Passagens sobre Ofício

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Frases sobre of√≠cio, poemas sobre of√≠cio e outras passagens sobre of√≠cio para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

No meu of√≠cio de escritor, penso n√£o me ter afastado nunca da minha consci√™ncia de cidad√£o. Defendo que aonde vai um, deve ir o outro. N√£o recordo ter escrito uma s√≥ palavra que estivesse em contradi√ß√£o com as minhas convic√ß√Ķes pol√≠ticas, mas isso n√£o significa que alguma vez tenha posto a literatura ao servi√ßo da minha ideologia. O que significa, isso sim, √© que no momento em que escrevo estou expressando a totalidade da pessoa que sou.

O Lucro de Um é Prejuízo de Outro

O ateniense Dêmades condenou um homem da sua cidade que tinha por ofício vender as coisas necessárias para os enterros, sob a alegação de que exigia um lucro excessivo e esse lucro não lhe podia vir sem a morte de muitas pessoas. Tal julgamento parece estar mal pronunciado, na medida em que não se obtém benefício algum a não ser com prejuízo de outrem, e que dessa maneira seria preciso condenar toda a espécie de ganho.
O mercador s√≥ faz bem os seus neg√≥cios por causa da devassid√£o dos jovens; o lavrador, pela carestia dos cereais; o arquitecto, pela ru√≠na das casas; os oficiais de justi√ßa, pelos processos e contendas dos homens; mesmo as honras e a actividade dos ministros da religi√£o prov√™m da nossa morte e dos nossos v√≠cios. Nenhum m√©dico se alegra com a sa√ļde mesmo dos seus amigos, diz o antigo c√≥mico grego, nem o soldado com a paz da sua cidade; e assim sucessivamente. E o que √© pior: cada um sonde dentro de si mesmo, e descobrir√° que a maioria dos nossos desejos √≠ntimos nascem e alimentam-se √†s expensas de outrem.
Considerando isso, veio-me à mente que nisso a natureza não contradiz a sua organização geral,

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A Beleza Real

Quando então alguém, subindo a partir do que aqui é belo, através do correcto amor aos jovens, começa a contemplar aquele belo, quase que estaria a atingir o ponto final. Eis, com efeito, em que consiste o proceder correctamente nos caminhos do amor ou por outro que se deixe conduzir: em começar do que aqui é belo e, em vista daquele belo, subir sempre, como que servindo-se de degraus, de um só para dois e de dois para todos os belos corpos, e dos belos corpos para os belos ofícios, e dos ofícios para as belas ciências até que das ciências acabe naquela ciência, que de nada mais é senão daquele próprio belo, e conheça enfim o que em si é belo.
Nesse ponto da vida, meu caro Sócrates, continuou a estrangeira de Mantinéia, se é que em outro mais, poderia o homem viver, a contemplar o próprio belo. Se algum dia o vires, não é como ouroou como roupa que ele te parecerá ser, ou como os belos jovens adolescentes, a cuja vista ficas agora aturdido e disposto, tu como outros muitos, contanto que vejam seus amados e sempre estejam com eles, a nem comer nem beber, se de algum modo fosse possível,

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O que Poder√° Ver quem j√° da Vista Cegou?

Ante Sintra, a mui prezada,
e serra de Ribatejo
que Arrábeda é chamada,
perto donde o rio Tejo
se mete n’√°gua salgada,
houve um pastor e pastora,
que com tanto amor se amaram
como males lhe causaram
este bem, que nunca fora,
pois foi o que n√£o cuidarom.

A ela chamavam Maria
e ao pastor Crisfal,
ao qual, de dia em dia,
o bem se tornou em mal,
que ele t√£o mal merecia.
Sendo de pouca idade,
n√£o se ver tanto sentiam
que o dia que n√£o se viam,
se via na saudade
o que ambos se queriam.

Algumas horas falavam,
andando o gado pascendo;
e ent√£o se apascentavam
os olhos, que, em se vendo,
mais famintos lhe ficavam.
E com quanto era Maria
pequena e, tinha cuidado
de guardar melhor o gado
o que lhe Crisfal dizia;
mas, em fim, foi mal guardado;

Que, depois de assim viver
nesta vida e neste amor,
depois de alcançado ter
maior bem pera mor dor,
em fim se houve de saber
por Joana,

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Sou um sobrevivente como qualquer outro. A arte √© um of√≠cio, uma paix√£o que as pessoas t√™m. O usur√°rio tem uma paix√£o pelo dinheiro e junta o dinheiro para nada ‚Äď √© triste. O artista tende ao absoluto; pode tamb√©m estar numa situa√ß√£o de revolta. N√£o √© exactamente o meu caso, embora muitas vezes me revolte.

Aprende algum ofício; pois quando a fortuna vai embora de repente, o ofício fica e nunca deixa a vida da pessoa.

O Poeta não é um Pequeno Deus

O poeta n√£o √© um ¬ępequeno deus¬Ľ. N√£o, n√£o √© um ¬ępequeno deus¬Ľ. N√£o est√° amrcado por um destino cabal√≠stico superior ao de quem exerce outros misteres e of√≠cios. Exprimi ami√ļde que o melhor poeta √© o homem que nos entrega o p√£o de cada dia: o padeiro mais pr√≥ximo, que n√£o se julga deus. Cumpre a sua majestosa e humilde tarefa de amassar, levar ao forno, dourar e entregar o p√£o de cada dia, com uma obriga√ß√£o comunit√°ria. E se o poeta chega a atingir essa simples consci√™ncia, a simples consci√™ncia tamb√©m se pode converter em parte de uma artesania colossal, de uma constru√ß√£o simples ou complicada, que √© a constru√ß√£o da sociedade, a transforma√ß√£o das condi√ß√Ķes que rodeiam o homem, a entrega da mercadoria: p√£o, verdade, vinho, sonhos.

Se o poeta se incorpora nessa nunca consumida luta para cada um confiar nas mãos dos outros a sua ração de compromisso, a sua dedicação e a sua ternura pelo trabalho comum de cada dia e de todos os homens, participa no suor, no pão, no vinho, no sonho de toda a humanidade. Só por esse caminho inalienável de sermos homens comuns conseguiremos restituir à poesia o vasto espaço que lhe vão abrindo em cada época,

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Os Actos Valem mais que as Palavras

Nenhuma explica√ß√£o verbal poder√° alguma vez substituir a contempla√ß√£o. A unidade do Ser n√£o √© transmiss√≠vel pelas palavras. Se eu quisesse ensinar a homens, cuja civiliza√ß√£o o desconhecesse, o que √© o amor a uma p√°tria ou a uma quinta, n√£o disporia de argumento algum para os convencer. S√£o os campos, as pastagens e o gado que constituem uma quinta. Todos e cada um deles t√™m como miss√£o produzir riqueza. No entanto, h√° alguma coisa na quinta que escapa √† an√°lise dos seus componentes, pois existem propriet√°rios que, por amor √† sua quinta, se arruinariam para a salvar. Pelo contr√°rio, √© essa ¬ęalguma coisa¬Ľ que enriquece com uma qualidade particular os componentes. Estes tornam-se gado de uma quinta, prados de uma quinta, campos de uma quinta…
Assim se passa a ser homem de uma pátria, de um ofício, de uma civilização, de uma religião. Mas, para que alguém se reclame de tais Seres, convém, antes de mais, fundá-los em si próprio. E, se não existir o sentimento da pátria, nenhuma linguagem o transmitirá. O Ser de que nos reinvindicamos não o fundamos em nós senão por actos. Um Ser não pertence ao domínio da linguagem, mas dos actos. O nosso Humanismo desprezou os actos.

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Pessoas do mesmo of√≠cio raramente se encontram, mesmo que em alegria ou divers√£o, mas se tiver lugar, a conversa acaba na conspira√ß√£o contra o p√ļblico, ou em qualquer artif√≠cio para fazer subir os pre√ßos.

Soneto IV – A Uma Senhora

Dos meus lares, dos meus que choro ausente,
Me vieste acordar saudade ímpia,
Tu, amada do Anjo d’Harmonia,
Que te fazes ouvir t√£o docemente.

Do piano o teclado obediente
Ao teu tocar encheu-se de magia,
E l√° dos mortos na soid√£o sombria
Operou-se um milagre de repente.

A morte sobre a fouce, entristecida,
Amarguradas l√°grimas verteu,
Talvez do fero ofício arrependida!

Bellini do sepulcro a pedra ergueu;
E, cheio de alegria desmedida,
C’um sorriso de gl√≥ria um ‚ÄĒ bravo ‚ÄĒ deu.

Proémio

Em nome daquele que a Si mesmo se criou!
De toda eternidade em ofício criador;
Em nome daquele que toda a fé formou,
Confiança, actividade, amor, vigor;
Em nome daquele que, tantas vezes nomeado,
Ficou sempre em essência imperscrutado:

Até onde o ouvido e o olhar alcançam,
A Ele se assemelha tudo o que conheces,
E ao mais alto e ardente voo do teu ‘sp√≠rito
J√° basta esta par√°bola, esta imagem;
Sentes-te atraído, arrastado alegremente,
E, onde quer que v√°s, tudo se enfeita em flor;
J√° nada contas, nem calculas j√° o tempo,
E cada passo teu é já imensidade.

*

Que Deus seria esse então que só de fora impelisse,
E o mundo preso ao dedo em volta conduzisse!
Que Ele, dentro do mundo, faça o mundo mover-se,
Manter Natureza em Si, e em Natureza manter-Se,
De modo que ao que nele viva e teça e exista
A Sua força e o Seu génio assista.

*

Dentro de nós há também um Universo;
Daqui nasceu nos povos o louv√°vel costume
De cada qual chamar Deus,

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A Imortalidade Pela Literatura, a Filosofia Como Meio de a Aceder

Simone de Beauvoir: Com que contava para sobreviver Рna medida em que pensava sobreviver: com a literatura ou com a filosofia? Como sentia a sua relação com a literatura e a filosofia? Prefere que as pessoas gostem da sua filosofia ou da sua literatura, ou quer que gostem das duas?
Jean-Paul Sartre: Claro que responderei: que gostem das duas. Mas h√° uma hierarquia, e a hierarquia √© a filosofia em segundo e a literatura em primeiro. Desejo obter a imortalidade pela literatura, a filosofia √© um meio de aceder a ela. Mas aos meus olhos ela n√£o tem em si um valor absoluto, porque as circunst√Ęncias mudar√£o e trar√£o mudan√ßas filos√≥ficas. Uma filosofia n√£o √© v√°lida por enquanto, n√£o √© uma coisa que se escreve para os contempor√Ęneos; ela especula sobre realidades intemporais; ser√° for√ßosamente ultrapassada por outros porque fala da eternidade; fala de coisas que ultrapassam de longe o nosso ponto de vista individual de hoje; a literatura, pelo contr√°rio, inventaria o mundo presente, o mundo que se descobre atrav√©s das leituras, das conversas, das paix√Ķes, das viagens; a filosofia vai mais longe; ela considera que as paix√Ķes de hoje, por exemplo, s√£o paix√Ķes novas que n√£o existiam na Antiguidade;

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As Nuvens

Hei-de aprender um of√≠cio de que goste, h√° t√£o poucos, talvez carpinteiro, ou pedreiro. Construiria uma casa neste ch√£o de areia com pedras h√ļmidas, lisas ou cheias de limos, frias, s√£o t√£o bonitas, com seus veios cruzando-se, ou afastando-se de costas uns para os outros. Havia de meter-me por esses mi√ļdos caminhos de chibas para ver, ao fim da tarde, chegar os saltimbancos em toda a sua gl√≥ria, que me apontam as nuvens lentas, muito brancas, afastando-se.

Trata de saborear a vida; e fica sabendo, que a pior filosofia é a do choramingas que se deita à margem do rio para o fim de lastimar o curso incessante das águas. O ofício delas é não parar nunca; acomoda-te com a lei, e trata de aproveitá-la.

A Meu Pai Morto

Madrugada de Treze de janeiro.
Rezo, sonhando, o ofício da agonia.
Meu Pai nessa hora junto a mim morria
Sem um gemido, assim como um cordeiro!

E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro!
Quando acordei, cuidei que ele dormia,
E disse à minha Mãe que me dizia:
“Acorda-o”! deixa-o, M√£e, dormir primeiro!

E saí para ver a Natureza!
Em tudo o mesmo abismo de beleza,
Nem uma n√©voa no estrelado v√©u…

Mas pareceu-me, entre as estrelas flóreas,
Como Elias, num carro azul de glórias,
Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu!

Soneto XXXXII

Dai-me raz√£o, Baptista, que conclua
Porque sois voz que no deserto brada,
Se Deus tem j√° sua palavra dada
De a seu filho chamar palavra sua.

E não é bem que se vos atribua
Nome que a Deus para seu filho agrada.
Quanto ua confiss√£o desenganada
Obrou, temo esta voz tanto destrua.

Ah! quanto é seu ofício à voz conforme,
Desperta a voz, mas a palavra fala,
Mil vezes com quem dorme usamos isto.

Vem Deus falar c’o Mundo, e porque dorme
Primeiro a voz lhe manda que o abala,
O Baptista desperta, e fala Cristo.

Ao Lado do Ofício de Mandar Deve Andar o de Sugerir

Ningu√©m pode mandar s√≥, se houver de mandar como conv√©m. Ao lado do of√≠cio de mandar, deve andar sempre o of√≠cio de sugerir, ou como companheiro, ou como instrumento insepar√°vel. A obriga√ß√£o e exerc√≠cio deste segundo e t√£o importante of√≠cio, √© o que significa a mesma palavra sugerir; que vem a ser, lembrar, advertir, inspirar, aconselhar, conferir, persuadir, despertar, instar. Os talentos que para o mesmo of√≠cio se requerem, s√£o maiores e mais relevantes: grande entendimento, grande compreens√£o, grande ju√≠zo, grande conselho, grande zelo, grande fidelidade, grande vigil√Ęncia, grande cuidado, grande valor. As disposi√ß√Ķes e os meios com que se exercita, ainda s√£o de mais altas e mais interiores prerrogativas: suma comunica√ß√£o, suma confian√ßa, √≠ntima amizade, √≠ntima familiaridade, √≠ntimo amor; e n√£o s√≥ perfeita uni√£o, sen√£o ainda unidade. De sorte que os dous sujeitos em que concorrerem estes dous of√≠cios, de tal maneira h√£o-de ser dous, que verdadeiramente sejam um: de tal maneira h√£o-de ser diversos, que verdadeiramente sejam o mesmo. H√°-se de multiplicar neles o n√ļmero, mas n√£o se h√°-de dividir a unidade.