Passagens sobre Gaiola

30 resultados
Frases sobre gaiola, poemas sobre gaiola e outras passagens sobre gaiola para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

O Sentimento dum Ocidental

I

Avé-Maria

Nas nossas ruas, ao anoitecer,
H√° tal soturnidade, h√° tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,
O g√°s extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

Batem carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposi√ß√Ķes, pa√≠ses:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edifica√ß√Ķes somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquet√£o ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueir√Ķes, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Cam√Ķes no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu n√£o verei jamais!

E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!

Continue lendo…

Do modo como a concebemos, a vida em família não é mais natural para nós do que uma gaiola é para um papagaio.

Procuro renascer todos os dias. Não concordo em morrer vivo. Sou um rebelde de paletó e gravata, grão que teima em não virar massa, pássaro que persiste no canto dentro da gaiola dos horários.

O Mundo Real n√£o Existe para o Homem Pr√°tico

H√° duas maneiras de olhar as coisas, como h√° duas maneiras de as n√£o olhar. Ou se olham pondo-nos de fora delas ou pondo-nos dentro delas. S√≥ no segundo caso as vemos bem, porque s√≥ ent√£o nos vemos mal ou simplesmente nos perdemos a n√≥s de vista. O primeiro ver √© o do homem pr√°tico, o segundo, o do artista. Um e outro tamb√©m divergem no modo de n√£o ver as coisas. O primeiro porque simplesmente as n√£o v√™; o segundo porque n√£o repara nelas. Ao contr√°rio do que se sup√Ķe, o mundo real n√£o existe para o homem pr√°tico: o que existe √© a sua instrumentaliza√ß√£o. Uma flor s√≥ lhe existe se a puser na lapela ou mesmo num jarro; como um p√°ssaro s√≥ lhe √© real se o tiver numa gaiola ou o comer frito.

Como c√£es numa roda, ou p√°ssaros numa gaiola, os homens ambiciosos continuam a subir, com grande trabalho e incessante ansiedade, mas nunca chegam ao cume.

Três Poemas da Solidão

I

Nem aqui nem ali: em parte alguma.
Não é este ou aquele o meu lugar.
Desço à praia, mergulho as mãos no mar,
mas do mar, nos meus dedos, fica a espuma.

Meu jardim, minha cerca, meu pomar.
Perpassa a Ideia e mói, como verruma.
Falar mas para quê? Só por falar?
J√° nada quer dizer coisa nenhuma.

Os instintos à solta, como feras,
e eu a pensar em velhas primaveras,
no antigo sortilégio das palavras.

Agora é tudo igual, prazer e dor,
e a tua sementeira n√£o d√° flor,
ó triste solidão que as almas lavras.

II

Tão só!
Cada vez s√£o mais longos os caminhos
que me levam à gente.
(E os pensamentos fechados em gaiolas,
as ideias em jaulas.)

Ah, n√£o fujam de mim!
N√£o mordo, n√£o arranho.
Direi:
‚ÄĒ ¬ęPois n√£o! Ora essa! Tem raz√£o¬Ľ.

Entanto, na gaiola,
cantarão em silêncio
os sonhos, as ideias,
como p√°ssaros mudos.

III

Solid√£o.
A multid√£o em volta
e o pensamento à solta
como alado corcel.

Continue lendo…

Por que me prendes? Solta-me covarde!
Deus me deu por gaiola a imensidade:
N√£o me roubes a minha liberdade…
Quero voar! voar!…

Poema dum Funcion√°rio Cansado

A noite trocou-me os sonhos e as m√£os
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita

estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos,
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só

Sou um funcion√°rio apagado
um funcion√°rio triste
a minha alma n√£o acompanha a minha m√£o
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma n√£o dan√ßa com os n√ļmeros tento escond√™-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcion√°rio cansado dum dia exemplar
Porque n√£o me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Porque me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?

Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irm√£o beijo namorada
m√£e estrela m√ļsica

S√£o as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na pris√£o da minha vida
isto todas as noites do mundo uma noite só comprida
num quarto só

O Corrupi√£o

Escaveirado corrupi√£o idiota,
Olha a atmosfera livre, o amplo éter belo,
E a alga cript√≥gama e a √ļsnea e o cogumelo,
Que do fundo do ch√£o todo o ano brota!

Mas a √Ęnsia de alto voar, de √† antiga rota
Voar, n√£o tens mais! E pois, preto e amarelo,
P√Ķes-te a assobiar, bruto, sem cerebelo
A gargalhada da √ļltima derrota!

A gaiola aboliu tua vontade.
Tu nunca mais ver√°s a liberdade! …
Ah! Tu somente ainda és igual a mim.

Continua a comer teu milho alpiste.
Foi este mundo que me fez t√£o triste,
Foi a gaiola que te p√īs assim!

Paix√£o Secreta

Acordei com os primeiros p√°ssaros,
j√° minha l√Ęmpada morria.
Fui até à janela aberta e sentei-me,
com uma grinalda fresca
nos cabelos desatados…
Ele vinha pelo caminho
na névoa cor de rosa da manhã.
Trazia ao pescoço
uma cadeia de pérolas
e o sol batia-lhe na fronte.
Parou à minha porta
e disse-me ansioso:
‚ÄĒ Onde est√° ela?
Tive vergonha de lhe dizer:
‚ÄĒ Sou eu, belo caminhante,
sou eu.

Anoitecia
e ainda n√£o tinham acendido as luzes.
Eu atava o cabelo, desconsolada.
Ele chegava no seu carro
todo vermelho, aceso pelo sol poente.
Trazia o fato cheio de poeira.
Fervia a espuma
na boca anelante dos seus cavalos…
Desceu à minha porta
e disse-me com voz cansada:
‚ÄĒ Onde est√° ela?
Tive vergonha de lhe dizer:
‚ÄĒ Sou eu, fatigado caminhante,
sou eu.

Noite de Abril.
A l√Ęmpada arde neste meu quarto
que a brisa do Sul
enche suavemente.
O papagaio palrador
dorme na sua gaiola.
O meu vestido é azul
como o pescoço dum pavão,

Continue lendo…

Pensamento e Acção

O movimento não é progresso, assim como a actividade não é realização. O esquilo na sua gaiola rotativa faz movimento e mostra actividade sem chegar a parte alguma. Quem se deixa ir ao sabor das ondas pode ter grande actividade mas mover-se para trás. A sua energia pode dissipar-se, como o vapor de água no espaço vazio, se falar demais sobre os seus planos. Seja um executor, não um falador.
¬ęPense¬Ľ, sim, mas n√£o divague at√© outra pessoa pensar, resolver e agir. O homem que tem de ser convencido a agir antes de entrar em actividade n√£o √© um homem de ac√ß√£o… tem de agir conforme respira. Proceda como se fosse imposs√≠vel falhar. S√≥ as suas ac√ß√Ķes determinam e mostram o seu valor. Se ficar recostado e quieto a ver o mundo passar – o mundo passa mesmo. N√£o h√° nenhuma for√ßa do destino a planear a vida dos homens. O que nos sucede, de bom ou de mau, √© quase sempre o resultado da nossa ac√ß√£o ou da falta dela. A ac√ß√£o √© a base de qualquer realiza√ß√£o.

A Superficialidade dos Grandes Espíritos

N√£o h√° nada de mais perigoso para o esp√≠rito do que a sua rela√ß√£o com as grandes coisas. Algu√©m deambula por uma floresta, sobe a um monte e v√™ o mundo estendido a seus p√©s, olha para um filho que lhe colocam pela primeira vez nos bra√ßos, ou desfruta da felicidade de assumir uma posi√ß√£o invejada por todos. Perguntamos: o que se passa nele em tais momentos? Ele pr√≥prio certamente pensa que s√£o muitas coisas, profundas e importantes; mas n√£o tem presen√ßa de esp√≠rito suficiente para, por assim dizer, as tomar √† letra. O que h√° de admir√°vel, diante dele e fora dele, que o encerra numa esp√©cie de gaiola magn√©tica, arranca os pensamentos do seu interior. O seu olhar perde-se em mil pormenores, mas ele tem a secreta sensa√ß√£o de ter esgotado todas as muni√ß√Ķes. L√° fora, esse momento inspirado, solar, profundo, essa grande hora, recobre o mundo com uma camada de prata galvanizada que penetra todas as folhinhas e veias; mas na outra extremidade em breve se come√ßa a notar uma certa falta de subst√Ęncia interior, e nasce a√≠ uma esp√©cie de grande ¬ęO¬Ľ, redondo e vazio. Este estado √© o sintoma cl√°ssico do contacto com tudo o que √© eterno e grande,

Continue lendo…

Noite Fechada

L.

Lembras-te tu do s√°bado passado,
Do passeio que demos, devagar,
Entre um saudoso g√°s amarelado
E as carícias leitosas do luar?

Bem me lembro das altas ruazinhas,
Que ambos nós percorremos de mãos dadas:
Às janelas palravam as vizinhas;
Tinham lívidas luzes as fachadas.

Não me esqueço das cousas que disseste,
Ante um pesado tempo com recortes;
E os cemitérios ricos, e o cipreste
Que vive de gorduras e de mortes!

Nós saíramos próximo ao sol-posto,
Mas seguíamos cheios de demoras;
N√£o me esqueceu ainda o meu desgosto
Nem o sino rachado que deu horas.

Tenho ainda gravado no sentido,
Porque tu caminhavas com prazer,
Cara rapada, gordo e presumido,
O padre que parou para te ver.

Como uma mitra a c√ļpula da igreja
Cobria parte do ventoso largo;
E essa boca viçosa de cereja
Torcia risos com sabor amargo.

A Lua dava trêmulas brancuras,
Eu ia cada vez mais magoado;
Vi um jardim com √°rvores escuras,
Como uma jaula todo gradeado!

E para te seguir entrei contigo
Num p√°tio velho que era dum canteiro,

Continue lendo…