Cita√ß√Ķes sobre Cascas

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Frases sobre cascas, poemas sobre cascas e outras cita√ß√Ķes sobre cascas para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

A Taça de Chá

O luar desmaiava mais ainda uma m√°scara caida nas esteiras bordadas. E os bamb√ļs ao vento e os crysanthemos nos jardins e as gar√ßas no tanque, gemiam com elle a advinharem-lhe o fim. Em r√≥da tomb√°vam-se adormecidos os idolos coloridos e os drag√Ķes alados. E a gueisha, procelana transparente como a casca de um ovo da Ibis, enrodilhou-se num labyrinto que nem os drag√Ķes dos deuses em dias de lagrymas. E os seus olhos rasgados, perolas de Nankim a desmaiar-se em agua, confundiam-se scintillantes no luzidio das procelanas.

Elle, num gesto ultimo, fechou-lhe os labios co’as pontas dos dedos, e disse a finar-se:–Chorar n√£o √© remedio; s√≥ te pe√ßo que n√£o me atrai√ßoes emquanto o meu corpo f√īr quente. Deitou a cabe√ßa nas esteiras e ficou. E Ella, num grito de gar√ßa, ergueu alto os bra√ßos a pedir o Ceu para Elle, e a saltitar foi pelos jard√≠ns a sacudir as m√£os, que todos os que passavam olharam para Ella.

Pela manh√£ vinham os visinhos em bicos dos p√©s espreitar por entre os bamb√ļs, e todos viram acocorada a gueisha abanando o morto com um leque de marfim.

A estampa do pires é igual.

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Rebeca se levantou √† meia-noite e comeu punhados de terra no jardim, com avidez suicida, chorando de dor e f√ļria, mastigando minhocas macias e espeda√ßando os dentes nas cascas de carac√≥is.

Voto de Natal

Acenda-se de novo o Presépio no Mundo!
Acenda-se Jesus nos olhos dos meninos!
Como quem na corrida entrega o testemunho,
passo agora o Natal para as m√£os dos meus filhos.

E a corrida que siga, o facho n√£o se apague!
Eu aperto no peito uma rosa de cinza.
Dai-me o brando calor da vossa ingenuidade,
para sentir no peito a rosa reflorida!

Filhos, as vossas m√£os! E a solid√£o estremece,
como a casca do ovo ao latejar-lhe vida…
Mas a noite infinita enfrenta a vida breve:
dentro de mim não sei qual é que se eterniza.

Extinga-se o rumor, dissipem-se os fantasmas!
O calor destas m√£os nos meus dedos t√£o frios?
Acende-se de novo o Presépio nas almas.
Acende-se Jesus nos olhos dos meus filhos.

Ideal Comum

(Soneto escrito em colaboração com Oscar Rosas).

Dos cheirosos, silvestres ananases
De casca rubra e polpa acidulosa,
Tens na carne fremente, volutuosa,
Os aromas rec√īnditos, vivazes.

Lembras lírios, papoulas e lilazes;
A tua boca exala a trevo e a rosa,
Resplande essa cabeça primorosa
E o dia e a noite nos teus olhos trazes.

Astros, jardins, rel√Ęmpagos e luares
Inundam-te os fant√°sticos cismares,
Cheios de amor e estranhos calafrios;

E teus seios, olímpicos, morenos,
Propinando-me tr√°gicos venenos,
S√£o como em brumas, solit√°rios rios.

A Essência não se Perde

Com a firmeza de passos sem retorno,
carregar o que foi dentro de si,
sem chorar a partida, sem temer
deixar o que afinal vai bem marcado
com seu selo de coisa inesquecível.
A essência não se perde, vai connosco
e extravasa dos dedos quando escrevem,
salta fora da boca quando fala,
transpira pela pele, sai dos ossos,
√© lan√ßada dos m√ļsculos em arco
e circula no sangue das artérias.
Os pagos, as querências não se perdem,
se penetram nos ossos, moram neles,
n√£o como o minuano passageiro,
mas sim como a medula que sustenta
o circuito do corpo e o movimenta,
impedindo que pare, morra e penda
como trouxa de pano, como penca
tombada de seu pé, como o vazio,
a coisa sem recheio, a casca murcha,
o fruto despojado de si mesmo.

O Mundo é a Nossa Representação

O mundo √© a nossa representa√ß√£o. (…) H√° alguma coisa para al√©m da representa√ß√£o? √Č a consci√™ncia uma janela fiel dando para a realidade, ou, antes, um sistema de lentes embaciadas e riscadas pela hist√≥ria, que filtram s√≥ imagens falsas e sombras incertas da verdade? E h√° deveras qualquer coisa por tr√°s do conhecimento, ou apenas o nada, como por tr√°s da vida? Seria talvez apenas espelho de si mesmo, casca sem tronco e roupagem sobre o v√°cuo?
(…) O mundo √© representa√ß√£o, sim, mas eu n√£o sei doutras representa√ß√Ķes afora as minhas. As dos outros ignoro-as, ignoro a ess√™ncia dos fen√≥menos inanimados. As mentes alheias existem apenas como hip√≥tese da minha. O mundo √© pois a minha representa√ß√£o – o mundo √© a minha alma; – o mundo sou eu!
(…) O mundo inteiro era apenas uma parte do meu eu: de mim, dos meus sentidos, da minha mente dependia a sua exist√™ncia. Ao sabor das minhas voli√ß√Ķes as coisas apareciam ou desapareciam. Atentando, ressurgiam; abandonando-as, desfaziam-se de novo. Se eu fechava os olhos, todas as cores morriam; se tapava os ouvidos, nenhum som, ru√≠do ou harmonia rompia o sil√™ncio do espa√ßo. E, √ļltima consequ√™ncia: quando eu morresse o mundo inteiro seria aniquilado.

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Ruína

Sem encontrar-se.
Viajante pelo seu próprio torso branco.
Assim ia o ar.

Logo se viu que a lua
era uma caveira de cavalo
e o ar uma maçã escura.

Detr√°s da janela,
com l√°tegos e luzes se sentia
a luta da areia contra a √°gua.

Eu vi chegarem as ervas
e lhes lancei um cordeiro que balia
sob seus dentezinhos e lancetas.

Voava dentro de uma gota
a casca de pluma e celulóide
da primeira pomba.

As nuvens, em manada,
ficaram adormecidas contemplando
o duelo das rochas contra a aurora.

Vêm as ervas, filho;
j√° soam suas espadas de saliva
pelo céu vazio.

Minha m√£o, amor. As ervas!
Pelos cristais partidos da morada
o sangue desatou suas cabeleiras.

Tu somente e eu ficamos;
prepara teu esqueleto para o ar.
Eu só e tu ficamos.

Prepara teu esqueleto;
é preciso ir buscar depressa, amor, depressa,
nosso perfil sem sonho.

Em Ramos Tufados, Cheios…

Eram ramos tufados, cheios,
Olha, minha Amada, vê!
Deixa que te mostre os frutos
Dentro dos ouriços verdes.

Redondos, h√° muito pendem,
Calmos, fechados em si,
E um ramo a baloiçar
Os embala paciente.

Mas de dentro amadurece
E incha o fruto castanho;
Gostava de vir pra o ar
E de poder ver o sol.

A casca rebenta, e cai
Alegre pra o ch√£o o fruto;
Tais minhas can√ß√Ķes aos montes
Te vão cair no regaço.

Tradução de Paulo Quintela

Hábito e Inércia

Ao princípio, somos carne animada pela alma; a meio caminho, meias máquinas; perto do fim, autómatos rígidos e gelados como cadáveres. Quando a morte chega, encontramo-nos em tudo semelhantes aos mortos. Esta petrificação progressiva é obra do hábito.
O hábito torna-nos cegos às maravilhas do mundo Рindiferentes e inconscientes perante os milagres quotidianos -, embota a força dos sentidos e dos sentimentos Рtorna-nos escravos dos costumes, mesmo tristes e culpados: suprime a vista, espanto, fogo e liberdade. Escravos, frígidos, insensatos, cegos: tudo propriedade dos cadáveres. A subjugação aos hábitos é uma subjugação da morte; um suicídio gradual do espírito.
O h√°bito suprime as cores, incrusta, esconde: partes da nossa vida afundam-se gradualmente na inconsci√™ncia e deixam de ser vida para se tornarem pe√ßas de um mecanismo imprevisto. O c√≠rculo do espont√Ęneo reduz-se; a liberdade e novidade decaem na monotonia do vulgar.
√Č como se o sangue se tornasse, a pouco e pouco, s√≥lido como os ossos e a alma um sistema de correias e rodas. A mat√©ria n√£o passa de esp√≠rito petrificado pelos h√°bitos. Nasce-se esp√≠rito e mat√©ria e termina-se apenas como mat√©ria. A casca converteu em madeira a pr√≥pria linfa.
A casca é necessária para proteger o albume,

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Inquérito

Pergunta às árvores da rua
que notícia têm desse dia
filtrado em betume da noite;
se por acaso pressentiram
nas aragens conversadeiras,
√°gil correio do universo,
um calar mais informativo
que toda grave confiss√£o.

Pergunta aos p√°ssaros, cativos
do sol e do espaço, que viram
ou bicaram de mais estranho,
seja na pele das estradas
seja entre volumes suspensos
nas prateleiras do ar, ou mesmo
sobre a palma da m√£o de velhos
profissionais de solid√£o.

Pergunta às coisas, impregnadas
de sono que precede a vida
e a consuma, sem que a vigília
intermédia as liberte e faça
conhecedoras de si mesmas,
que prisma, que diamante fluido
concentra mil fogos humanos
onde era ruga e cinza e n√£o.

Pergunta aos hortos que segredo
de clepsidra, areia e carocha
se foi desenrolando, lento,
no calado rumo do infante
a divagar por entre símbolos
de símbolos outros, primeiros,
e tão acessíveis aos pobres
como a breve casca do p√£o.

Pergunta ao que, n√£o sendo, resta
perfilado à porta do tempo,

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Duplo

Olho-me adentro sem cessar e no silêncio
e na penumbra de mim mesmo n√£o me exprimo
nesse mim que se esconde e se retrai no vago
espaço de urna célula e vai construindo
outro mim de mim, disposto em gêmeos compassos,
e não aparece ao olho, ao espelho, à imagem
casualmente em máscara, fechado à curio-
sidade de meus olhos lacerados, cegos
de tanta luz enganosa, nem se derrama
sobre a superfície polida e indiferente,
enquanto cresce em mim a presença de estranho
ser não eu, de irrevelada e própria pessoa,
que domina esse meu corpo, casca de ang√ļstia
e contradi√ß√Ķes sim√©tricas envolventes,
e me explora e me assimila; mas sou eu só
a me percorrer e nele me vejo e sinto,
como de dois corpos iguais matéria viva,
e me faço e refaço e me desfaço sempre
e recomeço e junto a mim eu mesmo, gêmeo,
nada acabo e tudo abandono, dividido
entre mim e mim na batalha intermin√°vel…

Prefiro Ser Povo

Se comparo as duas condi√ß√Ķes mais opostas dos homens, quero dizer, os nobres e o povo, este √ļltimo parece-me contente com o necess√°rio e os outros inquietos e pobres com o sup√©rfluo. Um homem do povo n√£o saberia fazer nenhum mal; um nobre n√£o quer nenhum bem e √© capaz de grandes malef√≠cios; um, s√≥ se forma e se exerce nas coisas √ļteis; o outro, acrescenta as perniciosas: ali, mostram-se ingenuamente a grosseria e a franqueza; aqui, esconde-se uma seiva maligna e corrompida sob a casca da polidez: o povo n√£o tem esp√≠rito e os nobres n√£o t√™m alma; aquele tem bom fundo e n√£o tem boa apar√™ncia; estes s√≥ t√™m apar√™ncias e uma simples superf√≠cie. Ser√° preciso optar? N√£o hesito: quero ser povo.

Mas o silêncio é um ovo às avessas: a casca é dos outros, mas quem se quebra somos nós.

Brincando agora de esconder, se te escondesses no meu cora√ß√£o, n√£o seria dif√≠cil encontrar-te. Mas se te escondesses dentro de tua pr√≥pria casca, ent√£o seria in√ļtil procurar por ti.