Cita√ß√Ķes sobre Matrim√≥nio

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Londres

Vagueio por estas ruas violadas,
Do violado Tamisa ao derredor,
E noto em todas as faces encontradas
Sinais de fraqueza e sinais de dor.

Em toda a revolta do Homem que chora,
Na Criança que grita o pavor que sente,
Em todas as vozes na proibição da hora,
Escuto o som das algemas da mente.

Dos Limpa-chaminés o choro triste
As negras Igrejas atormenta;
E do pobre Soldado o suspiro que persiste
Escorre em sangue p’los Pal√°cios que sustenta.

Mas nas ruas da noite aquilo que ouço mais
√Č da jovem Prostituta o seu fad√°rio,
Maldiz do tenro Filho os tristes ais,
E do Matrimónio insulta o carro funerário.

Tradução de Hélio Osvaldo Alves

Actualmente existem muitos matrimónios que nada mais são do que a paródia de um governo constitucional, no qual o rei reina e não governa.

Se só se permitisse o matrimónio aos que são moralmente capazes de contraí-lo, quase toda a humanidade seria família ilegítima.

A Única Alegria Neste Mundo é a de Começar

A √ļnica alegria neste mundo √© a de come√ßar. √Č belo viver, porque viver √© come√ßar, sempre, a cada instante. Quando esta sensa√ß√£o desapaece – pris√£o, doen√ßa, h√°bito, estupidez – deseja-se morrer.
√Č por isso que quando uma situa√ß√£o dolorosa se reproduz de modo id√™ntico – parece id√™ntica – nada apaga o horror que tal coisa nos provoca.
O princ√≠pio acima enunciado n√£o √©, portanto, pr√≥prio de um viveur. Porque h√° mais h√°bito na experi√™ncia a todo o custo (cfr, o antip√°tico ¬ęviajar a todo o custo¬Ľ) do que na charneira normal aceite com o sentido do dever e vivida com entusiasmo e intelig√™ncia. Estou convencido de que h√° mais h√°bito nas aventuras de do que num bom casamento.
Porque o próprio da aventura é conservar uma reserva mental de defesa; é por isso que não existem boas aventuras. Só é boa aventura aquela em que nos abandonamos: o matrimónio, em suma, talvez até aqueles que são feitos no céu.
Quem não sente o perene recomeçar que vivifica a existência normal de um casal é, no fundo, um parvo que, por mais que diga, não sente, sequer, um verdadeiro recomeçar em cada aventura.
A lição é sempre a mesma: atirarmo-nos para a frente e saber suportar o castigo.

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O amor é uma harpa eólia que soa por si; o matrimónio é um harmónio que soa à força de pedaladas.

Antes do matrimónio ele fala e ela escuta; durante a lua-de-mel ambos falam e escutam; mais tarde ela fala e ele não escuta; finalmente gritam os dois e escutam os vizinhos.

A Desventura Máxima é a Solidão

A desventura m√°xima √© a solid√£o. √Č t√£o verdade que o reconforto supremo – a religi√£o – consiste em encontrar uma companhia que nunca falhe – Deus. A ora√ß√£o √© um desabafo, como com um amigo. A obra equivale √† ora√ß√£o, porque nos p√Ķe em contacto com os que dela tirar√£o proveito. O problema da vida √©, portanto, o seguinte: como romper a nossa solid√£o, como comunicar com os outros. Assim se explica a exist√™ncia do matrim√≥nio, da paternidade, das amizades. Mas que a felicidade resida nisto, balelas! Porque se deva estar melhor comunicando com os outros do que s√≥, √© estranho. √Č talvez apenas uma ilus√£o: a maior parte do tempo, estamos muit√≠ssimo bem s√≥s. √Č agrad√°vel ter, de tempos a tempos, um odre em que nos possamos despejar e, em seguida, bebermo-nos a n√≥s pr√≥prios: dado que pedimos aos outros apenas aquilo que j√° temos em n√≥s. √Č um mist√©rio o motivo por que n√£o basta perscrutar e beber em n√≥s pr√≥prios e seja preciso reavermo-nos por interm√©dio dos outros. (O sexo √© um incidente: o que recebemos √© moment√Ęneo e casual; pretendemos algo de mais secreto e misterioso de que o sexo √© apenas um sinal, um s√≠mbolo).

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