Passagens sobre Filósofos

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O Homem de Ideias

N√£o √© l√≠cito dizer que tem ideias aquele que as foi buscar a outro, que envergou um sistema j√° pronto, que n√£o o construiu ele mesmo a pouco e pouco, √† medida que se ia alargando e aprofundando a sua vis√£o do mundo; para ¬ęter ideias¬Ľ √© necess√°rio um trabalho de autoforma√ß√£o, de modela√ß√£o cont√≠nua da alma, uma assimila√ß√£o que n√£o cessa de tudo o que uma determinada personalidade encontra de assimil√°vel no que a cerca, ou passado ou presente; a ideia surge da vida pr√≥pria e n√£o da vida dos outros; o homem que tem individualidade (√© muito dif√≠cil ser indiv√≠duo), ou a busca, pode inserir no seu pensamento fragmentos de pensamento alheio, mas apenas insere aqueles que, como algarismos num n√ļmero, mudam de valor conforme a posi√ß√£o; inventa uma coluna vertebral que s√≥ a ele pertence e caracteriza, depois procura o que se lhe pode adaptar sem desarmonia nem contradi√ß√£o.
Faz como o caracol que se não instala na concha de outro caracol; fabrica-a e aumenta-a ao mesmo ritmo que se fabrica e aumenta o corpo que a enche; os Eremitas são bichos traiçoeiros. Aprender ideias não tem valor senão quando nos serve para formar ideias; se apenas as queremos usar não merecemos nem a confiança nem a consideração de ninguém;

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O Saber Ajuda em Todas as Actividades

O mero fil√≥sofo √© geralmente uma personalidade pouco admis¬≠s√≠vel no mundo, pois sup√Ķe-se que ele em nada contribui para o be¬≠nef√≠cio ou para o prazer da sociedade, porquanto vive distante de toda comunica√ß√£o com os homens e envolto em princ√≠pios e no√ß√Ķes igualmente distantes de sua compreens√£o. Por outro lado, o mero ig¬≠norante √© ainda mais desprezado, pois n√£o h√° sinal mais seguro de um esp√≠rito grosseiro, numa √©poca e uma na√ß√£o em que as ci√™ncias florescem, do que permanecer inteiramente destitu√≠do de toda esp√©cie de gosto por estes nobres entretenimentos. Sup√Ķe-se que o car√°cter mais perfeito se encontra entre estes dois extremos: conserva igual capacidade e gosto para os livros, para a sociedade e para os neg√≥cios; mant√©m na conversa√ß√£o discernimento e delicadeza que nascem da cultura liter√°ria; nos neg√≥cios, a probidade e a exatid√£o que resultam naturalmente de uma filosofia conveniente. Para difundir e cultivar um car√°cter t√£o aperfei√ßoado, nada pode ser mais √ļtil do que as com¬≠posi√ß√Ķes de estilo e modalidade f√°ceis, que n√£o se afastam em demasia da vida, que n√£o requerem, para ser compreendidas, profunda apli¬≠ca√ß√£o ou retraimento e que devolvem o estudante para o meio de homens plenos de nobres sentimentos e de s√°bios preceitos,

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De um modo geral, o filósofo só deve ter uma preocupação quanto a seu estilo: que ele seja tão exacto como uma página de matemática; o que não quer dizer facilmente compreensível e claro: porque nada há de menos compreensível para o não-iniciado de que uma página de exacta e compreensível matemática.

Renunciar à Sede de Poder

Quem n√£o conheceu a tenta√ß√£o de ser o primeiro na cidade nada compreender√° do jogo pol√≠tico, da vontade de submeter os outros para deles fazer objectos, nem adivinhar√° os elementos de que √© composta a arte do desprezo. A sede de poder, raros s√£o os que n√£o a tenham num grau ou noutro experimentado: √©-nos natural, e contudo, se a considerarmos melhor, assume todos os car√°cteres de um estado m√≥rbido do qual apenas nos curamos por acidente ou ent√£o por meio de um amadurecimento interior, aparentado com o que se operou em Carlos V quando, ao abdicar em Bruxelas, no topo da sua gl√≥ria, ensinou ao mundo que o excesso de cansa√ßo podia suscitar cenas t√£o admir√°veis como o excesso de coragem. Mas, anomalia ou maravilha, a ren√ļncia, desafio √†s nossas contantes, √† nossa identidade, sobrev√©m somente em momentos excepcionais, caso limite que satisfaz o fil√≥sofo e perturba profundamente o historiador.

Um queria fazer de Jesus um sábio, outro, um filósofo, outro ainda, um patriota, outro, um homem de bem, outro, um moralista, outro, um santo. Não foi nada disso. Foi um encantador.

Vírgula

Eu menino às onze horas e trinta minutos
a procurar o dia em que n√£o te fale
feito de resist√™ncias e amea√ßas ‚ÄĒ Este mundo
compreende tanto no meio em que vive
tanto no que devemos pensar.

A experiência o contrário da raiz originária aliás
demasiado formal para que se possa acreditar
no mais rigoroso sentido da palavra.

Tanta metafísica eu e tu
que j√° n√£o acreditamos como antes
diferentes daquilo que entendem os filósofos
‚ÄĒ constitui uma realidade
que não consegue dominar (nem ele próprio)
as forças primitivas
quando já se tem pretendido ordens à vida humana
em conflito com outras surge agora
a necessidade dos O√°sis Perdidos.

E vistas assim as coisas fragmentariamente é certo
e a custo na imensid√£o da desordem
a que ter√£o de ser constantemente arrancadas
‚ÄĒ s√£o da m√°xima import√Ęncia as Velhas Concep√ß√Ķes pois
a cada momento corremos grandes riscos
desconcertantes e de sinistra estranheza.

Resulta isto dum olhar r√°pido sobre a cidade desconhecida.
E abstraindo dos versos que neste poema se referem ao mundo humano
vemos que ninguém até hoje se apossou do homem
como o frágil véu que nos separa vedados e proibidos.

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A Imortalidade Pela Literatura, a Filosofia Como Meio de a Aceder

Simone de Beauvoir: Com que contava para sobreviver Рna medida em que pensava sobreviver: com a literatura ou com a filosofia? Como sentia a sua relação com a literatura e a filosofia? Prefere que as pessoas gostem da sua filosofia ou da sua literatura, ou quer que gostem das duas?
Jean-Paul Sartre: Claro que responderei: que gostem das duas. Mas h√° uma hierarquia, e a hierarquia √© a filosofia em segundo e a literatura em primeiro. Desejo obter a imortalidade pela literatura, a filosofia √© um meio de aceder a ela. Mas aos meus olhos ela n√£o tem em si um valor absoluto, porque as circunst√Ęncias mudar√£o e trar√£o mudan√ßas filos√≥ficas. Uma filosofia n√£o √© v√°lida por enquanto, n√£o √© uma coisa que se escreve para os contempor√Ęneos; ela especula sobre realidades intemporais; ser√° for√ßosamente ultrapassada por outros porque fala da eternidade; fala de coisas que ultrapassam de longe o nosso ponto de vista individual de hoje; a literatura, pelo contr√°rio, inventaria o mundo presente, o mundo que se descobre atrav√©s das leituras, das conversas, das paix√Ķes, das viagens; a filosofia vai mais longe; ela considera que as paix√Ķes de hoje, por exemplo, s√£o paix√Ķes novas que n√£o existiam na Antiguidade;

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Meu conselho é que se case; se você arrumar uma boa esposa, será feliz; se arrumar uma esposa ruim, se tornará um filósofo.

O filósofo não é dono da verdade, nem detém todo conhecimento do mundo. Ele é apenas uma pessoa que é amiga do saber.

A Percepção do Poeta

Sim, o que √© o pr√≥prio homem sen√£o um cego insecto inane a zumbir (?) contra uma janela fechada; instintivamente sente para al√©m do vidro uma grande luz e calor. Mas √© cego e n√£o pode v√™-la; nem pode ver que algo se interp√Ķe entre ele e a luz. De modo que pregui√ßosamente (?) se esfor√ßa por se aproximar dela. Pode afastar-se da luz, mas n√£o pode ir al√©m do vidro. Como o ajudar√° a Ci√™ncia? Pode descobrir a aspereza e nodosidade pr√≥prias do vidro, pode chegar a conhecer que aqui √© mais espesso, ali mais fino, aqui mais grosseiro, ali mais delicado: com tudo isto, am√°vel fil√≥sofo, qu√£o mais perto est√° da luz? Qu√£o mais perto alcan√ßa ver? E contudo, acredito que o homem de g√©nio, o poeta, de algum modo consegue atravessar o vidro para a luz do outro lado; sente calor e alegria por estar t√£o mais al√©m de todos os homens (?), mus mesmo assim n√£o continuar√° ele cego?

Não é apenas como general que se conquista o mundo, subjugando-o, mas também como filósofo, penetrando nele, e como artista, acolhendo-o em si e recriando-o.

Ao Filósofo não interessa saber resposta, basta compreender o por quê das perguntas.

A Moral é a Base da Sociedade

A moral é a base da sociedade; se tudo, porém, é matéria em nós, não há realmente vício nem virtude, e por consequência não há moral.
As nossas leis, sempre relativas e mut√°veis, n√£o podem servir de ponto de apoio √† moral, sempre absoluta e inalter√°vel; √© pois preciso que ela tenha origem numa regi√£o mais est√°vel que esta, e cau√ß√Ķes mais seguras que recompensas prec√°rias ou castigos passageiros. Alguns fil√≥sofos acreditaram que a religi√£o f√īra inventada para a sustentar, sem se avisarem de que tomavam o efeito pela causa. N√£o √© a religi√£o que deriva da moral, √© a moral que nasce da religi√£o, pois √© certo, como h√° pouco dissemos, que a moral n√£o pode ter a sua origem no homem physico, ou na simples mat√©ria; pois √© certo ainda, que, quando os homens perdem a ideia de Deus, se despenham em todos os crimes, a despeito das leis e dos verdugos.

Para o filósofo não há nunca os cegos que não querem ver, há sempre os cegos que não podem ver.

Para os filósofos, as mulheres representam o triunfo da matéria sobre o espírito, enquanto os homens representam o triunfo do espírito sobre a moral.