Cita√ß√Ķes sobre Soberanos

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As tirani­as, efetivamente, umas se estabeleceram deste modo, quando já as cidades tinham crescido; outras, antes isto, surgiram de reis que se apartaram dos costumes de seus antepassados e aspiravam a um comando mais despótico. Outras, dos cidadãos eleitos para as magistraturas supremas, pois antigamente as democracias estabeleciam para muito tempo os cargos civis e religiosos; outras surgiam das oligarquias quando elegiam a um só com poder soberano para as mais importantes magistraturas.

Quando alguém se entrega ao ofício de ensinar, com uma fé conspícua e soberana, acreditem que a desilusão vive nele, como as ondinas num lago, como no elemento que as criou.

Na cama est√° deitada a deusa, a soberana dos sonhos. Mas como √© que ela veio aqui? Quem a trouxe, que poder m√°gico a instalou neste trono de fantasia e de vol√ļpia?

Flor Nirvanizadas

√ď cegos cora√ß√Ķes, surdos ouvidos,
Bocas in√ļteis, sem clamor, fechadas,
Almas para os mistérios apagadas,
Sem segredos, sem eco e sem gemidos.

Consciências hirsutas de bandidos,
Vesgas, nefandas e desmanteladas,
Portas de ferro, com furor trancadas,
Dos ócios maus histéricos Vencidos.

Desenterrai-vos das sangrentas furnas
Sinistras, cabalísticas, noturnas
Onde ruge o Pecado caudaloso…

Fazei da Dor, do triste Gozo humano,
A Flor do Sentimento soberano,
A Flor nirvanizada de outro Gozo!

O Governo Mundial

Pode evitar-se a guerra por algum tempo por meio de paliativos, expedientes ou uma diplomacia subtil, mas tudo isso √© prec√°rio, e enquanto durar o nosso sistema pol√≠tico actual, pode ser considerado como quase certo que grandes conflitos h√£o-de surgir de vez em quando. Isso acontecer√° inevitavelmente enquanto houver diferentes Esados soberanos, cada um com as suas for√ßas armadas e juiz supremo dos seus pr√≥prios direitos em qualquer disputa. H√° somente um meio de o mundo poder libertar-se da guerra, √© a cria√ß√£o de uma autoridade mundial √ļnica, que possua o monop√≥lio de todas as armas mais perigosas.

Para que um governo mundial pudesse evitar graves conflitos, seria indispens√°vel possuir um m√≠nimo de poderes. Em primeiro lugar precisava de ter o monop√≥lio de todas as principais armas de guerra e as for√ßas armadas necess√°rias para o seu emprego. Devia tamb√©m tomar as precau√ß√Ķes indispens√°veis, quaisquer que fossem, para assegurar, em todas as circunst√Ęncias, a lealdade dessas for√ßas ao governo central.

O governo mundial tinha de formular, portanto, certas regras relativas ao emprego das suas for√ßas armadas. A mais importante determinaria que, em qualquer conflito entre dois Estados. cada um tinha de se submeter √†s decis√Ķes da autoridade mundial.

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Qu√£o Grande, Meus Amigos

Qu√£o grande, meus amigos, n√£o era o Povo em que um Poeta podia dizer isto, sem medo de que o mundo, nem a posteridade, o desmentisse!

E nós também, nós, os Portugueses, já houve um tempo, em que pouco menos fomos.

Ouvi como o nosso Cam√Ķes o cantava:

Mas em tanto que cegos, e sedentos
andais do vosso sangue, ó gente insana,
n√£o faltar√£o crist√£os atrevimentos
nesta pequena casa Lusitana.
De √Āfrica tem mar√≠timos assentos;
√© na √Āsia mais que todas soberana;
na quarta parte nova os campos ara,
e, se mais mundo houvera, l√° chegara.
Hoje… que s√£o aquela Roma, e este Portugal?
Roma pereceu. Portugal, se n√£o agoniza, enferma gravemente.
Mas para Roma não há já esperança; para nós há ainda uma. Sabeis qual?
Sois vós, vós mesmos, vós unicamente, ó Lavradores.

O Mar

Que nostalgia vem das tuas vagas,
√ď velho mar, √≥ lutador Oceano!
Tu de saudades íntimas alagas
O mais profundo coração humano.

Sim! Do teu choro enorme e soberano,
Do teu gemer nas desoladas plagas
Sai o quer que é, rude sultão ufano,
Que abre nos peitos verdadeiras chagas.

√ď mar! √≥ mar! embora esse eletrismo,
Tu tens em ti o gérmen do lirismo,
√Čs um poeta l√≠rico demais.

E eu para rir com humor das tuas
Nevroses colossais, bastam-me as luas
Quando fazem luzir os seus metais…

Despois Que Viu Cibele O Corpo Humano

Despois que viu Cibele o corpo humano
do fermoso √Ātis seu verde pinheiro,
em piedade o v√£o furar primeiro
convertido, chorou seu grave dano.

E, fazendo a sua dor ilustre engano,
a J√ļpiter pediu que o verdadeiro
preço da nova palma e do loureiro,
ao seu pinheiro desse, soberano.

Mais lhe concede o filho poderoso
que, as estrelas, subindo, tocar possa,
vendo os segredos lá do Céu superno.

Oh! ditoso Pinheiro! Oh! mais ditoso
quem se vir coroar da folha vossa,
cantando à vossa sombra verso eterno!

Na medida em que o soberano leg√≠timo tem menos necessidades de ofender seus s√ļbditos, √© natural que seja por estes mais querido; e, se n√£o tem defeitos extraordin√°rios que o tornem odiado, √© perfeitamente natural que o povo lhe queira bem.

Ali n√£o Havia Eletricidade

Ali n√£o havia eletricidade.
Por isso foi à luz de uma vela mortiça
Que li, inserto na cama,
O que estava √† m√£o para ler ‚ÄĒ
A Bíblia, em português (coisa curiosa), feita para protestantes.
E reli a “Primeira Ep√≠stola aos Cor√≠ntios”.
Em torno de mim o sossego excessivo de noite de província
Fazia um grande barulho ao contr√°rio,
Dava-me uma tendência do choro para a desolação.
A “Primeira Ep√≠stola aos Cor√≠ntios” …
Relia-a √† luz de uma vela subitamente antiq√ľ√≠ssima,
E um grande mar de emo√ß√£o ouvia-se dentro de mim…
Sou nada…
Sou uma fic√ß√£o…
Que ando eu a querer de mim ou de tudo neste mundo?
“Se eu n√£o tivesse a caridade.”
E a soberana luz manda, e do alto dos séculos,
A grande mensagem com que a alma √© livre…
“Se eu n√£o tivesse a caridade…”
Meu Deus, e eu que n√£o tenho a caridade

A Amizade como Auxiliar da Virtude

A maioria dos homens, na sua injusti√ßa, para n√£o dizer na sua imprud√™ncia, quer possuir amigos tais como eles pr√≥prios n√£o seriam. Exigem o que n√£o t√™m. O que √© justo √© que, primeiro, sejamos homens de bem e em seguida procuremos o que nos pare√ßa s√™-lo. S√≥ entre homens virtuosos se pode estabelecer esta conveni√™ncia em amizade, sobre a qual insisto h√° muito tempo. Unidos pela benevol√™ncia, guiar-se-√£o nas paix√Ķes a que se escravizam os outros homens. Amar√£o a justi√ßa e a equidade. Estar√£o sempre prontos a tudo empreender uns pelos outros, e n√£o se exigir√£o reciprocamente nada que n√£o seja honesto e leg√≠timo. Enfim, ter√£o uns para os outros, n√£o somente defer√™ncias e ternuras, mas, tamb√©m, respeito. Eliminar o respeito da amizade √© podar-lhe o seu mais belo ornamento.
√Č pois erro funesto crer que a amizade abre via livre √†s paix√Ķes e a todos os g√©neros de desordens. A natureza deu-nos a amizade, n√£o como cumplice do v√≠cio, mas como auxiliar da virtude.
A fim de que a virtude, que, sozinha, não poderia chegar ao ápice, pudesse atingi-lo com o auxílio e o apoio de tal companhia. Aqueles para quem esta aliança existe, existiu ou existirá,

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Soneto IX

Para do mundo dar completo cabo,
L√° do negro recinto o soberano
Meditava a forjar horrível plano
Coçando a grenha, sacudindo o rabo.

Merecedor enfim de imenso gabo,
Eis o que assim disse muito ufano:
Para a miss√£o cumprir ‚ÄĒ digesto humano
Quero fazer ‚ÄĒ que nas√ßa hoje um diabo.

E o 23 de maio nisso raia…
Teot√īnio nasceu, e a fama soa
Jamais ter visto infame dessa laia.

Pois para Sat√£ ser mesmo em pessoa,
Traja, qual bruxa velha, negra saia,
Como o rei dos bandalhos tem coroa.

Uma Vida Simples e Modesta

N√£o depender sen√£o de si mesmo √©, em nossa opini√£o, um grande bem, mas da√≠ n√£o se segue que devamos sempre contentar-nos com pouco. Simplesmente, quando nos falte a abund√Ęncia, devemos poder contentar-nos com pouco, persuadidos de que gozam melhor a riqueza os que t√™m menor n√ļmero de cuidados, e de que tudo quanto seja natural se obt√©m facilmente, enquanto o que n√£o o √© s√≥ se consegue a custo. As iguarias mais simples proporcionam tanto prazer quanto a mesa mais ricamente servida, sempre que esteja ausente o sofrimento causado pela necessidade, e o p√£o e a √°gua ocasionam o mais vivo prazer quando s√£o saboreados ap√≥s longa priva√ß√£o.
O h√°bito de uma vida simples e modesta √©, pois, uma boa maneira de cuidar da sa√ļde e, ademais, torna o homem corajoso para suportar as tarefas que deve necessariamente cumprir na vida. Permite-lhe ainda apreciar melhor uma vida opulenta, quando se lhe enseje, e fortalece-o contra os reveses da fortuna. Por conseguinte, quando dizemos que o prazer √© o soberano bem, n√£o falamos dos prazeres dos devassos, nem dos gozos sensuais, como o pretendem alguns ignorantes que nos combatem e nos desfiguram o pensamento. Falamos da aus√™ncia de sofrimento f√≠sico e da aus√™ncia de perturba√ß√£o moral.

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A Gonçalves Dias

Celebraste o domínio soberano
Das grandes tribos, o tropel fremente
Da guerra bruta, o entrechocar insano
Dos tacapes vibrados rijamente,

O marac√° e as flechas, o estridente
Troar da in√ļbia, e o canitar indiano…
E, eternizando o povo americano,
Vives eterno em teu poema ingente.

Estes revoltos, largos rios, estas
Zonas fecundas, estas seculares
Verdejantes e amplíssimas florestas

Guardam teu nome: e a lira que pulsaste
Inda se escuta, a derramar nos ares
O estridor das batalhas que contaste.

O Meu Nirvana

No alheamento da obscura forma humana,
De que, pensando, me desencarcero,
Foi que eu, num grito de emoção, sincero
Encontrei, afinal, o meu Nirvana!

Nessa manumiss√£o schopenhauereana,
Onde a Vida do humano aspecto fero
Se desarraiga, eu, feito força, impero
Na imanência da Idéa Soberana!

Destruída a sensação que oriunda fora
Do tacto Рínfima antena aferidora
Destas tegument√°rias m√£os pleb√©as –

Gozo o prazer, que os anos n√£o carcomem,
De haver trocado a minha forma de homem
Pela imortalidade das Idéas!

A hipocrisia existe, e existir√°, como soberano absoluto de todos os poderes humanos, porque precisamos do tecido felpudo e opaco das mentiras para cobrir tudo o que por baixo da roupa nos resta ainda de hircino, de viloso e de selvagem.

Tenho Fome da Tua Boca

Tenho fome da tua boca, da tua voz, do teu cabelo,
e ando pelas ruas sem comer, calado,
n√£o me sustenta o p√£o, a aurora me desconcerta,
busco no dia o som líquido dos teus pés.

Estou faminto do teu riso saltitante,
das tuas m√£os cor de furioso celeiro,
tenho fome da p√°lida pedra das tuas unhas,
quero comer a tua pele como uma intacta amêndoa.

Quero comer o raio queimado na tua formosura,
o nariz soberano do rosto altivo,
quero comer a sombra fugaz das tuas pestanas

e faminto venho e vou farejando o crep√ļsculo
à tua procura, procurando o teu coração ardente
como um puma na solid√£o de Quitratue.