Textos sobre Maravilha

30 resultados
Textos de maravilha escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Civilização e o Horror ao Vácuo

A expans√£o imperialista das grandes pot√™ncias √© um facto de crescimento, o transbordar natural√≠ssimo de um excesso de vidas e de uma sobra de riquezas em que a conquista dos povos se torna simples variante da conquista de mercados. As lutas armadas que da√≠ resultam, perdido o encanto antigo, transformam-se, paradoxalmente, na fei√ß√£o ruidosa e acidental da energia pac√≠fica e formid√°vel das ind√ļstrias. Nada dos velhos atributos rom√Ęnticos do passado ou da preocupa√ß√£o retr√≥grada do hero√≠smo. As pr√≥prias vit√≥rias perderam o significado antigo. S√£o at√© dispens√°veis. (…) Est√£o fora dos lances de g√©nio dos generais felizes e do fortuito dos combates. Vagas humanas desencadeadas pelas for√ßas acumuladas de longas culturas e do pr√≥prio g√©nio de ra√ßa, podem golpe√°-las √† vontade os advers√°rios que as combatem e batem debatendo-se, e que se afogam. N√£o param. N√£o podem parar. Impele-as o fatalismo da pr√≥pria for√ßa. Diante da fragilidade dos pa√≠ses fracos, ou das ra√ßas incompetentes, elas recordam, na hist√≥ria, aquele horror ao v√°cuo, com que os velhos naturalistas explicavam os movimentos irresist√≠veis da mat√©ria. Revelam quase um fen√īmeno f√≠sico. Por isso mesmo nesta expans√£o irreprim√≠vel, n√£o √© do direito, nem da Moral com as mais imponentes mai√ļsculas, nem de alguma das maravilhas metaf√≠sicas de outrora que lhes despontam obst√°culos.

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A Grande Originalidade

√Č curioso. S√≥ se julga profundo o que disser coisas diferentes de toda a gente. E todavia a grande originalidade est√° em dizer as mesmas coisas, mas ao n√≠vel do espanto e maravilha que nos despertam. Toda a gente sabe que o homem √© mortal, mas poucos v√™em isso e se espantam de que seja assim. Toda a gente sabe que h√° bichos e plantas e estrelas e o mais. Mas conhec√™-lo ao n√≠vel do extraordin√°rio que a√≠ existe √© raro como ser doido.
A grande originalidade não é dizer coisas novas mas ser novo diante das coisas velhas.

√Čs Feliz?

Só há uma forma de seres feliz: tens de fazer por isso.

√Čs feliz? Queres ser? Fazes alguma coisa por isso?

Se fores, maravilha, transportas a bel√≠ssima responsabilidade de inspirar os outros a s√™-lo tamb√©m. Se ainda n√£o √©s, mas queres s√™-lo, o que tens feito por isso? Andas a respeitar-te mais vezes? A lutar pela viv√™ncia das tuas vontades? Andas mais perto da natureza? J√° consegues dizer mais vezes aquilo que sentes e aquilo que pensas? J√° n√£o p√Ķes sempre os outros √† tua frente? Come√ßaste a cuidar do teu corpo e da tua alimenta√ß√£o? Reduziste os v√≠cios? Se sim, fant√°stico. Parab√©ns! Gosto muito de pessoas felizes, mas a minha admira√ß√£o vai toda para aqueles que, n√£o o sendo ainda, lutam todos os dias para o ser, pela autodescoberta que os far√° refer√™ncia na vida de todos aqueles que os rodeiam. Agora, e por outro lado, se n√£o tens andado a fazer nada disto nem nada semelhante, mais vale assumires que, afinal, ser feliz n√£o √© uma vontade tua. E est√° tudo bem na mesma. Apenas te pe√ßo, em nome da comunidade dos seres humanos que querem viver e desfrutar desta am√°vel oportunidade que nos foi dada de aqui estar,

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A Tua Alma de Ouro

Meu querido rapaz,

O teu soneto √© deveras bonito, e √© uma maravilha que esses teus l√°bios da cor de rosas encarnadas tenham sido feitos tanto para a loucura da m√ļsica e das can√ß√Ķes como para a loucura do beijar. A tua alma de ouro caminha entre a paix√£o e a poesia. Eu sei que Hyacinthus, que Apollo amou t√£o perdidamente, eras tu nos tempos Gregos. Porque est√°s sozinho em Londres, e quando ir√°s para Salisbury? Vai at√© l√° para refrescar as tuas m√£os no crep√ļsculo cinzento das coisas g√≥ticas, e vem aqui sempre que quiseres. √Č um lugar ador√°vel, e falta-lhe apenas a tua pessoa; mais vai primeiro a Salisbury.

Sempre teu, com amor eterno,

Oscar

A Maior Desgraça da Vida

A maior desgra√ßa da vida, vistas bem as coisas, acaba por n√£o ser a morte. Salvo aqueles casos catastr√≥ficos, que sob o ponto de vista do aniquilamento s√£o uma perfeita maravilha, morre-se quando esta coisa que se chama corpo, por uma raz√£o ou por outra, est√° podre. Quando, afinal, a ele pr√≥prio j√° lhe n√£o apetece viver. A desgra√ßa verdadeira √© esta de n√≥s andarmos aqui a namorar o c√©u, a pisar a terra, a investir contra o mar ‚ÄĒ e nem o c√©u, nem a terra, nem o mar saberem sequer que a gente existe.

O Desporto √© a Intelig√™ncia In√ļtil

O sport √© a intelig√™ncia in√ļtil manifestada nos movimentos do corpo. O que o paradoxo alegra no cont√°gio das almas, o sport aligeira na demonstra√ß√£o dos bonecos delas. A beleza existe, verdadeiramente, s√≥ nos altos pensamentos, nas grandes emo√ß√Ķes, nas vontades conseguidas. No sport – ludo, jogo, brincadeira – o que existe √© sup√©rfluo, como o que o gato faz antes de comer o rato que lhe h√°-de escapar. Ningu√©m pensa a s√©rio no resultado, e, enquanto dura o que desaparece, existe o que n√£o dura. H√° uma certa beleza nisso, como no domin√≥, e, quando o acaso proporciona o jogo acertado, a maravilha entesoura o corpo encostado do vencedor. Fica, no fim, e sempre virado para o in√ļtil, o inconseguido do jogo. Pueri ludunt, como no prim√°rio do latim…

Ao sol brilham, no seu breve movimento de gl√≥ria esp√ļria, os corpos juvenis que envelhecer√£o, os trajectos que, com o existirem, deixaram j√° de existir. Entardece no que vemos, como no que vimos. A Gr√©cia antiga n√£o nos afaga sen√£o intelectualmente. Ditosos os que naufragam no sacrif√≠cio da posse. S√£o comuns e verdadeiros. O sol das arenas faz suar os gestos dos outros. Os poetas cantam-nos antes que des√ßa todo o sol.

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Regras para a Conversação

РDa minha parte, disse Amithone, confesso que gostaria muito que existissem regras para a conversação, assim como há para muitas outras coisas. РA regra principal, retomou Valérie, é jamais dizer alguma coisa que fira o juízo. РMas ainda, acrescentou Nicanor, desejaria saber mais precisamente como vós concebeis que deva ser a conversação. РConcebo, retomou ela, que no falar em geral, ela deva versar com mais frequência sobre coisas comuns e galantes do que sobre grandes coisas.
Mas concebo, entretanto, que n√£o h√° nada que n√£o possa caber ali; que ela deve ser livre e diversificada, segundo os momentos, os lugares, e as pessoas com quem se est√°; e que o segredo √© falar sempre nobremente das coisas baixas, e bastante simplesmente das coisas elevadas, e muito galantemente das coisas galantes, sem ansiedade, e sem afecta√ß√£o. Assim, embora a conversa√ß√£o deva ser sempre igualmente natural e ponderada, n√£o deixo de dizer que h√° ocasi√Ķes nas quais mesmo as ci√™ncias podem entrar de bom grado ali e nas quais os agrad√°veis desatinos tamb√©m podem encontrar o seu lugar, contanto que sejam engenhosos, modestos e galantes. De modo que, para falar ponderadamente, pode-se assegurar, sem mentira, que n√£o h√° nada que n√£o se possa dizer na conversa√ß√£o,

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Tu √Čs uma Mulher Rara

Minha Anuska, onde foste buscar a ideia de que és uma mulher como outra qualquer? Tu és uma mulher rara, e, além do mais, a melhor de todas as mulheres. Tu própria não sonhas as qualidades que tens. Não só diriges a casa e as minhas coisas, como a nós todos, caprichosos e enervantes, a começar por mim e a acabar no Aléxis. Nos meus trabalhos desces ao mais pequeno pormenor, não dormes o suficiente, ocupada com a venda dos meus livros e com a administração do jornal. Contudo, conseguimos apenas economizar alguns copeques Рquanto aos rublos, onde estão eles?

Mas a teu lado nada disso tem import√Ęncia. Devias ser coroada rainha, e teres um reino para governar: juro-te que o farias melhor que ningu√©m. N√£o te falta intelig√™ncia, bom senso, sentido da ordem e, at√©… cora√ß√£o. Perguntas como posso eu amar uma mulher t√£o velha e feia como tu A√≠, sim, mentes. Para mim √©s um encanto, n√£o tens igual, e qualquer homem de sentimentos e bom gosto to dir√°, se atentar em ti. Por isso √© que √†s vezes sinto ci√ļmes. Tu pr√≥pria nem sabes a maravilha que s√£o os teus olhos, o sorriso e a anima√ß√£o que p√Ķes na conversa.

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Um Clímax Duplo

Meu Amor,

Hoje vou buscar as minhas p√©rolas! Vou j√° √† loja de fotografias e terei os instant√Ęneos para ti amanh√£ √† noite. Estou livre amanh√£ √† noite. Onde queres que te encontre?

A mulher do Allendy teve uma atitude desesperada, e ele deu um pulo at√© √† Bretanha por uns tempos. Tivemos uma cena linda que te relatarei… Profundamente interessante… Aqui mesmo em Louveciennes, h√° uma hora. Ent√£o vou trabalhar noutras coisas. O teu livro incha dentro de mim como o meu pr√≥prio ‚ÄĒ mais jovialmente ainda do que o meu, porque o teu livro √© para mim uma fecunda√ß√£o, ao passo que o meu √© um acto de narcisismo. Eu digo: deixem uma mulher escrever livros, mas deixem-na acima de tudo permanecer fecund√°vel por outros livros!

Entendes-me? Regozijo nos teus planos imensos, nas tuas ideias… Essas nossas conversas, Henry, como ressaltam, s√£o t√£o firmes… Henry, nunca haver√° momentos mortos, porque em n√≥s ambos existe sempre movimento, renova√ß√£o, surpresas. Nunca conheci a estagna√ß√£o. Nem mesmo a introspec√ß√£o tem sido uma experi√™ncia est√°tica… Mesmo em nada leio maravilhas, e no mero acto de esburacar a terra, em vez de minas de ouro, consigo gerar entusiasmo.

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Hábito e Inércia

Ao princípio, somos carne animada pela alma; a meio caminho, meias máquinas; perto do fim, autómatos rígidos e gelados como cadáveres. Quando a morte chega, encontramo-nos em tudo semelhantes aos mortos. Esta petrificação progressiva é obra do hábito.
O hábito torna-nos cegos às maravilhas do mundo Рindiferentes e inconscientes perante os milagres quotidianos -, embota a força dos sentidos e dos sentimentos Рtorna-nos escravos dos costumes, mesmo tristes e culpados: suprime a vista, espanto, fogo e liberdade. Escravos, frígidos, insensatos, cegos: tudo propriedade dos cadáveres. A subjugação aos hábitos é uma subjugação da morte; um suicídio gradual do espírito.
O h√°bito suprime as cores, incrusta, esconde: partes da nossa vida afundam-se gradualmente na inconsci√™ncia e deixam de ser vida para se tornarem pe√ßas de um mecanismo imprevisto. O c√≠rculo do espont√Ęneo reduz-se; a liberdade e novidade decaem na monotonia do vulgar.
√Č como se o sangue se tornasse, a pouco e pouco, s√≥lido como os ossos e a alma um sistema de correias e rodas. A mat√©ria n√£o passa de esp√≠rito petrificado pelos h√°bitos. Nasce-se esp√≠rito e mat√©ria e termina-se apenas como mat√©ria. A casca converteu em madeira a pr√≥pria linfa.
A casca é necessária para proteger o albume,

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A Amizade é Indispensável ao Nosso Ser

A amizade √© a unica coisa cuja utilidade √© unanimemente reconhecida. A pr√≥pria virtude tem muitos detratores, que a acusam de ostenta√ß√£o e charlatanismo. Muitos desprezam as riquezas e, contentes de pouco, agradam-se da mediocridade. As honras, √† procura da qual se matam tanto as pessoas, quantos outros as desdenham at√© olh√°-las como o que h√° de mais f√ļtil e de mais fr√≠volo? E, assim, quanto ao mais! O que a uns parece admir√°vel, ao ju√≠zo doutros nada √©. Mas quanto √† amizade, toda a gente est√° de acordo: os que se ocupam dos neg√≥cios p√ļblicos, os que se apaixonaram pelo estudo e pelas indaga√ß√Ķes sapientes, e os que, longe do bul√≠cio, limitam os seus cuidados aos seus interesses privados: todos enfim, aqueles mesmos que se entregaram todos inteiros aos prazeres, declaram que a vida nada √© sem a amizade, por pouco que queiram reservar a sua para algum sentimento honor√°vel.
Ela se insinua, com efeito, não sei como, no coração de todos os homens e não se admite que, sem ela, possa passar nenhuma condição da vida. Bem mais, se é um homem de natureza selvagem, muito feroz para odiar seus semelhantes e fugir do seu contacto, como fazia,

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A Alegoria da Caverna

– Imagina agora o estado da natureza humana com respeito √† ci√™ncia e √† ignor√Ęncia, conforme o quadro que dele vou esbo√ßar. Imagina uma caverna subterr√Ęnea que tem a toda a sua largura uma abertura por onde entra livremente a luz e, nessa caverna, homens agrilhoados desde a inf√Ęncia, de tal modo que n√£o possam mudar de lugar nem volver a cabe√ßa devido √†s cadeias que lhes prendem as pernas e o tronco, podendo t√£o-s√≥ ver aquilo que se encontra diante deles. Nas suas costas, a certa dist√Ęncia e a certa altura, existe um fogo cujo fulgor os ilumina, e entre esse fogo e os prisioneiros depara-se um caminho dificilmente acess√≠vel. Ao lado desse caminho, imagina uma parede semelhante a esses tapumes que os charlat√£es de feita colocam entre si e os espectadores para esconder destes o jogo e os truques secretos das maravilhas que exibem.
– Estou a imaginar tudo isso.
РImagina homens que passem para além da parede, carregando objectos de todas as espécies ou pedra, figuras de homens e animais de madeira ou de pedra, de tal modo que tudo isso apareça por cima do muro. Os que tal transportam, ou falam uns com os outros,

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Julgar Pelas Aparências

A beleza √© uma forma de G√©nio… diria mesmo que √© mais sublime do que o G√©nio por n√£o precisar de qualquer explica√ß√£o. √Č um dos grandes factos do mundo, como a luz do sol ou a Primavera, ou o reflexo nas escuras √°guas dessa concha de prata a que chamamos lua. √Č inquestion√°vel. Tem um direito de soberania divino. Eleva os seus possuidores √† categoria de pr√≠ncipes. Est√° a sorrir ? Ah, quando a tiver perdido com certeza que n√£o h√°-de sorrir… √†s vezes as pessoas dizem que a Beleza √© apenas superficial, e pode bem ser. Mas pelo menos n√£o √© t√£o superficial como o Pensamento. Para mim, a Beleza √© a maravilha das maravilhas. S√≥ as pessoas fr√≠volas √© que n√£o julgam pelas apar√™ncias. O verdadeiro mist√©rio do mundo √© o vis√≠vel e n√£o o invis√≠vel…

Em Louvor das Crianças

Se h√° na terra um reino que nos seja familiar e ao mesmo tempo estranho, fechado nos seus limites e simultaneamente sem fronteiras, esse reino √© o da inf√Ęncia. A esse pa√≠s inocente, donde se √© expulso sempre demasiado cedo, apenas se regressa em momentos privilegiados ‚ÄĒ a tais regressos se chama, √†s vezes, poesia. Essa esp√©cie de terra m√≠tica √© habitada por seres de uma t√£o grande formosura que os anjos tiveram neles o seu modelo, e foi √†s crian√ßas, como todos sabem pelos evangelhos, que foi prometido o Para√≠so.
A sedu√ß√£o das crian√ßas prov√©m, antes de mais, da sua proximidade com os animais ‚ÄĒ a sua rela√ß√£o com o mundo n√£o √© a da utilidade, mas a do prazer. Elas n√£o conhecem ainda os dois grandes inimigos da alma, que s√£o, como disse Saint-Exup√©ry, o dinheiro e a vaidade. Estas fr√°geis criaturas, as √ļnicas desde a origem destinadas √† imortalidade, s√£o tamb√©m as mais vulner√°veis ‚ÄĒ elas t√™m o peito aberto √†s maravilhas do mundo, mas est√£o sem defesa para a bestialidade humana que, apesar de tanta tecnologia de ponta, n√£o diminui nem se extingue.
O sofrimento de uma criança é de uma ordem tão monstruosa que,

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A Maravilha da Vida é Tudo Nela Ter Justificação

Desabafo dum amigo, que n√£o encontra justifica√ß√£o para o seu pecado mortal, que √© viver. Viver ao sol, gratuitamente, como um lagarto. Respondi-lhe que a maravilha da vida √© tudo nela ter justifica√ß√£o. √Č, da mais rasteira erva ao mais nojento bicho, n√£o haver presen√ßa no mundo que n√£o seja necess√°ria e insubstitu√≠vel. Que, do contr√°rio, era faltar na terra esta admir√°vel plurival√™ncia, que faz de uma tarde de sol, de trigo e de cigarras o mais assombroso espect√°culo que se pode ver. O medir depois a dist√Ęncia que vai da formiga ao le√£o, da urtiga ao castanheiro, de Nero a S. Francisco de Assis, √© uma casu√≠stica que n√£o tem nada que ver com a torrente de seiva que inunda o mundo de p√≥lo a p√≥lo.
Foi-se, e à tarde apareceu-me com um belo poema.

O Verdadeiro Homem

√Č evidente que a natureza se preocupa bem pouco com o que o homem tem ou n√£o no esp√≠rito. O verdadeiro homem √© o homem selvagem, que se relaciona com a natureza tal como ela √©. Assim que o homem agu√ßa a sua intelig√™ncia, desenvolve as suas ideias e a forma de as exprimir, ou adquire novas necessidades, a natureza op√Ķe-se aos seus des√≠gnios em toda a linha. S√≥ lhe resta violent√°-la, continuamente. Ela, pelo seu lado, tamb√©m n√£o fica quieta. Se ele suspende por momentos o trabalho que se impusera, ela torna-se de novo dominadora, invade-o, devora-o, destr√≥i ou desfigura a sua obra; dir-se-ia que acolhe com impaci√™ncia as obras-primas da imagina√ß√£o e da per√≠cia do homem.

Que importam √† ronda das esta√ß√Ķes, ao curso dos astros, dos rios e dos ventos, o Part√©non, S√£o Pedro de Roma e tantas outras maravilhas da arte? Um tremor de terra ou a lava de um vulc√£o reduzem-nos a nada; os p√°ssaros far√£o os seus ninhos nas suas ru√≠nas; os animais selvagens ir√£o buscar os ossos dos construtores aos seus t√ļmulos entreabertos.

Concebemos apenas √Ātomos em Compara√ß√£o com a Realidade das Coisas

A primeira coisa que se oferece ao homem ao contemplar-se a si pr√≥prio, √© o seu corpo, isto √©, certa parcela de mat√©ria que lhe √© peculiar. Mas, para compreender o que ela representa e a fix√°-la dentro dos seus justos limites, precisa de a comparar a tudo o que se encontra acima ou abaixo dela. Que n√£o se atenha, pois, a olhar para os objetos que o cercam, simplesmente, mas a contemplar a natureza inteira na sua alta e plena majestosidade. Considere esta brilhante luz colocada acima dele como uma l√Ęmpada eterna para iluminar o universo, e que a Terra lhe apare√ßa como um ponto na √≥rbita ampla deste astro e maravilhe-se de ver que essa amplitude n√£o passa de um ponto insignificante na rota dos outros astros que se espalham pelo firmamento. E se nossa vista a√≠ se det√©m, que a nossa imagina√ß√£o n√£o pare; mais rapidamente se cansar√° ela de conceber, que a natureza de revelar . Todo esse mundo vis√≠vel √© apenas um tra√ßo percept√≠vel na amplid√£o da natureza, que nem sequer nos √© dado a conhecer de um modo vago. Por mais que ampliemos as nossas concep√ß√Ķes e as projectemos al√©m de espa√ßos imagin√°veis, concebemos t√£o somente √°tomos em compara√ß√£o com a realidade das coisas.

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Nada Pode Haver de mais Belo

Amigo Bernardo, dos desertos do Ronc√£o d‚Äôel-Rei, na mais bela po√©tica noite de luar que ver se possa, te escreve este teu amigo. Nada pode haver de mais belo; os rouxin√≥is cantam √† desgarrada, o ar rescende dos milhares de loendros (laurier-rose) que cobrem as encostas alcantiladas do Guadiana. Que maravilha, que encanto, que tristeza (tu, com certeza, aqui choravas)! Neste momento, houve-se o sinistro roncar da coruja e o long√≠nquo uivar dos lobos, misturado com o forte ladrar dos rafeiros e os nossos cavalos relincham inquietos nas quadras… √Č √† luz dum prosaico casti√ßal (uma garrafa com uma vela) que te escrevo estas sentidas regras, que espraio sobre este branco papel as ondas da minha melancolia. E como n√£o estar melanc√≥lico se acabamos de fazer dezasseis l√©guas a cavalo em oito horas e n√£o descans√°mos e n√£o dormimos a noite passada sen√£o uma m√≠sera hora e vemos apenas diante de n√≥s umas velhas esteiras, as nossas mantas, e os aparelhos dos nossos cavalos como travesseiros, para passarmos umas noites.

Que Tristeza Isto de a Gente Escrever

Que tristeza isto de a gente escrever! Secos como paus na vida, e sai-nos depois a ternura pelo bico da pena! Comigo √© assim. E como ningu√©m me l√™‚ÄĒningu√©m dos que eu mais desejava que recebessem ternura de mim (minha M√£e, meu Pai, minha Irm√£, uns pobres amigos rudes que tenho na minha terra e uns infelizes que encontro por este mundo) ‚ÄĒ, fica tudo em letra morta. Hoje todo eu fui uma sede ardente de abra√ßar um infeliz que calcorreava √†s apalpadelas as ruas escaroladas da Nazar√©. Um dia como uma estrela, aquela maravilha ali para se ver, e o desgra√ßado cego de nascen√ßa! Mas o abra√ßo saiu-me aqui, a tinta.