Cita√ß√Ķes sobre Coincid√™ncias

14 resultados
Frases sobre coincid√™ncias, poemas sobre coincid√™ncias e outras cita√ß√Ķes sobre coincid√™ncias para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Técnicas de Narrador

Os que me conheceram aos quatro anos dizem que era pálido e ensimesmado e que só falava para contar disparates, mas os meus relatos eram em grande parte episódios simples da vida diária, que eu tornava mais atraentes com pormenores fantásticos para que os adultos me prestassem atenção. A minha melhor fonte de inspiração eram as conversas que os mais velhos mantinham diante de mim, porque pensavam que não as entendia, ou as que cifravam de propósito para que não as entendesse. E, de facto, acontecia o contrário: absorvia-as como uma esponja, desmontava-as em peças, alterava-as para escamotear a origem, e quando as contava aos mesmos que as tinham contado ficavam perplexos pelas coincidências entre o que eu dizia e o que eles pensavam.

Às vezes não sabia o que fazer com a minha consciência e procurava dissimular com um rápido pestanejar. Tanto era assim que algum racionalista da família decidiu que eu fosse observado por um médico da vista, que atribuiu o meu pestanejar a uma infecção das amígdalas e me receitou um xarope de rábano iodado que me fez muito bem para aliviar os adultos. A avó, por seu lado, chegou à conclusão providencial de que o neto era adivinho.

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Poema de Amor

O céu, as linhas de luz na água,
caminhos diferentes para o coração.
A queda de sons diversos na atenta coincidência
dos ouvidos. A relação de uma límpida tarde
com um movimento de ombros junto do teu corpo,
na luminosa sequência da tua voz.
Um andar divino de transparente espectro
sobre o fundo de √°rvores;
o acentuar da impress√£o dos teus olhos
na quente atmosfera estagnada.
Mas o s√ļbito levantar do vento dissipou
a primitiva aparência. Um canto lívido
de mortas recorda√ß√Ķes apenas subsistiu,
o indefinido desgosto dos teus braços,
o remorso de gestos incompletos
que a memória suspende.
Nem me espanto j√° com a tua proximidade.
Bem vindos, decompostos l√°bios!
O ranger da cama sobrep√Ķe-se
ao ruído das cigarras.

Com Quantos Tenho que Casar?

Querida íbis:

Desculpa o papel impr√≥prio em que te escrevo; √© o √ļnico que encontrei na pasta, e aqui no Caf√© Arcada n√£o t√™m papel. Mas n√£o te importas, n√£o?
Acabo de receber a tua carta com o postal, que acho muito engraçado.

Ontem foi ‚ÄĒ n√£o √© verdade? ‚ÄĒ uma coincid√™ncia engra√ßad√≠ssima o facto de eu e minha irm√£ virmos para a Baixa exactamente ao mesmo tempo que tu. O que n√£o teve gra√ßa foi tu desapareceres, apesar dos sinais que eu te fiz. Eu fui apenas deixar minha irm√£ ao Avda. Palace, para ela ir fazer umas compras e dar um passeio com a m√£e e a irm√£ do rapaz belga que a√≠ est√°. Eu sa√≠ quasi imediatamente, e esperava encontrar-te ali pr√≥ximo para falarmos. N√£o quiseste. Tanta pressa tiveste de ir para casa de tua irm√£!

E, ainda por cima, quando saí do hotel, vejo a janela de casa de tua irmã armada em camarote (com cadeiras suplementares) para o espectáculo de me ver passar! Claro está que, tendo visto isto, segui o meu caminho como se ali não estivesse ninguém. Quando eu pretendesse ser palhaço (para o que, aliás,

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A Minha Ténica Narrativa

Todas as caracter√≠sticas da minha t√©cnica narrativa actual (eu preferiria dizer: do meu estilo) prov√™m de um princ√≠pio b√°sico segundo o qual todo o ¬ędito¬Ľ se destina a ser ¬ęouvido¬Ľ. Quero com isto significar que √© como narrador oral que me vejo quando escrevo e que as palavras s√£o por mim escritas tanto para serem lidas como para serem ouvidas. Ora, o narrador oral n√£o usa pontua√ß√£o, fala como se estivesse a compor m√ļsica e usa os mesmos elementos que o m√ļsico: sons e pausas, altos e baixos, uns, breves ou longas, outras. Certas tend√™ncias, que reconhe√ßo e confirmo (estruturas barrocas, orat√≥ria circular, simetria de elementos), suponho que me v√™m de uma certa ideia de um discurso oral tomado como m√ļsica. Pergunto-me mesmo se n√£o haver√° mais do que uma simples coincid√™ncia entre o car√°cter inorganizado e fragment√°rio do discurso falado de hoje e as express√Ķes ¬ęm√≠nimas¬Ľ de certa m√ļsica contempor√Ęnea…

Coincid√™ncia √© coisa que n√£o existe. H√° significado para tudo. Sempre soube que existe uma vida espiritual mas n√£o da forma como as igrejas imp√Ķem, causando medo. Se os rapazes me ouvirem falando essas coisas v√£o achar que estou louco

Ode ao Destino

Destino: desisti, regresso, aqui me tens.

Em vão tentei quebrar o círculo mágico
das tuas coincidências, dos teus sinais, das ameaças,
do recolher felino das tuas unhas retracteis
Рah então, no silêncio tranquilo, eu me encolhia ansioso
esperando já sentir o próximo golpe inesperado.

Em v√£o tentei n√£o conhecer-te, n√£o notar
como tudo se ordenava, como as pessoas e as coisas chegavam
que eu, de soslaio, e disfarçando, observava                               [em bandos,
pura conter as palavras, as minhas e as dos outros,
para dominar a tempo um gesto de amizade inoportuna.

Eu sabia, sabia, e procurei esconder-te,
afogar-te em sistemas, em esperanças, em audácias;
descendo à fé só em mim próprio, até busquei
sentir-te imenso, exacto, magn√Ęnimo,
√ļnico mist√©rio de um mundo cujo mist√©rio eras tu.

Lei universal que a sem-razão constrói,
de um Deus ínvio caminho, capricho dos Deuses,
soberana essência do real anterior a tudo,
Providência, Acaso, falta de vontade minha,
superstição, metafísica barata, medo infantil, loucura,
complexos variados mais ou menos freudianos,
contradição ridícula não superada pelo menino burguês,
educação falhada,

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As Mulheres S√£o Profundamente Diferentes dos Homens

S√£o profundamente diferentes, felizmente. At√© o c√©rebro tem uma outra organiza√ß√£o. A mulher √© extraordin√°ria… Gosto muito da est√°tua da V√©nus de Milo, a√≠ √© que est√° o sentido. N√£o h√° nada dela que eu tire para o sexo. O sexo √© um prazer, um v√≠cio, como fumar, tomar caf√©, beber uma droga. A V√©nus de Milo: a gente n√£o sabe a posi√ß√£o das m√£os, mas o seio √© muito bonito, nada provocativo, nem a cara, que √© muito serena, muito feminina; mas o ventre √© o que sobressai mais. E √© o ventre onde se gera a humanidade. A Agustina Bessa-Lu√≠s diz mesmo que Cristo, Deus, nasceu do ventre da mulher. Veja a import√Ęncia que tem e que se n√£o d√° √† mulher: a de criar humanidade. E essa est√°tua, por coincid√™ncia, √© a mais conhecida de todas as do mundo ocidental.

Destino, Acaso ou Coincidência

Podemos muito bem, se for esse o nosso desejo, vaguear sem destino pelo vasto mundo do acaso. Que é como quem diz, sem raízes, exactamente da mesma maneira que a semente alada de certas plantas esvoaça ao sabor da brisa primaveril.
E, contudo, n√£o faltar√° ao mesmo tempo quem negue a exist√™ncia daquilo a que se convencionou chamar o destino. O que est√° feito, feito est√°, o que tem se ser tem muita for√ßa e por a√≠ fora. Por outras palavras, quer queiramos quer n√£o, a nossa exist√™ncia resume-se a uma sucess√£o de instantes passageiros aprisionados entre o ¬ętudo¬Ľ que ficou para tr√°s e o ¬ęnada¬Ľ que temos pela frente. Decididamente, neste mundo n√£o h√° lugar para as coincid√™ncias nem para as probabilidades.
Na verdade, por√©m, n√£o se pode dizer que entre esses dois pontos de vista exista uma grande diferen√ßa. O que se passa – como, de resto, em qualquer confronto de opini√Ķes – √© o mesmo que sucede com certos pratos culin√°rios: s√£o conhecidos por nomes diferentes mas, na pr√°tica, o resultado n√£o varia.

Conhecimento Maduro

Passa-se com os livros uma coisa semelhante ao que sucede com um novo conhecimento que travamos com alguém. Num primeiro momento experimentamos um profundo prazer em encontrar coincidências gerais de opinião ou ao sentirmo-nos tocados num aspecto importante da nossa existência. Só depois, quando o conhecimento se aprofunda, começam a surgir as diferenças. Nessa altura, o comportamento inteligente caracteriza-se pela capacidade de não retroceder imediatamente, como muitas vezes acontece na juventude, e de pelo contrário reter o que há de coincidente enquanto se vão esclarecendo mutuamente todas as diferenças, sem se pretender chegar a acordo absoluto.

A caracter√≠stica da consci√™ncia √© que ela √© uma descompress√£o de ser. √Č imposs√≠vel com efeito defini-la como coincid√™ncia consigo.