Passagens sobre Selva

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Frases sobre selva, poemas sobre selva e outras passagens sobre selva para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Renascimento

A Oleg√°ria Siqueira

Manhã de rosas. Lá no etéreo manto,
O sol derrama l√ļcidos fulgores,
E eu vou cantando pela estrada, enquanto
Riem crianças e desabrocham flores.

Quero viver! H√° quanto tempo, quanto!
N√£o venho ouvir na selva os trovadores!
Quero sentir este consolo santo
De quem, voltando à vida, esquece as dores.

Ouves, minh’alma? Que prazer no ninhos!
Como é suave a voz dos passarinhos
Neste tranq√ľilo e pl√°cido deserto!

Ah! entre os risos da Natura em festa,
Entoa o hino da alegria honesta,
Canta o Te Deum, meu coração liberto!

Sem Poesia N√£o H√° Humanidade

Sem Poesia n√£o h√° Humanidade. √Č ela a mais profunda e a mais et√©rea manifesta√ß√£o da nossa alma. A intui√ß√£o po√©tica ou orfaica antecede, como fonte original, o conhecimento euclidiano ou cient√≠fico. E nos d√° o sentido mais perfeito e harm√≥nico da vida. Aperfei√ßoando o ser humano, afasta-o do antrop√≥ide e aproxima-o dos antropos. Que a mocidade actual, obcecada pela bola e pelo cinema, reduzida quase a uma fotografia peculiar e uma esp√©cie de m√°quina de fazer pontap√©s, despreza o seu aperfei√ßoamento moral; e, com o seu fato de macaco, prefere regressar √† Selva a regressar ao Para√≠so. E assim, igualando-se aos bichos, mente ao seu destino, que √© ser o cora√ß√£o e a consci√™ncia do Universo: o sagrado cora√ß√£o e o santo esp√≠rito. Eis o destino do homem, desde que se tornou consciente. E tornou-se consciente, porque tal acontecimento estava contido nas possibilidades da Natureza. Sim, a nossa consci√™ncia √© a pr√≥pria Natureza numa autocontempla√ß√£o maravilhosa. Ou √© o pr√≥prio Criador numa vis√£o da sua obra, atrav√©s do homem. E, vendo-a, desejou corrigi-la, transfigurando-se em Redentor.

Prece A Anchieta

Santo: erguesses a cruz na selva escura;
Herói: plantasses nossa velha aldeia;
Mestre: ensinasses a doutrina pura;
Poeta: escrevesses versos sobre a areia!

Golpeia a cruz a foice inculta e dura;
Invade a vila multid√£o alheia;
Morre a voz santa entre a dist√Ęncia e a altura;
Apaga o poema a onda espumejante e cheia…

Santo, her√≥i, mestre e poeta: ‚ÄĒ Pela gl√≥ria
que destes a esta Terra e a sua História,
Pela dor que sofremos sempre nós.

Pelo bem que quisesses a este povo,
O novo Cristo deste Mundo Novo,
Padre José de Anchieta, orai por nós!

Poema da malta das naus

Lancei ao mar um madeiro,
espetei-lhe um pau e um lençol.
Com palpite marinheiro
medi a altura do Sol.

Deu-me o vento de feição,
levou-me ao cabo do mundo.
pelote de vagabundo,
rebotalho de gib√£o.

Dormi no dorso das vagas,
pasmei na orla das prais
arreneguei, roguei pragas,
mordi peloiros e zagaias.

Chamusquei o pêlo hirsuto,
tive o corpo em chagas vivas,
estalaram-me a gengivas,
apodreci de escorbuto.

Com a m√£o esquerda benzi-me,
com a direita esganei.
Mil vezes no ch√£o, bati-me,
outras mil me levantei.

Meu riso de dentes podres
ecoou nas sete partidas.
Fundei cidades e vidas,
rompi as arcas e os odres.

Tremi no escuro da selva,
alambique de suores.
Estendi na areia e na relva
mulheres de todas as cores.

Moldei as chaves do mundo
a que outros chamaram seu,
mas quem mergulhou no fundo
do sonho, esse, fui eu.

O meu sabor é diferente.
Provo-me e saibo-me a sal.
N√£o se nasce impunemente
nas praias de Portugal.

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A Elvira

(Lamartine)

Quando, contigo a sós, as mãos unidas,
Tu, pensativa e muda; e eu, namorado,
√Äs vol√ļpias do amor a alma entregando,
Deixo correr as horas fugidias;
Ou quando ‚Äėas solid√Ķes de umbrosa selva
Comigo te arrebato; ou quando escuto
‚ÄĒT√£o s√≥ eu, ‚ÄĒ teus tern√≠ssimos suspiros;
E de meus l√°bios solto
Eternas juras de const√Ęncia eterna;
Ou quando, enfim, tua adorada fronte
Nos meus joelhos trêmulos descansa,
E eu suspendo meus olhos em teus olhos,
Como às folhas da rosa ávida abelha;
Ai, quanta vez ent√£o dentro em meu peito
Vago terror penetra, como um raio!
Empalideço, tremo;
E no seio da glória em que me exalto,
L√°grimas verto que a minha alma assombram!
Tu, carinhosa e trêmula,
Nos teus bra√ßos me cinges, ‚ÄĒ e assustada,
Interrogando em v√£o, comigo choras!
‚ÄúQue dor secreta o cora√ß√£o te oprime?‚ÄĚ
Dizes tu, ‚ÄúVem, confia os teus pesares…
Fala! eu abrandarei as penas tuas!
Fala! Eu consolarei tua alma aflita.‚ÄĚ

Vida do meu viver, n√£o me interrogues!
Quando enlaçado nos teus níveos braços*
A confissão de amor te ouço,

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Flor de Ventura

A flor de ventura
Que amor me entregou,
T√£o bela e t√£o pura
Jamais a criou:

N√£o brota na selva
De inculto vigor,
N√£o cresce entre a relva
De virgem frescor;

Jardins de cultura
N√£o pode habitar
A flor de ventura
Que amor me quis dar.

Semente é divina
Que veio dos Céus;
Só n’alma germina
Ao sopro de Deus.

T√£o alva e mimosa
N√£o h√° outra flor;
Uns longes de rosa
Lhe avivam a cor;

E o aroma… Ai!, del√≠rio
Suave e sem fim!
√Č a rosa, √© o l√≠rio,
√Č o nardo, o jasmim;

√Č um filtro que apura,
Que exalta o viver,
E em doce tortura
Faz de √Ęnsias morrer.

Ai!, morrer… que sorte
Bendita de amor!
Que me leve a morte
Beijando-te, flor.

Eu e Tu

Dois! Eu e Tu, num ser indispens√°vel! Como
Brasa e carv√£o, centelha e lume, oceano e areia,
Aspiram a formar um todo, ‚ÄĒ em cada assomo
A nossa aspira√ß√£o mais violenta se ateia…

Como a onda e o vento, a Lua e a noite, o orvalho
[e a selva
‚ÄĒ O vento erguendo a vaga, o luar doirando a
[noite,
Ou o orvalho inundando as verduras da relva ‚ÄĒ
Cheio de ti, meu ser de efl√ļvios impregnou-te!

Como o lil√°s e a terra onde nasce e floresce,
O bosque e o vendaval desgrenhando o arvoredo,
O vinho e a sede, o vinho onde tudo se esquece,
‚ÄĒ N√≥s dois, de amor enchendo a noite do degredo,

Como partes dum todo, em amplexos supremos
Fundindo os cora√ß√Ķes no ardor que nos inflama,
Para sempre um ao outro, Eu e Tu, pertencemos,
Como se eu fosse o lume e tu fosses a chama…

Os Hiperbóreos

Cabeça erguida, o céu no olhar, que o céu procura,
Baixa o humano caudal, dos desertos de gelo…
Em farrapos, ao sol, derrete-se a brancura
Da neve boreal sobre o ouro do cabelo.

Ulula, e desce; e tudo invade: a atra espessura
Dos bosques entra, a urrar e a uivar. E, uivando, pelo
Continente, a descer, ganha a √ļmida planura,
E a brenha secular, em sonoro atropelo.

Assustam-se os chacais pelas selvas serenas.
A turba ulula, o druida canta, enchendo os ares.
Entre os uivos dos c√£es e o grunhido das renas…

Escutando o tropel, rincha o poldro, e galopa.
Derrama-se, a rugir, das geleiras polares,
A semente feraz dos B√°rbaros, na Europa…

Redenção

I

Vozes do mar, das √°rvores, do vento!
Quando √†s vezes, n’um sonho doloroso,
Me embala o vosso canto poderoso,
Eu julgo igual ao meu vosso tormento…

Verbo crepuscular e íntimo alento
Das cousas mudas; psalmo misterioso;
N√£o ser√°s tu, queixume vaporoso,
O suspiro do mundo e o seu lamento?

Um espírito habita a imensidade:
Uma √Ęnsia cruel de liberdade
Agita e abala as formas fugitivas.

E eu compreendo a vossa língua estranha,
Vozes do mar, da selva, da montanha…
Almas irm√£s da minha, almas cativas!

II

N√£o choreis, ventos, √°rvores e mares,
Coro antigo de vozes rumorosas,
Das vozes primitivas, dolorosas
Como um pranto de larvas tumulares…

Da sombra das vis√Ķes crepusculares
Rompendo, um dia, surgireis radiosas
D’esse sonho e essas √Ęnsias afrontosas,
Que exprimem vossas queixas singulares…

Almas no limbo ainda da existência,
Acordareis um dia na Consciência,
E pairando, j√° puro pensamento,

Vereis as Formas, filhas da Ilus√£o,
Cair desfeitas, como um sonho v√£o…
E acabar√° por fim vosso tormento.

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Os Vencidos

Tres cavaleiros seguem lentamente
Por uma estrada erma e pedregosa.
Geme o vento na selva rumorosa,
Cae a noite do céo, pesadamente.

Vacilam-lhes nas m√£os as armas rotas,
Têm os corceis poentos e abatidos,
Em desalinho trazem os vestidos,
Das feridas lhe cae o sangue, em gotas.

A derrota, traiçoeira e pavorosa,
As fontes lhes curvou, com m√£o potente.
No horisonte escuro do poente
Destaca-se uma mancha sanguinosa.

E o primeiro dos três, erguendo os braços,
Diz n’um solu√ßo: ¬ęAmei e fui amado!
Levou-me uma vis√£o, arrebatado,
Como em carro de luz, pelos espaços!

Com largo v√īo, penetrei na esphera
Onde vivem as almas que se adoram,
Livre, contente e bom, como os que moram
Entre os astros, na eterna primavera.

Porque irrompe no azul do puro amor
O sopro do desejo pestilente?
Ai do que um dia recebeu de frente
O seu halito rude e queimador!

A flor rubra e olorosa da paix√£o
Abre languida ao raio matutino,
Mas seu profundo calix purpurino
Só reçuma veneno e podridão.

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Inverno

Amanheceu – no topo da colina
Um céu de madrepérola se arqueia
Limpo, lavado, reluzindo – ondeia
O perfume da selva esmeraldina.

Uma luz virginal e cristalina,
Como de um rio a transbordante cheia,
Alaga as terras culturais e arreia
De pingos d’ouro os verdes da campina.

Um sol pag√£o, de um louro gema d’ovo,
J√° t√£o antigo e quase sempre novo
Surge na frígida estação do inverno.

– Chilreiam muito em √°rvores frondosas
P√°ssaros – fulge o orvalho pelas rosas
Como o vigor no espírito moderno.

Tentação

Eu não resistirei à tentação,
n√£o quero que de mim possas perder-te,
que só na fonte fria da razão
renasça a minha sede de beber-te.

Eu não resistirei à tentação
de quanto adivinhei nesta amargura:
um sim que só assalta quem diz não,
um corpo que entrevi na selva escura.

Resistirei a te chamar paix√£o,
a te perder nos versos, nas palavras:
mas não resistirei à tentação
de te dizer que o céu é o que rasa

a luz que nos teus olhos eu perdi
e que na terra toda n√£o mais vi.

A Inocência

Caminhando no mundo vai segura
A Inocência, com grave firme passo.
Sem temor de cair no infame laço
Que arma a traidora m√£o, a m√£o perjura.

Como n√£o obra mal, nem mal procura
Para os seus semelhantes, corre o espaço
Sem lança, sem arnês, sem peito de aço,
Armada só de consciência pura.

Pois que ofensa n√£o faz, n√£o teme ofensa
E por isso passeia, satisfeita,
Sem as feras temer na selva densa.

Trai√ß√Ķes, √≥dios, vingan√ßas n√£o espreita.
Certa no bem que faz, só nele pensa:
Quem remorsos n√£o tem, mal n√£o suspeita.

Manh√£

Alta alvorada. — Os √ļltimos nevoeiros
A luz que nasce levemente espalha;
Move-se o bosque, a selva que farfalha
Cheia da vida dos clar√Ķes primeiros.

Da passarada os v√īos condoreiros,
Os cantos e o ar que as √°rvores ramalha
Lembram combate, estrídula batalha
De elementos contr√°rios e altaneiros.

Vozes, trinados, vibra√ß√Ķes, rumores
Crescem, v√£o se fundindo aos esplendores
Da luz que jorra de invisível taça.

E como um rei num gale√£o do Oriente
O sol p√Ķe-se a tocar bizarramente
Fanfarras marciais, trompas de caça.

Tristeza De Momo

Pela primeira vez, ímpias risadas
Susta em pranto o deus da zombaria;
Chora; e vingam-se dele, nesse dia,
Os silvanos e as ninfas ultrajadas;

Trovejam bocas mil escancaradas,
Rindo; arrombam-se os diques da alegria;
E estoira descomposta vozeria
Por toda a selva, e apupos e pedradas…

Fauno, indigita; a Náiade o caçoa;
S√°tiros vis, da mais indigna laia,
Zombam. N√£o h√° quem dele se condoa!

E Eco propaga a formid√°vel vaia,
Que al√©m por fundos boqueir√Ķes reboa
E, como um largo mar, rola e se espraia…

Fiei-me nos Sorrisos da Ventura

Fiei-me nos sorrisos da ventura,
Em mimos feminis, como fui louco!
Vi raiar o prazer; porém tão pouco
Moment√Ęneo rel√Ęmpago n√£o dura:

No meio agora desta selva escura,
Dentro deste penedo h√ļmido e ouco,
Pare√ßo, at√© no tom l√ļgubre, e rouco
Triste sombra a carpir na sepultura:

Que est√Ęncia para mim t√£o pr√≥pria √© esta!
Causais-me um doce, e f√ļnebre transporte,
√Āridos matos, l√ībrega floresta!

Ah! n√£o me roubou tudo a negra sorte:
Inda tenho este abrigo, inda me resta
O pranto, a queixa, a solid√£o e a morte.

O homem é uma espécie fantástica. Apesar de ter enlouquecido consegue administrar o hospício onde mora, este palco flutuante que é, ao mesmo tempo, casa de armas e selva paradisíaca.

Adeus

A ti, que em astros desenhei nos céos,
A ti, que em nuvens desenhei nos ares,
A ti, que em ondas desenhei nos mares,
A ti, bom anjo! o derradeiro adeus!

Parto! Se um dia (que √© possivel fl√īr!)
Vires ao longe negrejar um vulto,
Sou eu que aos olhos d’esta gente occulto
O nosso immenso desgraçado amor.

Talvez as féras ao ouvir meus ais,
As brutas selvas, as montanhas brutas,
Concavas rochas, solitarias grutas,
Mais se condoam, se commovam mais!

E l√° d’aquellas solid√Ķes se aqui
Chegar gemido que uma pedra estala,
Que um cedro vibra, que um carvalho abala,
Sou eu que o solto por amor de ti…

De ti! que em folha que varrer o ar,
Em rama, em sombra que bandeie a aragem,
De fito sempre n’essa cara imagem
Verei, sorrindo, sentirei passar!

De ti, que em astros desenhei nos céos!
De ti, que em nuvens desenhei nos ares!
De ti, que em ondas desenhei nos mares,
E a quem envio o derradeiro adeus!

Os Deuses Reclinados

… Por todos os lados as est√°tuas de Buda, de Lorde Buda… As severas, verticais, carcomidas est√°tuas, com um dourado de resplendor animal, com uma dissolu√ß√£o como se o ar as desgastasse… Crescem-lhes nas faces, nas pregas das t√ļnicas, nos cotovelos, nos umbigos, na boca e no sorriso pequenas m√°culas: fungos, porosidades, vest√≠gios excrement√≠cios da selva… Ou ent√£o as jacentes, as imensas jacentes, as est√°tuas de quarenta metros de pedra, de granito areento, p√°lidas, estendidas entre as sussurrantes frondes, inesperadas, surgindo de qualquer canto da selva, de qualquer plataforma circundante… Adormecidas ou n√£o adormecidas, est√£o ali h√° cem anos, mil anos, mil vezes mil anos… Mas s√£o suaves, com uma conhecida ambiguidade ultraterrena, aspirando a ficar e a ir-se embora… E aquele sorriso de suav√≠ssima pedra, aquela majestade imponder√°vel, mas feita de pedra dura, perp√©tua, para quem sorriem, para quem, sobre a terra sangrenta?… Passaram as camponesas que fugiam, os homens do inc√™ndio, os guerreiros mascarados, os falsos sacerdotes, os turistas devoradores…

E manteve-se no seu lugar a est√°tua, a imensa pedra com joelhos, com pregas na t√ļnica de pedra, com o olhar perdido e n√£o obstante existente, inteiramente inumana e de alguma forma tamb√©m humana, de alguma forma ou de alguma contradi√ß√£o estatu√°ria,

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Na M√£o de Deus

Na m√£o de Deus, na sua m√£o direita,
Descansou afinal meu coração.
Do pal√°cio encantado da Ilus√£o
Desci a passo e passo a escada estreita.

Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignor√Ęncia infantil, despojo v√£o,
Depois do Ideal e da Paix√£o
A forma transitória e imperfeita.

Como crian√ßa, em l√ībrega jornada,
Que a m√£e leva ao colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,

Selvas, mares, areias do deserto…
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na m√£o de Deus eternamente!