Cita√ß√Ķes sobre Cr√≥nica

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Frases sobre cr√≥nica, poemas sobre cr√≥nica e outras cita√ß√Ķes sobre cr√≥nica para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

O Valor da Crónica de Jornal

A cr√≥nica √© como que a conversa √≠ntima, indolente, desleixada, do jornal com os que o l√™em: conta mil coisas, sem sistema, sem nexo, espalha-se livremente pela natureza, pela vida, pela literatura, pela cidade; fala das festas, dos bailes, dos teatros, dos enfeites, fala em tudo baixinho, como quando se faz um ser√£o ao braseiro, ou como no Ver√£o, no campo, quando o ar est√° triste. Ela sabe anedotas, segredos, hist√≥rias de amor, crimes terr√≠veis; espreita, porque n√£o lhe fica mal espreitar. Olha para tudo, umas vezes melancolicamente, como faz a Lua, outras vezes alegre e robustamente, como faz o Sol; a cr√≥nica tem uma doidice jovial, tem um estouvamento delicioso: confunde tudo, tristezas e fac√©cias, enterros e actores ambulantes, um poema moderno e o p√© da imperatriz da China; ela conta tudo o que pode interessar pelo esp√≠rito, pela beleza, pela mocidade; ela n√£o tem opini√Ķes, n√£o sabe do resto do jornal; est√° nas suas colunas contando, rindo, pairando; n√£o tem a voz grossa da pol√≠tica, nem a voz indolente do poeta, nem a voz doutoral do cr√≠tico; tem uma pequena voz serena, leve e clara, com que conta aos seus amigos tudo o que andou ouvindo, perguntando, esmiu√ßando.

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O valor essencial da arte est√° em ela ser o ind√≠cio da passagem do homem no mundo, o resumo da sua experi√™ncia emotiva dele; e, como √© pela emo√ß√£o, e pelo pensamento que a emo√ß√£o provoca, que o homem mais realmente vive na terra, a sua verdadeira experi√™ncia regista-a ele nos fastos das suas emo√ß√Ķes e n√£o na cr√≥nica do seu pensamento cient√≠fico, ou nas hist√≥rias dos seus regentes e dos seus donos.

O Homem é o Animal Menos Preparado

A capacidade do homem para o pensamento abstracto, que parece faltar √† maioria dos outros mam√≠feros, conferiu-lhe sem d√ļvida o seu actual dom√≠nio sobre a superf√≠cie da Terra ‚Äď um dom√≠nio disputado apenas por centenas de milhares de tipos de insectos e organismos microsc√≥picos. Este pensamento abstracto √© o respons√°vel pela sua sensa√ß√£o de superioridade e pelo que, sob esta sensa√ß√£o, corresponde a uma certa medida de realidade, pelo menos dentro de estreitos limites. Mas o que √© frequentemente subestimado √© o facto de que a capacidade de desempenhar um acto n√£o √©, de forma alguma, sin√≥nima de seu exerc√≠cio salubre. √Č f√°cil observar que a maior parte do pensamento do homem √© est√ļpida, sem sentido e injuriosa para ele. Na realidade, de todos os animais, ele parece o menos preparado para tirar conclus√Ķes apropriadas nas quest√Ķes que afectam mais desesperadamente o seu bem-estar.
Tente imaginar um rato, no universo das ideias dos ratos, chegando a no√ß√Ķes t√£o ocas de plausibilidade como, por exemplo, o Swedenborgianismo, a homeopatia ou a telepatia mental. O instinto natural do homem, de facto, nunca se dirige para o que √© s√≥lido e verdadeiro; prefere tudo que √© especioso e falso. Se uma grande na√ß√£o moderna se confrontar com dois problemas antag√≥nicos ‚Äď um deles baseado em argumentos prov√°veis e racionais,

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Colec√ß√£o de perplexidades e obsess√Ķes, cada cr√≥nica de jornal √©, no essencial, um fragmento da biografia do seu autor.

Os povos livres s√£o os √ļnicos a ter uma hist√≥ria; os outros possuem apenas cr√≥nicas: s√£o mat√©ria para o erudito, e o g√©nero humano n√£o os conhece.

Alimentar o Amor

Come√ßar √© f√°cil. Acabar √© mais f√°cil ainda. Chega-se sempre √† primeira frase, ao primeiro n√ļmero da revista, ao primeiro m√™s de amor. Cada come√ßo √© uma mudan√ßa e o cora√ß√£o humano vicia-se em mudar. Vicia-se na novidade do arranque, do in√≠cio, da inaugura√ß√£o, da primeira linha na p√°gina branca, da luz e do barulho das portas a abrir.
Começar é fácil. Acabar é mais fácil ainda. Por isso respeito cada vez menos estas actividades. Aprendi que o mais natural é criar e o mais difícil de tudo é continuar. A actividade que eu mais amo e respeito é a actividade de manter.
Em Portugal quase tudo se resume a come√ßos e a encerramentos. Arranca-se com qualquer coisa, de qualquer maneira, com todo o aparato. √Ä m√≠nima comich√£o aparece uma ¬ęiniciativa¬Ľ, que depois n√£o tem prosseguimento ou perseveran√ßa e cai no esquecimento. Nem damos pela morte.
√Č por isso que eu hoje respeito mais os continuadores que os criadores. Criadores n√£o nos faltam. Chefes n√£o nos faltam. Faltam-nos continuadores. Faltam-nos tenentes. Her√≥is n√£o nos faltam. Faltam-nos guardi√Ķes.

√Č como no amor. A manuten√ß√£o do amor exige um cuidado maior. Qualquer palerma se apaixona, mas √© preciso paci√™ncia para fazer perdurar uma paix√£o.

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A solid√£o, quando √© vivida na inf√Ęncia em completa disponibilidade, sem constrangimento, como um estado semelhante ao do primeiro homem e da primeira mulher, tem tend√™ncia a tornar-se cr√≥nica.

O Valor Natural do Egoísmo

O ego√≠smo vale o que valer fisiologicamente quem o pratica: pode ser muito valioso, e pode carecer de valor e ser desprez√≠vel. E l√≠cito submeter a exame todo o indiv√≠duo para se determinar se representa a linha ascendente ou a linha descendente da vida. Quando se conclui a aprecia√ß√£o sobre este ponto possui-se tamb√©m um c√Ęnone para medir o valor que tem o seu ego√≠smo. Se se encontra na linha ascendente, ent√£o o valor do seu ego√≠smo √© efectivamente extraordin√°rio, ‚ÄĒ e por amor √† vida no seu conjunto, que com ele progride, √© l√≠cito que seja mesmo levada ao extremo a preocupa√ß√£o por conservar, por criar o seu optimum de condi√ß√Ķes vitais. O homem isolado, o ¬ęindiv√≠duo¬Ľ, tal como o conceberam at√© hoje o povo e o fil√≥sofo, √©, com efeito, um erro: nenhuma coisa existe por si, n√£o √© um √°tomo, um ¬ęelo da cadeia¬Ľ, n√£o √© algo simplesmente herdado do passado, ‚ÄĒ √© sim a inteira e √ļnica linhagem do homem at√© chegar a ele mesmo… Se representa a evolu√ß√£o descendente, a decad√™ncia, a degenera√ß√£o cr√≥nica, a doen√ßa (‚ÄĒ as doen√ßas s√£o j√°, de um modo geral, sintoma da decad√™ncia, n√£o causas desta), ent√£o o seu valor √© fraco,

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O Crédulo

A f√© pode ser definida em resumo como uma cren√ßa il√≥gica na ocorr√™ncia do improv√°vel. Ela cont√©m um saber patol√≥gico; extrapola o processo intelectual normal e atravessa o viscoso dom√≠nio da metaf√≠sica transcedental. O homem de f√© √© aquele que simplesmente perdeu (ou nunca teve) a capacidade para um pensamento claro e realista. N√£o que ele seja uma mula; √©, na realidade, um doente. Pior ainda, √© incur√°vel, porque o desapontamento, sendo essencialmente um fen√≥meno objetivo, n√£o consegue afectar a sua enfermidade subjectiva. A sua f√© apodera-se da virul√™ncia de uma infec√ß√£o cr√≥nica. O que ele diz, em suma, √©: ‚ÄúVamos confiar em Deus, Aquele que sempre nos enganou no passado‚ÄĚ.

Resgatar o Prazer de Viver

√Č poss√≠vel resgatar o prazer de viver, √© poss√≠vel treinar a emo√ß√£o para ser jovem, desprendida, livre, feliz.

Primeiro: Contemple o belo nos pequenos eventos da vida.
Tenha sempre atividades programadas fora da sua agenda pelo menos uma vez por semana. Valorize aquilo que o dinheiro não compra e que não dá prestígio.
Treine dez minutos por dia a contemplar a anatomia das flores, a gastar tempo a ver o brilho das estrelas, a experimentar o prazer de penetrar no mundo das pessoas.
Não viva em função de grandes eventos, aprenda a extrair o prazer dos pequenos estímulos da rotina diária.

Segundo: Irrigue o palco da mente com pensamentos agrad√°veis.
Treine trazer diariamente à sua memória aquilo que lhe traz esperança, serenidade e encanto pela vida. Pense em conquistar pessoas e em superar os seus obstáculos. Pense em ser íntimo do Autor da vida e conhecer os mistérios da existência.
Os seus maiores inimigos est√£o dentro de si. N√£o se deixe derrotar ou perturbar por pensamentos que lhe roubam a tranquilidade e o prazer de viver.
Treine ver o lado positivo de todas as coisas negativas. Os negativistas veem os raios,

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Escrevi nove livros que fizeram muitas pessoas me amar de longe. Mas ser cronista tem um mistério que não entendo: é que os cronistas, pelo menos os do Rio, são muito amados. E escrever a espécie de crónica aos sábados tem me trazido mais amor ainda.

O Sentimento dum Ocidental

I

Avé-Maria

Nas nossas ruas, ao anoitecer,
H√° tal soturnidade, h√° tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,
O g√°s extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

Batem carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposi√ß√Ķes, pa√≠ses:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edifica√ß√Ķes somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquet√£o ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueir√Ķes, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Cam√Ķes no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu n√£o verei jamais!

E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!

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O Dinheiro Financia as Circunst√Ęncias

J√° dizia o fil√≥sofo: eu sou eu e as minhas circunst√Ęncias. Muito bem dito. Pois √© o dinheiro que te permite financiar as tuas circunst√Ęncias; se falta o dinheiro, ficas sozinho com o teu vazio, mero inv√≥lucro sem circunst√Ęncia que valha um tost√£o furado: abandona-te essa m√£o oportuna que te daria uma palmada nas costas para cuspires o fiapo de frango meio mastigado que nesse momento te entope a glote n√£o, n√£o o digo por ti, Liliana, como podes pensar uma coisas dessas, estou a falar em termos gerais, bem sei que tu nunca me abandonarias); se tens dinheiro, pelo contr√°rio, podes comprar companhia, um enfermeiro, uma enfermeira. Podes pagar a uma pedicura que te corte as unhas dos p√©s ‚ÄĒ uma tarefa que se te torna cada vez mais esgotante ‚ÄĒ e as lime para que n√£o se dobrem e se cravem na carne, uma profissional h√°bil e cuidadosa que te extraia os calos e te desinfete essas perigosas feridas na planta do p√© que a hiperglicemia amea√ßa tornar cr√≥nicas e que, se perdurarem e alastrarem, podem gangrenar e obrigar √† amputa√ß√£o do membro; tendo dinheiro, podes dar-te ao luxo de contratar um massagista, um cabeleireiro que te corte o cabelo e te barbeie na cama,

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O Mundo Avança

O mundo avan√ßa. √Č verdade, disse eu, avan√ßa, mas dando voltas em torno do sol. (…) Os adolescentes da minha gera√ß√£o, alvora√ßados pela vida, esqueceram em corpo e alma as ilus√Ķes do futuro, at√© que a realidade lhes ensinou que o futuro n√£o era como o sonhavam, e descobriram a nostalgia. Ali estavam as minhas cr√≥nicas dominicais, como uma rel√≠quia arqueol√≥gica entre os escombros do passado, e aperceberam-se que n√£o eram s√≥ para velhos mas tamb√©m para jovens que n√£o tivessem medo de envelhecer.

A Fraqueza Crónica de um Sistema Democrático de Governo

A fraqueza cr√≥nica de um sistema democr√°tico de governo, em oposi√ß√£o √† ocasional, parece ser proporcional ao grau da sua democratiza√ß√£o. Os mais poderosos e est√°veis estados democr√°ticos s√£o aqueles onde os princ√≠pios da democracia foram menos l√≥gica e consistentemente aplicados. Assim, um parlamento eleito segundo um sistema de representa√ß√£o proporcional √© um parlamento verdadeiramente democr√°tico. Mas √© tamb√©m, na mairoria dos casos, um instrumento n√£o de governo mas de anarquia. A representa√ß√£o proporcional garante que todos os sectores da opini√£o estar√£o representados na assembleia. √Č o ideal da democracia cumprido. Infelizmente, a multiplica√ß√£o de pequenos grupos dentro do parlamento torna imposs√≠vel a forma√ß√£o de um governo est√°vel e forte.
Nas assembleias proporcionalmente eleitas os governos têm geralmente de confiar numa maioria compósita. Têm de comprar o apoio de pequenos grupos com uma distribuição de favores mais ou menos corrupta, e como nunca conseguem dar o suficiente ficam sujeitos a ser derrotados em qualquer altura. A representação proporcional em itália conduziu ao fascismo através da anarquia. Causou grandes dificuldades práticas na Bélgica, e agora ameaça fazer o mesmo na Irlanda. Encontram-se governos democráticos estáveis em países onde as minorias, por muito grandes que sejam, não estão representadas, e onde nenhum candidato que não pertença a um dos grandes partidos terá a mais leve possibilidade de ser eleito.

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