Cita√ß√Ķes sobre Oculto

47 resultados
Frases sobre oculto, poemas sobre oculto e outras cita√ß√Ķes sobre oculto para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Memória Consentida

Neste lugar sem tempo nem memória,
nesta luz absoluta ou absurda,
ou só escuridão total, relances há
em que creio, ou se me afigura,
ter tido, alguma vez, passado

com biografia, onde se misturam
datas, nomes, caras, paisagens
que, de t√£o r√°pidas, me deixam
apenas a lembrança agoniada
de n√£o mais poder lembr√°-las.

Sobra, por vezes, um estilhaço
ou fragmento, como o latido
de um c√£o na tarde dolente
e comprida de uma remota inf√Ęncia.
Ou o indistinto murm√ļrio de vozes

junto de um rio que, como as vozes,
n√£o existe j√° quando para ele
volvo, surpreso, o olhar cansado.
Insidiosas, rangem t√°buas no soalho,
ou é o sussurro brando do vento

no zinco ondulado, na fronde umbrosa
dos eucaliptos de perfil no horizonte,
com o mar ao fundo. Que soalho,
de que casa, que vento em que paragens,
onde o mar ao longe que, entrevistos,

os n√£o vejo j√° ou, sequer, recordo
na brevidade do instante cruel?
De que sonho, ou vida, ou espaço de outrem
provêm tais sombras melancólicas,

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Pecador Endurecido

Se por segredo oculto, alto destino
Da próvida, admirável natureza,
Do diamante lavrar pode a dureza
O sangue do cordeiro peregrino,

Lavrar deveis meu peito diamantino,
Amante Deus, pois somos nesta empresa,
Eu, um retrato vivo da fereza,
Vós, da brandura um exemplar divino.

Firme esperança de remédio posso
Ter, meu Jesus, notando-vos amante,
Por mais que o peito se resista inteiro.

Lavrai meu peito com o sangue vosso,
Pois é meu peito, peito de diamante,
E vosso sangue é sangue de cordeiro.

Vida Obscura

Ninguém sentiu o teu espasmo obscuro,
√ď ser humilde entre os humildes seres.
Embriagado, tonto dos prazeres,
O mundo para ti foi negro e duro.

Atravessaste num silêncio escuro
A vida presa a tr√°gicos deveres
E chegaste ao saber de altos saberes
Tornando-te mais simples e mais puro.

NinguémTe viu o sentimento inquieto,
Magoado, oculto e aterrador, secreto,
Que o coração te apunhalou no mundo.

Mas eu que sempre te segui os passos
Sei que cruz infernal prendeu-te os braços
E o teu suspiro como foi profundo!

Soneto

NOTA: Tradução do poema de Félix Anvers

Segredo d’alma, da exist√™ncia arcano,
Eterno amor num instante concebido,
Mal sem esperança, oculto a ente humano,
E nunca de quem fê-lo conhecido.

Ai! Perto dela desapercebido
Sempre a seu lado, e só, cruel engano,
Na terra gastarei meu ser insano
Nada ousando pedir e havendo tido!

Se Deus a fez t√£o doce e carinhosa,
Contudo anda inatenta e descuidosa
Do murm√ļrio de amor que a tem seguido.

Piamente ao cru dever sempre fiel
Dir√° lendo a poesia, seu painel:
“Que mulher √©?” Sem t√™-lo compreendido.

Natal

Nasce um Deus. Outros morrem. A verdade
Nem veio nem se foi: o Erro mudou.
Temos agora uma outra Eternidade,
E era sempre melhor o que passou.

Cega, a Ci√™ncia a in√ļtil gleba lavra.
Louca, a Fé vive o sonho do seu culto.
Um novo Deus é só uma palavra.
Não procures nem creias: tudo é oculto.

Barrow-On-Furness V

H√° quanto tempo, Portugal, h√° quanto
Vivemos separados! Ah, mas a alma,
Esta alma incerta, nunca forte ou calma,
N√£o se distrai de ti, nem bem nem tanto.

Sonho, hist√©rico oculto, um v√£o recanto…
O rio Furness, que é o que aqui banha,
Só ironicamente me acompanha,
Que estou parado e ele correndo tanto …

Tanto? Sim, tanto relativamente…
Arre, acabemos com as distin√ß√Ķes,
As subtilezas, o interstício, o entre,
A metaf√≠sica das sensa√ß√Ķes –

Acabemos com isto e tudo mais …
Ah, que √Ęnsia humana de ser rio ou cais!

√Č por vezes um espinho oculto e insuport√°vel, que temos cravado na carne, que nos torna dif√≠ceis e duros para com toda a gente.

A Multid√£o Embrutece

Assim que muitos homens se encontram juntos, perdem-se. A multidão transporta as suas unidades do presente para o passado e precipita-as de cima para baixo: trata-se de um recuo e uma decadência.
Todo o homem, l√° dentro, converte-se noutro – mas pior. Nas multid√Ķes, a uni√£o √© constitu√≠da pelos inferiores e fundada nas partes inferiores de todas as almas. S√£o florestas em que os ramos altos n√£o se entrela√ßam, mas apenas, em baixo na escurid√£o, as ra√≠zes terrosas. Todos perdem o que os torna diferentes e melhores, enquanto o antigo r√ļstico – que, entre obst√°culos, morda√ßas e a√ßaimos, parecia aniquilado – acorda e muge. Em todas as multid√Ķes, como em toda a Humanidade, os med√≠ocres s√£o infinitamente mais que os grandes, os calmos que os violentos, os simples que os profundos, os primitivos que os civilizados, e √© a maioria que cria a alma comum que imbrica e nivela todo o agrupamento de homens.
Aquele que em cada um forma o seu superior n√£o pode conformar-se e fundir-se – √© a pessoa √ļnica e, portanto, incomunic√°vel. Toda a pessoa se op√Ķe √†s outras, existe enquanto √© diferente, n√£o se pode liquefazer num todo. Mas h√° em cada um de n√≥s,

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Perfume da Rosa

Quem bebe, rosa, o perfume
Que de teu seio respira?
Um anjo, um silfo? ou que nume
Com esse aroma delira?

Qual é o deus que, namorado,
De seu trono te ajoelha,
E esse néctar encantado
Bebe oculto, humilde abelha?

РNinguém? РMentiste: essa frente
Em languidez inclinada,
Quem ta p√īs assim pendente?
Dize, rosa namorada.

E a cor de p√ļrpura viva
Como assim te desmaiou?
e essa palidez lasciva
Nas folhas quem ta pintou?

Os espinhos que t√£o duros
Tinhas na rama lustrosa,
Com que magos esconjuros
Tos desarmam, ó rosa?

E porquê, na hástea sentida
Tremes tanto ao p√īr do sol?
Porque escutas t√£o rendida
O canto do rouxinol?

Que eu n√£o ouvi um suspiro
Sussurrar-te na folhagem?
Nas √°guas desse retiro
N√£o espreitei a tua imagem?

N√£o a vi aflita, ansiada…
– Era de prazer ou dor? –
Mentiste, rosa, és amada,
E também tu amas, flor.

Mas ai! se n√£o for um nume
O que em teu seio delira,

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Colegial

Gosto de v√™-la, assim… Quando √† tarde ela vem
fisionomia suave, ingenuamente franca…
Toda a rua se alegra, e eu me alegro também
com o seu vulto feliz: saia azul, blusa branca…

Quantos nadas de sonho o seu olhar contém!
A luz viva do olhar ninguém talvez lhe arranca.
– Gosto de ve-la, sim… E ficam-lhe t√£o bem
aquela saia azul, e aquela blusa branca…

Azul: Рazul é a cor da vida que ela sonha!
E branca: Рbranca é a cor da sua alma de criança
onde ela própria se olha irrequieta e risonha

Feliz… N√£o tem presente e ainda nem tem passado…
Só o futuro, Рe o futuro é uma imensa esperança
um mundo que ainda fica oculto do outro lado!

Confiss√£o

Vivo um drama interior.
J√° nele pouco a pouco me consumo.
E de tanto te buscar,
Mas sem nunca te encontrar,
Sou como um barco sem leme,
Que perdesse o rumo,
No alto mar.

Da minha vida, assim,
O que vai ser nem sei!
Dias alegres houvesse…
E os dias s√£o para mim
Rosas mortas de um jardim
Que um vendaval desfizesse.

Tenho horas bem amargas.
Eu o confesso,
Eu o digo.
E se tudo passa e esqueço,
Esquecer o teu perfil
√Č coisa que eu n√£o consigo.

Sofro por ti. O frio do que morre
Amortalha a minha alma em saudade.
Atr√°s de uma ilus√£o a minha vida corre,
Como se fora atr√°s de uma verdade.

A Deus peço, por fim, o meu sossego antigo.
N√£o me persiga mais o teu busto delgado.
Passo os dias e as noites a sonhar contigo,
Na cruz da tua ausência estou crucificado.

A tua falta sinto. N√£o o oculto.
Ocult√°-lo seria uma mentira.
Vejo por toda a parte a sombra do teu vulto,

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Barrow-on-Furness

I

Sou vil, sou reles, como toda a gente
Não tenho ideais, mas não os tem ninguém.
Quem diz que os tem é como eu, mas mente.
Quem diz que busca é porque não os tem.

√Č com a imagina√ß√£o que eu amo o bem.
Meu baixo ser porém não mo consente.
Passo, fantasma do meu ser presente,
√Čbrio, por intervalos, de um Al√©m.

Como todos n√£o creio no que creio.
Talvez possa morrer por esse ideal.
Mas, enquanto n√£o morro, falo e leio.

Justificar-me? Sou quem todos s√£o…
Modificar-me? Para meu igual?…
‚ÄĒ Acaba j√° com isso, √≥ cora√ß√£o!

II

Deuses, forças, almas de ciência ou fé,
Eh! Tanta explicação que nada explica!
Estou sentado no cais, numa barrica,
E não compreendo mais do que de pé.

Por que o havia de compreender?
Pois sim, mas também por que o não havia?
√Āgua do rio, correndo suja e fria,
Eu passo como tu, sem mais valer…

√ď universo, novelo emaranhado,
Que paciência de dedos de quem pensa
Em outras cousa te p√Ķe separado?

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Tenho Medo de Escrever

Tenho medo de escrever. √Č t√£o perigoso. Quem tentou, sabe. Perigo de mexer no que est√° oculto ‚ÄĒ e o mundo n√£o est√° √† tona, est√° oculto em suas ra√≠zes submersas em profundidades do mar. Para escrever tenho que me colocar no vazio. Neste vazio √© que existo intuitivamente. Mas √© um vazio terrivelmente perigoso: dele arranco sangue. Sou um escritor que tem medo da cilada das palavras: as palavras que digo escondem outras ‚ÄĒ quais? talvez as diga. Escrever √© uma pedra lan√ßada no po√ßo fundo.

Tenho Medo de Perder a Maravilha

Tenho medo de perder a maravilha
de teus olhos de est√°tua e aquele acento
que de noite me imprime em plena face
de teu alento a solit√°ria rosa.

Tenho pena de ser nesta ribeira
tronco sem ramos; e o que mais eu sinto
é não ter a flor, polpa, ou argila
para o gusano do meu sofrimento.

Se és o tesouro meu que oculto tenho
se és minha cruz e minha dor molhada,
se de teu senhorio sou o c√£o,

n√£o me deixes perder o que ganhei
e as √°guas decora de teu rio
com as folhas do meu outono esquivo.

Tradução de Oscar Mendes

Interrogação

Onde é que está essa mulher fadada,
Que o meu sonho criou num desvario,
Acaso existe, acaso foi criada,
Ou vive apenas porque eu a crio?

Onde é que vive essa mulher sonhada,
Da minha mesa o vinho e o loiro trigo,
Acaso morta jaz desfeita em nada?
Acaso, assim, h√°-de vir ter comigo?

Onde é que existe essa mulher que um dia
Eu me pus a chamar e n√£o me ouviu,
Onde é que passa oculta a sua vida,
Acaso nunca essa mulher me viu?

Acaso, às vezes penso, essa mulher
Traz em sua alma algum poder oculto,
Para que nunca, ou uma vez sequer,
Caísse em mim a sombra do seu vulto?

Acaso nunca essa mulher que eu sonho,
Há-de vir abraçar-se ao meu desejo,
Pondo em mim esse amor que nela eu ponho,
Acaso nunca me dar√° um beijo?

Acaso nunca essa mulher que eu amo,
Como se pode amar com mais loucura,
Há-de vir até mim quando eu a chamo,
Para me dar um pouco de ternura?

Acaso nunca essa mulher dilecta
Enxugar√° meus olhos ao sol-p√īr,

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A Mancha Humana

– √Č o resultado de ter sido criado entre n√≥s – disse Faunia. – √Č o resultado de passar toda a vida com pessoas como n√≥s. A mancha humana – acrescentou, mas sem repulsa, desprezo ou condena√ß√£o. Nem sequer com tristeza. As coisas s√£o como s√£o – √† sua maneira seca e concisa, era s√≥ isso que ela estava a dizer √† rapariga que dava de comer √† serpente: n√≥s deixamos uma mancha, deixamos um rasto, deixamos a nossa marca. Impureza, crueldade, mau trato, erro, excremento, s√©men. N√£o h√° outra maneira de estar aqui. N√£o tem nada a ver com desobedi√™ncia. Nem com gra√ßa, ou salva√ß√£o, ou reden√ß√£o. Est√° em todos. Sopro interior. Inerente. Determinante. A mancha que existe antes da sua marca. Sem o sinal de que est√° l√°. A mancha que √© t√£o intr√≠nseca que n√£o precisa de uma marca. A mancha que precede a desobedi√™ncia, que engloba a desobedi√™ncia e confunde toda e qualquer explica√ß√£o e compreens√£o. √Č por isso que toda a purifica√ß√£o √© uma anedota. √Č uma anedota b√°sica, ainda por cima. A fantasia da pureza √© aterradora. √Č demencial. O que √° √Ęnsia de purificar sen√£o impureza?

Tudo quanto estava a dizer acerca da mancha era que ela é inelutável.

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Diante de um estranho não faças nada que deva ficar oculto

Diante de um estranho não faças nada que deva ficar oculto, porque não sabes o que ele divulgará.

Voltar ao Passado

E se procurarem saber porque √© que todas as imagina√ß√Ķes humanas, frescas ou murchas, tristes ou alegres, se voltam para o passado, curiosas de nele penetrarem, achar√£o sem d√ļvida que o passado √© o nosso √ļnico passeio e o √ļnico lugar onde possamos escapar dos nossos aborrecimentos quotidianos, das nossas mis√©rias, de n√≥s mesmos. O presente √© turvo e √°rido, o futuro est√° oculto.