Cita√ß√Ķes sobre Restos

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Frases sobre restos, poemas sobre restos e outras cita√ß√Ķes sobre restos para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Vivemos de Matar

Os vivos alimentam-se e engordam √†s custas dos mortos. √Č a ess√™ncia da natureza. Basta ver os document√°rios sobre a vida selvagem na televis√£o, aves corpulentas arrancando com o bico as tripas das v√≠timas, disputando-as entre si; a leoa de focinho enterrado na carne ensanguentada da zebra. Mas nem √© preciso ir t√£o longe: as prateleiras dos supermercados s√£o deprimentes cemit√©rios: paletes de cordeiro morto, ossos e costeletas de boi esfaqueado, v√≠sceras de vaca sacrificada, lombo de porco eletrocutado, tudo isso em embalagens fabricadas com restos de √°rvores abatidas. Vivemos do que matamos. Vivemos de matar, ou do que nos √© servido morto: os herdeiros consomem os despojos do predecessor, e isso nutre-os, fortalece-os no momento de levantar voo. Quanto maior a quantidade de carne consumida, mais alto e majestoso o voo. E mais elegante, claro. Nada que seja alheio √†s regras da natureza.

Olhos de Lobas

Teus olhos lembram círios
Acesos n’um cemit√©rio…

Têm um fulgor estranho singular
Os teus olhos febris… Incendiados!…

Como os Clar√Ķes Finais… – Exaustinados
Dos restos dos archotes, desdeixados…
‚ÄĒ Nas criptas d’um Jazigo Tumular!…

‚ÄĒ Como a Luz que na Noute Misteriosa
‚ÄĒ Fant√°stica – Fulgisse nas Ogivas
Das Janelas de Estranho Mausol√©u!…

‚ÄĒ Mausol√©u, das Saudades do Ideal!…
‚ÄĒ Oh Saudades… Oh Luz Transcendental!
‚ÄĒ Oh mem√≥rias saudosas do Ido ao C√©u!…

‚ÄĒ Oh P√©rpetuas Febris!… – Oh Sempre Vivas!…
‚ÄĒ Oh Luz do Olhar das Lobas Amorosas!…

Este N√£o-Futuro que a Gente Vive

Ser√° que nos resta muito depois disto tudo, destes dias assim, deste n√£o-futuro que a gente vive? (…) Bom, tudo seria mais f√°cil se eu tivesse um curso, um motorista a conduzir o meu carro, e usasse gravatas sempre. √Äs vezes uso, mas √© diferente usar uma gravata no pesco√ßo e us√°-la na cabe√ßa. Tudo aconteceu a partir do momento em que eu perdi a no√ß√£o dos valores. Todos os valores se me gastaram, mesmo √† minha frente. O dinheiro gasta-se, o corpo gasta-se. A mem√≥ria. (…) N√£o me atrai ser banqueiro, ter dinheiro. H√° pessoas diferentes. Atrai-me o outro lado da vida, o outro lado do mar, alguma coisa perfeita, um dia que tenha uma manh√£ com muito orvalho, restos de geada‚Ķ De resto, n√£o tenho grandes projectos. Acho que o planeta est√° perdido e que, provavelmente, a hip√≥tese de Ant√≥nio Jos√© Saraiva est√° certa: √© melhor que isto se estrague mais um bocadinho, para ver se as pessoas t√™m mais tempo para olhar para os outros.

Frente a uma situação difícil, o Português opta pela espera de um milagre ou pela descompressão de uma anedota. O grave disto é que o milagre não vem e a anedota descomprime de tudo. Ficamos assim à mercê do azar e nem restos de razão para mexer um dedo.

Escuta, Amor

Quando damos as mãos, somos um barco feito de oceano, a agitar-se sobre as ondas, mas ancorado ao oceano pelo próprio oceano. Pode estar toda a espécie de tempo, o céu pode estar limpo, verão e vozes de crianças, o céu pode segurar nuvens e chumbo, nevoeiro ou madrugada, pode ser de noite, mas, sempre que damos as mãos, transformamo-nos na mesma matéria do mundo. Se preferires uma imagem da terra, somos árvores velhas, os ramos a crescerem muito lentamente, a madeira viva, a seiva. Para as árvores, a terra faz todo o sentido. De certeza que as árvores acreditam que são feitas de terra.

Por isto e por mais do que isto, tu estás aí e eu, aqui, também estou aí. Existimos no mesmo sítio sem esforço. Aquilo que somos mistura-se. Os nossos corpos só podem ser vistos pelos nossos olhos. Os outros olham para os nossos corpos com a mesma falta de verdade com que os espelhos nos reflectem. Tu és aquilo que sei sobre a ternura. Tu és tudo aquilo que sei. Mesmo quando não estavas lá, mesmo quando eu não estava lá, aprendíamos o suficiente para o instante em que nos encontrámos.

Aquilo que existe dentro de mim e dentro de ti,

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Para um Amigo Tenho Sempre

Para um amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse rel√≥gio n√£o marca o tempo in√ļtil.
S√£o restos de tabaco e de ternura r√°pida.
√Č um arco-√≠ris de sombra, quente e tr√©mulo.
√Č um copo de vinho com o meu sangue e o sol.

A Verdadeira Virtude

N√£o se pode pensar em virtude sem se pensar num estado e num impulso contr√°rios aos de virtude e num persistente esfor√ßo da vontade. Para me desenhar um homem virtuoso tenho que dar relevo principal ao que nele √© volunt√°rio; tenho de, talvez em esquema exagerado, lhe p√īr acima de tudo o que √© modelar e conter. Pela origem e pelo significado n√£o posso deixar de a ligar √†s fortes resolu√ß√Ķes e √† coragem civil. E um cont√≠nuo querer e uma cont√≠nua vigil√Ęncia, uma batalha perp√©tua dada aos elementos que, entendendo, classifiquei como maus; requer as n√≠tidas vis√Ķes e as almas destemidas.
Por isso não me prende o menino virtuoso; a bondade só é nele o estado natural; antes o quero bravio e combativo e com sua ponta de maldade; assim me dá a certeza de que o terei mais tarde, quando a vontade se afirmar e a reflexão distinguir os caminhos, com material a destruir na luta heróica e a energia suficiente para nela se empenhar. O que não chora, nem parte, nem esbraveja, nem resiste aos conselhos há-de formar depois nas massas submissas; muitas vezes me há-de parecer que a sua virtude consiste numa falta de habilidade para urdir o mal,

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espaço interior

quando o poema
s√£o restos do naufr√°gio
do espaço interior
numa furtiva luz
desesperada,

resvalando até
à superfície,
lisa, firme, compacta,
das coisas que todos
os dias agarramos,

quando
o poema as envolve
numa aura verbal
e se incorpora nelas,
ou s√£o elas a impor-lhe

a sua metafísica
e o espaço exterior
que povoam de
temporalidades eriçadas,
luzes cruas, sons ínfimos, poeiras.

As Rosas

Rosas que desabrochais,
Como os primeiros amores,
Aos suaves resplendores
Matinais;

Em v√£o ostentais, em v√£o,
A vossa graça suprema;
De pouco vale; é o diadema
Da ilus√£o.

Em v√£o encheis de aroma o ar da tarde;
Em v√£o abris o seio √ļmido e fresco
Do sol nascente aos beijos amorosos;
Em vão ornais a fronte à meiga virgem;
Em v√£o, como penhor de puro afeto,
Como um elo das almas,
Passais do seio amante ao seio amante;
L√° bate a hora infausta
Em que é força morrer; as folhas lindas
Perdem o viço da manhã primeira,
As graças e o perfume.
Rosas que sois ent√£o? ‚Äď Restos perdidos,
Folhas mortas que o tempo esquece, e espalha
Brisa do inverno ou m√£o indiferente.

Tal é o vosso destino,
√ď filhas da natureza;
Em que vos pese à beleza,
Pereceis;
Mas, n√£o… Se a m√£o de um poeta
Vos cultiva agora, ó rosas,
Mais vivas, mais jubilosas,
Floresceis.

Evocação

Levanta-te Romeu do t√ļmulo em que dormes
E vem sorrir de novo à boa, à eterna luz!
De noite, ouço dizer que há sombras desconformes
E as noites do passado, oh, devem ser enormes
Na atonia fatal das larvas e da cruz!

Conchega gentilmente ao peito carcomido
Os restos do teu manto: ‚ÄĒ assim, que bem que est√°s!

Na terra h√£o de julgar-te um grande Aborrecido
Que busca desdenhoso o centro do ruído
Nas horas vis do tedio e das insonias m√°s.

O mundo transformou-se; aquele fundo abismo
Do antigo amor fatal, fechou-se d’uma vez,
E tu filho gentil do velho romantismo,
Tu vens achar dormindo o rude prozaismo
No berço onde sonhava a doce candidez!

No entanto pódes crer; faz muito menos frio
√Ā luz do novo sol; do gaz provocador;
E o século apesar de gasto e doentio,
N√£o pode j√° escutar o c√Ęntico sombrio
Que fala de edeaes e cousas sem valor!

Em paz deixa dormir a terna Julieta
Que aos céus ainda por ti levanta as brancas mãos;
E enquanto por mim corre a tétrica ampulheta,

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Do Fundo da Mesa

O jantar j√° tinha sido servido. No fundo da mesa,
os pratos amontoavam-se por entre restos ilesos
de comida. Era para ali que nos retir√°vamos, para
deixar de sentir por momentos, sobre os ombros,
o peso da literatura. A sua incomodidade. N√£o
seria possível dela extrair, agora, um novo uso?
Nessas alturas, a filosofia consolava-nos do ruído
das conversas, da própria ênfase a que recorríamos
para que, sobre a mesa, o poema ficasse escrito.
Porque o fazíamos? Tornar-se-ia o mundo
mais limpo depois de escrito? Como as m√£os
que no rebordo da toalha, enxug√°vamos?
E no entanto era esse o melhor argumento
de que disp√ļnhamos: o das mulheres-escritoras
que, noutro século, fiéis ao desvelo dos armários,
reinventavam o mundo no aconchego das cozinhas.

Perdi meu pai…

Perdi meu pai, minha mãe. Estou só,
ninguém me escuta,
sen√£o quando querem dar
os restos que ninguém quer.

Pobre de pobre, só tenho
os restos que ninguém quer.

Plano

Trabalho o poema sobre uma hipótese: o amor
que se despeja no copo da vida, até meio, como se
o pudéssemos beber de um trago. No fundo,
como o vinho turvo, deixa um gosto amargo na
boca. Pergunto onde está a transparência do
vidro, a pureza do líquido inicial, a energia
de quem procura esvaziar a garrafa; e a resposta
s√£o estes cacos, que nos cortam as m√£os, a mesa
da alma suja de restos, palavras espalhadas
num cansaço de sentidos. Volto, então, à primeira
hipótese. O amor. Mas sem o gastar de uma vez,
esperando que o tempo encha o copo até cima,
para que o possa erguer à luz do teu corpo
e veja, através dele, o teu rosto inteiro.

Retórica da Paisagem

O que se pede da poesia? Que nos entretenha os olhos
com as rendas sulfurosas de um doentio crep√ļsculo?
Com efeito, no poema, as palavras n√£o nos servem
de cestos em que se recolham – dilatados, quase
a cair das √°rvores – os frutos. E contudo, continuamos
a confundir os caminhos do poema com os do mundo
quando eles, na natureza, apenas nos apontam
a incerteza do destino. As palavras repetem-se –
frutos atirados sobre a mesa – e a morte,
para quem não acredita no poder de transfiguração
das met√°foras, esgota da vida todo o sentido.
Diz-se: os ramos n√£o crescem no quadro,
os p√°ssaros deixam de assolar a paisagem –
e o pensamento, ao reflectir-se, deixa a tela
pejada dos restos em que se perdeu pelo
horizonte. Mas todo o conhecimento
acaba no ponto em que o voo se
confunde com a linha acidentada da planície.

Soneto, às Cinco Horas da Tarde

Agora que me instigo e me arremesso
ao branco ofício de prender meu sono
e depois atir√°-lo em seu vestido
feito de céu e restos de incerteza,

recolho inutilmente de seus l√°bios
a precisão do sangue do silêncio
e inauguro uma tarde em suas m√£os
gr√°vidas de gestos e de rumos.

Pelo temor e o débil sobressalto
de encontrar sua ausência numa esquina
quando extingui canção e permanência,

guardei todo o impossível de seus olhos,
embora ouvisse, longe, além dos mapas,
bruscos mastins de cedro em seus cabelos.

S√≥ os fatos da inf√Ęncia explicam a sensibilidade aos traumatismos futuros e s√≥ com o descobrimento desses restos de lembran√ßas, quase regularmente olvidados, e com a volta deles √† consci√™ncia, √© que adquirimos o poder de afastar os sintomas.

Lusíada Exilado

Nem batalhas nem paz: obscura guerra.
Dói-me um país neste país que levo.
Sou este povo que a si mesmo se desterra
meu nome são três sílabas de trevo.

H√° nevoeiro em mim. Dentro de abril dezembro.
Quem nunca fui é um grito na memória.
E h√° um naufr√°gio em mim se de quem fui me lembro
há uma história por contar na minha história.

Trago no rosto a marca do chicote.
Cicatrizes as minha condecora√ß√Ķes.
Nas minhas mãos é que é verdade D. Quixote
trago na boca um verso de Cam√Ķes.

Sou este camponês que foi ao mar
lavrou as ondas e mondou a espuma
e andou achando como a vindimar
terra plantada sobre o vento e a bruma.

Sou este marinheiro que ficou em terra
lavrando a m√°goa como se lavrar
n√£o fosse mais do que a perdida guerra
entre o n√£o ser na terra e o ser no mar.

Eu que parti e que fiquei sempre presente
eu que tudo mandava e nunca fui senhor
eu que ficando estive sempre ausente
eu que fui marinheiro sendo lavrador.

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O Perigo da Extinção do Individualismo

Ao contemplar nas grandes cidades essas imensas aglomera√ß√Ķes de seres humanos, que v√£o e v√™m pelas suas ruas ou se concentram em festivais e manifesta√ß√Ķes pol√≠ticas, incorpora-se em mim, obsedante, este pensamento: pode hoje um homem de vinte anos formar um projecto de vida que tenha figura individual e que, portanto, necessitaria realizar-se mediante as suas iniciativas independentes, mediante os seus esfor√ßos particulares? Ao tentar o desenvolvimento desta imagem na sua fantasia, n√£o notar√° que √©, sen√£o imposs√≠vel, quase improv√°vel, porque n√£o h√° √† sua disposi√ß√£o espa√ßo em que possa aloj√°-la e em que possa mover-se segundo o seu pr√≥prio ditame? Logo advertir√° que o seu projecto trope√ßa com o pr√≥ximo, como a vida do pr√≥ximo aperta a sua. O des√Ęnimo leva-lo-√° com a facilidade de adapta√ß√£o pr√≥pria da sua idade a renunciar n√£o s√≥ a todo o acto, como at√© a todo o desejo pessoal e buscar√° a solu√ß√£o oposta: imaginar√° para si uma vida standard, composta de desideratos comuns a todos e ver√° que para consegui-la tem de a solicitar ou exigir em coletividade com os demais. Da√≠ a ac√ß√£o em massa.
A coisa é horrível, mas não creio que exagera a situação efectiva em que se vão achando quase todos os europeus.

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Poema Cansado de Certos Momentos

Foi-se tudo
como areia fina escoada pelos dedos.
M√£e! aqui me tens,
metade de mim,
sem saber que metade me pertence.
Aqui me tens,
de gestos saqueados,
onde resta a saudade de ti
e do teu mundo de medos.
Meus braços, vê-os, estão gastos
de pedir luz
e de roubar dist√Ęncias.
Meus braços
cruzados
em cruz de calv√°rio dos meus degredos.
Ai que isto de correr pela vida,
dissipando a riqueza que me deste,
de levar em cada beijo
a pureza que pariste e embalaste,
ai, mãe, só um louco ou um Messias
estendendo a face de justo

para os homens cuspirem o fel das veias,
só um louco, ou um poeta ou um Cristo
poder√° beijar as rosas que os espinhos sangram
e, embora rasgado, beber o perfume
e continuar cantando.
M√£e! tu nunca previste
as geadas e os bichos
roendo os campos adubados
e o vizinho largando a f√ļria dos rebanhos
pela flor menina dos meus prados.
E assim, geraste-me despido
como as ervas,
e n√£o olhaste os pegos nem as cobras,

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