Cita√ß√Ķes sobre Carac√≥is

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Rebeca se levantou √† meia-noite e comeu punhados de terra no jardim, com avidez suicida, chorando de dor e f√ļria, mastigando minhocas macias e espeda√ßando os dentes nas cascas de carac√≥is.

Não será que deveríamos cuidar melhor da vida das massas? Porque a verdade é que o caracol nunca deita fora a sua concha. O povo é a concha que nos abriga. Mas pode, repentemente, tornar-se no fogo que nos vai queimar.

Ortofrenia

Aclama√ß√Ķes
dentro do edifício inexpugnável
aclama√ß√Ķes
por já termos chapéu para a solidão
aclama√ß√Ķes
por sabermos estar vivos na geleira
aclama√ß√Ķes
por ardermos mansinho junto ao mar
aclama√ß√Ķes
porque cessou enfim o ruído da noite a secreta alegria por escadas
de caracol
aclama√ß√Ķes
porque uma coisa é certa: ninguém nos ouve
aclama√ß√Ķes
porque outra é indubitável: não se ouve ninguém

Sonho

Teria passado a vida
atormentado e sozinho
se os sonhos me n√£o viessem
mostrar qual é o caminho

umas vezes s√£o de noite
outras em pleno de sol
com rel√Ęmpagos saltados
ou vagar de caracol

quem os manda n√£o sei eu
se o nada que é tudo à vida
ou se eu os finjo a mim mesmo
para ser sem que decida.

O portugu√™s √© curto, mas tem o corpo bem feitinho. √Č feiote, mas tem os olhos profundos e um caracol moreninho. Em p√ļblico, pode ser ging√£o e malandreco, mas quando se apanha a s√≥s, √© ternurento e maneirinho.

Escadas de caracol Sempre S√£o misteriosas: conturbam… Quandas as desce, a gente Se desparafusa… Quando a gente as sobe Se parafusa (…)

Soneto Da Enseada

Sou sempre o que está além de mim
como a ponte de Brooklyn ao p√īr-do-sol.
Sou o peixe buscado pelo anzol
e o caracol imóvel no jardim.

De mim mesmo me parto, qual navio,
e sou tudo o que vive além de mim:
o barulho da noite e o cheiro de jasmim
que corre entre as estrelas como um rio.

Quem atravessa a ponte logo aprende
que a vida é simplesmente a travessia
entre um aquém e um além que são dois nadas.

Na madrugada escura a luz se acende.
Que luz? De que vigília ou de que dia?
De que barco ancorado na enseada?

SMS

Ela caminha já a tarde vai alta pelo passeio que segue paralelo ao mar, por cima das praias. Em baixo, a areia estende-se vazia até à água, acabando numa espuma branca, das ondas que rebentam com o fragor dos dias de Inverno. Vai sozinha. Cruza-se com jovens a passo de corrida, outros que deslizam em patins, um casal com o filho pequeno feliz na sua bicicleta de rodinhas, acompanhado por um cãozinho saltitante que corre para a frente e para trás em redor dele.
Leva na m√£o o telem√≥vel e nos olhos castanhos brilhantes uma esperan√ßa. Vai pensativa e sem horas, caminhando sem pressa, reparando nas pessoas, no mar desabrido que se atira √† praia, no ar fresco que respira, no vento que se levanta com uma promessa de tempestade. Cruza o casaco grosso, azul-escuro, √† frente do peito, sem apertar os bot√Ķes. Cruza os bra√ßos. Uma folha de jornal passa por ela a esvoa√ßar, not√≠cias antigas, pensa divertida, logo se concentrando no navio de carga iluminado que vem de Lisboa e ruma ao mar aberto com o vagar de quem tem um destino certo num dia certo.

Acaba por apertar os bot√Ķes do casaco e levantar a gola para se sentir mais protegida do vento,

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Para si, meu filho, para si que estudou em escola, o ch√£o √© um papel, tudo se escreve nele. Para n√≥s a terra √© uma boca, a alma de um b√ļzio. O tempo √© o caracol que enrola essa concha. Encostamos o ouvido nesse b√ļzio e ouvimos o princ√≠pio, quando tudo era antigamente.

A Casada Infiel

Levei-a comigo ao rio,
pensando que era donzela,
porém já tinha marido.
Foi na noite de Santiago
e quase por compromisso.
Os lampi√Ķes se apagaram
e acenderam-se os grilos.
Nas derradeiras esquinas
toquei seus peitos dormidos
e pra mim logo se abriram
como ramos de jacintos.
A goma de sua an√°gua
soava no meu ouvido,
como uma peça de seda
lacerada por dez facas.
Sem luz de prata nas copas
as árvores têm crescido,
e um horizonte de c√£es
ladra mui longe do rio.

*

Passadas as sarçamoras
os juncos e os espinheiros,
por debaixo da folhagem
fiz um fojo sobre o limo.
Minha gravata tirei.
Tirou ela seu vestido.
Eu, o cinto com revólver.
Ela, seus quatro corpetes.
Nem nardos nem caracóis
t√™m uma c√ļtis t√£o fina,
nem os cristais ao luar
resplandecem com tal brilho.
Suas coxas me fugiam
como peixes surpreendidos,
metade cheia de lume,
metade cheia de frio.
Percorri naquela noite
o mais belo dos caminhos,
montado em potra de n√°car
sem bridas e sem estribos.

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O Morto Prazenteiro

Onde haja carac√≥is, n’um fecundo torr√£o,
Uma grandiosa cova eu mesmo quero abrir,
Onde repouse em paz, onde possa dormir,
Como dorme no oceano o livre tubar√£o.

Detesto os mausoléus, odeio os monumentos,
E, a ter de suplicar as l√°grimas do mundo,
Prefiro oferecer o meu carcaz imundo,
Qual precioso manjar, aos corvos agoirentos.

Verme, larva brutal, tenebroso mineiro,
Vai entregar-se a vós um morto prazenteiro,
Que livremente busca a treva, a podrid√£o!

Sem piedade, minai a minha carne impura,
E dizei-me depois se existe uma tortura
Que não tenha sofrido este meu coração!

Tradução de Delfim Guimarães

O Homem de Ideias

N√£o √© l√≠cito dizer que tem ideias aquele que as foi buscar a outro, que envergou um sistema j√° pronto, que n√£o o construiu ele mesmo a pouco e pouco, √† medida que se ia alargando e aprofundando a sua vis√£o do mundo; para ¬ęter ideias¬Ľ √© necess√°rio um trabalho de autoforma√ß√£o, de modela√ß√£o cont√≠nua da alma, uma assimila√ß√£o que n√£o cessa de tudo o que uma determinada personalidade encontra de assimil√°vel no que a cerca, ou passado ou presente; a ideia surge da vida pr√≥pria e n√£o da vida dos outros; o homem que tem individualidade (√© muito dif√≠cil ser indiv√≠duo), ou a busca, pode inserir no seu pensamento fragmentos de pensamento alheio, mas apenas insere aqueles que, como algarismos num n√ļmero, mudam de valor conforme a posi√ß√£o; inventa uma coluna vertebral que s√≥ a ele pertence e caracteriza, depois procura o que se lhe pode adaptar sem desarmonia nem contradi√ß√£o.
Faz como o caracol que se não instala na concha de outro caracol; fabrica-a e aumenta-a ao mesmo ritmo que se fabrica e aumenta o corpo que a enche; os Eremitas são bichos traiçoeiros. Aprender ideias não tem valor senão quando nos serve para formar ideias; se apenas as queremos usar não merecemos nem a confiança nem a consideração de ninguém;

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