Textos sobre Prosas

14 resultados
Textos de prosas escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Alimentar o Ego

Para quem faz do sonho a vida, e da cultura em estufa das suas sensa√ß√Ķes uma religi√£o e uma pol√≠tica, para esse primeiro passo, o que acusa na alma que ele deu o primeiro passo, √© o sentir as coisas m√≠nimas extraordin√°ria ‚ÄĒ e desmedidamente. Este √© o primeiro passo, e o passo simplesmente primeiro n√£o √© mais do que isto. Saber p√īr no saborear duma ch√°vena de ch√° a vol√ļpia extrema que o homem normal s√≥ pode encontrar nas grandes alegrias que v√™m da ambi√ß√£o subitamente satisfeita toda ou das saudades de repente desaparecidas, ou ent√£o nos actos finais e carnais do amor; poder encontrar na vis√£o dum poente ou na contempla√ß√£o dum detalhe decorativo aquela exaspera√ß√£o de senti-los que geralmente s√≥ pode dar, n√£o o que se v√™ ou o que se ouve, mas o que se cheira ou se gosta ‚ÄĒ essa proximidade do objecto da sensa√ß√£o que s√≥ as sensa√ß√Ķes carnais ‚ÄĒ o tacto, o gosto, o olfacto – esculpem de encontro √† consci√™ncia; poder tornar a vis√£o interior, o ouvido do sonho ‚ÄĒ todos os sentidos supostos e do suposto ‚ÄĒ recebedores e tang√≠veis como sentidos virados para o externo: escolho estas, e as an√°logas suponham-se,

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A Alma e o Génio

O que faz de um homem um homem de génio Рou melhor o que eles fazem Рnão são as ideias novas mas essa ideia, que nunca os larga, que o que já foi dito não o foi nunca suficientemente.
(…) O que tortura a minha alma √© a sua solid√£o. Quanto mais ela se dispersa pelos amigos e os prazeres comezinhos, mais esta me foge e se esconde na sua fortaleza. A novidade encontra-se no esp√≠rito que cria e n√£o na nautreza reproduzida.

Tu que sabes que o novo existe sempre, mostra-o aos outros – no que eles nunca souberam ver. Faz-lhes compreender que nunca tinham ouvido falar do rouxinol, do espect√°culo do mar imenso ou de tudo aquilo que os seus grosseiros √≥rg√£os s√≥ se encontram em condi√ß√Ķes de desfrutar depois de se ter tido o trabalho de sentir por eles.
E não faças da língua um empecilho, porque se cuidares da tua alma ela arranjará forma de se dar a entender. Criará uma nova linguagem que valerá os hemistíquios deste ou a prosa daquele. O quê?, diz-me que se considera uma pessoa original e fica insensível à leitura de Byron ou de Dante?

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O Provincianismo Português (II)

Se fosse preciso usar de uma s√≥ palavra para com ela definir o estado presente da mentalidade portuguesa, a palavra seria “provincianismo”. Como todas as defini√ß√Ķes simples esta, que √© muito simples, precisa, depois de feita, de uma explica√ß√£o complexa. Darei essa explica√ß√£o em dois tempos: direi, primeiro, a que se aplica, isto √©, o que deveras se entende por mentalidade de qualquer pa√≠s, e portanto de Portugal; direi, depois, em que modo se aplica a essa mentalidade.
Por mentalidade de qualquer pa√≠s entende-se, sem d√ļvida, a mentalidade das tr√™s camadas, organicamente distintas, que constituem a sua vida mental ‚ÄĒ a camada baixa, a que √© uso chamar povo; a camada m√©dia, a que n√£o √© uso chamar nada, excepto, neste caso por engano, burguesia; e a camada alta, que vulgarmente se designa por escol, ou, traduzindo para estrangeiro, para melhor compreens√£o, por elite.
O que caracteriza a primeira camada mental é, aqui e em toda a parte, a incapacidade de reflectir. O povo, saiba ou não saiba ler, é incapaz de criticar o que lê ou lhe dizem. As suas ideias não são actos críticos, mas actos de fé ou de descrença, o que não implica, aliás,

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Devo à Paisagem as Poucas Alegrias que Tive no Mundo

Devo √† paisagem as poucas alegrias que tive no mundo. Os homens s√≥ me deram tristezas. Ou eu nunca os entendi, ou eles nunca me entenderam. At√© os mais pr√≥ximos, os mais amigos, me cravaram na hora pr√≥pria um espinho envenenado no cora√ß√£o. A terra, com os seus vestidos e as suas pregas, essa foi sempre generosa. √Č claro que nunca um panorama me interessou como gargarejo. √Č mesmo um favor que pe√ßo ao destino: que me poupe √† degrada√ß√£o das habituais paneladas de prosa, a descrever de cor caminhos e florestas. As dobras, e as cores do ch√£o onde firmo os p√©s, foram sempre no meu esp√≠rito coisas sagradas e √≠ntimas como o amor. Falar duma encosta coberta de neve sem ter a alma branca tamb√©m, retratar uma folha sem tremer como ela, olhar um abismo sem fundura nos olhos, √© para mim o mesmo que gostar sem l√≠ngua, ou cantar sem voz. Vivo a natureza integrado nela. De tal modo, que chego a sentir-me, em certas ocasi√Ķes, pedra, orvalho, flor ou nevoeiro. Nenhum outro espect√°culo me d√° semelhante plenitude e cria no meu esp√≠rito um sentido t√£o acabado do perfeito e do eterno. Bem sei que h√° gente que encontra o mesmo universo no jogo dum m√ļsculo ou na linha dum perfil.

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O Vício de Ler

O v√≠cio de ler tudo o que me ca√≠sse nas m√£os ocupava o meu tempo livre e quase todo o das aulas. Podia recitar poemas completos do repert√≥rio popular que nessa altura eram de uso corrente na Col√īmbia, e os mais belos do S√©culo de Ouro e do romantismo espanh√≥is, muitos deles aprendidos nos pr√≥prios textos do col√©gio. Estes conhecimentos extempor√Ęneos na minha idade exasperavam os professores, pois cada vez que me faziam na aula qualquer pergunta dif√≠cil, respondia-lhes com uma cita√ß√£o liter√°ria ou com alguma ideia livresca que eles n√£o estavam em condi√ß√Ķes de avaliar. O padre Mejia disse: ¬ę√Č um garoto afectado¬Ľ, para n√£o dizer insuport√°vel. Nunca tive que for√ßar a mem√≥ria, pois os poemas e alguns trechos de boa prosa cl√°ssica ficavam-me gravados em tr√™s ou quatro releituras. Ganhei do padre prefeito a primeira caneta de tinta permanente que tive porque lhe recitei sem erros as cinquenta e sete d√©cimas de ¬ęA vertigem¬Ľ, de Gaspar N√ļnez de Arce.

Lia nas aulas, com o livro aberto em cima dos joelhos e com tal descaramento que a minha impunidade s√≥ parecia poss√≠vel devido √† cumplicidade dos professores. A √ļnica coisa que n√£o consegui com as minhas ast√ļcias bem rimadas foi que me perdoassem a missa di√°ria √†s sete da manh√£.

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A Vida é Ilegível

A vida, meu caro, é ilegível. Acontece
e desaparece. Não há inteligência
que a descodifique: vem em linguagem-nada,
surge no corpo como surge o dia, e como
se dia e vida individual fossem materiais paralelos.
A vida n√£o surge em prosa
nem em poesia ‚ÄĒ e a exist√™ncia n√£o fala
inglês, apesar de tudo. A natureza dos acontecimentos
resiste √†s invas√Ķes matreiras da publicidade e
dos filmes. Já não é mau.

Gonçalo M.

Censura e Criatividade

Dos d√©spotas prov√™m, at√© certo ponto, os pensadores. A palavra acorrentada √© terr√≠vel. O escritor duplica e triplica o seu estilo, quando um senhor imp√Ķe sil√™ncio ao povo. Sai desse sil√™ncio certa plenitude misteriosa que se filtra e se condensa em bronze no pensamento. A compreens√£o na hist√≥ria produz a concis√£o no historiador. A solidez gran√≠tica de tal ou tal prosa c√©lebre n√£o √© mais do que um amontoamento feito por um tirano.
A tirania constrange o escritor a circunscri√ß√Ķes de di√Ęmetro, que s√£o alargamentos de for√ßa. O per√≠odo ciceroniano, apenas suficiente para Verres, sobre Cal√≠gula embotar-se-ia. Quanto menor for a exuber√Ęncia da frase, maior ser√° a intensidade do golpe. Sirva de exemplo a concis√£o de T√°cito no exprimir e a sua veem√™ncia no pensar. A honestidade de um grande cora√ß√£o, condensada em justi√ßa e em verdade, fulmina.

√Č o Que a Gente Leva Desta Vida…

A persist√™ncia instintiva da vida atrav√©s da apar√™ncia da intelig√™ncia √© para mim uma das contempla√ß√Ķes mais √≠ntimas e mais constantes. O disfarce irreal da consci√™ncia serve somente para me destacar aquela inconsci√™ncia que n√£o disfar√ßa.
Da nascença à morte, o homem vive servo da mesma exterioridade de si mesmo que têm os animais. Toda a vida não vive, mas vegeta em maior grau e com mais complexidade. Guia-se por normas que não sabe que existem, nem que por elas se guia, e as suas ideias, os seus sentimentos, os seus actos, são todos inconscientes Рnão porque neles falte a consciência, mas porque neles não há duas consciências.
Vislumbres de ter a ilus√£o – tanto, e n√£o mais, tem o maior dos homens.
Sigo, num pensamento de divaga√ß√£o, a hist√≥ria vulgar das vidas vulgares. Vejo como em tudo s√£o servos do temperamento subconsciente, das circunst√Ęncias externas alheias, dos impulsos de conv√≠vio e desconv√≠vio que nele, por ele e com ele se chocam como pouca coisa.
Quantas vezes os tenho ouvido dizer a mesma frase que simboliza todo o absurdo, todo o nada, toda a insci√™ncia falada das suas vidas. √Č aquela frase que usam de qualquer prazer material: ¬ę√© o que a gente leva desta vida¬Ľ…

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O que é um Romance?

Um romance √© aquilo que o autor quiser que seja. O Herberto Helder tem raz√£o quando diz que est√° tudo misturado: n√£o se sabe quando √© que a poesia n√£o d√° origem a um romance, quando √© que um ensaio n√£o √© um romance, quando √© que no interior de um ensaio n√£o aparece um poema‚Ķ N√£o vejo por que √© que essas coisas h√£o-de ser catalogadas. H√° p√°ginas de grandes romances que s√£o grandes p√°ginas de poesia. Bom, mas isto √© mais um pressentimento que uma certeza, que o in√≠cio de uma teoria‚Ķ √Č uma interroga√ß√£o. O meu problema √© que sempre li mais prosa que poesia. Na verdade, a poesia aborrece-me mais. N√£o √© bem isso‚Ķ √© no sentido de que ocupa um espa√ßo muito menor nas minhas leituras.

Esta Prosa Travada

P√Ķe-se a gente a ler estes Gides, estes Munthes, estes Malraux. E √© sempre a mesma sensa√ß√£o de plenitude. Sempre a mesma sensa√ß√£o de que, depois daquilo, n√£o vale a pena escrever uma palavra, de mais a mais nesta l√≠ngua de que o diabo ainda se serve para falar √† av√≥… Mas depois vem a revolta. Esta impotente revolta de todo o verdadeiro escritor portugu√™s que come√ßou por nascer atr√°s duma fraga e acaba por gastar a vida em Paio Pires, amanuense de secretaria. Metessem no bra√ßo dum Gide uma manga de alpaca, e eu queria ver… Ent√£o um homem nasce em Paris ou numa terra lavada da Su√©cia, tanto faz, mestres logo √† beira do ber√ßo, todas as civiliza√ß√Ķes na biblioteca do pai, uma vida inteira pelo mundo al√©m, e aqueles neur√≥nios, e aqueles sentidos n√£o h√£o-de reagir?! O mais bronco ser humano, quando fala com um Wilde, ouviu pelo menos falar o autor do De Profundis. Evidentemente √© preciso mais alguma coisa do que ir √† China e ter certa experi√™ncia para escrever A Condi√ß√£o Humana. Mas, sem um homem andar de avi√£o, como h√°-de um homem ganhar perspectivas de p√°ssaro e falar de po√ßos de ar?!
…E a gente n√£o tem outro rem√©dio sen√£o gastar as horas a fabricar esta prosa travada,

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N√£o Existe Prosa

N√£o existe prosa. A menos que se refiram os escritos, em prosa ou verso, que pretendem ensinar. N√£o h√° nada a ensinar embora haja tudo a aprender. Aquilo que se aprende vem do nosso pr√≥prio ensino, vem da pergunta; v√£o-se aprendendo, pelas esperas, pela imobilidade √†s portas, pela invisibilidade dos rostos depois de vistos t√£o prometedoramente, pela emenda sucessiva, pela ins√≥nia sucessiva dos olhos e das figura√ß√Ķes, sempre, v√£o-se aprendendo sempre as maneiras da pergunta. Uma pergunta em perguntas, um poema em poemas, uma rebarbativa constela√ß√£o de objectos ofuscantes. Aprende-se que a pergunta se desloca com a luz inerente; ilumina-se a si mesma, a pergunta constelar; ensina a si mesma, ao longo de si mesma, os estilos de ser dotada dessa luz para fora e para dentro. Leio romances desde que perceba que n√£o est√£o a responder. Alguns s√£o extraordin√°rias m√°quinas interrogativas: “Ulisses”, “Filhos e Amantes”, “O Doutor Fausto”, “O Processo”, “A Morte de Virg√≠lio”, “O Som e a F√ļria”, “Debaixo do Vulc√£o”, “A Obra ao Negro”, “Lolita”, “Di√°rio do Ladr√£o”, todos os romances de C√©line como se fossem um s√≥, alguns outros, antes, agora. Os romances de Agustina Bessa-Lu√≠s, porventura os menos amados, s√£o entre n√≥s as quase √ļnicas m√°quinas vivas de perguntar.

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O Romancista e o Escritor

Releio o curto ensaio de Sartre O Que é Escrever?. Nem uma vez ele utiliza as palavras romance, romancista. Fala apenas do escritor da prosa. Distinção justa. O escritor tem ideias originais e uma voz inimitável. Pode servir-se de qualquer forma (romance incluído) e tudo o que escreve, já que marcado pelo seu pensamento, levado pela sua voz, faz parte da sua obra. Rouseau, Goethe, ChateauBriand, Gide, Malraux, Camus, Montherland.
O romancista n√£o liga muito √†s suas ideias. √Č um descobridor que, tacteando, se esfor√ßa por desvendar um aspecto desconhecido da exist√™ncia. N√£o est√° fascinado pela sua voz mas por uma forma que persegue, e s√≥ as formas que respondem √†s exig√™ncias do seu sonho fazem parte da sua obra. Fielding, Sterne, Flaubert, Proust, Faulkner, C√©line, Calvino.
O escritor inscreve-se na carta espiritual do seu tempo, da sua na√ß√£o, na da hist√≥ria das ideias. O √ļnico contexto em que se pode apreender o valor de um romance √© o da hist√≥ria do romance europeu. O romancista n√£o tem contas a prestar a ningu√©m, excepto a Cervantes.

O Cerne da Escrita e da Leitura

Não se é escritor por se ter preferido dizer certas coisas, mas por se ter preferido dizê-las duma certa maneira. E o estilo faz, evidentemente, o valor da prosa. Mas deve passar despercebido. Uma vez que as palavras são transparentes e que o olhar as atravessa, seria absurdo meter entre elas vidros despolidos. Aqui, a beleza é apenas uma força doce e insensível.
Num quadro, brilha antes de mais nada; num livro, esconde-se, age por persuas√£o como o encanto duma voz ou dum rosto, n√£o obriga, faz curvar sem que se d√™ por isso e pensa-se ceder aos argumentos quando afinal se √© solicitado por um encanto impercept√≠vel. A cerim√≥nia da missa n√£o √© a f√©, ela disp√Ķe a isso; a harmonia das palavras, a sua beleza, o equil√≠brio das frases, disp√Ķem as paix√Ķes do leitor sem que ele d√™ por isso, ordenam-nas como a missa, como a m√ļsica, como uma dan√ßa; se acaba por as considerar em si mesmas, perde o sentido, apenas restam oscila√ß√Ķes aborrecidas.

O Prolongamento da Adolescência

No dia a seguir ao casamento os noivos est√£o mais velhos cinco anos. Biol√≥gicamente, a idade madura come√ßa com o casamento, porque o descuidoso brincar de at√© ali substitui-se pelo trabalho e pela responsabilidade, a paix√£o cede diante das limita√ß√Ķes da ordem social – a poesia passa a prosa. Esta mudan√ßa varia com os costumes e o clima; o casamento vem mui tardiamente nas cidades modernas, facto que prolonga a adolesc√™ncia; mas entre os povos do Sul e do Oriente realiza-se em idade bem verde. Os rapazes orientais, diz Stanley Hall, come√ßam a exercer as fun√ß√Ķes de marido aos treze anos, e aos trinta, j√° gastos, recorrem a afrodis√≠acos… Aos trinta anos as mulheres dos climas quentes j√° est√£o velhas. Est√° verificado que o dilatar da adolesc√™ncia prolonga a vida. Se pud√©ssemos retardar a nossa maturidade sexual de modo a coincidir com a nossa maturidade econ√≥mica, prolongando assim a adolesc√™ncia e a fase educativa, erguer√≠amos a civiliza√ß√£o a n√≠vel jamais alcan√ßado.