Passagens sobre Desventuras

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L

Memórias do presente, e do passado
Fazem guerra cruel dentro em meu peito;
E bem que ao sofrimento ando j√° feito,
Mais que nunca desperta hoje o cuidado.

Que diferente, que diverso estado
√Č este, em que somente o triste efeito
Da pena, a que meu mal me tem sujeito,
Me acompanha entre aflito, e magoado!

Tristes lembranças! e que em vão componho
A memória da vossa sombra escura!
Que néscio em vós a ponderar me ponho!

Ide-vos; que em tão mísera loucura
Todo o passado bem tenho por sonho;
Só é certa a presente desventura.

Prodígio!

Como o Rei Lear n√£o sentes a tormenta
Que te desaba na fatal cabeça!
(Que o c√©u d’estrelas todo resplande√ßa.)
A tua alma, na Dor, mais nobre aumenta.

A Desventura mais sanguinolenta
Sobre os teus ombros impiedosa desça,
Seja a treva mais funda e mais espessa,
Todo o teu ser em m√ļsicas rebenta.

Em m√ļsicas e em flores infinitas
De aromas e de formas esquisitas
E de um mist√©rio singular, nevoento…

Ah! só da Dor o alto farol supremo
Consegue iluminar, de extremo a extremo,
o estranho mar genial do Sentimento!

√Č poss√≠vel repousar sobre qualquer dor de qualquer desventura, menos sobre o arrependimento. No arrependimento n√£o h√° descanso nem paz, e por isso √© a maior ou a mais amarga de todas as desgra√ßas.

O Amor Confina o Amor

Na branda luz do frio, gravo a ternura
De andar sofrendo, pela vez primeira,
O amor que, por engano, a vida inteira
Transforma numa lenta desventura.

Se no ar desta manh√£ sopra t√£o pura
A obrigação de respirar-me, à beira
De uma esperança enferma e derradeira,
Vou respirando a flor de uma armadura

Imposta pelo amor. Sobre a incerteza
Do noivo abandonado, abre a firmeza
De prosseguir lutando, e ardentemente

Este poder desperta o ardor de um canto
No c√°rcere de vidro onde, inclemente,
O amor confina o amor, como num pranto.

Lirial

Por que choras assim, tristonho lírio,
Se eu sou o orvalho eterno que te chora,
P’ra que pendes o c√°lice que enflora
Teu seio branco do palor do círio?!

Baixa a mim, irm√£ p√°lida da Aurora,
Estrela esmaecida do Martírio;
Envolto da tristeza no delírio,
Deixa beijar-te a face que descora!

Fosses antes a rosa purpurina
E eu beijaria a pétala divina
Da rosa, onde n√£o pousa a desventura.

Ai! que ao menos talvez na vida escassa
Não chorasses à sombra da desgraça,
Para eu sorrir à sombra da ventura!

O Apaixonado

Luas, marfins, instrumentos e rosas,
Tra√ßos de D√ļrer, lampi√Ķes austeros,
Nove algarismos e o cambiante zero,
Devo fingir que existem essas coisas.

Fingir que no passado aconteceram
Persépolis e Roma e que uma areia
Subtil mediu a sorte dessa ameia
Que os séculos de ferro desfizeram.

Devo fingir as armas e a pira
Da epopeia e os pesados mares
Que corroem da terra os v√£os pilares.

Devo fingir que h√° outros. √Č mentira.
Só tu existes. Minha desventura,
Minha ventura, inesgot√°vel, pura.

Tradução de Fernando Pinto do Amaral

XXX

Ao coração que sofre, separado
Do teu, no exílio em que a chorar me vejo,
N√£o basta o afeto simples e sagrado
Com que das desventuras me protejo.

N√£o me basta saber que sou amado,
Nem só desejo o teu amor: desejo
Ter nos braços teu corpo delicado,
Ter na boca a doçura de teu beijo.

E as justas ambi√ß√Ķes que me consomem
N√£o me envergonham: pois maior baixeza
Não há que a terra pelo céu trocar;

E mais eleva o coração de um homem
Ser de homem sempre e, na maior pureza,
Ficar na terra e humanamente amar.

√örsula chorava na mesa como se estivesse lendo as cartas que nunca chegaram, nas quais Jos√© Arcadio relatava as suas fa√ßanhas e desventuras. “E tanto lugar aqui, meu filho”, solu√ßava. “E tanta comida jogada aos porcos!”

√Č pr√≥prio da natureza humana, lamentavelmente, sentir necessidade de culpar os outros dos nossos desastres e das nossas desventuras.

As desventuras que mais atingem
os homens s√£o aquelas que s√£o escolhidas por eles.

Quem trama desventuras para os outros estende armadilhas a si mesmo.

Errante

Meu coração da cor dos rubros vinhos
Rasga a mortalha do meu peito brando
E vai fugindo, e tonto vai andando
A perder-se nas brumas dos caminhos.

Meu coração o místico profeta,
O paladino audaz da desventura,
Que sonha ser um santo e um poeta,
Vai procurar o Pa√ßo da Ventura…

Meu cora√ß√£o n√£o chega l√° decerto…
N√£o conhece o caminho nem o trilho,
Nem h√° mem√≥ria desse s√≠tio incerto…

Eu tecerei uns sonhos irreais…
Como essa m√£e que viu partir o filho,
Como esse filho que n√£o voltou mais!

XLV

A cada instante, Amor, a cada instante
No duvidoso mar de meu cuidado
Sinto de novo um mal, e desmaiado
Entrego aos ventos a esperança errante.

Por entre a sombra f√ļnebre, e distante
Rompe o vulto do alivio mal formado;
Ora mais claramente debuxado,
Ora mais fr√°gil, ora mais constante.

Corre o desejo ao vê-lo descoberto;
Logo aos olhos mais longe se afigura,
O que se imaginava muito perto.

Faz-se parcial da dita a desventura;
Porque nem permanece o dano certo,
Nem a glória tão pouco está segura

A Morte

Oh! que doce tristeza e que ternura
No olhar ansioso, aflito dos que morrem…
De que √Ęncoras profundas se socorrem
Os que penetram nessa noite escura!

Da vida aos frios véus da sepultura
Vagos momentos tr√™mulos decorrem…
E dos olhos as l√°grimas escorrem
Como faróis da humana Desventura.

Descem ent√£o aos golfos congelados
Os que na terra vagam suspirando,
Com os velhos cora√ß√Ķes tantalizados.

Tudo negro e sinistro vai rolando
Báratro abaixo, aos ecos soluçados
Do vendaval da Morte ondeando, uivando…

Tu, V√£ Filosofia

Tu, v√£ Filosofia, embora aviltes
Os crentes nas vis√Ķes do pensamento,
Turvo clarão de raciocínios tristes
Por entre sombras nos conduz, e a mente,
Rastejando a verdade, a desencanta;
Nem doloroso espírito se ilude,
Se o que, dormindo, creu, crê, despertando.
Até no afortunado a vida é sonho
(Sonho, que l√° no fim se verifica),
E ansioso pesadelo em mim, que a choro,
Em mim, que provo o fel da desventura,
Desde que levantei, que abri, carpindo,
Os olhos infantis à luz primeira;
Em mim, que fui, que sou de Amor o escravo,
E a vítima serei, e o desengano
Da suprema paix√£o, por ti cantada
Em versos imortais, como o princípio
Etéreo, criador, de que emanaram.

Auto-Retrato

Poeta é certo mas de cetineta
fulgurante de mais para alguns olhos
bom artes√£o na arte da proveta
narciso de lombardas e repolhos.

Cozido à portuguesa mais as carnes
suculentas da auto-import√Ęncia
com toicinho e talento ambas partes
do meu caldo entornado na inf√Ęncia.

Nos olhos uma folha de hortel√£
que é verde como a esperança que amanhã
amanheça de vez a desventura.

Poeta de combate disparate
palavr√£o de mach√£o no escaparate
porém morrendo aos poucos de ternura.