Passagens sobre Incêndio

48 resultados
Frases sobre inc√™ndio, poemas sobre inc√™ndio e outras passagens sobre inc√™ndio para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

A Salvação do Mundo

Os anjos levaram as igrejas…
Anjos envergonhados, de grandes asas tristes,
que fugiam, escondendo o rosto,
nas pregas dos mantos, que os incêndios enegreciam.
Levaram as igrejas, os santos e os milagres.
E os homens ficavam olhando o céu,
os homens que tinham deixado os anjos levar as igrejas,
de m√£os postas, ajoelhados.
As m√£os que eram para n√£o deixar os anjos levar as igrejas.
Mas os homens j√° n√£o sabiam,
e os anjos julgaram que eles n√£o queriam as igrejas para nada.

A terra vazia e os homens de m√£os postas, ajoelhados.

Então surgiram os anjos de extermínio.
E as longas espadas flamejantes
deceparam as cabeças dos homens ajoelhados,
que tinham fechado a porta das igrejas na cara da verdade.

Tenho Amor, sem Ter Amores

MOTE E GLOSA

Tenho amor, sem ter amores.

GLOSAS

Este mal que n√£o tem cura,
Este bem que me arrebata,
Este rigor que me mata,
Esta entendida loucura
√Č mal e √© bem que me apura;
Se equivocando os rigores
Da fortuna aos favores,
√Č rem√©dio em caso tal
Dar por resposta ao meu mal:
Tenho amor, sem ter amores.
√Č fogo, √© inc√™ndio, √© raio,
Este, que em penosa calma,
Sendo do meu peito alma,
De minha vida é desmaio:
E pois em moral ensaio
Da dor padeço os rigores,
Pergunta em tristes clamores
A causa da minha aflição,
Respondeu o coração:
Tenho amor, sem ter amores.

LIV

Ninfas gentis, eu sou, o que abrasado
Nos incêndios de Amor, pude alguma hora,
Ao som da minha cítara sonora,
Deixar o vosso império acreditado.

Se vós, glórias de amor, de amor cuidado,
Ninfas gentis, a quem o mundo adora,
N√£o ouvis os suspiros, de quem chora,
Ficai-vos; eu me vou; sigo o meu fado.

Ficai-vos; e sabei, que o pensamento
Vai tão livre de vós, que da saudade
N√£o receia abrasar-se no tormento.

Sim; que solta dos laços a vontade,
Pelo rio hei de ter do esquecimento
Este, aonde jamais achei piedade.

A Lucidez da Velhice

A mocidade √© noivado, como a velhice √© viuvez. Um jovem, por mais marido que seja, √© noivo ainda; e um velho, embora casado, √© j√° vi√ļvo… um solit√°rio guardando as cinzas duma flor. Mas dessas cinzas o seu esp√≠rito se alimenta. Alimenta-se de pureza, pois a cinza √© o que resta dum inc√™ndio, essa purifica√ß√£o suprema. Por isso, a consci√™ncia √© um atributo da velhice, e tamb√©m a ci√™ncia. A consci√™ncia √© a ci√™ncia connosco, a ci√™ncia identificada ao nosso ser, que entra no pleno conhecimento de si mesmo, e do seu poder representativo do Universo. A velhice √© uma noite maravilhosa em que brilham as nossas ideias, uma atmosfera l√≠mpida ou varrida pelo z√©firo da morte, a √ļnica Deusa verdadeira.

umas vezes falavas-me dos rios

umas vezes falavas-me dos rios
e densas cicatrizes
e o sangue
procedia

outras vezes velava-te uma l√Ęmpada
de faias e de enigmas
e a sombra
repousava

outras vezes o barro
originava
uma erupção de insónia recidiva
no gume do incêndio onde jazias

nessas vezes a √°gua do teu riso
abria nos meus pulsos uma rosa
e eu entontecia

O Perigo nas Rela√ß√Ķes Humanas

Nas rela√ß√Ķes humanas o perigo √© coisa de todos os dias. Deves precaver-te bem contra este perigo, deves estar sempre de olhos bem abertos: n√£o h√° nenhum outro t√£o frequente, t√£o constante, t√£o enganador! A tempestade amea√ßa antes de rebentar, os edif√≠cios estalam antes de cair por terra, o fumo anuncia o inc√™ndio pr√≥ximo: o mal causado pelo homem √© s√ļbito e disfar√ßa-se com tanto mais cuidado quanto mais pr√≥ximo est√°. Fazes mal em confiar na apar√™ncia das pessoas que se te dirigem: t√™m rosto humano, mas instintos de feras. S√≥ que nestas apenas o ataque directo √© perigoso; se nos passam adiante n√£o voltam atr√°s √† nossa procura. Ali√°s, somente a necessidade as instiga a fazer mal; a fome ou o medo √© que as for√ßam a lutar. O homem, esse, destr√≥i o seu semelhante por prazer. Tu, contudo, pensando embora nos perigos que te podem vir do homem, pensa tamb√©m nos teus deveres enquanto homem. Evita, por um lado, que te fa√ßam mal, evita, por outro, que fa√ßas tu mal a algu√©m. Alegra-te com a satisfa√ß√£o dos outros, comove-te com os seus dissabores, nunca te esque√ßas dos servi√ßos que deves prestar, nem dos perigos a evitar. Que ganhar√°s tu vivendo segundo esta norma?

Continue lendo…

XL

Quem chora ausente aquela formosura,
Em que seu maior gosto deposita,
Que bem pode gozar, que sorte, ou dita,
Que n√£o seja funesta, triste, e escura!

A apagar os incêndios da loucura
Nos braços da esperança Amor me incita:
Mas se era a que perdi, glória infinita,
Outra igual que esperança me assegura!

Já de tanto delírio me despeço;
Porque o meu precipício encaminhado
Pela mão deste engano reconheço.

Triste! A quanto chegou meu duro fado!
Se de um fingido bem não faço apreço,
Que alívio posso dar a meu cuidado!

Canção de Batalha

Que durmam, muito embora, os p√°lidos amantes,
Que andaram contemplando a Lua branca e fria…
Levantai-vos, heróis, e despertai, gigantes!
J√° canta pelo azul sereno a cotovia
E j√° rasga o arado as terras fumegantes…

Entra-nos pelo peito em borbot√Ķes joviais
Este sangue de luz que a madrugada entorna!
Poetas, que somos n√≥s? Ferreiros d’arsenais;
E bater, é bater com alma na bigorna
As estrofes de bronze, as lanças e os punhais.

Acendei a fornalha enorme ‚ÄĒ a Inspira√ß√£o.
Dai-lhe lenha ‚ÄĒ A Verdade, a Justi√ßa, o Direito ‚ÄĒ
E harmonia e pureza, e febre, e indignação;
E p’ra que a labareda irrompa, abri o peito
E atirai ao braseiro, ardendo, o coração!

Há-de-nos devorar, talvez, o incêndio; embora!
O poeta é como o Sol: o fogo que ele encerra
√Č quem espalha a luz nessa amplid√£o sonora…
Queimemo-nos a nós, iluminando a Terra!
Somos lava, e a lava é quem produz a aurora!

A vida é um incêndio: nela dançamos, salamandras mágicas. Que importa restarem cinzas se a chama foi bela e alta!

Iniciação ao Diálogo

I

De início bastará que olhes mais vezes
na mesma direcção hoje evitada
(estandartes nos olhos s√£o mais leves
do que no coração duros tambores),
ainda que o teu olhar próprio não rompa
as lajes de ódio com que te muraste.

II

O vento e chuva e tempo, sobre a pedra
passando sempre, h√£o-de gast√°-la: um dia,
antes que a obture o musgo ou algum p√°ssaro
aí faça o ninho fofo, encontrarás,
entre o lado que afirmas teu e o outro,
uma r√©stia de azul ‚ÄĒ o azul de todos.

III

Talvez rumor de passos, para além
do muro atravessado aos teus des√≠gnios…
N√£o por√°s terra onde se p√īs o c√©u:
ver o que diz o ouvido agora queres,
e onde a rocha fendeu-se cabe um olho
humano e mais a boca do fuzil.

IV

Provando fr√°gil o que acreditavas
inexpugn√°vel, eis que em ti se fixam
atentos outro olho e outro fuzil!

V

Contemplador e contemplado, hesitas
aprendendo na espera o inesperado:
lares como os que tens,

Continue lendo…

O Significado do Amor

Eu pensava que conhecia o significado do amor. O amor é o sangue do sol dentro do sol. A inocência repetida mil vezes na vontade sincera de desejar que o céu compreenda. Levantam-se tempestades frágeis e delicadas na respiração vegetal do amor. Como uma planta a crescer da terra. O amor é a luz do sol a beber a voz doce dessa planta. Algo dentro de qualquer coisa profunda.

O amor √© o sentido de todas as palavras imposs√≠veis. Atravessar o interior de uma montanha. Correr pelas horas originais do mundo. O amor √© a paz fresca e a combust√£o de um inc√™ndio dentro, dentro, dentro, dentro, dentro dos dias. Em cada instante de manh√£, o c√©u a deslizar como um rio. A tarde, o sol como uma certeza. O amor √© feito de claridade e da seiva das rochas. O amor √© feito de mar, de ondas na dist√Ęncia do oceano e de areia eterna. O amor √© feito de tantas coisas opostas e verdadeiras. Nascem lugares para o amor e, nesses jardins et√©reos, a salva√ß√£o √© uma brisa que cai sobre o rosto suavemente.

Eu acreditava mesmo que o amor é o sangue do sol dentro do sol.

Continue lendo…

Somos demasiado pequenos, somos muito pouco. Somos uma agulha de pinheiro diante de um incêndio, somos um grão de terra diante de um terramoto, somos uma gota de orvalho diante de uma tempestade.

O Incêndio De Roma

Raiva o incêndio. A ruir, soltas, desconjuntadas,
As muralhas de pedra, o espaço adormecido
De eco em eco acordando ao medonho estampido,
Como a um sopro fatal, rolam esfaceladas.

E os templos, os museus, o Capitólio erguido
Em mármor frígio, o Foro, as erectas arcadas
Dos aquedutos, tudo as garras inflamadas
Do incêndio cingem, tudo esbroa-se partido.

Longe, reverberando o clar√£o purpurino,
Arde em chamas o Tibre e acende-se o horizonte.
Impassível, porém, no alto do Palatino,

Nero, com o manto grego ondeando ao ombro, assoma
Entre os libertos, e ébrio, engrinaldada a fronte,
Lira em punho, celebra a destruição de Roma.

Ardor Em Firme Coração Nascido

Ardor em firme coração nascido;
Pranto por belos olhos derramado;
Incêndio em mares de água disfarçado;
Rio de neve em fogo convertido:

Tu, que um peito abrasas escondido;
Tu, que em um rosto corres desatado;
Quando fogo, em cristais aprisionado;
Quando cristal, em chamas derretido.

Se és fogo, como passas brandamente,
Se és neve, como queimas com porfia?
Mas ai, que andou Amor em ti prudente!

Pois para temperar a tirania,
Como quis que aqui fosse a neve ardente,
Permitiu parecesse a chama fria.

Justitia Mater

Nas florestas solenes h√° o culto
Da eterna, íntima força primitiva:
Na serra, o grito audaz da alma cativa,
Do coração, em seu combate inulto:

No espaço constelado passa o vulto
Do inominado Alguém, que os sóis aviva:
No mar ouve-se a voz grave e aflitiva
D’um deus que luta, poderoso e inculto.

Mas nas negras cidades, onde solta
Se ergue, de sangue medida, a revolta,
Como incêndio que um vento bravo atiça,

Há mais alta missão, mais alta glória:
O combater, à grande luz da história,
Os combates eternos da Justiça!

Assistirmos ao sofrimento do nosso filho é estarmos em carne viva por dentro, é não termos pele, é um incêndio a arder no mundo inteiro, mesmo no mundo inteiro. E cada som do nosso filho a sofrer é silêncio em brasa, é a cabeça cheia de silêncio em brasa, o peito cheio, incandescente, o mundo inteiro em brasa.

A política é desses incêndios que se acendem na casa do outro e quem arde é a nossa casa.

Um Soneto

A vez primeira que eu te vi, em meio
Das harmonias de uma valsa, elado
O lábio trêmulo, esplêndido, rosado,
Num riso, um riso de alvoradas cheio.

Cheio de febres, em febril anseio
O meu olhar fervente, desvairado
Como um condor de flamas emplumado
Vingou-se a esp√°dua e devorou-te o seio.

Depois, delírio atroz, loucura imensa!
A alma, o bem, a consciência, a crença
Lancei no inc√™ndio dos olhares teus…

Hoje estou pronto à lívida jornada
Da descren√ßa sem luz, da dor do nada…
Já disse ontem à noite, adeus, a Deus!