Cita√ß√Ķes sobre Enterro

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Frases sobre enterro, poemas sobre enterro e outras cita√ß√Ķes sobre enterro para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

O Valor da Crónica de Jornal

A cr√≥nica √© como que a conversa √≠ntima, indolente, desleixada, do jornal com os que o l√™em: conta mil coisas, sem sistema, sem nexo, espalha-se livremente pela natureza, pela vida, pela literatura, pela cidade; fala das festas, dos bailes, dos teatros, dos enfeites, fala em tudo baixinho, como quando se faz um ser√£o ao braseiro, ou como no Ver√£o, no campo, quando o ar est√° triste. Ela sabe anedotas, segredos, hist√≥rias de amor, crimes terr√≠veis; espreita, porque n√£o lhe fica mal espreitar. Olha para tudo, umas vezes melancolicamente, como faz a Lua, outras vezes alegre e robustamente, como faz o Sol; a cr√≥nica tem uma doidice jovial, tem um estouvamento delicioso: confunde tudo, tristezas e fac√©cias, enterros e actores ambulantes, um poema moderno e o p√© da imperatriz da China; ela conta tudo o que pode interessar pelo esp√≠rito, pela beleza, pela mocidade; ela n√£o tem opini√Ķes, n√£o sabe do resto do jornal; est√° nas suas colunas contando, rindo, pairando; n√£o tem a voz grossa da pol√≠tica, nem a voz indolente do poeta, nem a voz doutoral do cr√≠tico; tem uma pequena voz serena, leve e clara, com que conta aos seus amigos tudo o que andou ouvindo, perguntando, esmiu√ßando.

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Flores Velhas

Fui ontem visitar o jardinzinho agreste,
Aonde tanta vez a lua nos beijou,
E em tudo vi sorrir o amor que tu me deste,
Soberba como um sol, serena como um v√īo.

Em tudo cintilava o límpido poema
Com ósculos rimado às luzes dos planetas:
A abelha inda zumbia em torno da alfazema;
E ondulava o matiz das leves borboletas.

Em tudo eu pude ver ainda a tua imagem,
A imagem que inspirava os castos madrigais;
E as vibra√ß√Ķes, o rio, os astros, a paisagem,
Traziam-me à memória idílios imortais.

E nosso bom romance escrito num desterro,
Com beijos sem ruído em noites sem luar,
Fizeram-mo reler, mais tristes que um enterro,
Os goivos, a baunilha e as rosas-de-toucar.

Mas tu agora nunca, ah! Nunca mais te sentas
Nos bancos de tijolo em musgo atapetados,
E eu não te beijarei, às horas sonolentas,
Os dedos de marfim, polidos e delgados…

Eu, por n√£o ter sabido amar os movimentos
Da estrofe mais ideal das harmonias mudas,
Eu sinto as decep√ß√Ķes e os grandes desalentos
E tenho um riso meu como o sorrir de Judas.

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Ai de Mim!

Venho, torna-me velho esta lembrança!
D’um enterro d’anjinho, nobre e puro:
Infancia, era este o nome da criança
Que, hoje, dorme entre os bichos, l√° no escuro…

Trez anjos, a Chymera, o Amor, a Esperança
Acompanharam-n’o ao jazigo obscuro,
E recebeu, segundo a velha usança,
A chave do caix√£o o meu Futuro.

Hoje, ambulante e abandonada Ermida,
Leva-me o fado, √° bruta, aos empurr√Ķes,
V√° para a frente! Marcha! √Ā Vida! √Ā Vida!

Que hei-de fazer, Senhor! o qu’√© que espera
Um bacharel formado em illuz√Ķes
Pela Universidade da Chymera?

Enterro de Luxo

L√° vai o enterro de luxo
puxado por sete cavalos
l√° vai a rosa de pl√°stico
na lapela do cad√°ver.

L√° vai o defunto imberbe
boiando em madeira nobre
lá vai a língua bilingue
com seu sotaque podre.

L√° vai o queixo amarrado
lá vai a gravata oblíqua
montada na escorreguenta
garupa da metafísica.

L√° vai o enterro de luxo
l√° vai a conta banc√°ria
l√° vai a calva engomada
l√° vai o ouro da c√°rie.

L√° vai o enterro de luxo
levado por ventos negros
l√° v√£o os pend√Ķes de luto
com seus narizes alegres.

L√° vai o enterro de luxo
l√° vai o perfil de √°rabe
tangido pra correnteza
vol√ļvel da eternidade.

Versos √ćntimos

Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua √ļltima quimera.
S√≥mente a Ingratid√£o – esta pantera –
Foi tua companheira insepar√°vel!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miser√°vel,
Mora, entre feras, sente inevit√°vel
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa m√£o vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Requiem para um Defunto Vulgar

Antoninho morreu. Seu corpo resignado
é como um rio incolor, regressando à nascente
num silêncio de espanto e mistério revelado.
Est√° ali – estando ausente.

Jaz de corpo inteiro e fato preto.
Ele, da cabeça aos pés,
trivial e completo,
estátua de proa e moço de convés.

Jaz como se dormisse (pelo menos
é o que dizem as velhas carpideiras).
Jaz imóvel, sem gestos, sem acenos.
Jaz morto de todas as maneiras.

Jaz morto de cansaço, de pobreza, de fome
(sobretudo, de fome). Jaz morto sem remédio.
√Č apenas, sobre um papel azul, um nome.
De ser mais qualquer coisa, a morte impede-o.

Jaz alheio a tudo à sua volta,
à grita dos parentes, companheiros,
como um cavalo à rédea solta
ou no mar largo, os r√°pidos veleiros.

Jaz in√ļtil, feio, pesado,
a colcha de crochet aconchega-o na cama.
Nunca esteve t√£o quente e animado.
Nunca foi t√£o menino de mama.

Os filhos olham-no e fazem contas cuidadosas:
padre, enterro, velório, certidão
de √≥bito… E discutem, com manhas de raposas,

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As M√£es

Quando voltar ao Alentejo as cigarras já terão morrido. Passaram o verão todo a transformar a luz em canto Рnão sei de destino mais glorioso. Quem lá encontraremos, pela certa, são aquelas mulheres envolvidas na sombra dos seus lutos, como se a terra lhes tivesse morrido e para todo o sempre se quedassem órfãs. Não as veremos apenas em Barrancos ou em Castro Laboreiro, elas estão em toda a parte onde nasça o sol: em Cória ou Catania, em Mistras ou Santa Clara del Cobre, em Varchats ou Beni Mellal, porque elas são as Mães. O olhar esperto ou sonolento, o corpo feito um espeto ou mal podendo com as carnes, elas são as Mães. A tua; a minha, se não tivera morrido tão cedo, sem tempo para que o rosto viesse a ser lavrado pelo vento. Provavelmente estão aí desde a primeira estrela. E como duram! Feitas de urze ressequida, parecem imortais. Se o não forem, são pelo menos incorruptíveis, como se participassem da natureza do fogo. Com mãos friáveis teceram a rede dos nossos sonhos, alimentaram-nos com a luz coada pela obscuridade dos seus lenços. Às vezes encostam-se à cal dos muros a ver passar os dias,

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Quadras da Minha Vida

Os ecos nos meus sentidos
Dos meus afectos doentes
S√£o mais longos, mais compridos
Do que rastos de serpentes.

Nasci profundo e pegado
A turbilh√Ķes de afli√ß√£o:
Na cara trago estampado
O meu perfil de obsess√£o.

N√£o creio que possa amar
Nem neste mundo ter jeito
De me encostar a outro leito
Sem desatar a chorar.

Enterro os dias e os ais,
Sou uma pilheira de mortos,
Não tenho espaço pra mais!
Que se comam uns aos outros…

Hoje, morreu mamãe. Ou talvez, ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames. Isto não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem.

√Č c√≥modo, um enterro: pode-se ter um ar aborrecido com as pessoas e elas tomam-no por tristeza.

O Meu Cachimbo

√ď meu cachimbo! Amo-te immenso!
Tu, meu thuribudo sagrado!
Com que, bom Abbade, incenso
A Abbadia do meu passado.

Fumo? E occorre-me á lembrança
Todo esse tempo que l√° vae,
Quando fumava, ainda criança,
√Ās escondidas do meu Pae.

Vejo passar a minha vida,
Como n’um grande cosmorama:
Homem feito, pallida Ermida,
Infante, pela m√£o da ama…

Por alta noite, √°s horas mortas,
Quando n√£o se ouve pio, ou voz,
Fecho os meus livros, fecho as portas
Para fallar comtigo a sós.

E a noite perde-se em cavaco,
Na Torre d’Anto, aonde eu moro!
Alli, mettido no buraco,
Fumo e, a fumar, √°s vezes… choro.

Chorando (penso e n√£o o digo)
Os olhos fitos neste ch√£o,
Que tu √©s leal, √©s meu amigo…
Os meus amigos onde est√£o?

N√£o sei. Tral-os-√° o ¬ęnevoeiro¬Ľ…
Os trez, os intimos, Aquelles,
Est√£o na Morte, no extrangeiro…
Dos mais n√£o sei, perdi-me d’elles.

Morreram-me uns. Por elles peço
A Deus, quando está de maré:
E, √°s noites,

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√Č Mais Simples e Mais √ötil Adaptar-se Aos Outros

Supondo que s√≥ existiam hoje dois homens na terra que a possuissem sozinhos, e a dividam entre si, estou convencido de que nascer√° logo entre eles algum motivo de disc√≥rdia, nem que seja pelos limites. √Äs vezes √© mais simples e mais √ļtil adaptar-se aos outros do que fazer os outros se adaptarem a n√≥s.
(…) H√° uma coisa que nunca se viu sob o c√©u e segundo todas as apar√™ncias, nunca se ver√°: √© uma cidade pequena que n√£o esteja dividida em partidos; onde as fam√≠lias sejam unidas e os primos se vejam com confian√ßa; onde um casamento n√£o gere guerra civil; onde a querela dos partidos n√£o desperte a todo o momento, por fraude, incenso e p√£o bento, prociss√Ķes e enterros; de onde se baniram os linguarudos, a mentira e a maledic√™ncia: onde se vejam falar juntos o juiz e o presidente da c√Ęmara, os eleitores e os assessores; onde o de√£o viva bem com o c√≥nego, onde os c√≥negos n√£o desdenhem os capel√£es e estes suportem os padres-mestres.
Os provincianos e os tolos est√£o sempre prontos a se zangarem e a pensarem que se est√° a zombar deles, ou a desprez√°-los; nunca se deve arriscar uma brincadeira,

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Queixa das almas jovens censuradas

Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

D√£o-nos um mapa imagin√°rio
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde n√£o vem a nossa idade

D√£o-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os cr√Ęneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas t√£o educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

D√£o-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
d√£o-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

D√£o-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar j√° o enterro
do nosso corpo mais adiante

D√£o-nos um nome e um jornal
um avi√£o e um violino
mas n√£o nos d√£o o animal
que espeta os cornos no destino

D√£o-nos marujos de papel√£o
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimens√£o
não é a vida,

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O Descalabro

O descalabro a √≥cio e estrelas…
Nada mais…
Farto…
Arre…
Todo o mist√©rio do mundo entrou para a minha vida econ√īmica.
Basta!…
O que eu queria ser, e nunca serei, estraga-me as ruas.
Mas ent√£o isto n√£o acaba?
√Č destino?
Sim, é o meu destino
Distribuído pelos meus conseguimentos no lixo
E os meus prop√≥sitos √† beira da estrada ‚ÄĒ
Os meus conseguimentos rasgados por crianças,
Os meus propósitos mijados por mendigos,
E toda a minha alma uma toalha suja que escorregou para o ch√£o.

…………………………………………………………………………………………..

O horror do som do relógio à noite na sala de jantar dê uma casa de
prov√≠ncia ‚ÄĒ
Toda a monotonia e a fatalidade do tempo…
O horror s√ļbito do enterro que passa
E tira a máscara a todas as esperanças.
Ali…
Ali vai a conclus√£o.
Ali, fechado e selado,
Ali, debaixo do chumbo lacrado e com cal na cara
Vai, que pena como nós,
Vai o que sentiu como nós,
Vai o nós!
Ali, sob um pano cru acro é horroroso como uma abóbada de cárcere
Ali,

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Canção

A pastorinha morreu, todos est√£o a chorar. Ninguem a conhecia e todos est√£o a chorar.

A pastorinha morreu, morreu de seus am√īres. √Ā beira do rio nasceu uma arvore e os bra√ßos da arvore abriram-se em cruz.

As suas mãos compridas já não acenam de alêm. Morreu a pastorinha e levou as mãos compridas.

Os seus olhos a rirem já não troçam de ninguem. Morreu a pastorinha e os seus olhos a rirem.

Morreu a pastorinha, está sem guia o rebanho. E o rebanho sem guia é o enterro da pastorinha.

Onde est√£o os seus am√īres? Ha prendas para Lhe dar. Ninguem sabe se √© Elle e ha prendas para Lhe dar.

Na outra margem do rio deu √° praia uma santa que vinha das bandas do mar. Vestida de pastora p’ra se n√£o fazer notar. De dia era uma santa, √† noite era o luar.

A pastorinha em vida era uma linda pastorinha; a pastorinha mórta é a Senhora dos Milagres.

O Lucro de Um é Prejuízo de Outro

O ateniense Dêmades condenou um homem da sua cidade que tinha por ofício vender as coisas necessárias para os enterros, sob a alegação de que exigia um lucro excessivo e esse lucro não lhe podia vir sem a morte de muitas pessoas. Tal julgamento parece estar mal pronunciado, na medida em que não se obtém benefício algum a não ser com prejuízo de outrem, e que dessa maneira seria preciso condenar toda a espécie de ganho.
O mercador s√≥ faz bem os seus neg√≥cios por causa da devassid√£o dos jovens; o lavrador, pela carestia dos cereais; o arquitecto, pela ru√≠na das casas; os oficiais de justi√ßa, pelos processos e contendas dos homens; mesmo as honras e a actividade dos ministros da religi√£o prov√™m da nossa morte e dos nossos v√≠cios. Nenhum m√©dico se alegra com a sa√ļde mesmo dos seus amigos, diz o antigo c√≥mico grego, nem o soldado com a paz da sua cidade; e assim sucessivamente. E o que √© pior: cada um sonde dentro de si mesmo, e descobrir√° que a maioria dos nossos desejos √≠ntimos nascem e alimentam-se √†s expensas de outrem.
Considerando isso, veio-me à mente que nisso a natureza não contradiz a sua organização geral,

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O Egoísmo dos Homens

Isto de saber que √© nos enterros que melhor se manifesta o ego√≠smo dos homens, n√£o √© novo. Vem nos livros. Mas √© conveniente experimentar. √Č sempre bom ir uma, duas, tr√™s, vinte vezes atr√°s de um caix√£o, e ver como a pouco e pouco o mar de gente se reduz e fica em nada. Como, de tantos amigos, chegam ao cemit√©rio apenas tr√™s, e esses tr√™s, furiosos por n√£o terem podido escapar-se.