Passagens sobre Porcos

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Frases sobre porcos, poemas sobre porcos e outras passagens sobre porcos para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Quando encontrares um moralista, considera-o com respeito, a uma prudente dist√Ęncia; porque a moral √© como a estricnina: vive na carne do porco.

Infeliz do homem cuja vida se prolonga na mediocridade. Que seja contado entre as vacas e porcos aquele que n√£o tem outra preocupa√ß√£o al√©m do seu est√īmago.

√örsula chorava na mesa como se estivesse lendo as cartas que nunca chegaram, nas quais Jos√© Arcadio relatava as suas fa√ßanhas e desventuras. “E tanto lugar aqui, meu filho”, solu√ßava. “E tanta comida jogada aos porcos!”

Sou afeiçoado aos porcos. Os cães olham-nos submissamente, os gatos com desprezo. Os porcos tratam-nos como iguais.

Uma Vida Exterior Simples e Modesta Só Pode Fazer Bem

Uma vida exterior simples e modesta s√≥ pode fazer bem, tanto ao corpo como ao esp√≠rito. N√£o creio de modo algum na liberdade do ser humano, no sentido filos√≥fico. Cada um age n√£o s√≥ sob press√£o exterior como tamb√©m de acordo com a sua necessidade interior. O pensamento de Schopenhauer: ¬ęO homem pode, na verdade, fazer o que quiser, mas n√£o pode querer o que quer¬Ľ, impressionou-me vivamente desde a juventude e tem sido para mim um consolo constante e uma fonte inesgot√°vel de toler√Ęncia. Esse conhecimento suaviza ben√©ficamente o sentimento de responsabilidade levemente inibit√≥rio e faz com que n√£o tomemos demasiado a s√©rio, para n√≥s e para os outros, uma concep√ß√£o de vida que justifica de modo especial a exist√™ncia do humor.
Do ponto de vista objectivo, pareceu-me sempre desprovido de senso querer-se indagar sobre o sentido ou a finalidade da própria existência ou da existência da criação. E, no entanto, cada homem tem certos ideais, que o orientam nos seus esforços e juízos. Neste sentido o bem-estar e a felicidade nunca me pareceram um fim em si (chamo a esta base ética o ideal da vara de porcos). Os ideais que me iluminavam e me encheram incessantemente de alegre coragem de viver foram sempre a bondade,

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O Natal de Minha M√£e

A abstracção não precisa de mãe nem pai
nem t√£o pouco de t√£o tolo infante

mas o natal de minha mãe é ainda o meu natal
com restos de Beira Alta

ano após ano via surgir figura nova nesse
pres√©pio de vaca burro banda de m√ļsica

ribeiro com patos farrapos de algod√£o muito
musgo percorrido por ovelhas e pastores

multid√£o de gente judaizante estremenha pela
m√£o de meu pai descendo de montes contando

moedas azenhas movendo √°gua levada pela estrela
de Belém

um galo bate as asas um frade est√° de acordo
com a nossa circuncis√£o galinhas debicam milho

de mistura com um porco a que minha avó juntava
sempre um gato para dar sorte era preto

assim íamos todos naquela figuração animada
até ao dia de Reis aí estão

um de joelhos outro em pé
e o rei preto vinha sentado no

camelo. Era o mais bonito.
depois eram filhoses o acordar de prenda no

sapato tudo t√£o real como o abrir das lojas no dia
de feira

e eu ia ao Sanguinhal visitar a minha prima que
tinha um cavalo debaixo do quarto

subindo de vales descendo de montes
acompanhando a banda do carvalhal com ferrinhos

e roucas trompas o meu Natal é ainda o Natal de
minha m√£e com uns restos de canela e Beira Alta.

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A Portugal

Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
Nem é ditosa, porque o não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta.
Nem pátria minha, porque eu não mereço
A pouca sorte de nascido nela.

Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
quanto esse arroto de passadas glórias.
Amigos meus mais caros tenho nela,
saudosamente nela, mas amigos s√£o
por serem meus amigos, e mais nada.

Torpe dejecto de romano império;
babugem de invas√Ķes; salsugem porca
de esgoto atl√Ęntico; irris√≥ria face
de lama, de cobiça, e de vileza,
de mesquinhez, de fatua ignor√Ęncia;
terra de escravos, cu pró ar ouvindo
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
terra de funcion√°rios e de prostitutas,
devotos todos do milagre, castos
nas horas vagas de doença oculta;
terra de heróis a peso de ouro e sangue,
e santos com balc√£o de secos e molhados
no fundo da virtude; terra triste
à luz do sol calada, arrebicada, pulha,
cheia de af√°veis para os estrangeiros
que deixam moedas e transportam pulgas,
oh pulgas lusitanas, pela Europa;

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√Č prefer√≠vel ser um homem insatisfeito do que um porco satisfeito; √© prefer√≠vel ser S√≥crates insatisfeito do que um imbecil satisfeito.

Descri√ß√£o Da Cidade De Sergipe D’el-Rei

Tr√™s d√ļzias de casebres remendados,
Seis becos, de mentrastos entupidos,
Quinze soldados, rotos e despidos,
Doze porcos na praça bem criados.

Dois conventos, seis frades, três letrados,
Um juiz, com bigodes, sem ouvidos,
Três presos de piolhos carcomidos,
Por comer dois meirinhos esfaimados.

As damas com sapatos de baeta,
Palmilha de tamanca como frade,
Saia de chita, cinta de raqueta.

O feijão, que só faz ventosidade
Farinha de pipoca, p√£o que greta,
De Sergipe d’El-Rei esta √© a cidade.

Vivemos de Matar

Os vivos alimentam-se e engordam √†s custas dos mortos. √Č a ess√™ncia da natureza. Basta ver os document√°rios sobre a vida selvagem na televis√£o, aves corpulentas arrancando com o bico as tripas das v√≠timas, disputando-as entre si; a leoa de focinho enterrado na carne ensanguentada da zebra. Mas nem √© preciso ir t√£o longe: as prateleiras dos supermercados s√£o deprimentes cemit√©rios: paletes de cordeiro morto, ossos e costeletas de boi esfaqueado, v√≠sceras de vaca sacrificada, lombo de porco eletrocutado, tudo isso em embalagens fabricadas com restos de √°rvores abatidas. Vivemos do que matamos. Vivemos de matar, ou do que nos √© servido morto: os herdeiros consomem os despojos do predecessor, e isso nutre-os, fortalece-os no momento de levantar voo. Quanto maior a quantidade de carne consumida, mais alto e majestoso o voo. E mais elegante, claro. Nada que seja alheio √†s regras da natureza.

O Homem Amesquinhado

Apesar do quadro negro de uma c√ļpula pol√≠tica e intelectual desvairada e grossa e de um povo abandonado a seu pr√≥prio destino, ainda havia ali, no pa√≠s, naquele espantoso ver√£o de 1955, uma consider√°vel energia vital, uma exaltada alegria de viver, acentuada, em alguns lugares e num ou noutro indiv√≠duo, ainda mais possu√≠do do gozo pleno de um extraodin√°rio senso l√ļdico tropical. Est√°vamos, poder√≠amos nos considerar como estando, num dos √ļltimos redutos do ser humano. Depois disso viria o fim, n√£o, como todos pensavam, com um estrondo, mas com um solu√ßo. A densa nuvem desceria, n√£o, como todos pensavam, feita de mol√©culas radioativas, mas da grosseria de todos os dias, acumulada, aumentada, transmitida, potenciada. O homem se amesquinharia, v√≠tima da mesquinharia do seu semelhante, cada dia menos atento a um gesto de gentileza, a um ato de beleza, a um olhar de amor desinteressado, a uma palavra dita com uma precisa propriedade. E tudo come√ßou a ficar densamente escuro, porque tudo era terrivelmente patrocinado por enlatadores de banha, fabricantes de chouri√ßo e vendedores de desodorante, de modo que toda a pretensa gra√ßa da vida se dirigia apenas √† barriga dos gordos, √† tripa dos porcos, ou, no m√°ximo de finura e eleg√Ęncia,

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O Le√£o e o Porco

O rei dos animais, o rugidor le√£o,
Com o porco engraçou, não sei por que razão.
Quis empreg√°-lo bem para tirar-lhe a sorna
(A quem torpe nasceu nenhum enfeite adorna):
Deu-lhe alta dignidade, e rendas competentes,
Poder de despachar os brutos pretendentes,
De reprimir os maus, fazer aos bons justiça,
E assim cuidou vencer-lhe a natural preguiça;
Mas em vão, porque o porco é bom só para assar,
E a sua ocupação dormir, comer, fossar.
Notando-lhe a ignor√Ęncia, o desmazelo, a inc√ļria,
Soltavam contra ele inj√ļria sobre inj√ļria
Os outros animais, dizendo-lhe com ira:
¬ęOra o que o ber√ßo d√°, somente a cova o tira!¬Ľ
E ele, apenas grunhindo a vilipêndios tais,
Ficava muito enxuto. Atenção nisto, ó pais!
Dos filhos para o génio olhai com madureza;
N√£o h√° poder algum que mude a natureza:
Um porco h√°-de ser porco, inda que o rei dos bichos
O faça cortesão pelos seus vãos caprichos.

A Essência do Fanatismo

A ess√™ncia do fanatismo consiste em considerar determinado problema como t√£o importante que ultrapasse qualquer outro. Os bizantinos, nos dias que precederam a conquista turca, entendiam ser mais importante evitar o uso do p√£o √°zimo na comunh√£o do que salvar Constantinopla para a cristandade. Muitos habitantes da pen√≠nsula indiana est√£o dispostos a precipitar o seu pa√≠s na ru√≠na por divergirem numa quest√£o importante: saber se o pecado mais detest√°vel consiste em comer carne de porco ou de vaca. Os reaccion√°rios amercianos prefiririam perder a pr√≥xima guerra do que empregar nas investiga√ß√Ķes at√≥micas qualquer indiv√≠duo cujo primo em segundo grau tivesse encontrado um comunista nalguma regi√£o. Durante a Primeira Guerra Mundial, os escoceses sabat√°rios, a despeito da escassez de v√≠veres provocada pela actividade dos submarinos alem√£es, protestavam contra a planta√ß√£o de batatas ao domingo e diziam que a c√≥lera divina, devido a esse pecado, explicava os nossos malogros militares. Os que op√Ķem objec√ß√Ķes teol√≥gicas √† limita√ß√£o dos nascimentos, consentem que a fome, a mis√©ria e a guerra persistam at√© ao fim dos tempos porque n√£o podem esquecer um texto, mal interpretado, do G√©nese. Os partid√°rios entusiastas do comunismo, tal como os seus maiores inimigos, preferem ver a ra√ßa humana exterminada pela radioactividade do que chegar a um compromisso com o mal –

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Benoit

Acende no meu peito o sério lume
Aceso no teu peito porco e bento,
E sê no medo meu, no meu tormento,
O mestre predileto, o amado nume

Capaz de iluminar, sob o cardume
De estrelas, uma estrada que, por dentro,
Percorre o meu país de amor, detento
De tudo que te fez, no mundo, estrume.

Vem dar-me o braço e me levar até
Por onde andaste, noivo e peregrino,
Da Pátria que se esconde atrás da Fé.

Ensina-me a viver o Amor Divino,
E quando o meu cajado florescer,
D√°-me o teu santo modo de morrer.

Esta Gente

Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
√Č a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do ch√£o
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo

Um Adeus Português

Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz de ombros puros e a sombra
de uma ang√ļstia j√° purificada

N√£o tu n√£o podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avan√ßa mugindo pelo t√ļnel
de uma velha dor

N√£o podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocr√°tico
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
√† alegria son√Ęmbula √† v√≠rgula man√≠aca
do modo funcion√°rio de viver

N√£o podias ficar nesta cama comigo
em tr√Ęnsito mortal at√© ao dia s√≥rdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual

N√£o podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela m√£o
a esta dor portuguesa
t√£o mansa quase vegetal

N√£o tu n√£o mereces esta cidade n√£o mereces
esta roda de n√°usea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa raz√£o absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives n√£o de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal

*

Nesta curva t√£o terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.

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