Passagens sobre Ideologia

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No meu of√≠cio de escritor, penso n√£o me ter afastado nunca da minha consci√™ncia de cidad√£o. Defendo que aonde vai um, deve ir o outro. N√£o recordo ter escrito uma s√≥ palavra que estivesse em contradi√ß√£o com as minhas convic√ß√Ķes pol√≠ticas, mas isso n√£o significa que alguma vez tenha posto a literatura ao servi√ßo da minha ideologia. O que significa, isso sim, √© que no momento em que escrevo estou expressando a totalidade da pessoa que sou.

Nunca partilhei a ideologia marxista, porque não é verdadeira, mas conheci muita gente boa que professava o marxismo.

Todas as Ideologias Profissionais S√£o Nobres

Todas as ideologias profissionais s√£o nobres: os ca√ßadores, por exemplo, nunca sonhariam em se denominar carniceiros da floresta, afirmando, pelo contr√°rio, a sua condi√ß√£o de leg√≠timos amigos dos animais e da natureza; do mesmo modo, os comerciantes defendem o princ√≠pio do lucro honesto e os ladr√Ķes, por sua vez, adoptaram como seu o deus dos comerciantes, o distinto promotor das rela√ß√Ķes internacionais, Merc√ļrio. N√£o adianta muito, por isso, acreditar na imagem que uma determinada actividade assume na consci√™ncia daqueles que a exercem.

Em Portugal toda a gente queria acabar com a guerra. E acabou-se. Como agora toda a gente quer que o neo-liberalismo e os mercados a mandar nos Estados desapareçam. Porque a crise do euro não é só financeira e económica é também social, política, ética e ambiental. O neo-liberalismo, a ideologia que provocou a crise, contra as pessoas e em favor do dinheiro, está moribunda e não vai poder perdurar muito.

Eu esperava que com o colapso do comunismo a social-democracia e a democracia crist√£ pudessem desenvolver o projecto europeu. Mas os americanos pensaram o contr√°rio. Foram eles que lan√ßaram a globaliza√ß√£o desregulada, o neoliberalismo como ideologia √ļnica e que fizeram cair os partidos socialistas, sociais-democratas e democratas-crist√£os.

Os Artistas Verdadeiros não Têm Ideologia

Dia entre pescadores. Eles a pescarem sardinha para a fome org√Ęnica do corpo, e eu a pescar imagens para uma necessidade igual do esp√≠rito. Tisnados de sa√ļde, os homens olham-me; e eu, amarelo de doen√ßa, olho-os tamb√©m. Certamente que se julgam mais justificados do que eu, e que o mundo inteiro lhes d√° raz√£o. Mas da mesma maneira que eles, sem que ningu√©m lhes pe√ßa sardinha, se metem √†s ondas, tamb√©m eu, sem que ningu√©m me pe√ßa poesia, me lan√ßo a este mar da cria√ß√£o. H√° uma coisa que nenhuma ideologia pode tirar aos artistas verdadeiros: √© a sua consci√™ncia de que s√£o t√£o fundamentais √† vida como o p√£o. Podem acus√°-los de servirem esta ou aquela classe. Pura cal√ļnia. √Č o mesmo que dizer que uma flor serve a princesa que a cheira. O mundo n√£o pode viver sem flores, e por isso elas nascem e desabrocham. Se olhos menos avisados passam por elas e as n√£o podem ver, a trai√ß√£o n√£o √© delas, mas dos olhos, ou de quem os mant√©m cegos e incultos.

Nós devemos banir das nossas fileiras toda a ideologia feita de fraqueza e impotência. São errados todos os pontos de vista que valorizam a força do inimigo e subestimam a força do povo.

Pois. Tiveste em jovem a tua ideologia. Mas envelheceste. E a velhice tem já as suas falhas de memória. E uma das maiores falhas de memória é persistires no que te torna já um maníaco.

Todo o Presente Espera pelo Passado para nos Comover

H√° v√°ria gente que n√£o gosta de evocar o passado. Uns por energia, disciplina pr√°tica e arremesso. Outros por ideologia progressista, visto que todo o passado √© reaccion√°rio. Outros por superficialidade ou secura de pau. Outros por falta de tempo, que todo ele √© preciso para acudir ao presente e o que sobra, ao futuro. Como eu tenho pena deles todos. Porque o passado √© a ternura e a legenda, o absoluto e a m√ļsica, a irrealidade sem nada a acotovelar-nos. E um aceno doce de melancolia a fazer-nos sinais por sobre tudo. Tanta hora tenho gasto na simples evoca√ß√£o. Todo o presente espera pelo passado para nos comover. H√° a filtragem do tempo para purificar esse presente at√© √† fluidez imposs√≠vel, √† sublima√ß√£o do encantamento, √† incorrupt√≠vel verdade que nele se oculta e √© a sua √ļnica raz√£o de ser. O presente √© cheio de urg√™ncias mas ele que espere. Ha tanto que ser feliz na impossibilidade de ser feliz. Sobretudo quando ao futuro j√° se lhe toca com a m√£o. H√° tanto que ter vida ainda, quando j√° se a n√£o tem…

O Tempo Vale Muito Mais do que o Dinheiro

Perder tempo não é como gastar dinheiro. Se o tempo fosse dinheiro, o dinheiro seria tempo.
Não é. O tempo vale muito mais do que o dinheiro. Quando morremos, acaba-se o tempo que tivemos. Quando morremos, o que mais subsiste e insiste é a quantidade de coisas que continuam a existir, apesar de nós.
O nosso tempo de vida √© a nossa √ļnica fortuna. Temos o tempo que temos. Depois de ter acabado o nosso tempo, n√£o conseguimos comprar mais. Quando morreu o meu pai, foi-se com ele todo o tempo que ele tinha para passar connosco. As coisas dele ficaram para tr√°s. Sobreviveram. Eram objectos. Alguns tinham valor por fazer lembrar o tempo que passaram com ele – a r√©gua de arquitecto naval, os rel√≥gios – quando ele tinha tempo.
As pessoas dizem ¬ętime is money¬Ľ para apressar quem trabalha. A √ļnica maneira de comprar tempo √© de precisar de menos dinheiro para viver, para poder passar menos tempo a ganh√°-lo. E ficar com mais tempo para trabalhar no que d√° mais gosto e para ter o luxo indispens√°vel de poder perder tempo, a fazer ninharias e a ser-se indolente.
A ideologia dominante de aproveitar bem o tempo impede-nos de perder esses tempos.

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A Individualidade N√£o Se Deixa Representar

Conselho ao intelectual: N√£o deixes que te representem. A fungibilidade das obras e das pessoas e a cren√ßa da√≠ derivada de que todos t√™m de poder fazer tudo revelam-se no seio do estado vigente como grilh√Ķes. O ideal igualit√°rio da representatividade √© uma fraude, se n√£o for sustentado pelo princ√≠pio da revogabilidade e da responsabilidade do rank and file. O mais poderoso √© justamente o que menos faz, o que mais se pode encarregar daquele a que se dedica e sua vantagem arrecada. Parece colectivismo e fica-se apenas pela demasiado boa opini√£o de si mesmo, pela exclus√£o do trabalho, gra√ßas √† disposi√ß√£o do trabalho alheio.
Na produ√ß√£o material est√° solidamente implantada a substituibilidade. A quantifica√ß√£o dos processos laborais diminui tendencialmente a diferen√ßa entre o encargo do director geral e o do empregado de uma esta√ß√£o de servi√ßo. √Č uma ideologia miser√°vel pensar que, nas actuais condi√ß√Ķes, para a admininstra√ß√£o de um trust se requer mais intelig√™ncia, experi√™ncia e prepara√ß√£o do que para ler um man√≥metro. Mas enquanto na produ√ß√£o material h√° um apego tenaz a esta ideologia, o esp√≠rito da que lhe √© contr√°ria cai na submiss√£o. Tal √© a cada vez mais ruinosa doutrina da universitas litterarum, da igualdade de todos na rep√ļblica das ci√™ncias,

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O Amolecimento pela Sociedade de Consumo

Nos pa√≠ses subdesenvolvidos, a arte (literatura, pintura, escultura) entra quase sempre em conflito com as classes possidentes, com o poder institu√≠do, com as normas de vida estabelecidas. Em revolta aberta, o artista, origin√°rio por via de regra da m√©dia e da pequena burguesia ou mais raramente das classes prolet√°rias, contesta o statu quo, prop√Ķe solu√ß√Ķes revolucion√°rias ou, quando estas n√£o podem sequer divisar-se, limita-se a derruir (ou a tentar faz√™-lo pela cr√≠tica, violenta ou ir√≥nica) o baluarte dos preconceitos, das defesas que os benefici√°rios do sistema de produ√ß√£o ergueram contra as aspira√ß√Ķes da maioria. Nas sociedades industriais mais adiantadas, o artista pode permanecer numa atitude id√™ntica de inconformismo; por√©m, os resultados da sua actividade de cria√ß√£o e reflex√£o tornam-se mat√©ria vend√°vel e, nalguns casos, mat√©ria integr√°vel.
O consumo do objecto art√≠stico, seja ele o livro, o quadro ou o disco, quando feito sob uma tutela de opini√£o, que os meios de comunica√ß√£o de massa, em escala largu√≠ssima , exercem, torna-se, sen√£o totalmente in√≥cuo, pelo menos parcialmente esvaziado do seu conte√ļdo cr√≠tico. Despotencializa-se. Amolece. √Č o que se verifica, por exemplo, em boa parte, nos Estados Unidos. A ideologia repressiva da liberdade no mundo capitalista monopolista torna-se tanto mais perigosa quanto aborve,

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De que Serve Discutir as Ideologias?

Para compreendermos o homem e as suas necessidades, para o conhecermos naquilo que ele tem de essencial, n√£o precisamos de p√īr em confronto as evid√™ncias das nossas verdades. Sim, t√™m raz√£o. T√™m todos raz√£o. A l√≥gica demonstra tudo. Tem raz√£o aquele que rejeita que todas as desgra√ßas do mundo recaiam sobre os corcundas. Se declararmos guerra aos corcundas, aprenderemos rapidamente a exaltar-nos. Vingaremos os crimes dos corcundas. E, sem d√ļvida, tamb√©m os corcundas cometem crimes.
A fim de tentarmos separar este essencial, √© necess√°rio esquecermos por um instante as divis√Ķes que, uma vez admitidas, implicam todo um Cor√£o de verdades inabal√°veis e o inerente fanatismo. Podemos classificar os homens em homens de direita e em homens de esquerda, em corcundas e n√£o corcundas, em fascistas e em democratas, e estas distin√ß√Ķes s√£o incontest√°veis.
Mas sabem que a verdade é aquilo que simplifica o mundo, e não aquilo que cria o caos. A verdade é a linguagem que desencadeia o universal.
Newton n√£o ¬ędescobriu¬Ľ uma lei h√° muito disfar√ßada de solu√ß√£o de enigma, Newton efectuou uma opera√ß√£o criativa. Instituiu uma linguagem de homem capaz de exprimir simultaneamente a queda da ma√ß√£ num prado ou a ascens√£o do sol.

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A Monstruosa Am√°lgama da Identidade Europeia

O mal do totalitarismo é ser uniformizador e impositivo. Há sempre um modelo de perfeição, que os povos mais atrasados terão de seguir e com o qual terão de se comparar. Há sempre uma identidade superior, uma ideologia acima da realidade, um futuro comum aos mais diversos interesses. O totalitarismo é o grande inimigo da diferença e a própria democracia liberal, ao impor e exigir certas igualdades menos naturais, tem aspectos totalitários.
√Č com horror que assisto √† constru√ß√£o da chamada ¬ęidentidade¬Ľ europeia, uma monstruosa am√°lgama beneluxiana que reduz todos os ingredientes nacionais a uma pasta amorfa de argamassa processada. Quando temo pela resist√™ncia da nossa diferen√ßa √† uniformiza√ß√£o europeia, n√£o temo a nossa domina√ß√£o de todas as nacionalidades ‚ÄĒ temo √© a domina√ß√£o de todas as nacionalidades por um euro-h√≠brido que n√£o seja escolhido ou amado por nenhuma delas. A verdade √© que a It√°lia est√° menos italiana, a Alemanha est√° menos alem√£, a Inglaterra est√° menos inglesa e Portugal est√° menos portugu√™s. E nem por isso est√£o mais parecidos com outra nacionalidade qualquer. O que perderam em car√°cter n√£o ganharam em mais nada. As na√ß√Ķes europeias est√£o cada vez mais iguais, mais incaracter√≠sticas, mais chatas. Qualquer dia deixa de ter piada viajar.

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A Sabedoria do Romance

O homem deseja um mundo em que o bem e o mal sejam nitidamente discern√≠veis, porque nele h√° o desejo, inato e indom√°vel, de julgar antes de compreender. Sobre esse desejo s√£o fundadas as religi√Ķes e as ideologias. Estas n√£o se podem conciliar com o romance a n√£o ser que traduzam a linguagem de relatividade e de ambiguidade dele para o seu discurso apod√≠tico e dogm√°tico. Exigem que algu√©m tenha raz√£o: ou Anna Karenina √© v√≠tima de um d√©spota limitado, ou Karenine √© v√≠tima de uma mulher imoral; ou ent√£o K., inocente, √© esmagado por um tribunal injusto, ou ent√£o, por tr√°s do tribunal, est√° escondida a justi√ßa divina e K. √© culpado.
Neste ¬ęou ent√£o-ou ent√£o¬Ľ est√° contida a incapacidade de suportar a relatividade essencial das coisas humanas, a incapacidade de olhar de frente a aus√™ncia do Juiz supremo. Por causa desta incapacidade, a sabedoria do romance (a sabedoria da incerteza) √© dif√≠cil de aceitar e de compreender.

O Poder da Ind√ļstria Cultural

O poder magn√©tico que sobre os homens exercem as ideologias, embora j√° se lhes tenham tornado decr√©pitas, explica-se, para l√° da psicologia, pelo derrube objectivamente determinado da evid√™ncia l√≥gica como tal. Chegou-se ao ponto em que a mentira soa como verdade, e a verdade como mentira. Cada express√£o, cada not√≠cia e cada pensamento est√£o preformados pelos centros da ind√ļstria cultural. O que n√£o traz o vest√≠gio familiar de tal preforma√ß√£o √©, de antem√£o, indigno de cr√©dito, e tanto mais quanto as institui√ß√Ķes da opini√£o p√ļblica acompanham o que delas sai com mil dados factuais e com todas as provas de que a manipula√ß√£o total pode dispor. A verdade que intenta opor-se n√£o tem apenas o car√°cter de inveros√≠mil, mas √©, al√©m disso, demasiado pobre para entrar em concorr√™ncia com o altamente concentrado aparelho da difus√£o.

O Espectáculo é a Ideologia por Excelência

O espect√°culo (da sociedade de consumo) √© a ideologia por excel√™ncia, porque exp√Ķe e manifesta na sua plenitude a ess√™ncia de qualquer sistema ideol√≥gico: o empobrecimento, a submiss√£o e a nega√ß√£o da vida real. O espect√°culo √©, materialmente, ¬ęa express√£o da separa√ß√£o e do afastamento entre o homem e o homem¬Ľ. O ¬ęnovo poderio do embuste¬Ľ que se concentrou a√≠ tem a sua base na produ√ß√£o onde surge ¬ęcom a massa crescente de objectos… um novo dom√≠nio de seres estranhos aos quais o homem se submete¬Ľ. √Č grau supremo duma expans√£o que necessariamente se coloca contra a vida.

¬ęA necessidade de dinheiro √© portanto a verdadeira necessidade produzida pela economia pol√≠tica, e a √ļnica necessidade que ela produz¬Ľ (Manuscritos econ√≥mico-filos√≥ficos). O espect√°culo estende por toda a vida social o princ√≠pio que Hegel, na Realphilosophie de Iena, concebe quanto ao dinheiro; √© ¬ęa vida do que est√° morto movendo-se em si pr√≥pria¬Ľ.