Passagens sobre Receio

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Frases sobre receio, poemas sobre receio e outras passagens sobre receio para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Exilada

Bela viajante dos países frios
N√£o te seduzam nunca estes aspectos
Destas paisagens tropicais — secretos,
— Os teus receios devem ser sombrios.

√Čs branca e √©s loura e tens os amavios
Os incógnitos filtros prediletos
Que podem produzir ondas de afetos
Nos mais sens√≠veis cora√ß√Ķes doentios.

Loura Visão, Ofélia desmaiada,
Deixa esta febre de ouro, a febre ansiada
Que nos venenos deste sol consiste.

Emigra destes cálidos países,
Foge de amargas, fundas cicatrizes,
Das alucina√ß√Ķes de um vinho triste…

Da Vossa Vista a Minha Vida Pende

Da vossa vista a minha vida pende,
Maior bem para mim n√£o pode ser
Que ver-vos, mas n√£o ouso de vos ver;
Que vosso alto respeito mo defende.

O meu amor, que o vosso só pretende,
Receio que se venha a conhecer,
Nos olhos, que mal podem esconder
O desejo, dum peito que se rende.

Por vós a tal estremo d’Amor venho,
Que com força resisto a meu desejo,
Porque nada de mim vos descontente.

Mas neste mal, senhora, este bem tenho,
Que sempre tal, qual sois, n’alma vos pinto
Sem dar que ver, nem que falar à gente.

(Sobre o prazer de fumar e despejar e voltar a encher o cachimbo) O meu objectivo consiste em fumar, mas, em resultado disso, as coisas tendem a entupir-se, receio. Também a vida é muito parecida com o acto de fumar, especialmente o casamento.

A d√ļvida agita-se no seio da f√© mais profunda, o receio no √Ęmago da esperan√ßa mais risonha. As flores do cora√ß√£o, como as da natureza, t√™m um verme que as babuja.

O que existe de melhor numa grande vit√≥ria √© tirar ela ao vencedor o receio da derrota. ¬ęPorque √© que¬Ľ, diz consigo, ¬ęn√£o hei-de tamb√©m ser derrotado ao menos uma vez? Sou agora suficientemente rico para isso.¬Ľ.

Os Verdadeiros Males

Vejo uma objec√ß√£o a qualquer esfor√ßo para melhorar a condi√ß√£o humana: √© que os homens s√£o talvez indignos dele. Mas repilo-a sem dificuldade: enquanto o sonho de Cal√≠gula se mantiver irrealiz√°vel e todo o g√©nero humano se n√£o reduzir a uma √ļnica cabe√ßa oferecida ao cutelo, teremos que o tolerar, conter e utilizar para os nossos fins; sem d√ļvida que o nosso interesse ser√° servi-lo. O meu processo baseava-se numa s√©rie de observa√ß√Ķes feitas desde h√° muito tempo em mim pr√≥prio: toda a explica√ß√£o l√ļcida me convenceu sempre, toda a delicadeza me conquistou, toda a felicidade me tornou moderado. E nunca prestei grande aten√ß√£o √†s pessoas bem intencionadas que dizem que a felicidade excita, que a liberdade enfraquece e que a humanidade corrompe aqueles sobre quem √© exercida. Pode ser: mas, no estado habitual do mundo, √© como recusar a alimenta√ß√£o necess√°ria a um homem emagrecido com receio de que alguns anos depois ele possa sofrer de superabund√Ęncia. Quando se tiver diminu√≠do o mais poss√≠vel as servid√Ķes in√ļteis, evitado as desgra√ßas desnecess√°rias, continuar√° a haver sempre, para manter vivas as virtudes her√≥icas do homem, a longa s√©rie de verdadeiros males, a morte, a velhice, as doen√ßas incur√°veis, o amor n√£o correspondido,

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Os Portugueses S√£o Profundamente Vaidosos

Os Portugueses s√£o profundamente vaidosos. Quando me dizem que eu sou muito vaidosa, eu, nisso, sinto-me muito portuguesa. Quando, por exemplo, os Franceses me dizem, com uma linguagem muito catedr√°tica, ¬ęeu conhe√ßo muito bem os Portugueses atrav√©s de toda essa onda de emigra√ß√£o, eles s√£o muito humildes e dizem que o lugar onde gostariam de morrer seria em Fran√ßa¬Ľ, eu digo ¬ętenha cuidado, o portugu√™s mente sempre. √Č como o japon√™s, mente sempre.¬Ľ Porque tem receio de mostrar o seu complexo de superioridade. Ele acha que √© imprudente e que √© at√© disparatado, mas que faz parte da sua natureza. Portanto, apresenta uma esp√©cie de capa e de fisionomia de humildade, mod√©stia, submiss√£o. Mas n√£o √© nada disso, √© justamente o contr√°rio. Houve √©pocas da nossa Hist√≥ria em que a sua verdadeira natureza p√īde expandir-se sem cair no rid√≠culo, mas h√° outras em que n√£o. E ent√£o, para se defender desse rid√≠culo, o portugu√™s parece essa pessoa modesta, cordata, que n√£o levanta demasiados problemas, seja aos regimes seja na sua vida particular.

Os Amantes de Pompeia

Eles conheceram-se neste abraço
em que levam tanto tempo,
embalados na cadência,

de uma canção desconhecida
e no mover das m√£os que hesitam
entre o animal e a planta.
O tempo privou-os de vida
mas não um do outro, tangíveis
nos membros onde o desejo

lateja ainda,
gestos como medusas esvaindo-se
no sangue em que se fundiram para sempre.

Geraram esta outra placenta
com a urgência de quem sabe
que bebe em cada trago despedida:

lenta colheita da alma
que palidamente assoma
em cada poro,

subtil, alada, como pluma
que sem ser vista
se solta.
Neste abraço que os reteve até à sufocação,
depois que se abateram o céu e o horizonte,
o mundo foi-lhes langor

e memória acesa;
petrificados, mortos,
est√£o diante do nosso olhar,

na posição aflita em que os une,
mais que o esterno e a pelve,
o duplo receio da imortalidade.

Praticamente tudo o que parece √©, quer dizer, as mentiras, as fic√ß√Ķes, os receios, mesmo injustificados, criam estados de esp√≠rito que s√£o realidades pol√≠ticas: sobre elas, com elas e contra elas se tem de governar.

Matura Idade

J√° n√£o receio
meu avesso de medos.

Distingo as coisas
em sua proposta exacta
e sei ‚ÄĒ cada ser
possui justa medida.

J√° n√£o almejo
o que me foi negado.

Prossigo a caminhada
colhendo o que
me coube, consoante
o ch√£o lavrado.

Receio bem que a agradibilidade de uma ocupação nem sempre revele a sua propriedade.

A Lei do Mais Forte

Durante muito tempo dissemos que a competi√ß√£o e a elimina√ß√£o dos mais fracos eram o motor da evolu√ß√£o natural. Sem querer, demos cr√©dito √† chamada lei do mais forte. Sancionamos o pecado da ira dos poderosos no exterm√≠nio dos chamados fracos. Sabemos hoje que a simbiose √© um dos mecanismos mais poderosos de evolu√ß√£o. Mas deix√°mos que isso ficasse no esquecimento. E continuamos ainda hoje vasculhando exemplos isolados de simbiose quando a Vida √© toda ela um processo de simbiose global. Sabemos hoje que a capacidade de criar diversidade foi o mais importante segredo da nossa √©poca como esp√©cie que se adaptou e sobreviveu. No entanto, vamo-nos contentando com o estatuto que a n√≥s mesmos conferimos: o sermos a esp√©cie ¬ęsabedora¬Ľ.

Alimentámo-nos de receios e essa será mais uma manifestação da gula. Temos medo de errar. Esse medo leva à proibição de experimentar outros caminhos, sufocados pelo cientificamente correcto, pelo estatisticamente provado, pelo laboratorialmente certificado. Deveríamos ser nós, biólogos, a mostrar que o erro é um dos principais motores da evolução. A mutação é um erro criativo que funciona, um erro que fabrica a diversidade.
Os avanços no domínio do conhecimento fazem-se através de caminhos paradoxais. A nossa ciência,

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Hino à Morte

Tenho às vezes sentido o chocar dos teus ossos
E o vento da tua asa os meus lábios roçar;
Mas da tua presença o rasto de destroços
Nunca de susto fez meu coração parar.

Nunca, espanto ou receio, ao meu √Ęnimo trouxe
Esse aspecto de horror com que tudo apavoras,
Nas tuas m√£os erguendo a inexor√°vel Fouce
E a ampulheta em que vais pulverizando as horas.

Sei que andas, como sombra, a seguir os meus
[passos,
Tão próxima de mim que te respiro o alento,
‚ÄĒ Prestes como uma noiva a estreitar-me em teus
[braços,
E a arrastar-me contigo ao teu leito sangrento…

Que importa? Do teu seio a noite que amedronta,
Para mim não é mais que o refluxo da Vida,
Noite da noite, donde esplêndida desponta
A aurora espiritual da Terra Prometida.

A Alma volta à Luz; sai desse hiato de sombra,
Como o insecto da larva. A Morte que me aterra,
Essa que tanta vez o meu √Ęnimo assombra,
Não és tu, com a paz do teu oásis te terra!

Quantas vezes,

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N√£o!

Tenho-te muito amor,
E amas-me muito, creio:
Mas ouve-me, receio
Tomar-te desgraçada:
O homem, minha amada,
N√£o perde nada, goza;
Mas a mulher √© rosa…
Sim, a mulher é flor!

Ora e a flor, vê tu
No que ela se resume…
Faltando-lhe o perfume,
Que é a essência dela,
A mais viçosa e bela
V√™-a a gente e… basta.
Sê sempre, sempre, casta!
Ter√°s quanto possuo!

Ter√°s, enquanto a mim
Me alumiar teu rosto,
Uma alma toda gosto,
Enlevo, riso, encanto!
Depois ter√°s meu pranto
Nas praias solit√°rias…
Ondas tumultu√°rias
De l√°grimas sem fim!

À noite, que o pesar
Me arrebatar de cada,
Irei na campa rasa
Que resguardar teus ossos,
Ah! recordando os nossos
T√£o venturosos dias,
Fazer-te as cinzas frias
Ainda palpitar!

Mil beijos, doce bem,
Darei no pó sagrado,
Em que se houver tornado
Teu corpo t√£o galante!
Com pena, minha amante,
De n√£o ter a morte
Ca√≠do a mim em sorte…
Caído em mim também!

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Somos Apenas Cerimónia

Somos apenas cerim√≥nia (formalidade, conven√ß√Ķes): a cerim√≥nia transporta-nos e deixamos de lado a subst√Ęncia das coisas; agarramo-nos aos galhos e abandonamos o tronco e o corpo. Ensinamos as mulheres a enrubescer por apenas ouvirem nomear o que elas n√£o t√™m o menor receio de fazer; n√£o ousamos mencionar directamente os nossos membros e n√£o tememos empreg√°-los em todo o tipo de devassid√£o. A cerim√≥nia pro√≠be-nos de expressar em palavras as coisas l√≠citas e naturais, e acreditamos nela; a raz√£o pro√≠be-nos de praticar as il√≠citas e m√°s, e ningu√©m acredita nela. Encontro-me aqui enredado nas leis da cerim√≥nia, pois ela n√£o permite nem que se fale bem de si nem que se fale mal.

Assim como as crianças, que no escuro tremem de medo e temem tudo,
nós, na claridade, às vezes temos receio de certas coisas
que não são mais terríveis do que aquelas que as crianças temem
no escuro e pensam que acontecer√£o a elas.

Rumor dos Fogos

hoje à noite avistei sobre a folha de papel
o drag√£o em celul√≥ide da inf√Ęncia
escuro como o interior polposo das cerejas
antigo como a ins√≥nia dos meus trinta e cinco anos…

dantes eu conseguia esconder-me nas paisagens
podia beber a humidade aérea do musgo
derramar sangue nos dedos magoados
foi h√° muito tempo
quando corria pelas ruas sem saber ler nem escrever
o mundo reduzia-se a um berlinde
e as m√£os eram pequenas
desvendavam os nocturnos segredos dos pinhais

n√£o quero mais perceber as palavras nem os corpos
deixou de me pertencer o choro longínquo das pedras
prossigo caminho com estes ossos cor de malva
som a som o vegetal silêncio sílaba a sílaba o abandono
desta obra que fica por construir… o receio
de abrir os olhos e as rosas n√£o estarem onde as sonhei
e teu rosto ter desaparecido no fundo do mar

ficou-me esta m√£o com sua sombra de terra
sobre o papel branco… como √© louca esta m√£o
tentando aparar a tristeza antiga das l√°grimas

Rosa P√°lida

Rosa p√°lida, em meu seio
Vem, querida, sem receio
Esconder a aflita cor.
Ai!, a minha pobre rosa!
Cuida que é menos formosa
Porque desbotou de amor.

Pois sim… quando livre, ao vento,
Solta de alma e pensamento,
Forte de tua isenção,
Tinhas na folha incendida
O sangue, o calor e a vida
Que ora tens no coração.

Mas n√£o eras, n√£o, mais bela,
Coitada, coitada dela,
A minha rosa gentil!
Coravam-na ent√£o desejos,
Desmaiam-na agora os beijos…
Vales mais mil vezes, mil.

Inveja das outras flores!
Inveja de quê, amores?
Tu, que vieste dos Céus,
Comparar tua beleza
Às filhas da natureza!
Rosa, n√£o tentes a Deus.

E vergonha!… de qu√™, vida?
Vergonha de ser querida,
Vergonha de ser feliz!
Porqu√™?… porqu√™ em teu semblante
A p√°lida cor da amante
A minha ventura diz?

Pois, quando eras t√£o vermelha
N√£o vinha z√Ęng√£o e abelha
Em torno de ti zumbir?
N√£o ouvias entre as flores
Histórias dos mil amores
Que n√£o tinhas,

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