Passagens sobre Vultos

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Nós Homens nos Façamos Unidos pelos Deuses

N√£o a Ti, Cristo, odeio ou menosprezo
Que aos outros deuses que te precederam
Na memória dos homens.
Nem mais nem menos és, mas outro deus.

No Pante√£o faltavas. Pois que vieste
No Pante√£o o teu lugar ocupa,
Mas cuida n√£o procures
Usurpar o que aos outros é devido.

Teu vulto triste e comovido sobre
A ‘steril dor da humanidade antiga
Sim, nova pulcritude
Trouxe ao antigo Pante√£o incerto.

Mas que os teus crentes te n√£o ergam sobre
Outros, antigos deuses que dataram
Por filhos de Saturno
De mais perto da origem igual das coisas.

E melhores memórias recolheram
Do primitivo caos e da Noite
Onde os deuses n√£o s√£o
Mais que as estrelas s√ļbditas do Fado.

Tu não és mais que um deus a mais no eterno
N√£o a ti, mas aos teus, odeio, Cristo.
Pante√£o que preside
À nossa vida incerta.

Nem maior nem menor que os novos deuses,
Tua sombria forma dolorida
Trouxe algo que faltava
Ao n√ļmero dos divos.

Por isso reina a par de outros no Olimpo,

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Ausencia

L√ļgubre solid√£o! √ď noite triste!
Como sinto que falta a tua Imagem
A tudo quanto para mim existe!

Tua bemdita e efémera passagem
No mundo, deu ao mundo em que viveste,
√Ā nossa b√īa e maternal Paisagem,

Um espirito novo mais celeste;
Nova Forma a abra√ßou e nova C√īr
Beijou, sorrindo, o seu perfil agreste!

E ei-la agora t√£o triste e sem verdor!
Depois da tua morte, regressou
Ao seu velhinho estado anterior.

E esta saudosa casa, onde brilhou
Tua voz num instante sempiterno,
Em negra, intima noite se occultou.

Quando chego √° janela, vejo o inverno;
E, √° luz da lua, as sombras do arvoredo
Lembram as sombras p√°lidas do Inferno.

Dos recantos escuros, em segredo,
Nascem Vis√Ķes saudosas, diluidos
Traços da tua Imagem, arremêdo

Que a Sombra faz, em gestos doloridos,
Do teu Vulto de sol a amanhecer…
A Sombra quer mostrar-se aos meus sentidos…

Mas eu que vejo? A luz escurecer;
O imperfeito, o indeciso que, em nós, deixa
A amargura de olhar e de n√£o v√™r…

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New York

Resplandeces e ris, ardes e tumultuas;
Na escalada do c√©u, galgando em f√ļria o espa√ßo,
Sobem do teu tear de praças e de ruas
Atlas de ferro, Anteus de pedra e Brontes de aço.

Gloriosa! Prometeu revive em teu regaço,
Delira no teu gênio, enche as artérias tuas,
E combure-te a entranha arfante de cansaço,
Na incessante criação de assombros em que estuas.

Mas, como as tuas Babéis, debalde o céu recortas,
E pesas sobre o mar, quando o teu vulto assoma,
Como a recordação da Tebas de cem portas:

Falta-te o Tempo, – o vago, o religioso aroma
Que se respira no ar de Lutécia e de Roma,
Sempre mo√ßo perfume anci√£o de idades mortas…

Comunh√£o

Reprimirei meu pranto!… Considera
Quantos, minh’alma, antes de n√≥s vagaram,
Quantos as m√£os incertas levantaram
Sob este mesmo c√©u de luz austera!…

‚ÄĒ Luz morta! amarga a pr√≥pria primavera! ‚ÄĒ
Mas seus pacientes cora√ß√Ķes lutaram,
Crentes só por instinto, e se apoiaram
Na obscura e her√≥ica f√©, que os retempera…

E sou eu mais do que eles? igual fado
Me prende √° lei de ignotas multid√Ķes. ‚ÄĒ
Seguirei meu caminho confiado,

Entre esses vultos mudos, mas amigos,
Na humilde f√© de obscuras gera√ß√Ķes,
Na comunh√£o dos nossos pais antigos.

Balada dos Amigos Separados

Onde estais vós Alberto Henrique
Jo√£o Maria Pedro Ana?
Onde anda agora a vossa voz?
Que ruas escutam vossos passos?
Ao norte? ao sul? aonde? aonde?
José António Branca Rui
E tu Joana de olhos claros
E tu Francisco E tu Carlota
E tu Joaquim?
Que estradas colhem vosso olhar?
Onde anda agora a vossa vida repartida?
A oeste? A leste? Aonde? aonde?
Olho prà frente prà cidade
e pràs outras cidades por trás dela
onde se agitam outras gentes
que nunca ouviram vosso nome
e vejo em tudo a vossa cara
e oiço em tudo o som amigo
a voz de um a voz de outro
e aquele fio de sol que se agitava
sempre
em todos nós
Dançam as casas nesta noite
ébrias de sombra nesta noite
que se prolonga em plena ang√ļstia
aos solavancos do destino
e n√£o consegue estrangularmos
Sigo e pergunto ao vento à rua
e a esta √Ęnsia inviol√°vel
que embebe o ar de calafrios
Onde estais vós? onde estais vós?
E por detr√°s de cada esquina
e por detr√°s de cada vulto
o vento traz-me a vossa voz
a rua traz-me a vossa voz
a voz de um a voz de outro
toada amiga que me banha
t√£o confiante t√£o serena
Aqui aqui em toda a parte
Aqui aqui E tu?

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Esta Palavra Saudade

Junto de um catre vil, grosseiro e feio,
por uma noite de luar saudoso,
Cam√Ķes, pendida a fronte sobre o seio,
cisma, embebido num pesar lutuoso…

Eis que na rua um c√Ęntico amoroso
subit√Ęneo se ouviu da noite em meio:
J√° se abrem as adufas com receio…
Noites de amores! Que trovar mimoso!

Cam√Ķes acorda e √† gelosia assoma;
e aquele canto, como um antigo aroma,
ressuscita-lhe os risos do passado.

Viu-se moço e feliz, e ah! nesse instante,
no azul viu perpassar, claro e distante,
de Nat√©rcia gentil o vulto amado…

XXXIII

Aqui sobre esta pedra, √°spera, e dura,
Teu nome hei de estampar, ó Francelisa,
A ver, se o bruto m√°rmore eterniza
A tua, mais que ingrata, formosura.

J√° cintilam teus olhos: a figura
Avultando j√° vai; quanto indecisa
Pasmou na efígie a idéia, se divisa
No engraçado relevo da escultura.

Teu rosto aqui se mostra; eu n√£o duvido,
Acuses meu delírio, quando trato
De deixar nesta pedra o vulto erguido;

√Č tosca a prata, o ouro √© menos grato;
Contemplo o teu rigor: oh que advertido!
Só me dá esta penha o teu retrato!

A Melhor Maneira de Viajar é Sentir

Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.
Sentir tudo de todas as maneiras.
Sentir tudo excessivamente,
Porque todas as coisas s√£o, em verdade, excessivas
E toda a realidade é um excesso, uma violência,
Uma alucinação extraordinariamente nítida
Que vivemos todos em comum com a f√ļria das almas,
O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas
Que s√£o as psiques humanas no seu acordo de sentidos.

Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta como v√°rias pessoas,
Quanto mais personalidade eu tiver,
Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver,
Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas,
Quanto mais unificadamente diverso, dispersadamente atento,
Estiver, sentir, viver, for,
Mais possuirei a existência total do universo,
Mais completo serei pelo espaço inteiro fora.
Mais an√°logo serei a Deus, seja ele quem for,
Porque, seja ele quem for, com certeza que é Tudo,
E fora d’Ele h√° s√≥ Ele, e Tudo para Ele √© pouco.

Cada alma é uma escada para Deus,
Cada alma é um corredor-Universo para Deus,
Cada alma é um rio correndo por margens de Externo
Para Deus e em Deus com um sussurro soturno.

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Soneto

A Moreira de Vasconcelos

Na luta dos impossíveis,
do espirito e da matéria,
tu és a águia sidérea
dos pensamentos terríveis!
(Do Autor)

√Č um pensar flamejador, dard√Ęnico
Uma explosão de rápidas idéias,
Que como um mar de estranhas odisséias
Saem-lhe do cr√Ęnio escultural, tit√Ęnico!…

Parece haver um cataclismo enorme
L√° dentro, em √Ęnsia, a rebentar, fremente!…
Parece haver a convuls√£o potente,
Dos rubros astros num fragor disforme!…

H√£o de ruir na transfus√£o dos mundos
Os monumentos colossais profundos,
As cousas vãs da brasileira história!

Mas o seu vulto, sobre a luz alçado,
Oh! h√° de erguer-se de arreb√≥is c’roado,
Como Atalaia nos umbrais da gl√≥ria!!…

O Livro da Vida

Absorto, o S√°bio antigo, estranho a tudo, lia…
‚ÄĒ Lia o ¬ęLivro da Vida¬Ľ ‚ÄĒ heran√ßa inesperada,
Que ao nascer encontrou, quando os olhos abria
Ao primeiro clar√£o da primeira alvorada.

Perto dele caminha, em ruidoso tumulto,
Todo o humano tropel num clamor ululando,
Sem que de sobre o Livro erga o seu magro vulto,
Lentamente, e uma a uma, as suas folhas voltando.

Passa o Estio, a cantar; acumulam-se Invernos;
E ele sempre, ‚ÄĒ inclinada a dorida cabe√ßa,‚ÄĒ
A ler e a meditar postulados eternos,
Sem um fanal que o seu espírito esclareça!

Cada p√°gina abrange um est√°dio da Vida,
Cujo eterno segredo e alcance transcendente
Ele tenta arrancar da folha percorrida,
Como de mina obscura a pedra refulgente.

Mas o tempo caminha; os anos v√£o correndo;
Passam as gera√ß√Ķes; tudo √© p√≥, tudo √© v√£o…
E ele sem descansar, sempre o seu Livro lendo!
E sempre a mesma névoa, a mesma escuridão.

Nesse eterno cismar, nada vê, nada escuta:
Nem o tempo a dobrar os seus anos mais belos,
Nem o humano sofrer,

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Ela Ia, Tranquila Pastorinha

Ela ia, tranquila pastorinha,
Pela estrada da minha imperfeição.
Segui-a, como um gesto de perd√£o,
O seu rebanho, a saudade minha…

“Em longes terras h√°s de ser rainha”
Um dia lhe disseram, mas em v√£o…
Seu vulto perde-se na escurid√£o…
S√≥ sua sombra ante meus p√©s caminha…

Deus te dê lírios em vez desta hora,
E em terras longe do que eu hoje sinto
Serás, rainha não, mas só pastora

Só sempre a mesma pastorinha a ir,
E eu serei teu regresso, esse indistinto
Abismo entre o meu sonho e o meu porvir…

Cavador Do Infinito

Com a l√Ęmpada do Sonho desce aflito
E sobe aos mundos mais imponder√°veis,
Vai abafando as queixas implac√°veis,
Da alma o profundo e soluçado grito.

√ānsias, Desejos, tudo a fogo, escrito
Sente, em redor, nos astros inef√°veis.
Cava nas fundas eras insond√°veis
O cavador do tr√°gico Infinito.

E quanto mais pelo Infinito cava
mais o Infinito se transforma em lava
E o cavador se perde nas dist√Ęncias…

Alto levanta a l√Ęmpada do Sonho.
E como seu vulto p√°lido e tristonho
Cava os abismos das eternas √Ęnsias!

A Mulher de Negro

Os sons da floresta, as √°rvores, a bicicleta e, ao longe, o sil√™ncio im√≥vel de um vulto negro. Aproximei-me e era uma mulher vestida de negro. Um xaile negro sobre os ombros. Um len√ßo negro sobre a cabe√ßa. O som dos pneus da bicicleta a pararem, o som de amassarem folhas h√ļmidas e de fazerem estalar ramos. Os meus p√©s a pousarem no ch√£o. Os olhos da mulher entre o negro. Os olhos pequenos da mulher. O seu rosto branco. Vimo-nos como se nos encontr√°ssemos, como se nos tiv√©ssemos perdido havia muito tempo e nos encontr√°ssemos. O tempo deixou de existir. O sil√™ncio deixou de existir. Pousei a bicicleta no ch√£o para caminhar na direc√ß√£o da mulher. Era atra√≠do por segredos. Durante os meus passos, a mulher estendeu-me a m√£o. A sua m√£o era muito velha. A palma da sua m√£o tinha linhas que eram o mapa de uma vida inteira, uma vida com todos os seus enganos, com todos os seus erros, com todas as suas tentativas. Os seus olhos de pedra. Senti os ossos da sua m√£o a envolverem os meus dedos. N√£o me puxou, mas eu aproximei o meu corpo do seu. Senti a sua respira√ß√£o no meu pesco√ßo.

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Leio-Te: – O Pranto Dos Meus Olhos Rola:

Leio-te: – o pranto dos meus olhos rola:
– Do seu cabelo o delicado cheiro,
Da sua voz o timbre prazenteiro,
Tudo do livro sinto que se evola …

Todo o nosso romance: – a doce esmola
Do seu primeiro olhar, o seu primeiro
Sorriso, – neste poema verdadeiro,
Tudo ao meu triste olhar se desenrola.

Sinto animar-se todo o meu passado:
E quanto mais as p√°ginas folheio,
Mais vejo em tudo aquele vulto amado.

Ouço junto de mim bater-lhe o seio,
E cuido vê-la, plácida, a meu lado,
Lendo comigo a p√°gina que leio.

O Segredo do Mar

A ‚ÄúFlor do Mar‚ÄĚ avan√ßando
Navegava, navegava,
L√° para onde se via
O vulto que ela buscava.

Era t√£o grande, t√£o grande
Que a vista toda tapava.

E Bartolomeu erguido
Aos marinheiros bradava
Que ninguém tivesse medo
Do gigante que ali estava.

E mais perto agora est√£o
Do que procurando v√£o!

Bartolomeu que viu?
Que descobriu o valente?
– Que o gigante era um penedo
que tinha forma de gente?

Que era dantes o mar? Um quarto escuro
Onde os meninos tinham medo de ir.
Agora o mar é livre e é seguro
E foi um português que o foi abrir.

Quando encontro uma pessoa a dormir ao relento, numa noite fria, posso sentir que esse vulto seja um imprevisto que me demora, um delinquente ocioso, um obst√°culo no meu caminho, um aguilh√£o molesto para a mina consci√™ncia, um problema que os pol√≠ticos devem resolver e, talvez at√©, uma imund√≠cie que suja o espa√ßo p√ļblico. Ou ent√£o posso reagir a partir da f√© e da caridade e reconhecer nele um ser humano com a mesma dignidade que eu.

Musa Impassível I

Musa! um gesto sequer de dor ou de sincero
Luto jamais te afeie o c√Ęndido semblante!
Diante de um Jó, conserva o mesmo orgulho; e diante
De um morto, o mesmo olhar e sobrecenho austero.

Em teus olhos n√£o quero a l√°grima; n√£o quero
Em tua boca o suave e idílico descante.
Celebra ora um fantasma anguiforme de Dante,
Ora o vulto marcial de um guerreiro de Homero.

D√°-me o hemist√≠quio d’ouro, a imagem atrativa;
A rima, cujo som, de uma harmonia crebra,
Cante aos ouvidos d’alma; a estrofe limpa e viva;

Versos que lembrem, com seus bárbaros ruídos,
Ora o √°spero rumor de um calhau que se quebra,
Ora o surdo rumor de m√°rmores partidos.

XLV

A cada instante, Amor, a cada instante
No duvidoso mar de meu cuidado
Sinto de novo um mal, e desmaiado
Entrego aos ventos a esperança errante.

Por entre a sombra f√ļnebre, e distante
Rompe o vulto do alivio mal formado;
Ora mais claramente debuxado,
Ora mais fr√°gil, ora mais constante.

Corre o desejo ao vê-lo descoberto;
Logo aos olhos mais longe se afigura,
O que se imaginava muito perto.

Faz-se parcial da dita a desventura;
Porque nem permanece o dano certo,
Nem a glória tão pouco está segura

Presídio

Nem todo o corpo √© carne… N√£o, nem todo
Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, tronco de árvore,
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco…?

E o ventre, inconsistente como o lodo?…
E o morno gradeamento dos teus braços?
N√£o, meu amor… Nem todo o corpo √© carne:
√© tamb√©m √°gua, terra, vento, fogo…

√Č sobretudo sombra √† despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memória o fugidio

vulto da Primavera em pleno Outono…
Nem só de carne é feito este presídio,
pois no teu corpo existe o mundo todo!

INSCRIÇÃO SOBRE AS ONDAS

Mal fora iniciada a secreta viagem
um deus me segredou que eu não iria só.

Por isso a cada vulto os sentidos reagem,
supondo ser a luz que deus me segredou.