Textos sobre Revolta

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Textos de revolta escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Escola

N√£o podemos negar que a escola n√£o deu aos seus alunos todas as possibilidades que lhes devia dar, desprezou os mal dotados, obrigou-os a actos ou tarefas que lhes depuseram na alma as primeiras sementes do despeito ou da revolta, lhes deu, pelo quase exclusivo cuidado que votou ao saber, deixando na sombra o que √© o mais importante ‚ÄĒ forma√ß√£o do car√°cter e desenvolvimento da intelig√™ncia ‚ÄĒ, todas as condi√ß√Ķes para virem a ser o que s√£o agora; se n√£o sa√≠ram da escola com amor √† escola, a culpa n√£o √© deles, mas da escola. Acresce ainda que, lan√ßados na vida, a escola nunca mais procurou atra√≠-los, nunca mais foi ao encontro dos seus antigos alunos, para lhes aumentar a cultura, os informar e esclarecer sobre novas orienta√ß√Ķes de esp√≠rito, para lhes pedir a sua colabora√ß√£o, o seu interesse na educa√ß√£o das gera√ß√Ķes mais mo√ßas. Houve um corte de rela√ß√Ķes, quando a sua manuten√ß√£o poderia ainda de algum modo apagar as m√°s lembran√ßas que os alunos levavam. Que admira que sintamos agora √† nossa volta paix√£o e rancor? Tivemo-los nas nossas m√£os e n√£o fizemos por eles tudo quanto pod√≠amos, mesmo com as possibilidades econ√≥micas e pedag√≥gicas de que nos cercara o meio;

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Lucidez Orgulhosa

Os te√≥logos h√° muito o notaram: a esperan√ßa √© o fruto da paci√™ncia. Dever√≠amos acrescentar: e da mod√©stia. O orgulhoso n√£o tem tempo de esperar… Sem querer nem poder estar √† espera, for√ßa os acontecimentos, como for√ßa a sua natureza; amargo, corrompido, quando esgota as suas revoltas, abdica: para ele, n√£o h√° qualquer forma interm√©dia. √Č ineg√°vel que √© l√ļcido; mas n√£o esque√ßamos que a lucidez √© pr√≥pria daqueles que, por incapacidade de amar, se dessolidarizam tanto dos outros como de si pr√≥prios.

A Minha Poesia

Aquilo que dentro da minha produ√ß√£o po√©tica pode eventualmente definir-me, entre os poetas da minha gera√ß√£o, √© o resultado do esfor√ßo para conquistar um espa√ßo independente, ou seja, a minha forma particular de universalizar. Perten√ßo ao n√ļmero dos que atribuem √† poesia uma enorme responsabilidade: a de transformar o mundo. A poetiza√ß√£o das coisas n√£o √© sen√£o o aperfei√ßoamento delas. √Č para isto que se faz poesia e n√£o para com ela se fazer literatura. Os transes de ironia e de revolta que muitas vezes tecem os meus poemas, s√£o o regurgitar de um incontinente entusiasmo por um sonegado destino de amor e liberdade que o poeta escuta ao estimular a supera√ß√£o das coisas e dos seres e que n√£o v√™ cumprida. A luta contra o tempo gerando o sublime engendra-lhe o reverso que √© a abjec√ß√£o de se viver condicionalmente. Aquilo que Jaspers chama o incondicional e que emana de uma liberdade que n√£o pode ser de outra maneira, que n√£o √© causa de leis naturais mas o seu fundamento transcendente e que √© o sublime de cada um, resulta na maior trai√ß√£o, porque n√£o √© dado ao homem como sua exist√™ncia, mas deslumbrado num estado de supera√ß√£o. A luta pelo incondicional em choque com a minha condicionalidade,

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A Guerra como Revolta da Técnica

Todos os esfor√ßos para estetizar a pol√≠tica convergem para um ponto. Esse ponto √© a guerra. A guerra e somente a guerra permite dar um objectivo aos grandes movimentos de massa, preservando as rela√ß√Ķes de produ√ß√£o existentes. Eis como o fen√≥meno pode ser formulado do ponto de vista pol√≠tico. Do ponto de vista t√©cnico, a sua formula√ß√£o √© a seguinte: somente a guerra permite mobilizar na sua totalidade os meios t√©cnicos do presente, preservando as actuais rela√ß√Ķes de produ√ß√£o. √Č √≥bvio que a apoteose fascista da guerra n√£o recorre a esse argumento. Mas seria instrutivo lan√ßar os olhos sobre a maneira como ela √© formulada. No seu manifesto sobre a guerra colonial da Eti√≥pia, diz Marinetti: ¬ęH√° vinte e sete anos, n√≥s futuristas contestamos a afirma√ß√£o de que a guerra √© antiest√©tica (…) Por isso, dizemos: (…) a guerra √© bela, porque gra√ßas √†s m√°scaras de g√°s, aos megafones assustadores, aos lan√ßa-chamas e aos tanques, funda a supremacia do homem sobre a m√°quina subjugada. A guerra √© bela, porque inaugura a metaliza√ß√£o on√≠rica do corpo humano. A guerra √© bela, porque enriquece um prado florido com as orqu√≠deas de fogo das metralhadoras. A guerra √© bela, porque conjuga numa sinfonia os tiros de fuzil,

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O Inseguro

A eterna can√ß√£o: Que fiz durante o ano, que deixei de fazer, por que perdi tanto tempo cuidando de aproveit√°-lo? Ah, se eu tivesse sido menos apressado! Se parasse meia hora por dia para n√£o fazer absolutamente nada ‚ÄĒ quer dizer, para sentir que n√£o estava fazendo coisas de programa, sem cor nem sabor. A√≠, a fantasia galopava, e eu me reencontraria como gostava de ser; como seria, se eu me deixasse…
Não culpo os outros. Os outros fazem comigo o que eu consinto que eles façam, dispersando-me. Aquilo que eu lhes peço para fazerem: não me deixarem ser eu-um. Nem foi preciso rogar-lhes de boca. Adivinharam. Claro que eu queria é sair com eles por aí, fugindo de mim como se foge de um chato. Mas não foi essa a dissipação maior. No trabalho é que me perdi completamente de mim, tornando-me meu próprio computador. Sem deixar faixa livre para nenhum ato gratuito. Na programação implacável, só omiti um dado: a vida.

Que sentimento tive da vida, este ano? Que escava√ß√£o tentei em suas jazidas? A que profundidade cheguei? Substitu√≠ a no√ß√£o de profundidade pela de altura. N√£o quis saber de minera√ß√Ķes. Cravei os olhos no espa√ßo,

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O Verdadeiro Filósofo

Se a ideia de Deus n√£o √© conhecida na natureza, deve portanto tratar-se de uma inven√ß√£o humana… Mas n√£o me olheis como se eu n√£o tivesse s√£os princ√≠pios e n√£o fosse um fiel servidor do meu rei. Um verdadeiro fil√≥sofo n√£o pretende de modo algum subverter a ordem natural das coisas. Aceita-a. S√≥ pretende que o deixem cultivar os pensamentos que consolam uma alma forte. Para os outros, √© uma sorte que existam papas e bispos para reter as multid√Ķes da revolta e do crime. A ordem do Estado exige uma uniformidade do comportamento, a religi√£o √© necess√°ria ao povo e o s√°bio deve sacrificar parte da sua independ√™ncia para que a sociedade se mantenha firme.

As Pequenas Injustiças

Não me conformo com as pequenas injustiças. Aceito as grandes, porque são inevitáveis, como as catástrofes, e atestam a impotência dos deuses.
Aquela criança, descalça, apenas precisava de uns sapatos. Se tivesse nascido sem pés, não era tão grande a minha revolta.

A Vida Oblíqua

S√≥ agora pressenti o obl√≠quo da vida. Antes s√≥ via atrav√©s de cortes retos e paralelos. N√£o percebia o sonso tra√ßo enviesado. Agora adivinho que a vida √© outra. Que viver n√£o √© s√≥ desenrolar sentimentos grossos ‚ÄĒ √© algo mais sortil√©gico e mais gr√°cil, sem por isso perder o seu fino vigor animal. Sobre essa vida insolitamente enviesada tenho posto minha pata que pesa, fazendo assim com que a exist√™ncia fene√ßa no que tem de obl√≠quo e fortuito e no entanto ao mesmo tempo sutilmente fatal. Compreendi a fatalidade do acaso e n√£o existe nisso contradi√ß√£o.

A vida oblíqua é muito íntima. Não digo mais sobre essa intimidade para não ferir o pensar-sentir com palavras secas. Para deixar esse oblíquo na sua independência desenvolta.
E conheço também um modo de vida que é suave orgulho, graça de movimentos, frustração leve e contínua, de uma habilidade de esquivança que vem de longo caminho antigo. Como sinal de revolta apenas uma ironia sem peso e excêntrica. Tem um lado da vida que é como no inverno tomar café num terraço dentro da friagem e aconchegada na lã.
Conheço um modo de vida que é sombra leve desfraldada ao vento e balançando leve no chão: vida que é sombra flutuante,

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O Sucesso para um Grande Amor

Estou contente porque a minha querida n√£o tem ainda o afecto exclusivo e √ļnico que h√°-de sentir um dia por um homem, apesar de todas as suas teorias que h√°-de ver voar, voar para t√£o longe ainda!… E no entanto, elas s√£o t√£o verdadeiras! Ainda assim, minha querida J√ļlia, uma das coisas melhores da nossa vida de t√£o prosaico s√©culo, √© o amor, o grande e discutido amor, o nosso encanto e o nosso mist√©rio; as nossas p√©talas de rosa e a nossa coroa de espinhos. O amor √ļnico, doce e sentimental da nossa alma de portugueses, o amor de que fala J√ļlio Dantas, ¬ęuma ternura casta, uma ternura s√£¬Ľ de que ¬ęo peito que o sente √© um sacr√°rio estrela¬≠do¬Ľ, como diz Junqueiro; o amor que √© a raz√£o √ļnica da vida que se vive e da alma que se tem; a paix√£o delicada que d√° beijos ao luar e alma a tudo, desde o olhar ao sorriso, ‚ÄĒ √© ainda uma coisa nobre, bela e digna! Digna de si, do seu sentir, do seu grande cora√ß√£o, ao mesmo tempo violento e calmo. Esse amor que ¬ęem sendo triste, canta, e em sendo alegre, chora¬Ľ, esse amor h√°-de senti-lo um dia,

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O Amolecimento pela Sociedade de Consumo

Nos pa√≠ses subdesenvolvidos, a arte (literatura, pintura, escultura) entra quase sempre em conflito com as classes possidentes, com o poder institu√≠do, com as normas de vida estabelecidas. Em revolta aberta, o artista, origin√°rio por via de regra da m√©dia e da pequena burguesia ou mais raramente das classes prolet√°rias, contesta o statu quo, prop√Ķe solu√ß√Ķes revolucion√°rias ou, quando estas n√£o podem sequer divisar-se, limita-se a derruir (ou a tentar faz√™-lo pela cr√≠tica, violenta ou ir√≥nica) o baluarte dos preconceitos, das defesas que os benefici√°rios do sistema de produ√ß√£o ergueram contra as aspira√ß√Ķes da maioria. Nas sociedades industriais mais adiantadas, o artista pode permanecer numa atitude id√™ntica de inconformismo; por√©m, os resultados da sua actividade de cria√ß√£o e reflex√£o tornam-se mat√©ria vend√°vel e, nalguns casos, mat√©ria integr√°vel.
O consumo do objecto art√≠stico, seja ele o livro, o quadro ou o disco, quando feito sob uma tutela de opini√£o, que os meios de comunica√ß√£o de massa, em escala largu√≠ssima , exercem, torna-se, sen√£o totalmente in√≥cuo, pelo menos parcialmente esvaziado do seu conte√ļdo cr√≠tico. Despotencializa-se. Amolece. √Č o que se verifica, por exemplo, em boa parte, nos Estados Unidos. A ideologia repressiva da liberdade no mundo capitalista monopolista torna-se tanto mais perigosa quanto aborve,

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Só se Pode Ser Feliz Simplificando

Só se pode ser feliz simplificando, simplificando sempre, arrancando, diminuindo, esmagando, reduzindo; e a inteligência cria em volta de nós um mar imenso de ondas, de espumas, de destroços, no meio do qual somos depois o náufrago que se revolta, que se debate em vão, que não quer desaparecer sem estreitar de encontro ao peito qualquer coisa que anda longe: raio de sol em reflexo de estrelas. E todos os astros moram lá no alto.

Só Dependes de Ti para Ser Feliz

Só dependes de ti para ser feliz.

A felicidade encontra-se dentro de ti. Este é o teu princípio. O fim será aquele que tu quiseres.

Aprendi isto enquanto escrevia o meu primeiro livro, ‚ÄúCarta Branca‚ÄĚ. Um relato muito pessoal acerca da minha primeira grande viagem interior em busca dessa espec√≠fica descoberta. Iniciei-o numa fase muito conturbada da minha vida, em que a rela√ß√£o comigo era praticamente inexistente e quando existia n√£o passava de agress√Ķes a mim mesmo, baseadas, naturalmente, em muito daquilo que ouvira, aprendera e modelara na minha inf√Ęncia e adolesc√™ncia. Como costumo dizer, tinha muita dificuldade em estar ao meu lado. N√£o me conhecia, apenas sabia o que representava para os outros. N√£o sabia o que queria, apenas sabia o que os outros queriam de mim. E n√£o sabia para onde queria ir, apenas para onde todos queriam que eu fosse. Naturalmente que esta aus√™ncia total de conhecimento n√£o podia germinar coisa boa. E assim era. Eu era revolta, ang√ļstia, inseguran√ßa, permissividade e medo. E lembro-me, lembro-me perfeitamente, quando disse a mim mesmo que se a minha vida n√£o passasse disto n√£o valeria a pena estar vivo. Recordo-me da dor que vivia comigo. Mas recordo-me tamb√©m que foi ela que me incentivou a escrever.

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Uma Obediência Passiva

O homem, bobo da sua aspira√ß√£o, sombra chinesa da sua √Ęnsia in√ļtil, segue, revoltado e ign√≥bil, servo das mesmas leis qu√≠micas, no rodar imperturb√°vel da Terra, implacavelmente em torno a um astro amarelo, sem esperan√ßa, sem sossego, sem outro conforto que o abafo das suas ilus√Ķes da realidade e a realidade das suas ilus√Ķes. Governa estados, institui leis, levanta guerras; deixa de si mem√≥rias de batalhas, versos, est√°tuas e edif√≠cios. A Terra esfriar√° sem que isso valha. Estranho a isso, estranho desde a nascen√ßa, o soI um dia, se alumiou, deixar√° de alumiar; se deu vida, dar√° a si a morte. Outros sistemas de astros e de sat√©lites dar√£o porventura novas humanidades; outras esp√©cies de eternidades fingidas alimentar√£o almas de outra esp√©cie; outras cren√ßas passar√£o em corredores long√≠nquos da realidade m√ļltipla. Cristos outros subir√£o em v√£o a novas cruzes. Novas seitas secretas ter√£o na m√£o os segredos da magia ou da Cabala. E essa magia ser√° outra, e essa Cabala diferente. S√≥ uma obedi√™ncia passiva, sem revoltas nem sorrisos, t√£o escrava como a revolta, √© o sistema espiritual adequado √† exterioridade absoluta da nossa vida serva.

√Ālvaro de

O Nosso C√≥digo √Čtico e Moral Desculpabiliza-nos Perante a Recusa de Aliviarmos o Sofrimento Alheio

Eu não desviava os olhos de minha mãe, sabia que, quando estivessem à mesa, não me seria permitido ficar até ao fim da refeição, e que, para não contrariar meu pai, a mamã não me deixaria beijá-la várias vezes diante dos outros, como se fosse no meu quarto.
(…) antes de tocarem a sineta para o jantar, meu av√ī teve a ferocidade inconsciente de dizer: ¬ęO pequeno parece cansado; deveria ir deitar-se. E depois, jantamos tarde hoje.¬Ľ E meu pai,(…) disse: ¬ęSim. Anda, vai deitar-te.¬Ľ Eu quis beijar a mam√£; nesse instante ouviu-se a sineta do jantar. ¬ęN√£o, n√£o, deixa a tua m√£e em paz, voc√™s j√° se despediram bastante, essas demonstra√ß√Ķes s√£o rid√≠culas. Anda, sobe!¬Ľ E eu tive de partir sem vi√°tico; tive de subir cada degrau ¬ęcontra o cora√ß√£o¬Ľ, subindo contra o meu cora√ß√£o, que desejava voltar para junto de minha m√£e porque ela n√£o lhe havia dado, com um beijo, licen√ßa de me acompanhar.
(…) J√° no meu quarto, tive de (…) cerrar os postigos, cavar o meu pr√≥prio t√ļmulo enquanto virava as cobertas, vestir o sud√°rio da minha camisa de dormir. Mas antes de sepultar-me no leito de ferro (…), veio-me um impulso de revolta e resolvi tentar um ardil de condenado.

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Sinceridade Proscrita

A verdade permanece sepultada sob as m√°ximas de uma falsa delicadeza. Chama-se saber viver √† arte de viver com baixeza. N√£o se p√Ķe diferen√ßa entre conhecer o mundo e engan√°-lo; e a cerim√≥nia, que deveria ater-se inteiramente ao exterior, introduz-se nos nossos costumes mesmos.
A ingenuidade deixa-se aos esp√≠ritos pequenos, como uma marca da sua imbecilidade. A franqueza √© olhada como um v√≠cio na educa√ß√£o. Nada de pedir que o cora√ß√£o saiba manter o seu lugar; basta que fa√ßamos como os outros. √Č como nos retratos, aos quais n√£o se exige mais do que parecen√ßa. Cr√™-se ter achado o meio de tornar a vida deliciosa, atrav√©s da do√ßura da adula√ß√£o.
Um homem simples que n√£o tem sen√£o a verdade a dizer √© olhado como o perturbador do prazer p√ļblico. Evitam-no, porque n√£o agrada; evita-se a verdade que anuncia, porque √© amarga; evita-se a sinceridade que professa porque n√£o d√° frutos sen√£o selvagens; temem-na porque humilha, porque revolta o orgulho que √© a mais cara das paix√Ķes, porque √© um pintor fiel, que faz com que nos vejamos t√£o disformes como somos.
Não há por que nos espantarmos, se ela é rara: é expulsa, proscrita por toda a parte.

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Escrever é Triste

Escrever é triste. Impede a conjugação de tantos outros verbos. Os dedos sobre o teclado, as letras se reunindo com maior ou menor velocidade, mas com igual indiferença pelo que vão dizendo, enquanto lá fora a vida estoura não só em bombas como também em dádivas de toda natureza, inclusive a simples claridade da hora, vedada a você, que está de olho na maquininha. O mundo deixa de ser realidade quente para se reduzir a marginália, puré de palavras, reflexos no espelho (infiel) do dicionário.
O que voc√™ perde em viver, escrevinhando sobre a vida. N√£o apenas o sol, mas tudo que ele ilumina. Tudo que se faz sem voc√™, porque com voc√™ n√£o √© poss√≠vel contar. Voc√™ esperando que os outros vivam, para depois coment√°-los com a maior cara-de-pau (“com isen√ß√£o de largo espectro”, como diria a bula, se seus escritos fossem produtos medicinais). Selecionando os retalhos de vida dos outros, para objeto de sua divaga√ß√£o descompromissada. Sereno. Superior. Divino. Sim, como se fosse deus, rei propriet√°rio do universo, que escolhe para o seu jantar de not√≠cias um terremoto, uma revolu√ß√£o, um adult√©rio grego ‚ÄĒ √†s vezes nem isso, porque no painel imenso voc√™ escolhe s√≥ um besouro em campanha para verrumar a madeira.

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Amar Ajuda

Hoje, no dia antes do dia de São Valentim, quero escrever sobre o amor nos outros dias do ano. Ontem foi um deles. Recebi uma má notícia e imediatamente a Maria João recebeu-a como se fosse ela a recebê-la.
Recebemos a m√° not√≠cia e, ao receb√™-la no plural, diluiu-se por muito mais do que dois. O plural de um n√£o √© dois: s√£o muitos. Sentimo-nos como se f√īssemos muitos.
Existe o espalhar o mal pelas aldeias. Mas com o amor, com o casamento de almas que, virando-se uma para a outra, se voltam, viradas, contra o mundo, o mal multiplica-se e exagera-se ao ponto dos dois apaixonados se tornarem numa multid√£o de revoltados que se revolta tanto como se ama.
A boa ideia Рmas talvez errada Рvem de Platão, das duas metades que se encontram para alcançarem a unidade de um só ser completo. Sendo assim, as almas gémeas são apenas duas metades que se completam: precisam de completar-se para se transformarem numa unidade.
Não é verdade. O amor junta duas unidades Рa Maria João e eu, por exemplo Рe faz com que tenham muito mais do que a força de uma só pessoa.

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Amizade Sem Sinceridade

Acredita-se ter encontrado um meio de tornar a vida deliciosa atrav√©s da bajula√ß√£o. Um homem simples que apenas diz a verdade √© visto como o perturbador do prazer p√ļblico. Foge-se dele porque n√£o agrada a ningu√©m; foge-se da verdade que ele enuncia, porque √© amarga; foge-se da sinceridade que proclama porque apenas traz frutos selvagens; tem-se receio dela porque humilha, porque revolta o orgulho que √© a mais estimada das paix√Ķes, porque √© um pintor fiel que nos faz ver qu√£o disformes somos.
N√£o admira que seja t√£o rara: em toda a parte (a sinceridade) √© perseguida e proscrita. Coisa maravilhosa, ela encontra a custo um ref√ļgio no seio da amizade.
Sempre seduzidos pelo mesmo erro, só fazemos amigos para ter pessoas particularmente destinadas a nos agradarem: a nossa estima resume-se à sua complacência; o fim dos consentimentos acarreta o fim da amizade. E quais são esses consentimentos? O que é que mais nos agrada nos amigos? São os contínuos elogios que lhes cobramos como tributos.
A que se deve que j√° n√£o haja verdadeira amizade entre os homens? Que esse nome n√£o seja mais do que uma armadilha que empregam com vileza para seduzir? ¬ę√Č, diz um poeta (Ov√≠dio),

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Ser Mãe é Aceitar. Tudo.

Ser mãe é receber em si um outro que lhe vem de fora e acolhê-lo em vista de um futuro que pressente mas que, de maneira nenhuma, sabe explicar. Ser mãe é, antes de mais, aceitar. Tudo. Tudo.

√Č aceitar em si um outro para o qual ela se torna o mundo: gerando-o, alimentando-o, comendo, bebendo e respirando com ele… ele dentro de si, ela em volta dele.

√Č deixar esse outro ir embora e voltar a receb√™-lo em cada dia, quando ele volta, quando ele se revolta e, tamb√©m, quando ele n√£o volta…

Ser m√£e √© acolher o que o outro lhe d√°. Mas n√£o como quem se alimenta do que lhe vem de fora, transformando-o em vida, que acolhe em si, e devolvendo ao mundo, j√° morto, aquilo que sobra. Ser √© m√£e √© dar-se como alimento, transformando-se na vida daquele a quem se d√° para depois… voltar depois ao mundo, gasta, apenas com o que lhe sobra.
Ser mãe é dar-se. Aceitando sempre qualquer resultado e resposta.

Uma mãe, mais do que dar um filho ao mundo, deve dar um mundo ao filho. Um melhor que este, cheio de esperança e sonhos,

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A Verdadeira Coragem Humana

Se est√°s disposto a nunca usar da viol√™ncia, e sempre resistindo, torna-te forte de corpo e de alma; √© a mais dif√≠cil de todas as atitudes; exige a constante vigil√Ęncia de todos os movimentos do esp√≠rito, o dom√≠nio completo de todos os impulsos dos nervos e dos m√ļsculos rebeldes; a agress√£o √© f√°cil contra o medo e tamb√©m a primeira solu√ß√£o; para que, em todos os instantes, a possas p√īr de lado e substitu√≠-la pela tranquila recusa, n√£o te deves fiar nos improvisos; a armadura de que te revestes nos momentos de crise √© forjada dia a dia e antes deles; faz-se de medita√ß√£o e de gin√°stica, de pensamento definido e preciso e de perfeitos comandos; quando menos se prev√™ surge o instante da decis√£o; r√°pida e firme, sem emo√ß√Ķes ou sufocando-as, tem que trabalhar a m√°quina formada.
Que trabalhar, sobretudo, humanamente; a visão do autómato é a pior de todas para os amigos do espírito; não serão teus elementos nem a secura, nem a estóica dureza, nem o ar superior, nem as cortantes palavras; requere-se no inabalável a humanidade, o sorriso afectuoso, a íntima bondade, a desportiva calma, amiga do adversário, de quem joga um bom jogo; sozinho guardarás as lutas interiores que tens de suportar,

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