Textos sobre Militares

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Textos de militares escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Grandes Homens Forjam-se a si Próprios

Para conhecer a realidade do mundo, √ļnico fim s√©rio da ci√™ncia, √© preciso entrar no combate da vida como entravam na li√ßa os paladinos bastardos – sem pai e sem padrinho. Os pr√≠ncipes n√£o constituem excep√ß√£o a esta lei geral da forma√ß√£o dos homens. Da educa√ß√£o de gabinete, do bafo enervante dos mestres, dos camareiros e das aias, nunca sairam sen√£o doentes e pedantes.
Na sagração dos czares há uma cerimónia de alta significação simbólica: o imperador não se confirma enquanto por três vezes não haja descido do trono e penetrado sozinho na multidão; e isto quer dizer que na convivência do povo a autoridade e o valor dos monarcas recebe uma tão sagrada unção como a da santa crisma. Todos os reis fortes se fizeram e se educaram a si mesmos nos mais rudes e mais hostis contactos da natureza e da sociedade humana.
Veja vossa alteza Carlos Magno, que s√≥ aos quarenta anos √© que mandou chamar um mestre para aprender a ler. Veja Pedro o Grande, do qual a educa√ß√£o de c√Ęmara come√ßou por fazer um poltr√£o. Aos quinze anos n√£o se atrevia a atravessar um ribeiro. Reagiu enfim sobre si mesmo pela sua √ļnica for√ßa pessoal.

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As Mulheres S√£o Mais Fortes

Para começar, gosto das mulheres. Acho que elas são mais fortes, mais sensíveis e que têm mais bom senso que os homens. Nem todas as mulheres do mundo são assim, mas digamos que é mais fácil encontrar qualidades humanas nelas do que no género masculino. Todos os poderes políticos, económicos, militares são assunto de homens. Durante séculos, a mulher teve de pedir autorização ao seu marido ou ao seu pai para fazer fosse o que fosse.

O Serviço Militar Obrigatório

Deixem-me come√ßar com uma confiss√£o de f√© pol√≠tica: o Estado √© feito para o homem, n√£o o homem para o Estado. Isto √© igualmente verdade em ci√™ncia. Estas s√£o convic√ß√Ķes antigas pronunciadas por aqueles para quem o homem em si √© o valor humano mais alto. N√£o teria de repeti-las se n√£o fosse o facto de estarem constantemente em perigo de serem esquecidas, especialmente nos dias que correm, de standardiza√ß√£o e de estereotipia. Creio que a miss√£o mais importante do Estado √© a de proteger o indiv√≠duo e tornar poss√≠vel o desenvolvimento de uma personalidade criativa.
O Estado deve ser nosso servo; n√£o devemos ser escravos do Estado. O Estado viola este princ√≠pio quando nos for√ßa ao servi√ßo militar obrigat√≥rio, especialmente porque o objectivo e efeito de tal servid√£o √© matar pessoas de outras terras ou restringir-lhes a liberdade. De facto, somente devemos fazer sacrif√≠cios em nome do Estado se servirem o livre desenvolvimento do homem (…)
O nacionalismo, actualmente elevado a alturas excessivas, está, em minha opinião, intimamente associado à instituição do serviço militar obrigatório ou, utilizando um eufemismo, à milícia. Qualquer Estado que exija o serviço militar aos seus cidadãos é compelido a cultivar neles o espírito do nacionalismo,

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O Mundo dos Solteiros

Agora a s√©rio: voc√™ conhece algum solteiro verdadeiramente satisfeito com a sua condi√ß√£o de solteiro? Eu n√£o. Conhe√ßo v√°rios solteiros que se dizem satisfeitos com a sua condi√ß√£o de solteiros, mas que de bom grado imediatamente se casariam. N√£o se casam por in√©rcia, por cobardia, muitas vezes por falta de sorte – mas √© por uma vida a dois que suspiram. √Č da natureza humana. Uma coisa √© estar entre casamentos. Outra √© ser solteiro. E o solteiro cool √© uma constru√ß√£o t√£o artificial como o da gordinha ¬ęmuito¬Ľ simp√°tica. Voc√™ conhece alguma gordinha ¬ęmuito¬Ľ simp√°tica em que essa t√£o √≥bvia simpatia n√£o seja excessiva, provavelmente fabricada – e mensageira sobretudo de uma profunda solid√£o? Eu n√£o.

(…) √Č um mundo sombrio, o mundo dos solteiros – um mundo de ansiedades, de cinismo, de ressentimento, de ego√≠smo. Se os solteiros solit√°rios s√£o tristes, ali√°s, os solteiros greg√°rios s√£o-no ainda mais. Voc√™ j√° foi a algum jantar em que os presentes fossem maioritariamente solteiros? Eu j√°. E, sempre que fui, voltei deprimido. Ia deprimido – e deprimido voltei. √ćamos deprimidos – e deprimidos volt√°mos. Todos. Fizemos o que pudemos, claro: troc√°mos palavras, troc√°mos solidariedades, troc√°mos mimos. No fim, nada.

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Os Grandes Homens

Daqueles que comandaram batalh√Ķes e esquadr√Ķes s√≥ resta o nome. O g√©nero humano nada tem para mostrar duma centena de batalhas travadas. Mas os grandes homens de que vos falo prepararam puros e perenes prazeres para os homens que ainda h√£o-de nascer. Uma eclusa a ligar dois mares, um quadro de Poussin, uma bela trag√©dia, uma nova verdade – s√£o coisas mil vezes mais preciosas do que todos os anais da corte ou todos os relatos de campanhas militares. Sabeis que, comigo, os grandes homens s√£o os primeiros e os her√≥is os √ļltimos.
Chamo ¬ęgrandes homens¬Ľ a todos aqueles que se distinguiram na cria√ß√£o daquilo que √© √ļtil ou agrad√°vel. Os saqueadores de prov√≠ncias s√£o meros her√≥is.

A Trágica Necessidade de Conquista e de Mudança

Em todos os tempos os homens, por algum pedaço de terra de mais ou de menos, combinaram entre si despojarem-se, queimarem-se, trucidarem-se, esganarem-se uns aos outros; e para fazê-lo mais engenhosamente e com maior segurança, inventaram belas regras às quais se deu o nome de arte militar; ligaram à prática dessas regras a glória, ou a mais sólida reputação; e depois ultrapassaram-se uns aos outros na maneira de se destruirem mutuamente.
Da injusti√ßa dos primeiros homens, como da sua origem comum, veio a guerra, assim como a necessidade em que se acharam de adoptar senhores que fixassem os seus direitos e pretens√Ķes. Se, contente com o que se tinha, se tivesse podido abster-se dos bens dos vizinhos, ter-se-ia para sempre paz e liberdade.
O povo tranquilo nos lares, nas famílias e no seio de uma grande cidade onde nada tem a temer para os seus bens nem para a vida, anseia por fogo e sangue, ocupa-se de guerras, ruínas, braseiros e matanças, suporta impacientemente que os exércitos que mantêm a campanha não tenham recontros, ou se já se encontraram e não sustentem combate, ou se enfrentam e não seja sangrento o combate, e haja menos de dez mil homens no local.

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Trabalho e Descanso na Justa Medida

A mente n√£o se deve manter sempre na mesma inten√ß√£o ou tens√£o, antes deve dar-se tamb√©m √† divers√£o. S√≥crates n√£o se envergonhava de brincar com as crian√ßas, Cat√£o aliviava com vinho o seu √Ęnimo fatigado dos cuidados p√ļblicos e Cipi√£o dan√ßava com aquele corpo triunfante e militar (…) O nosso esp√≠rito deve relaxar: ficar√° melhor e mais apto ap√≥s um descanso. Tal como n√£o devemos for√ßar um terreno agr√≠cola f√©rtil com uma produtividade ininterrupta que depressa o esgotaria, tamb√©m o esfor√ßo constante esvaziar√° o nosso vigor mental, enquanto um curto per√≠odo de repouso restaurar√° o nosso poder. O esfor√ßo continuado leva a um tipo de torpor mental e letargia. Nem os desejos dos homens devem encaminhar-se t√£o depressa nesta direc√ß√£o se o desporto e o jogo os envolvem numa esp√©cie de prazer natural; embora uma repetida pr√°tica destrua toda a gravidade e for√ßa do nosso esp√≠rito. Afinal, o sono tamb√©m √© essencial para nos restaurar, mas se o prolong√°ssemos constantemente, dia e noite, seria a morte.

A Essência do Fanatismo

A ess√™ncia do fanatismo consiste em considerar determinado problema como t√£o importante que ultrapasse qualquer outro. Os bizantinos, nos dias que precederam a conquista turca, entendiam ser mais importante evitar o uso do p√£o √°zimo na comunh√£o do que salvar Constantinopla para a cristandade. Muitos habitantes da pen√≠nsula indiana est√£o dispostos a precipitar o seu pa√≠s na ru√≠na por divergirem numa quest√£o importante: saber se o pecado mais detest√°vel consiste em comer carne de porco ou de vaca. Os reaccion√°rios amercianos prefiririam perder a pr√≥xima guerra do que empregar nas investiga√ß√Ķes at√≥micas qualquer indiv√≠duo cujo primo em segundo grau tivesse encontrado um comunista nalguma regi√£o. Durante a Primeira Guerra Mundial, os escoceses sabat√°rios, a despeito da escassez de v√≠veres provocada pela actividade dos submarinos alem√£es, protestavam contra a planta√ß√£o de batatas ao domingo e diziam que a c√≥lera divina, devido a esse pecado, explicava os nossos malogros militares. Os que op√Ķem objec√ß√Ķes teol√≥gicas √† limita√ß√£o dos nascimentos, consentem que a fome, a mis√©ria e a guerra persistam at√© ao fim dos tempos porque n√£o podem esquecer um texto, mal interpretado, do G√©nese. Os partid√°rios entusiastas do comunismo, tal como os seus maiores inimigos, preferem ver a ra√ßa humana exterminada pela radioactividade do que chegar a um compromisso com o mal –

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O Governo Mundial

Pode evitar-se a guerra por algum tempo por meio de paliativos, expedientes ou uma diplomacia subtil, mas tudo isso √© prec√°rio, e enquanto durar o nosso sistema pol√≠tico actual, pode ser considerado como quase certo que grandes conflitos h√£o-de surgir de vez em quando. Isso acontecer√° inevitavelmente enquanto houver diferentes Esados soberanos, cada um com as suas for√ßas armadas e juiz supremo dos seus pr√≥prios direitos em qualquer disputa. H√° somente um meio de o mundo poder libertar-se da guerra, √© a cria√ß√£o de uma autoridade mundial √ļnica, que possua o monop√≥lio de todas as armas mais perigosas.

Para que um governo mundial pudesse evitar graves conflitos, seria indispens√°vel possuir um m√≠nimo de poderes. Em primeiro lugar precisava de ter o monop√≥lio de todas as principais armas de guerra e as for√ßas armadas necess√°rias para o seu emprego. Devia tamb√©m tomar as precau√ß√Ķes indispens√°veis, quaisquer que fossem, para assegurar, em todas as circunst√Ęncias, a lealdade dessas for√ßas ao governo central.

O governo mundial tinha de formular, portanto, certas regras relativas ao emprego das suas for√ßas armadas. A mais importante determinaria que, em qualquer conflito entre dois Estados. cada um tinha de se submeter √†s decis√Ķes da autoridade mundial.

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Estou Habituado a que Recebam Mal os Meus Filmes

Estou habituado a que recebam mal os meus filmes e isso n√£o me altera, nem altera nada do que penso sobre o cinema. Eu reprovo o pr√©mio da competi√ß√£o. Os √ďscares, por exemplo, at√© porque s√£o dados a filmes de sucesso. Gosto mais dos pr√©mios que s√£o dados ao filme como coisa art√≠stica. Esse pr√©mio de competi√ß√£o est√° bem no futebol, que um mete mais golos que o outro. Mas j√° dizia o Rembrandt quando apresentou o seu quadro “A ronda da noite” √† sociedade ‚Äď fizeram muita tro√ßa, ele veio desconsolad√≠ssimo ‚Äď: “O militar conhece a sua gl√≥ria na vit√≥ria, o comerciante reconhece a sua gl√≥ria nos lucros do com√©rcio, mas o pintor, o artista, onde √© que ele a vai reconhecer?”. N√£o h√° nada que determine exactamente. A arte √© especial. H√° uma s√≥ lei: o tempo. O tempo √© o grande juiz, √© o grande juiz de tudo.

O Homem Cruel

Quando o rico ti¬≠ra um pertence ao pobre (por exemplo, um pr√≠ncipe que tira a amante ao plebeu), ent√£o gera-se um erro no pobre; este acha que aquele tem de ser absoluta¬≠mente infame, para lhe tirar o pouco que ele tem. Mas aquele n√£o sente de modo algum t√£o profunda¬≠mente o valor de um √ļnico pertence, porque est√° ha¬≠bituado a ter muitos: portanto, n√£o se pode trans¬≠por para o esp√≠rito do pobre e n√£o comete tal uma injusti√ßa t√£o grande como este julga. Ambos t√™m um do outro uma concep√ß√£o errada. A injusti√ßa do poderoso, a que mais indigna na Hist√≥ria, n√£o √© as¬≠sim t√£o grande como parece. O mero sentimento heredit√°rio de ser um ser superior, com direitos su¬≠periores, torna uma pessoa bastante fria e deixa-lhe a consci√™ncia tranquila: at√© todos n√≥s, se a dist√Ęncia entre n√≥s e um outro ente for muito grande, j√° n√£o sentimos absolutamente nada de injusto e matamos um mosquito, por exemplo, sem qualquer remorso.
Assim, não é sinal de maldade em Xerxes (a quem mesmo todos os Gregos descrevem como eminente­mente nobre) quando ele tira a um pai o seu filho e o manda esquartejar, porque este havia manifestado uma inquieta e ominosa desconfiança em relação a toda a expedição militar: neste caso,

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A Ocupação Militar

N√£o h√° ocupa√ß√£o t√£o agrad√°vel como a militar; ocupa√ß√£o tanto nobre na execu√ß√£o (pois a mais forte, generosa e magn√≠fica de todas as virtudes √© a valentia) quanto nobre na sua causa: n√£o h√° utilidade mais leg√≠tima nem mais geral do que a protec√ß√£o da tranquilidade e da grandeza do seu pa√≠s. Agrada-vos a companhia de tantos homens, nobres, jovens, activos, a vis√£o frequente de tantos espect√°culos tr√°gicos, a liberdade desse conv√≠vio sem artif√≠cios e uma forma de vida viril e sem cerim√≥nia, a variedade de mil actividades diversas, essa fogosa harmonia da m√ļsica guerreira que vos alimenta e aquece os ouvidos e a alma, a honra desse exerc√≠cio, mesmo a sua rudeza e dificuldade, que Plat√£o considera t√£o pouca que na sua rep√ļblica a reparte com as mulheres e as crian√ßas.
Oferecei-vos para os pap√©is e os riscos pessoais de acordo com o que julgais sobre o seu brilho e a sua import√Ęncia, soldado volunt√°rio, e vedes quando mesmo a vida √© justificadamente empregue neles, penso que √© belo morrer combatendo (Virg√≠lio). Temer os perigos gerais que envolvem uma multid√£o em que tantas pessoas incorrem, n√£o ousar o que tantas esp√©cies de indiv√≠duos ousam √© pr√≥prio de um √Ęnimo desmedidamente frouxo e inferior.

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Quem Quiser Acabar com a Guerra

Quem quiser, de facto, acabar com a guerra tem que intervir resolutamente para que o Estado a que pertence renuncie a uma parte da sua soberania a favor de institui√ß√Ķes internacionais; deve estar pronto a submeter o pr√≥prio Estado, em caso de qualquer conflito, √† arbitragem dum Tribunal internacional; tem de intervir com toda a decis√£o para que todos os Estados procedam ao desarmamento, conforme est√° previsto at√© mesmo no desgra√ßado tratado de Versalhes; nenhum progresso poder√° esperar-se se n√£o for suprimida a educa√ß√£o militar e patri√≥tica ‚ÄĒ no sentido agressivo ‚ÄĒ do povo.
Nenhum outro acontecimento dos √ļltimos anos foi mais vergonhoso para os Estados actualmente mais considerados, que o malogro das anteriores confer√™ncias de desarmamento; pois esse malogro n√£o assenta apenas nas intrigas de estadistas ambiciosos e sem escr√ļpulos, mas tamb√©m na indiferen√ßa e falta de energia dos homens de todos os pa√≠ses. Se isto n√£o se modificar, destruiremos o que os nossos antepassados criaram de verdadeiramente valioso.

A Fal√°cia do Sucesso

Abomin√°vel coisa √© o bom √™xito, seja dito de passagem. A sua falsa parecen√ßa com o merecimento ilude os homens. Para o vulgo, o bom sucesso equivale √† supremacia. A v√≠tima dos logros do triunfo, desse menecma da habilidade, √© a hist√≥ria. S√≥ T√°cito e Juvenal se lhe op√Ķem. Existe na √©poca e sente uma filosofia quase oficial, que envergou a libr√© do bom √™xito e lhe faz o servi√ßo da antec√Ęmara. Fazei por serdes bem sucedido, √© a teoria. Prosperidade sup√Ķe capacidade. Ganhai na lotaria, sereis um homem h√°bil. Quem triunfa √© venerado. Nascei bem-fadado, n√£o queirais mais nada. Tende fortuna, que o resto por si vir√°; sede feliz, julgar-vos-√£o grande. Se pusermos de parte as cinco ou seis excep√ß√Ķes imensas que fazem o esplendor de um s√©culo, a admira√ß√£o contempor√Ęnea √© apenas miopia. Duradora √© ouro. Pouco importa que n√£o sejais ningu√©m, contanto que consigais alguma coisa.
O vulgo √© um narciso velho, que se idolatra a si pr√≥prio e aplaude o vulgar. A faculdade sublime de ser Mois√©s, Esquilo, Dante, Miguel √āngelo ou Napole√£o, decreta-a a multid√£o indistintamente e por unanimidade a quem atinge o alvo que se prop√īs, seja no que for. Que um tabeli√£o se transforme em deputado;

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Os Elementos Fixadores da Personalidade

Os res√≠duos ancestrais formam a camada mais profunda e mais est√°vel do car√°cter dos indiv√≠duos e dos povos. √Č pelo seu ‚Äúeu‚ÄĚ ancestral que um ingl√™s, um franc√™s, um chin√™s, diferem t√£o profundamente.
Mas a esses remotos atavismos sobrep√Ķem-se elementos suscitados pelo meio social (casta, classe, profiss√£o, etc.), pela educa√ß√£o e ainda por muitas outras influ√™ncias. Eles imprimem √† nossa personalidade uma orienta√ß√£o assaz constante. Ser√° o ‚Äúeu‚ÄĚ, um pouco artificial, assim formado, que exteriorizaremos cada dia.
Entre todos os elementos formadores da personalidade, o mais activo, depois da ra√ßa, √© o que determina o agrupamento social ao qual pertencemos. Fundidas no mesmo molde pelas id√©ias, as opini√Ķes e as condutas semelhantes que lhes s√£o impostas, as individualidades de um grupo: militares, magistrados, padres, oper√°rios, marinheiros, etc., apresentam numerosos car√°cteres id√™nticos.
As suas opini√Ķes e os seus ju√≠zos s√£o, em geral, vizinhos, porquanto sendo cada grupo social muito nivelador, a originalidade n√£o √© tolerada nele. Aquele que se quer diferenciar do seu grupo tem-no inteiramente por inimigo.
Essa tirania dos grupos sociais, na qual insistiremos, n√£o √© in√ļtil. Se os homens n√£o tivessem por guia as opini√Ķes e a maneira de proceder daqueles que os cercam,

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Personalidades Potenciais

Trazemos connosco personalidades potenciais que acontecimentos ou acidentes podem potencializar. Assim, a Revolu√ß√£o fez surgir o g√©nio pol√≠tico ou militar nos jovens destinados a uma carreira med√≠ocre numa √©poca normal; a guerra provoca o advento de her√≥is e de carrascos; a ditadura totalit√°ria transformou seres p√°lidos em monstros. O exerc√≠cio incontrolado do poder pode ¬ętornar o s√°bio louco¬Ľ (Alain) mas pode tornar s√°bio o louco, e dar g√©nio ao med√≠ocre, como no caso de Hitler e Estaline. E tamb√©m as possibilidades de g√©nio ou de dem√™ncia, de crueldade ou de bondade, de santidade ou de monstruosidade, virtuais em todos os seres, podem desenvolver-se em circunst√Ęncias excepcionais.
Inversamente, estas possibilidades nunca chegar√£o √† luz do dia na chamada vida normal: nos nossos dias, C√©sar seria funcion√°rio da CEE, Alexandre teria escrito uma vida de Arist√≥teles para uma colec√ß√£o de divulga√ß√£o, Robespierre seria adjunto de Pierre Mauroy na C√Ęmara de Arras, e Bonaparte seria do s√©quito de Pascua.

Os Elementos do Car√°cter

O car√°cter √© constitu√≠do por um agregado de elementos afectivos aos quais se sobrep√Ķem, mesclando-se muito pouco a eles, alguns elementos intelectuais. S√£o sempre os primeiros que d√£o ao indiv√≠duo a sua verdadeira personalidade. Sendo numerosos os elementos afectivos, a sua associa√ß√£o formar√° variados elementos: activos, contemplativos ap√°ticos, sensitivos, etc. Cada um deles actuar√° diferentemente sob a ac√ß√£o dos mesmos excitantes.
Os agregados constitutivos do car√°cter podem ser fortemente ou, ao contr√°rio, fracamente cimentados. Aos agregados s√≥lidos correspondem as individualidades fortes, que se mant√™m n√£o obstante as varia√ß√Ķes de meio e de circunst√Ęncias. Aos agregados mal cimentados correspondem as mentalidades moles, incertas e mut√°veis. Elas modificar-se-iam a cada instante sob as influ√™ncias mais insignificantes se certas necessidades da vida quotidiana n√£o as orientassem, como as margens de um rio canalizam o seu curso.
Por mais est√°vel que seja o car√°cter, permanece sempre ligado, no entanto, ao estado dos nossos √≥rg√£os. Uma nevralgia, um reumatismo, uma perturba√ß√£o intestinal, transformam o j√ļbilo em melancolia, a bondade em maldade, a vontade em indol√™ncia. Napole√£o, doente em Warteloo, j√° n√£o era Napole√£o. C√©sar, disp√©ptico, n√£o teria, sem d√ļvida, transposto o Rubicon.
As causas morais actuam também no carácter ou, pelo menos,

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O Mercado Pode Tornar-se uma Ditadura

A diferen√ßa (entre a ditadura e o capitalismo) √© que n√£o √© a ditadura como n√≥s conhecemos. √Č o que eu chamo de ¬ęcapitalismo autorit√°rio¬Ľ. A ditadura tinha cara, e n√≥s diz√≠amos √© aquela, ou aqueles militares, o Hitler, o Franco, o Pinochet, mas agora n√£o tem cara. E como n√£o tem cara n√£o sabemos contra quem lutar. N√£o h√° contra quem lutar. O mercado n√£o tem cara, s√≥ tem nome. Est√° em toda a parte e n√£o podemos identific√°-lo, dizer ¬ę√©s tu¬Ľ. Mesmo as pessoas que lutaram contra a ditadura, entrando na democracia acham que n√£o t√™m mais que lutar. E os problemas est√£o todos a√≠. O mercado pode tornar-se uma ditadura.

A Escolha Inteligente

Uma vida bem sucedida depende das escolhas que fizermos. Temos de saber o que √© ou n√£o importante para n√≥s. A escolha inteligente implica um sentido realista dos valores e um sentido realista das propor√ß√Ķes. Este processo de escolha – de aceita√ß√£o por um lado e de rejei√ß√£o pelo outro – come√ßa na inf√Ęncia e continua pela vida fora. N√£o podemos ter tudo o que ambicionamos. O homem de neg√≥cios que procura o sucesso financeiro tem muitas vezes de abandonar os seus interesses de ordem desportiva ou cultural. Os que preferem servir os interesses espirituais, culturais ou pol√≠ticos da sociedade – sacerdotes, escritores, artistas, militares, homens de estado e funcion√°rios p√ļblicos em geral – t√™m quase sempre de relegar para segundo plano o bem-estar financeiro.
Com uma vida limitada não podemos ser ou fazer tudo. Estamos constantemente a ter de escolher com que e com quem passar o nosso tempo. Cultivar amizades toma tempo. Às vezes temos de recusar encontros e desapontar muitas pessoas para termos tempo de alcançar os nossos fins. Todos os dias temos de escolher entre as coisas que estão à venda. Não podemos ter o mundo inteiro, tal como uma criança não pode comprar todos os rebuçados da doçaria se tiver apenas um tostão.

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O Bem Moral

N√£o quero deixar passar o ensejo de indicar a diferen√ßa entre o bem em geral e o bem moral. Ambas as no√ß√Ķes t√™m algo de comum e mesmo indissoci√°vel: nada pode ser considerado um bem se n√£o tiver uma parcela de bem moral, e o bem moral √© indiscutivelmente um bem. Qual √© ent√£o a distin√ß√£o entre as duas categorias? O bem moral √© o bem absoluto, no qual se realiza totalmente a felicidade, e gra√ßas ao contacto dele todas as outras coisas se podem tornar formas de bem. Exemplificando: h√° coisas que em si nem s√£o boas nem s√£o m√°s, tais como o servi√ßo militar, a carreira diplom√°tica, a jurisprud√™ncia. Se estas tarefas forem realizadas conformemente ao bem moral, come√ßam a tornar-se bens e passam, de indiferentes, para a categoria do bem. O bem, em geral, depende de estar ou n√£o associado ao bem moral; o bem moral √© em si mesmo o bem; o bem em geral est√° dependente do bem moral, enquanto o bem moral depende apenas de si. Tudo quanto √© simplesmente um bem poderia ter sido um mal; o bem moral, pelo contr√°rio, nunca poderia deixar de ter sido um bem.