Sonetos sobre Bandos

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Sonetos de bandos escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

I

Talvez sonhasse, quando a vi. Mas via
Que, aos raios do luar iluminada
Entre as estrelas trêmulas subia
Uma infinita e cintilante escada.

E eu olhava-a de baixo, olhava-a… Em cada
Degrau, que o ouro mais límpido vestia,
Mudo e sereno, um anjo a harpa doirada,
Ressoante de s√ļplicas, feria…

Tu, mãe sagrada! vós também, formosas
Ilus√Ķes! sonhos meus! √≠eis por ela
Como um bando de sombras vaporosas.

E, ó meu amor! eu te buscava, quando
Vi que no alto surgias, calma e bela,
O olhar celeste para o meu baixando…

XII

Sonhei que me esperavas. E, sonhando,
Sa√≠, ansioso por te ver: corria…
E tudo, ao ver-me t√£o depressa andando,
Soube logo o lugar para onde eu ia.

E tudo me falou, tudo! Escutando
Meus passos, através da ramaria,
Dos despertados p√°ssaros o bando:
“Vai mais depressa! Parab√©ns!” dizia.

Disse o luar: “Espera! que eu te sigo:
Quero tamb√©m beijar as faces dela!”
E disse o aroma: “Vai, que eu vou contigo!”

E cheguei. E, ao chegar, disse uma estrela:
“Como √©s feliz! como √©s feliz, amigo,
Que de t√£o perto vais ouvi-la e v√™-la!”

Oh Retrato da Morte, oh Noite Amiga

Oh retrato da morte, oh noite amiga
Por cuja escurid√£o suspiro h√° tanto!
Calada testemunha do meu pranto,
Des meus desgostos secret√°ria antiga!

Pois manda Amor, que a ti somente os diga,
D√°-lhes pio agasalho no teu manto;
Ouve-os, como costumas, ouve, enquanto
Dorme a cruel, que a delirar me obriga:

E vós, oh cortesãos da escuridade,
Fantasmas vagos, mochos piadores,
Inimigos, como eu, da claridade!

Em bandos acudi aos meus clamores;
Quero a vossa medonha sociedade,
Quero fartar meu coração de horrores.

XIX

Sai a passeio, mal o dia nasce,
Bela, nas simples roupas vaporosas;
E mostra às rosas do jardim as rosas
Frescas e puras que possui na face.

Passa. E todo o jardim, por que ela passe,
Atavia-se. H√° falas misteriosas
Pelas moitas, saudando-a respeitosas…
√Č como se uma s√≠lfide passasse!

E a luz cerca-a, beijando-a. O vento é um choro
Curvam-se as flores tr√™mulas … O bando
Das aves todas vem saud√°-la em coro …

E ela vai, dando ao sol o rosto brendo.
Às aves dando o olhar, ao vento o louro
Cabelo, e √†s flores os sorrisos dando…

A Rua Dos Cataventos – XXXV

Quando eu morrer e no frescor de lua
Da casa nova me quedar a sós,
Deixa-me em paz na minha quieta rua…
Nada mais quero com nenhum de vós!

Quero é ficar com alguns poemas tortos
Que andei tentando endireitar em v√£o…
Que lindo a Eternidade, amigos mortos,
Para as torturas lentas da Express√£o!…

Eu lavarei comigo as madrugadas,
P√īr de s√≥is, algum luar, asas em bando,
Mais o rir das primeiras namoradas…

E um dia a morte h√° de fitar com espanto
Os fios da vida que eu urdi, cantando,
Na orla negra do seu negro manto…

Anoitecer

Esbraseia o Ocidente na Agonia
O sol… Aves, em bandos destacados,
Por c√©us de ouro e de p√ļrpuras raiados,
Fogem… Fecha-se a p√°lpebra do dia…

Delineiam-se, além, da serrania
Os vértices de chama aureolados,
E em tudo, em torno, esbatem derramados
Uns tons suaves de melancolia…

Um mundo de vapores no ar flutua…
Como uma informe nódoa, avulta e cresce
A sombra, √° propor√ß√£o que a luz recua…

A natureza ap√°tica esmaece…
Pouco a pouco, entre as √°rvores, a lua
Surge tr√™mula, tr√™mula… Anoitece.

A Cigarra Que Ficou

Depois de ouvir por tanto tempo, a fio,
As cigarras, bem perto ou nas dist√Ęncias,
Só me ficou no coração vazio
A saudade de antigas resson√Ęncias…

Todas se foram… bando fugidio
Em busca do calor de outras est√Ęncias,
Carregando nas asas como um rio
Leva nas √°guas – seus desejos e √Ęnsias…

E ainda cantaram na hora da partida:
Era um clamor dentro da madrugada…
Essa, entretanto, desgarrou daquelas,

E entrou, tonta de luz, na minha vida,
Porque sabia que era a mais amada,
E cantava melhor que todas elas…

Alma Que Chora

A Jo√£o Saldanha

Em vão do Cristo aos olhos dulçurosos
Onde h√° o sol do bem e da verdade,
Cheios da luz eterna de saudade,
Como dois mansos cora√ß√Ķes piedosos,

Em v√£o do Cristo os olhos lacrimosos
E aquela doce e pura suavidade
Do seu semblante, casto, de bondade,
Cor do luar dos sonhos venturosos,

Servem de exemplo a dor escruciante
Que te apunhala e fere a cada instante,
A punhaladas ríspidas, austeras!

Viste partir a tua irm√£, se, viste,
Como num céu enévoado e triste
O bando azul das f√ļlgidas quimeras…

Plangência Da Tarde

Quando do campo as prófugas ovelhas
Voltam a tarde, lépidas, balando
Com elas o pastor volta cantando
E fulge o ocaso em convuls√Ķes vermelhas.

Nos beirados das casas, sobre as telhas
Das andorinhas esvoa√ßa o bando…
E o mar, tranq√ľilo, fica cintilando
Do sol que morre as √ļltimas centelhas.

O azul dos montes vago na dist√Ęncia…
No bosque, no ar, a c√Ęndida fragr√Ęncia
Dos aromas vitais que a tarde exala.

Às vezes, longe, solta, na esplanada,
A ovelha errante, tonta e desgarrada,
Perdida e triste pelos ermos bala …

Abandonada

Ao meu irm√£o Odilon dos Anjos

Bem depressa sumiu-se a vaporosa
Nuvem de amores, de ilus√Ķes t√£o bela;
O brilho se apagou daquela estrela
Que a vida lhe tornava venturosa!

Sombras que passam, sombras cor-de-rosa
– Todas se foram num festivo bando,
Fugazes sonhos, g√°rrulos voando
– Resta somente um’alma tristurosa!

Coitada! o gozo lhe fugiu correndo,
Hoje ela habita a erma soledade,
Em que vive e em que aos poucos vai morrendo!

Seu rosto triste, seu olhar magoado,
Fazem lembrar em noute de saudade
A luz morti√ßa d’um olhar nublado.

No Turbilh√£o

(A Jaime Batalha Reis)

No meu sonho desfilam as vis√Ķes,
Espectros dos meus próprios pensamentos,
Como um bando levado pelos ventos,
Arrebatado em vastos turbilh√Ķes…

N’uma espiral, de estranhas contors√Ķes,
E d’onde saem gritos e lamentos,
Vejo-os passar, em grupos nevoentos,
Distingo-lhes, a espa√ßos, as fei√ß√Ķes…

‚ÄĒ Fantasmas de mim mesmo e da minha alma,
Que me fitais com formid√°vel calma,
Levados na onda turva do escarcéu,

Quem sois vós, meus irmãos e meus algozes?
Quem sois, vis√Ķes mis√©rrimas e atrozes?
Ai de mim! ai de mim! e quem sou eu?!…

O Espírito

Nada a fazer amor, eu sou do bando
Impermanente das aves friorentas;
E nos galhos dos anos desbotando
J√° as folhas me ofuscam macilentas;

E vou com as andorinhas. Até quando?
À vida breve não perguntes: cruentas
Rugas me humilham. N√£o mais em estilo brando
Ave estroina serei em m√£os sedentas.

Pensa-me eterna que o eterno gera
Quem na amada o conjura. Além, mais alto,
Em ileso beiral, aí espera:

Andorinha indemne ao sobressalto
Do tempo, n√ļncia de perene primavera.
Confia. Eu sou rom√Ęntica. N√£o falto.

Consolo Amargo

Mortos e mortos, tudo vai passando,
Tudo pelos abismos se sumindo…
Enquanto sobre a Terra ficam rindo
Uns, e j√° outros, p√°lidos, chorando…

Todos vão trêmulos finalizando,
Para os gelados t√ļmulos partindo,
Descendo ao tremedal eterno, infindo,
Mortos e mortos, num sinistro bando.

Tudo passa espectral e doloroso,
Pulverulentamente nebuloso
Como num sonho, num fatal letargo…

Mas, de quem chora os mortos, entretanto,
O Esquecimento vem e enxuga o pranto,
E é esse apenas o consolo amargo!

√ď Retrato Da Morte! √ď Noite Amiga

√ď retrato da Morte! √ď Noite amiga,
Por cuja escurid√£o suspiro h√° tanto!
Calada testemunha de meu pranto,
De meus desgostos secret√°ria antiga!

Pois manda Amor que a ti somente os diga
D√°-lhes pio agasalho no teu manto;
Ouve-os, como costumas, ouve, enquanto
Dorme a cruel que a delirar me obriga.

E vós, ó cortesãos da escuridade,
Fantasmas vagos, mochos piadores,
Inimigos, como eu, da claridade!

Em bandos acudi aos meus clamores;
Quero a vossa medonha sociedade,
Quero fartar o meu coração de horrores.

Banzo

Vis√Ķes que na alma o c√©u do ex√≠lio incuba,
Mortais vis√Ķes! Fuzila o azul infando…
Coleia, basilisco de ouro, ondeando
O N√≠ger… Bramem le√Ķes de fulva juba…

Uivam chacais… Ressoa a fera tuba
Dos cafres, pelas grotas retumbando,
E a estrelada das √°rvores, que um bando
De paquidermes colossais derruba…

Como o guaraz nas rubras penhas dorme,
Dorme em nimbos de sangue o sol oculto…
Fuma o saibro africano incandescente…

Vai com a sombra crescendo o vulto enorme
Do baob√°… E cresce na alma o vulto
De uma tristeza, imensa, imensamente…

Preside O Neto Da Rainha Ginga

Preside o neto da rainha Ginga
À corja vil, aduladora, insana.
Traz sujo moço amostras de chanfana,
Em copos desiguais se esgota a pinga.

Vem pão, manteiga e chá, tudo à catinga;
Masca farinha a turba americana;
E o oragotango a corda à banza abana,
Com gesto e visagens de mandinga.

Um bando de comparsas logo acode
Do fofo Conde ao novo Talaveiras;
Improvisa berrando o rouco bode.

Aplaudem de contínuo as frioleiras
Belmiro em ditirambo, o ex-frade em ode.
Eis aqui de Lereno as quartas-feiras.

Nerah

(Inspirado no elegante conto de Virgílio Várzea)
A Vítor Lobato

Nerah n√£o brinca mais, n√£o dan√ßa mais. — E agora
Que v√£o-se apropinquando os tempos invernosos,
Nerah traz uns receios tímidos, nervosos,
De quem teme mudar-se em noite, sendo aurora.

Seus sonhos de cristal, transl√ļcidos, antigos
Se vão embora, embora à vinda dos invernos,
Seguindo em debandada os √ļmidos galernos —
— lembrando um roto bando informe de mendigos.

N√£o canta o sabi√° que triste na gaiola,
Parece, com o olhar, pedir-lhe a casta esmola
De um riso — aquela flor que esvai-se, branca e fria.

Em tudo a fina seta aguda de afli√ß√Ķes!
Na pr√≥pria atmosfera um caos de interjei√ß√Ķes!
Em tudo uma mortalha, em tudo uma agonia.

Renascimento

A Alma n√£o fica inteiramente morta!
Vagas Ressurrei√ß√Ķes do Sentimento
Abrem j√°, devagar, porta por porta,
Os pal√°cios reais do Encantamento!

Morrer! Findar! Desfalecer! que importa
Para o secreto e fundo movimento
Que a alma transporta, sublimiza e exorta,
Ao grande Bem do grande Pensamento!

Chamas novas e belas v√£o raiando,
Vão se acendendo os límpidos altares
E as almas v√£o sorrindo e v√£o orando…

E pela curva dos longínquos ares
Ei-las que vêm, como o imprevisto bando
Dos albatrozes dos estranhos mares…

L√°grimas Da Aurora, Poemas Cristalinos

L√°grimas da aurora, poemas cristalinos
Que rebentais das cobras do mistério!
Aves azuis do manto auri-sid√©rio…
Raios de luz, fant√°sticos, divinos!…

Astros di√°fanos, brandos, opalmos,
Brancas cecens do Paraíso etéreo,
Canto da tarde, límpido, aéreo,
Harpa ideal, dos encantados hinos!…

Brisas suaves, vira√ß√Ķes amenas,
Lírios do vale, roseirais do lago,
Bandos errantes de sutis falenas!…

Vinde do arcano n’um potente afago
Louvar o G√™nio das mans√Ķes serenas,
Esse Prod√≠gio singular e mago!!…

Velhinha

Se os que me viram já cheia de graça
Olharem bem de frente em mim,
Talvez, cheios de dor, digam assim:
‚ÄúJ√° ela √© velha! Como o tempo passa! …‚ÄĚ

Não sei rir e cantar por mais que faça!
√ď minhas m√£os talhadas em marfim,
Deixem esse fio de oiro que esvoaça!
Deixem correr a vida até o fim!

Tenho vinte e três anos! Sou velhinha!
Tenho cabelos brancos e sou crente …
J√° murmuro ora√ß√Ķes … falo sozinha …

E o bando cor-de-rosa dos carinhos
Que tu me fazes, olho-os indulgente,
Como se fosse um bando de netinhos …