Textos sobre Meditação

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Textos de meditação escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Conta-nos a Tua História

Ser√° que n√£o h√° nenhum contexto para as nossas vidas? Nenhuma can√ß√£o, nenhuma literatura, nenhum poema cheio de vitaminas, nenhuma hist√≥ria ligada √† tua experi√™ncia que possas passar para nos ajudarem a ficar mais fortes? Tu √©s um adulto. O mais velho, o mais s√°bio. P√°ra de pensar em salvar a tua imagem. Pensa sobre as nossas vidas e conta-nos sobre o teu mundo em particular. Desenvolve uma hist√≥ria. A narrativa √© radical, cria-nos a n√≥s pr√≥prios no momento exacto em que est√° a ser criada. N√≥s n√£o te vamos culpar se o teu alcance excede a tua compreens√£o, se o amor incendeia as tuas palavras, se elas descem em chamas e nada deixam a n√£o ser a queimadura. Ou se, com a retic√™ncia das m√£os de um cirurgi√£o, as tuas palavras apenas suturam os s√≠tios por onde o sangue pode ter flu√≠do. Sabemos que nunca o conseguir√°s faz√™-lo correctamente ‚Äď de uma vez por todas. A paix√£o nunca √© suficiente; nem a habilidade. Mas tenta. Por n√≥s, e por ti pr√≥prio, esquece o teu nome na rua; conta-nos aquilo que o mundo tem sido para ti, tantos nos bons como nos maus momentos. N√£o nos digas o que acreditar,

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Qualquer Conhecimento Vem a Partir da Experiência

Qualquer conhecimento vem a partir da experi√™ncia. Compreendam que aquele que s√≥ quisesse consultar o seu esp√≠rito e fechar todos os seus sentidos n√£o poderia pensar absolutamente nada; encontraria ainda menos nessa medita√ß√£o somente interior alguma verdade relativa ao mundo… na massa dos nossos conhecimentos, que n√£o passam da massa das nossas experi√™ncias, deve-se contudo distinguir os que se baseiam na constata√ß√£o segundo as regras, isto √©, com avalia√ß√Ķes, repeti√ß√Ķes, testemunhos, provas e contraprovas, e os que s√£o poss√≠veis de provar ou demonstrar √† maneira do ge√≥metra.

O Nosso Infinito

H√° ou n√£o um infinito fora de n√≥s? √Č ou n√£o √ļnico, imanente, permanente, esse infinito; necessariamente substancial pois que √© infinito, e que, se lhe faltasse a mat√©ria, limitar-se-ia √†quilo; necess√°riamente inteligente, pois que √© infinito, e que, se lhe faltasse a intelig√™ncia, acabaria ali? Desperta ou n√£o em n√≥s esse infinito a ideia de ess√™ncia, ao passo que n√≥s n√£o podemos atribuir a n√≥s mesmos sen√£o a ideia de exist√™ncia? Por outras palavras, n√£o √© ele o Absoluto, cujo relativo somos n√≥s?
Ao mesmo tempo que fora de n√≥s h√° um infinito n√£o h√° outro dentro de n√≥s? Esses dois infinitos (que horroroso plural!) n√£o se sobrep√Ķem um ao outro? N√£o √© o segundo, por assim dizer, subjacente ao primeiro? N√£o √© o seu espelho, o seu reflexo, o seu eco, um abismo conc√™ntrico a outro abismo? Este segundo infinito n√£o √© tamb√©m inteligente? N√£o pensa? N√£o ama? N√£o tem vontade? Se os dois infinitos s√£o inteligentes, cada um deles tem um princ√≠pio volante, h√° um eu no infinito de cima, do mesmo modo que o h√° no infinito de baixo. O eu de baixo √© a alma; o eu de cima √© Deus.
P√īr o infinito de baixo em contacto com o infinito de cima,

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Nada é Tão Fatigante Como a Indecisão

A fadiga (do homem da cidade) √© devida a inquieta√ß√Ķes que poderiam ser evitadas por uma melhor filosofia da vida e um pouco mais de disciplina mental. A maior parte dos homens e mulheres n√£o governam eficazmente os seus pensamentos. Quero com isto dizer que eles n√£o podem deixar de pensar nos assuntos que os atormentam, mesmo quando nesse momento nenhuma solu√ß√£o lhes podem dar. Os homens levam muitas vezes para a cama as suas inquieta√ß√Ķes em mat√©rias de neg√≥cios e, durante a noite, quando deviam ganhar novas for√ßas para enfrentar os dissabores do dia seguinte, √© nelas que pensam, repetidas vezes, embora nesse instante nada possam fazer; e pensam nos problemas que os inquietam, n√£o de forma a encontrar uma linha de conduta firme para o dia seguinte, mas nessa semi-dem√™ncia que caracteriza as agitadas medita√ß√Ķes da ins√≥nia.
De manh√£, qualquer coisa dessa dem√™ncia nocturna persiste ainda neles, obscurece-lhes o julgamento, rouba-lhes a calma, de forma que qualquer obst√°culo os enfurece. O homem sensato s√≥ pensa nas suas inquieta√ß√Ķes quando julga de interesse faz√™-lo; no restante tempo pensa noutras coisas e √† noite n√£o pensa em coisa nenhuma. N√£o quero dizer que numa grande crise, por exemplo, quando a ru√≠na est√° iminente,

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A Felicidade vem da Monotonia

Em sua essência a vida é monótona. A felicidade consiste pois numa adaptação razoavelmente exacta à monotonia da vida. Tornarmo-nos monótonos é tornarmo-nos iguais à vida; é, em suma, viver plenamente. E viver plenamente é ser feliz.
Os il√≥gicos doentes riem – de mau grado, no fundo – da felicidade burguesa, da monotonia da vida do burgu√™s que vive em regularidade quotidiana e, da mulher dele que se entret√©m no arranjo da casa e se distrai nas min√ļcias de cuidar dos filhos e fala dos vizinhos e dos conhecidos. Isto, por√©m, √© que √© a felicidade.
Parece, a princípio, que as cousas novas é que devem dar prazer ao espírito; mas as cousas novas são poucas e cada uma delas é nova só uma vez. Depois, a sensibilidade é limitada, e não vibra indefinidamente. Um excesso de cousas novas acabará por cansar, porque não há sensibilidade para acompanhar os estímulos dela.
Conformar-se com a monotonia é achar tudo novo sempre. A visão burguesa da vida é a visão científica; porque, com efeito, tudo é sempre novo, e antes de este hoje nunca houve este hoje.
√Č claro que ele n√£o diria nada disto. √Äs minhas observa√ß√Ķes,

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Ajuda entre S√°bios

Est√°s interessado em saber se um s√°bio pode ser √ļtil a outro s√°bio. N√≥s definimos o s√°bio como um homem dotado de todos os bens no mais alto grau poss√≠vel. A quest√£o est√° pois em saber como √© poss√≠vel algu√©m ser √ļtil a quem j√° atingiu o supremo bem. Ora, os homens de bem s√£o √ļteis uns aos outros. A sua fun√ß√£o √© praticar a virtude e manter a sabedoria num estado de perfeito equil√≠brio. Mas cada um necessita de outro homem de bem com quem troque impress√Ķes e discuta os problemas. A per√≠cia na luta s√≥ se adquire com a pr√°tica; dois m√ļsicos aproveitam melhor se estudarem em conjunto. O s√°bio necessita igualmente de manter as suas virtudes em actividade e, por isso mesmo, n√£o s√≥ se estimula a si pr√≥prio como se sente estimulado por outro s√°bio. Em que pode um s√°bio ser √ļtil a outro s√°bio? Pode servir-lhe de incitamento, pode sugerir-lhe oportunidades para a pr√°tica de ac√ß√Ķes virtuosas. Al√©m disso, pode comunicar-lhe as suas medita√ß√Ķes e dar-lhe conta das suas descobertas. Nunca faltar√° mesmo ao s√°bio algo de novo a descobrir, algo que d√™ ao seu esp√≠rito novos campos a explorar.
Os indivíduos perversos fazem mal uns aos outros,

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O Método é Necessário para a Procura da Verdade

Os mortais s√£o dominados por uma curiosidade t√£o cega que, muitas vezes, envenenam o esp√≠rito por caminhos desconhecidos, sem qualquer esperan√ßa razo√°vel, mas unicamente para se arriscarem a encontrar o que procuram: √© como se algu√©m, incendiado pelo desejo t√£o est√ļpido de encontrar um tesouro, vagueasse sem cessar pelas pra√ßas p√ļblicas para ver se, casualmente, encontrava algum perdido por um transeunte. (…) n√£o nego que tenham por vezes muita sorte nos seus caminhos errantes e encontrem alguma verdade; contudo, n√£o estou de acordo que sejam mais competentes, mas apenas mais afortunados. Ora, vale mais nunca pensar em procurar a verdade de alguma coisa que faz√™-lo sem m√©todo: √© cert√≠ssimo, pois, que os estudos feitos desordenadamente e as medita√ß√Ķes confusas obscurecem a luz natural e cegam os esp√≠ritos. Quem se acostuma a andar assim nas trevas enfraquece de tal modo a acuidade do olhar que, depois, n√£o pode suportar a luz do pleno dia.

√Č a experi√™ncia que o diz: vemos muitissimas vezes os que nunca se dedicaram √†s letras julgar o que se lhes depara com muito maior solidez e clareza do que aqueles que sempre frequentaram as escolas. Entendo por m√©todo regras certas e f√°ceis, que permitem a quem exactamente as observar nunca tomar por verdadeiro algo de falso,

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A Construção da Personalidade Criadora

A harmonia do comportamento social requer, todos o sabemos, tanto o isolamento como o convívio. Excessiva comunicação, debates exagerados de assuntos que requerem meditação e peso moral, avesso muitas vezes à cordialidade natural das afinidades electivas, não enriquecem o património de uma sociedade. Antes embotam e alteram o terreno imparcial da sabedoria.
A solidão favorece a intensidade do pensamento; por outro lado, torna de certo modo celerado o homem que lida com a força material, com a técnica, com os outros homens. O impulso é a força que actualiza estas duas atitudes. Os ricos de impulso que se prontificam a uma reacção agressiva ou escandalosa, esses são associais especialmente difíceis. Todo o revolucionário é associal, se o impulso for nele um desvio da vida instintiva, e não uma atitude de homem capaz de obedecer e mandar a si próprio.
¬ęA felicidade m√°xima do filho da terra h√°-de ser a personalidade¬Ľ – disse Goethe. Personalidade criadora, obtida √† custa do ajustamento das nossas pr√≥prias leis interiores, que n√£o ser√£o mais, no futuro, for√ßas repelidas ou encobertas, mas sim valiosas contribui√ß√Ķes para o tempo do homem. Quando tudo for analisado e conhecido, s√≥ o justo h√°-de prevalecer.

Retrocesso Civilizacional

S√£o talvez as prioridades dos nossos tempos que acarretam um retrocesso e uma eventual deprecia√ß√£o da vida contemplativa. Mas h√° que confessar que a nossa √©poca √© pobre em grandes moralistas, que Pascal, Epicteto, S√©neca, Plutarco pouco s√£o lidos ainda, que o trabalho e o esfor√ßo – outrora, no s√©quito da grande deusa Sa√ļde – parecem, por vezes, grassar como uma doen√ßa. Porque faltam tempo para pensar e sossego no pensar, j√° n√£o se examina as opini√Ķes diferentes: a gente contenta-se em odi√°-las. Dada a enorme acelera√ß√£o da vida, o esp√≠rito e o olhar s√£o acostumados a ver e a julgar parcial ou erradamente, e toda a gente se assemelha aos viajantes que ficam a conhecer um pa√≠s e um povo, vendo-os do caminho-de-ferro.
Uma atitude independente e cautelosa em mat√©ria de conhecimento √© menosprezada quase como uma esp√©cie de tolice, o esp√≠rito livre √© difamado, nomeadamente, por eruditos que, na sua arte de observar as coisas, sentem a falta da min√ļcia e do zelo de formigas que lhes s√£o pr√≥prios, e bem gostariam de bani-lo para um canto isolado da ci√™ncia: quando ele tem a miss√£o, completamente diferente e superior, de comandar, a partir de uma posi√ß√£o solit√°ria,

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Conhecer-se é Errar

O homem superior difere do homem inferior, e dos animais irm√£os deste, pela simples qualidade da ironia. A ironia √© o primeiro ind√≠cio de que a consci√™ncia se tornou consciente. E a ironia atravessa dois est√°dios: o est√°dio marcado por S√≥crates, quando disse ¬ęsei s√≥ que nada sei¬Ľ, e o est√°dio marcado por Sanches, quando disse ¬ęnem sei se nada sei¬Ľ. O primeiro passo chega √†quele ponto em que duvidamos de n√≥s dogmaticamente, e todo o homem superior o d√° e atinge. O segundo passo chega √†quele ponto em que duvidamos de n√≥s e da nossa d√ļvida, e poucos homens o t√™m atingido na curta extens√£o j√° t√£o longa do tempo que, humanidade, temos visto o sol e a noite sobre a v√°ria superf√≠cie da terra.
Conhecer-se √© errar, e o or√°culo que disse ¬ęConhece-te¬Ľ prop√īs uma tarefa maior que as de H√©rcules e um enigma mais negro que o da Esfinge. Desconhecer-se conscientemente, eis o caminho. E desconhecer-se conscienciosamente √© o emprego activo da ironia. Nem conhe√ßo coisa maior, nem mais pr√≥pria do homem que √© deveras grande, que a an√°lise paciente e expressiva dos modos de nos desconhecermos, o registo consciente da inconsci√™ncia das nossas consci√™ncias, a metaf√≠sica das sombras aut√≥nomas,

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Escutar o Nosso Corpo

O equil√≠brio √© a base da sa√ļde. Embora seja indiscut√≠vel que uma dieta rica em vitaminas, o exerc√≠cio f√≠sico e a medita√ß√£o s√£o essenciais para uma vida saud√°vel, n√£o existe uma f√≥rmula universal que se aplique a todos os casos. Precisamos de prestar aten√ß√£o ao corpo, √† mente e ao cora√ß√£o singulares que existem em cada um de n√≥s para descobrirmos as nossas necessidades espec√≠ficas. A verdadeira sa√ļde cresce connosco e transforma-se ao longo do tempo. Manter o estado natural de equil√≠brio f√≠sico e emocional √© fundamental para atingirmos um n√≠vel de consci√™ncia superior.
Escutar o nosso corpo √© o primeiro passo para alcan√ßarmos a sa√ļde integral e identificar o nosso bi√≥tipo e tend√™ncias emocionais – os doshas – √© um excelente come√ßo. A partir do momento em que nos consciencializamos das nossas necessidades f√≠sicas podemos adequar dietas e programas de exerc√≠cio √† nossa medida. A verdadeira sa√ļde n√£o se exprime atrav√©s de uma defini√ß√£o gen√©iica mas sim de um equil√≠brio distinto de predisposi√ß√Ķes gen√©ticas, comportamentos adquiridos, idade e perce√ß√Ķes.

Subestimamos com alguma frequ√™ncia a import√Ęncia de uma boa noite de sono. As distra√ß√Ķes induzidas pelo ego -listas de tarefas pendentes, problemas financeiros, crises familiares e medos –

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O Coração é o Seu Amigo

O verdadeiro problema reside na mente, porque a mente √© formada pela sociedade humana e especialmente projectada para nos manter escravizados. O corpo tem uma beleza pr√≥pria. Ainda faz parte das √°rvores e do oceano, das montanhas e das estrelas. N√£o foi contaminado pela sociedade nem foi envenenado pelas igrejas, pelas religi√Ķes e pelos padres. Mas a mente foi completamente condicionada e distorcida ao receber ideias que s√£o totalmente falsas. A nossa mente funciona quase como uma m√°scara que esconde o nosso verdadeiro rosto.
A arte da medita√ß√£o consiste em transcender a mente, e o Oriente dedicou toda a sua intelig√™ncia e todo o seu g√©nio durante quase dez mil anos a um √ļnico objectivo: descobrir a maneira de transcender a mente e os seus condicionamentos. Do esfor√ßo de dez mil anos resultou o aperfei√ßoamento do m√©todo da medita√ß√£o.
Em poucas palavras, medita√ß√£o significa olhar para a mente, observar a mente. Tente examinar a mente, olhando em sil√™ncio para ela – sem explica√ß√Ķes, sem aprecia√ß√Ķes, sem condena√ß√Ķes, sem qualquer julgamento, a favor ou contra -, observe-a apenas, como se n√£o tivesse nada a ver com ela. Aprecie apenas o tr√°fego que vai na mente. E o milagre da medita√ß√£o faz com que,

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Orientar Filosoficamente a Vida

A √Ęnsia de uma orienta√ß√£o filos√≥fica da vida nasce da obscuridade em que cada um se encontra, do desamparo que sente quando, em car√™ncia de amor, fica o vazio, do esquecimento de si quando, devorado pelo afadigamento, s√ļbito acorda assustado e pergunta: que sou eu, que estou descurando, que deverei fazer?
O auto-esquecimento é fomentado pelo mundo da técnica. Pautado pelo cronómetro, dividido em trabalhos absorventes ou esgotantes que cada vez menos satisfazem o homem enquanto homem, leva-o ao extremo de se sentir peça imóvel e insubstituivel de um maquinismo de tal modo que, liberto da engrenagem, nada é e não sabe o que há-de fazer de si. E, mal começa a tomar consciência, logo esse colosso o arrasta novamente para a voragem do trabalho inane e da inane distracção das horas de ócio.
Porém, o pendor para o auto-esquecimento é inerente à condição humana. O homem precisa de se arrancar a si próprio para não se perder no mundo e em hábitos, em irreflectidas trivialidades e rotinas fixas.
Filosofar é decidirmo-nos a despertar em nós a origem, é reencontrarmo-nos e agir, ajudando-nos a nós próprios com todas as forças.
Na verdade a existência é o que palpavelmente está em primeiro lugar: as tarefas materiais que nos submetem às exigências do dia-a-dia.

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Meditação e Opinião

Em mat√©ria de arte, de amor ou de ideias creio serem pouco eficazes an√ļncios e programas. Pelo que toca √†s ideias, a raz√£o de uma tal incredulidade √© a seguinte: a medita√ß√£o sobre qualquer tema, quando √© positiva e aut√™ntica, afasta inevitavelmente o meditador da opini√£o recebida ou j√° a√≠ existente, do que com mais graves raz√Ķes que quanto agora suponham, merece chamar-se ¬ęopini√£o p√ļblica¬Ľ ou ¬ęvulgaridade¬Ľ. Todo o esfor√ßo intelectual que com rigor o seja afasta-nos solit√°rios da praia comum, e, por rotas rec√īnditas que precisamente o nosso esfor√ßo descobre, conduz-nos a lugares retirados, situa-nos sobre pensamentos ins√≥litos. S√£o estes o resultado da nossa medita√ß√£o. Pois bem: o an√ļncio ou programa reduz-se a antecipar esses resultados, deles arrancando previamente a via ao cabo da qual foram descobertos. (…) Um pensamento separado da rota mental que a ele conduz, insulano e escarpado, √© uma abstrac√ß√£o no pior sentido da palavra, e, por esse motivo, √© inintelig√≠vel.

O Ideal Português como Ideal para o Mundo

Tr√™s pontos, segundo Cam√Ķes, sobre os quais temos que meditar, e ver como √©. Ponto n√ļmero 1: √© preciso que os corpos se apaziguem para que a cabe√ßa possa estar livre para entender o mundo √† volta. Enquanto n√≥s estamos perturbados com existir um corpo que temos que alimentar, temos que fartar, que temos de tratar o melhor poss√≠vel, cometendo para isso muitas coisas extremamente dif√≠ceis, nessa altura, quando a nossa cabe√ßa estiver inteiramente livre e l√≠mpida, n√≥s podemos ouvir aquilo que Cam√Ķes chama ¬ęa voz da deusa¬Ľ. E que faz a voz da deusa? Arranca √†queles marinheiros as limita√ß√Ķes do tempo e as limita√ß√Ķes do espa√ßo. Arranca-os √†s limita√ß√Ķes do tempo o que faz que eles saibam qual vai ser o futuro de Portugal. E arranca-os √†s limita√ß√Ķes do espa√ßo porque eles v√™em todo o mundo ao longe, o universo que est√° ao longe, a deusa lho mostra, embora com o sistema errado, digamos assim, ou imperfeito, de Ptolomeu, e eles est√£o portanto inteiramente fora do espa√ßo. Aquilo que foi o ideal dos gregos, e que os gregos nunca conseguiram realizar. Ent√£o o que √© que aconteceu? Aconteceu que um dia houve outro portugu√™s que tinha ido para o Brasil,

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Mesmo os deuses invejam aqueles que estão vigilantes e não negligentes, que se entregam à meditação, que são sábios, e que se deleitam na quietude do retiro espiritual.

A Verdadeira Coragem Humana

Se est√°s disposto a nunca usar da viol√™ncia, e sempre resistindo, torna-te forte de corpo e de alma; √© a mais dif√≠cil de todas as atitudes; exige a constante vigil√Ęncia de todos os movimentos do esp√≠rito, o dom√≠nio completo de todos os impulsos dos nervos e dos m√ļsculos rebeldes; a agress√£o √© f√°cil contra o medo e tamb√©m a primeira solu√ß√£o; para que, em todos os instantes, a possas p√īr de lado e substitu√≠-la pela tranquila recusa, n√£o te deves fiar nos improvisos; a armadura de que te revestes nos momentos de crise √© forjada dia a dia e antes deles; faz-se de medita√ß√£o e de gin√°stica, de pensamento definido e preciso e de perfeitos comandos; quando menos se prev√™ surge o instante da decis√£o; r√°pida e firme, sem emo√ß√Ķes ou sufocando-as, tem que trabalhar a m√°quina formada.
Que trabalhar, sobretudo, humanamente; a visão do autómato é a pior de todas para os amigos do espírito; não serão teus elementos nem a secura, nem a estóica dureza, nem o ar superior, nem as cortantes palavras; requere-se no inabalável a humanidade, o sorriso afectuoso, a íntima bondade, a desportiva calma, amiga do adversário, de quem joga um bom jogo; sozinho guardarás as lutas interiores que tens de suportar,

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A Glória Mais Genuína

A glória mais genuína, a póstera, nunca é ouvida por quem é seu objecto e, no entanto, ele é tido por feliz. Assim, a sua felicidade consistiu propriamente nas grandes qualidades que lhe conferiram a sua glória e no facto de que encontrou oportunidade para desenvolvê-las; logo, foi-lhe permitido agir como era adequado, ou praticar aquilo que praticava com prazer e amor. Pois só as obras assim nascidas alcançam glória póstera. A sua felicidade consistiu, pois, no grande coração, ou também na riqueza de um espírito cuja estampa, nas suas obras, recebe a admiração dos séculos vindouros. Tal felicidade consistiu nos seus próprios pensamentos, cuja meditação será a ocupação e o gozo dos espíritos mais nobres de um imenso futuro. O valor da glória póstera reside, portanto, em merecê-la, e isso é a sua recompensa verdadeira.
Se chegou a haver obras que adquiriram gl√≥ria na posteridade e que tamb√©m a obtiveram entre os seus contempr√Ęneos, tratam-se de circunst√Ęncias fortuitas, sem grande import√Ęncia. Pois, como os homens, via de regra, s√£o privados de ju√≠zo pr√≥prio e, sobretudo, n√£o t√™m capacidade alguma para apreciar as realiza√ß√Ķes elevadas e dif√≠ceis, acabam sempre por seguir nesse dom√≠nio a autoridade alheia, e a gl√≥ria de g√©nero superior,

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Quem se entrega à vaidade e não se entrega à meditação, com o tempo invejará aquele que se esforçou na meditação.