanto
Olhou em roda… n√£o achou ningu√©m…
Por entre as campas, arrastando o manto,
Com lentos passos caminhou além.

Chegando perto duma cruz alçada,
Que entre ciprestes alvejava ao fim,
Parou, sentou-se e com a voz magoada
Os ecos tristes acordou assim:

“Mulher formosa, que adorei na vida,
“E que na tumba n√£o cessei d’amar,
“Por que atrai√ßoas, desleal, mentida,
“O amor eterno que te ouvi jurar?

“Amor! engano que na campa finda,
“Que a morte despe da ilus√£o falaz:
“Quem d’entre os vivos se lembrara ainda
“Do pobre morto que na terra jaz?

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Eis-me

Eis-me
Tendo-me despido de todos os meus mantos
Tendo-me separado de adivinhos m√°gicos e deuses
Para ficar sozinha ante o silêncio
Ante o silêncio e o esplendor da tua face

Mas tu és de todos os ausentes o ausente
Nem o teu ombro me apoia nem a tua m√£o me toca
O meu coração desce as escadas do tempo
[em que n√£o moras
E o teu encontro
São planícies e planícies de silêncio

Escura é a noite
Escura e transparente
Mas o teu rosto está para além do tempo opaco
E eu não habito os jardins do teu silêncio
Porque tu és de todos os ausentes o ausente

Eu Como, Eu Bebo, Eu Durmo

Eu como, eu bebo, eu durmo e a vida passo
Ora bem, ora mal, como sucede:
Tomo tabaco, e ch√°; e se mo pede
O génio alguma vez, eu Nize abraço:

As vezes jogo, as vezes versos faço,
Que mais que a arte a natureza mede:
E talvez por saber como procede
Em se mover o Sol círculos traço.

Alguma vez me agrada a soledade,
Outras vezes a nobre companhia;
E desta sorte vou passando a idade:

E espero assim que venha a morte fria
Com o manto da eterna escuridade
Encobrir-me de todo a luz do dia.

Escravocratas

Oh! tr√Ęnsfugas do bem que sob o manto r√©gio
Manhosos, agachados — bem como um crocodilo,
Viveis sensualmente à luz dum privilégio
Na pose bestial dum c√°gado tranq√ľilo.

Eu rio-me de vós e cravo-vos as setas
Ardentes do olhar — formando uma vergasta
Dos raios mil do sol, das iras dos poetas,
E vibro-vos a espinha — enquanto o grande basta

O basta gigantesco, imenso, extraordin√°rio —
Da branca consci√™ncia — o r√ļtilo sacr√°rio
No t√≠mpano do ouvido — audaz me n√£o soar.

Eu quero em rude verso altivo adamastórico,
Vermelho, colossal, d’estr√©pito, gong√≥rico,
Castrar-vos como um touro — ouvindo-vos urrar!

C√Ęntico da Noite

Sumiu-se o sol esplêndido
Nas vagas rumorosas!
Em trevas o crep√ļsculo
Foi desfolhando as rosas!
Pela ampla terra alargar-se
Calada solid√£o!
Parece o mundo um t√ļmulo
Sob estrelado manto!
Alabastrina l√Ęmpada,
L√° sobe a lua! Entanto
Gemidos d‚Äôaves l√ļgubres
Soando a espaços vão!
Hora dos melancólicos,
Saudosos devaneios!
Hora que aos gostos íntimos
Abres os castos seios!
Infunde em nossos √Ęnimos
Inspiração da fé!
De noite, se um revérbero
De Deus nos alumia,
Destila-se de l√°grimas
A prece, a profecia!
A alma elevada em êxtase
Terrena já não é!
Antes que o sono t√°cito
Olhos nos cerre, e os sonhos
Nos tomem no seu vórtice,
J√° rindo, e j√° medonhos,
Hora dos céus, conserva-me
No extinto e no porvir.
Onde os que amei? sumiram-se.
Onde o que eu fui? deixou-me.
Deles, só vãs memórias;
De mim, só resta um nome:
No abismo do pretérito
Desfez-se choro e r√ļy
Desfez-se! e quantas l√°grimas
Brotaram de alegrias! Desfez-se!
e quantos j√ļbilos
Nasceram de agonias!

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Toada Para Solo De Ocarina

Fio tênue do céu em claridade
tece esse manto gris meu agasalho
colhido pelos muros da cidade:
mucosa verde musgo que se espalha

como tapete denso em ch√£o de jade
Meus pés de crivo cravam esse atalho
riscando seu grafite no mar que arde
o fogo-de-santelmo em céu talhado

Nesse caminho caio em minha sina
caio no mar que lava essa lavoura
num barco ébrio que sempre desafina

E colho o sal da noite a lua moura
crescente luz de foice me assassina
e me morro no haxixe com Rimbaud

Invocação à Noite

√ď deusa, que proteges dos amantes
O destro furto, o crime deleitoso,
Abafa com teu manto pavoroso
Os importantes astros vigilantes:

Quero adoçar meus lábios anelantes
No seio de Rit√°lia melindroso;
Estorva que os maus olhos do invejoso
Turbem d’amor os s√īfregos instantes:

Tétis formosa, tal encanto inspire
Ao namorado Sol teu níveo rosto,
Que nunca de teus braços se retire!

Tarda ao menos o carro à Noite oposto,
Até que eu desfaleça, até que expire
Nas ternas √Ęnsias, no inef√°vel gosto.

Clamor Supremo

Vem comigo por estas cordilheiras!
P√Ķe teu manto e bord√£o e vem comigo,
Atravessa as montanhas sobranceiras
E nada temas do mortal Perigo!

Sigamos para as guerras condoreiras!
Vem, resoluto, que eu irei contigo
Dentre as √Āguias e as chamas feiticeiras,
Só tendo a Natureza por abrigo.

Rasga florestas, bebe o sangue todo
Da Terra e transfigura em astros lodo,
O próprio lodo torna mais fecundo.

Basta trazer um coração perfeito,
Alma de eleito, Sentimento eleito
Para abalar de lado a lado o mundo!

Penélope

Mais do que sonho: comoção!
sinto-me tonto, enternecido,
quando, de noite, as minhas m√£os
s√£o o teu √ļnico vestido.

E recomp√Ķes com essa veste,
que eu, sem saber, tinha tecido,
todo o pudor que desfizeste
como uma teia sem sentido;
todo o pudor que desfizeste
a meu pedido.

Mas nesse manto que desfias,
e que depois voltas a p√īr,
eu reconheço melhores dias
do nosso amor.

Hino à Morte

Tenho às vezes sentido o chocar dos teus ossos
E o vento da tua asa os meus lábios roçar;
Mas da tua presença o rasto de destroços
Nunca de susto fez meu coração parar.

Nunca, espanto ou receio, ao meu √Ęnimo trouxe
Esse aspecto de horror com que tudo apavoras,
Nas tuas m√£os erguendo a inexor√°vel Fouce
E a ampulheta em que vais pulverizando as horas.

Sei que andas, como sombra, a seguir os meus
[passos,
Tão próxima de mim que te respiro o alento,
‚ÄĒ Prestes como uma noiva a estreitar-me em teus
[braços,
E a arrastar-me contigo ao teu leito sangrento…

Que importa? Do teu seio a noite que amedronta,
Para mim não é mais que o refluxo da Vida,
Noite da noite, donde esplêndida desponta
A aurora espiritual da Terra Prometida.

A Alma volta à Luz; sai desse hiato de sombra,
Como o insecto da larva. A Morte que me aterra,
Essa que tanta vez o meu √Ęnimo assombra,
Não és tu, com a paz do teu oásis te terra!

Quantas vezes,

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A Verdadeira Liberdade

A liberdade, sim, a liberdade!
A verdadeira liberdade!
Pensar sem desejos nem convic√ß√Ķes.
Ser dono de si mesmo sem influência de romances!
Existir sem Freud nem aeroplanos,
Sem cabarets, nem na alma, sem velocidades, nem no cansaço!

A liberdade do vagar, do pensamento são, do amor às coisas naturais
A liberdade de amar a moral que é preciso dar à vida!
Como o luar quando as nuvens abrem
A grande liberdade crist√£ da minha inf√Ęncia que rezava
Estende de repente sobre a terra inteira o seu manto de prata para mim…
A liberdade, a lucidez, o raciocínio coerente,
A noção jurídica da alma dos outros como humana,
A alegria de ter estas coisas, e poder outra vez
Gozar os campos sem referência a coisa nenhuma
E beber √°gua como se fosse todos os vinhos do mundo!

Passos todos passinhos de crian√ßa…
Sorriso da velha bondosa…
Apertar da m√£o do amigo [s√©rio?]…
Que vida que tem sido a minha!
Quanto tempo de espera no apeadeiro!
Quanto viver pintado em impresso da vida!

Ah, tenho uma sede s√£.

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Valem Mais as Vidas do que os Livros

Defende Cleantes a opini√£o de que em nada nos interessam as ideias dos homens e que acima de tudo devemos p√īr o seu car√°cter, a honestidade e a firmeza, a independ√™ncia e a lisura do seu procedimento. Se de pol√≠tica tratamos, Cleantes, que, por defini√ß√£o, √© honesto, sentir-se-√° muito bem representado ou muito bem governado n√£o por aquele que, incluindo nos seus programas de elei√ß√£o ou nas suas declara√ß√Ķes ideias que perfeitamente se harmonizam com as dele, depois aparece apenas como um membro de toda a ra√ßa infinita dos que sobem por fora, mas por aquele que, tendo-o porventua irritado com a sua maneira de pensar, em seguida vem habitar a ilha min√ļscula dos que sobem por dentro. Se de dois candidatos que se apresentam, um est√° no partido contr√°rio ao nosso mas √© um honesto, seguro cidad√£o, e o outro se proclama correligion√°rio, mas nos deixa d√ļvidas sobre a integridade moral, diz Cleantes que ningu√©m deve hesitar: o nosso voto deve ir para o que d√° garantias de uma fiscaliza√ß√£o s√©ria dos neg√≥cios e n√£o deixar√° que se maltrate a Justi√ßa. Sobretudo se formos moralistas, isto √©, se acreditarmos que o mundo se salvar√° pela moral; e, como cumpre a moralistas,

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O Incêndio De Roma

Raiva o incêndio. A ruir, soltas, desconjuntadas,
As muralhas de pedra, o espaço adormecido
De eco em eco acordando ao medonho estampido,
Como a um sopro fatal, rolam esfaceladas.

E os templos, os museus, o Capitólio erguido
Em mármor frígio, o Foro, as erectas arcadas
Dos aquedutos, tudo as garras inflamadas
Do incêndio cingem, tudo esbroa-se partido.

Longe, reverberando o clar√£o purpurino,
Arde em chamas o Tibre e acende-se o horizonte.
Impassível, porém, no alto do Palatino,

Nero, com o manto grego ondeando ao ombro, assoma
Entre os libertos, e ébrio, engrinaldada a fronte,
Lira em punho, celebra a destruição de Roma.

Aquele, a Quem Mil Bens Outorga o Fado

Aquele, a quem mil bens outorga o Fado,
Desejo com raz√£o da vida amigo
Nos anos igualar Nestor, o antigo,
De trezentos invernos carregado:

Porém eu sempre triste, eu desgraçado,
Que só nesta caverna encontro abrigo,
Porque n√£o busco as sombras do jazigo,
Ref√ļgio perdur√°vel, e sagrado?

Ah! bebe o sangue meu, tosca morada;
Alma, quebra as pris√Ķes da humanidade,
Despe o vil manto, que pertence ao nada!

Mas eu tremo!…Que escuto?…√Č a Verdade,
√Č ela, √© ela que do c√©u me brada:
Oh terrível pregão da eternidade!

Roseira Brava

H√° nos teus olhos um tal fulgor
E no teu riso tanta claridade,
Que o lembrar-me de ti é ter saudade
Duma roseira brava toda em flor.

Tuas m√£os foram feitas para a dor,
Para os gestos de doçura e piedade;
E os teus beijos de sonho e de ansiedade
São como a alma a arder do próprio Amor!

Nasci envolta em trajes de mendiga;
E, ao dares-me o teu amor de maravilha,
Deste-me o manto de oiro de rainha!

Tua irm√£…teu amor…e tua amiga…
E também, toda em flor, a tua filha,
Minha roseira brava que √© s√≥ minha!…

Chuva E Sol

Agrada à vista e à fantasia agrada
Ver-te, através do prisma de diamantes
Da chuva, assim ferida e atravessada
Do sol pelos ven√°bulos radiantes…

Vais e molhas-te, embora os pés levantes:
– Par de pombos, que a ponta delicada
Dos bicos metem n√°gua e, doidejantes,
Bebem nos regos cheios da cal√ßada…

Vais, e, apesar do guarda-chuva aberto,
Borrifando-te colmam-te as goteiras
De pérolas o manto mal coberto;

E estrelas mil cravejam-te, fagueiras,
Estrelas falsas, mas que assim de perto,
Rutilam tanto, como as verdadeiras…

LXXII

J√° rompe, Nise, a matutina aurora
O negro manto, com que a noite escura,
Sufocando do Sol a face pura,
Tinha escondido a chama brilhadora.

Que alegre, que suave, que sonora,
Aquela fontezinha aqui murmura!
E nestes campos cheios de verdura
Que avultado o prazer tanto melhora!

Só minha alma em fatal melancolia,
Por te n√£o poder ver, Nise adorada,
Não sabe inda, que coisa é alegria;

E a suavidade do prazer trocada,
Tanto mais aborrece a luz do dia,
Quanto a sombra da noite lhe agrada.