Passagens sobre Funeral

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A Gloriola do Jornal

O jornal estende sobre o mundo as suas duas folhas, salpicadas de preto, como aquelas duas asas com que os iconografistas do s√©culo XV representavam a Lux√ļria ou a Gula: e o Mundo todo se arremessa para o jornal, se quer agachar sob as duas asas que o levem √† gloriola, lhe espalhem o nome pelo ar sonoro. E √© por essa gloriola que os homens se perdem, e as mulheres se aviltam, e os Pol√≠ticos desmancham a ordem do Estado, e os Artistas rebolam na extravag√Ęncia est√©tica, e os S√°bios alardeiam teorias mirabolantes, e de todos os cantos, em todos os g√©neros, surge a horda ululante dos charlat√£es… (Como me vim tornando altiloquente e roncante!…) Mas e a verdade, meu Bento! V√™ quantos preferem ser injuriados a serem ignorados! (Homenzinhos de letras, poetisas, dentistas, etc.). O pr√≥prio mal apetece sofregamente as sete linhas que o maldizem. Para aparecerem no jornal, h√° assassinos que assassinam. At√© o velho instinto da conserva√ß√£o cede ao novo instinto da notoriedade – e existe tal magan√£o, que ante um funeral convertido em apoteose pela abund√Ęncia das coroas, dos coches e dos prantos orat√≥rios, lambe os bei√ßos, pensativo, e deseja ser o morto.

O Noivado do Sepulcro

Vai alta a lua! na mans√£o da morte
J√° meia-noite com vagar soou;
Que paz tranquila; dos vaivéns da sorte
Só tem descanso quem ali baixou.

Que paz tranquila!… mas eis longe, ao longe
Funérea campa com fragor rangeu;
Branco fantasma semelhante a um monge,
D’entre os sepulcros a cabe√ßa ergueu.

Ergueu-se, ergueu-se!… na amplid√£o celeste
Campeia a lua com sinistra luz;
O vento geme no feral cipreste,
O mocho pia na marmórea cruz.

Ergueu-se, ergueu-se!… com sombrio espanto
Olhou em roda… n√£o achou ningu√©m…
Por entre as campas, arrastando o manto,
Com lentos passos caminhou além.

Chegando perto duma cruz alçada,
Que entre ciprestes alvejava ao fim,
Parou, sentou-se e com a voz magoada
Os ecos tristes acordou assim:

“Mulher formosa, que adorei na vida,
“E que na tumba n√£o cessei d’amar,
“Por que atrai√ßoas, desleal, mentida,
“O amor eterno que te ouvi jurar?

“Amor! engano que na campa finda,
“Que a morte despe da ilus√£o falaz:
“Quem d’entre os vivos se lembrara ainda
“Do pobre morto que na terra jaz?

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Triste

Vai-se extinguindo a viva labareda
Que te abrasava o cora√ß√£o ridente…
Passas magoada pela rua e a gente
Umas converses funerais segreda.

N√£o tens no olhar o sangue q’embebeda,
Foram-se as rosas do viver contente…
Segues, agora, pobre flor — somente
Da sepultura a essencial vereda.

E vem chegando o tenebroso inverno…
Mas nesse mal devorador e eterno,
Teu organismo j√° n√£o mais resiste

√Äs punhaladas da esta√ß√£o de gelo…
E acabará como eu nem sei dizê-lo,
Triste, bem triste, pesarosa, triste!

Os animais têm muitas vantagens sobre os homens: não precisam de teólogos para os instruírem, os seus funerais são de graça e nenhum briga por causa de um testamento.

Soneto XXXIX

Argos para outras cousas, Polifemo
Só para esta, despois que a noite abraça,
Que astuto caçador da surda caça,
Que sereia te p√īs em tanto extremo?

Torna mancebo em ti, que a vida temo
Te seja a sombra deste teixo escassa,
Ou qual figueira ao touro te desfaça
O lustre, o brio, o teu valor supremo.

Deixa seco e sem glória o tronco verde
Com seus torcidos nós a branca hera,
Este de honra, ser, vida, te despoja.

Porque despois n√£o digas “quem soubera?”
O nome funeral de quem te perde,
Se ousa a língua dizê-lo, aqui se arroja.

H√° tantos crist√£os de enterro, cuja vida parece um cont√≠nuo funeral! Preferem a tristeza √† alegria; est√£o mais √† vontade nas sombras, como os morcegos! E com um pouco de sentido de humor podemos dizer que s√£o ¬ęcrist√£os-morcegos¬Ľ, que preferem as sombras √† luz da presen√ßa do Senhor.

Esqueço-me das Horas Transviadas

PASSOS DA CRUZ

Esqueço-me das horas transviadas
o Outono mora m√°goas nos outeiros
E p√Ķe um roxo vago nos ribeiros…
H√≥stia de assombro a alma, e toda estradas…

Aconteceu-me esta paisagem, fadas
De sepulcros a org√≠aco… Trigueiros
Os céus da tua face, e os derradeiros
Tons do poente segredam nas arcadas…

No claustro seq√ľestrando a lucidez
Um espasmo apagado em √≥dio √† √Ęnsia
P√Ķe dias de ilhas vistas do conv√©s

No meu cansaço perdido entre os gelos
E a cor do outono é um funeral de apelos
Pela estrada da minha disson√Ęncia…

Tempos Idos

N√£o enterres, coveiro, o meu Passado,
Tem pena dessas cinzas que ficaram;
Eu vivo dessas crenças que passaram,
e quero sempre tê-las ao meu lado!

N√£o, n√£o quero o meu sonho sepultado
No cemitério da Desilusão,
Que n√£o se enterra assim sem compaix√£o
Os escombros benditos de um Passado!

Ai! N√£o me arranques d’alma este conforto!
РQuero abraçar o meu passado morto,
– Dizer adeus aos sonhos meus perdidos!

Deixa ao menos que eu suba à Eternidade
Velado pelo círio da Saudade,
Ao dobre funeral dos tempos idos!

A Vaidade Acompanha-nos Até na Morte

Sendo o termo da vida limitado, n√£o tem limite a nossa vaidade; porque dura mais, do que n√≥s mesmos, e se introduz nos aparatos √ļltimos da morte. Que maior prova, do que a f√°brica de um elevado mausol√©u? No sil√™ncio de uma urna depositam os homens as suas mem√≥rias, para com a f√© dos m√°rmores fazerem seus nomes imortais: querem que a sumptuosidade do t√ļmulo sirva de inspirar venera√ß√£o, como se fossem rel√≠quias as suas cinzas, e que corra por conta dos jaspes a continua√ß√£o do respeito. Que fr√≠volo cuidado! Esse triste resto daquilo, que foi homem, j√° parece um √≠dolo colocado em um breve, mas soberbo domic√≠lio, que a vaidade edificou para habita√ß√£o de uma cinza fria, e desta declara a inscri√ß√£o o nome, e a grandeza. A vaidade at√© se estende a enriquecer de adornos o mesmo pobre horror da sepultura.

Vivemos com vaidade, e com vaidade morremos; arrancando os √ļltimos suspiros, estamos dispondo a nossa pompa f√ļnebre, como se em hora t√£o fatal o morrer n√£o bastasse para ocupa√ß√£o; nessa hora, em que estamos para deixar o mundo, ou em que o mundo est√° para nos deixar, entramos a compor, e a ordenar o nosso acompanhamento,

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Requiescat

Por que me vens, com o mesmo riso,
Por que me vens, com a mesma voz,
Lembrar aquele Paraíso,
Extinto para nós?

Por que levantas esta lousa?
Por que, entre as sombras funerais,
Vens acordar o que repousa,
O que n√£o vive mais?

Ah! esqueçamos, esqueçamos
Que foste minha e que fui teu:
N√£o lembres mais que nos amamos,
Que o nosso amor morreu!

O amor é uma árvore ampla, e rica
De frutos de ouro, e de embriaguez:
Infelizmente, frutifica
Apenas uma vez…

Sob essas ramas perfumadas,
Teus beijos todos eram meus:
E as nossas almas abraçadas
Fugiam para Deus.

Mas os teus beijos esfriaram.
Lembra-te bem! lembra-te bem!
E as folhas p√°lidas murcharam,
E o nosso amor também.

Ah! frutos de ouro, que colhemos,
Frutos da cálida estação,
Com que delícia vos mordemos,
Com que sofreguid√£o!

Lembras-te? os frutos eram doces…
Se ainda os pudéssemos provar!
Se eu fosse teu… se minha fosses,
E eu te pudesse amar…

Em v√£o,

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Os preparativos do funeral, a escolha do t√ļmulo, a pompa f√ļnebre

Os preparativos do funeral, a escolha do t√ļmulo, a pompa f√ļnebre, mais do que homenagem ao morto, s√£o consolo para os vivos.

Funeral: um cortejo atrav√©s do qual demonstramos o nosso respeito para com os mortos, enriquecendo o cangalheiro, e refor√ßamos a nossa dor com uma despesa que torna mais pungentes as nossas lam√ļrias e mais abundantes as nossas l√°grimas.

O Que Devemos Sentir

Todas as pessoas devem ter experimentado a sensa√ß√£o desagrad√°vel que se tem nas esta√ß√Ķes de caminho de ferro. Vamos despedir-nos de algu√©m. A pessoa j√° entrou no comboio, mas ele demora a partir. Ali ficam as duas pessoas, uma na plataforma e a outra √† janela, esfor√ßando-se por conversar, mas de repente n√£o t√™m nada para dizer.
Isto, evidentemente, resulta de n√£o podermos sentir o que queremos. A situa√ß√£o imp√Ķe-nos um determinado sentimento. E quem n√£o experimentou aquele tremendo al√≠vio quando o comboio finalmente parte?
Ou nos funerais. Quando algu√©m morre ou adoece, quando surgem as desilus√Ķes, espera-se sempre que sintamos determinadas coisas.
Em todas as situa√ß√Ķes, excepto as mais quotidianas, as mais neutras, h√° uma press√£o que se exerce sobre n√≥s, que nos dita a forma como devemos conduzir-nos, aquilo que devemos sentir, E se examinarmos bem o fen√≥meno, verificamos, n√£o raras vezes, que esses pap√©is nos s√£o atribu√≠dos por romances, filmes ou pe√ßas de teatro que vimos h√° muito tempo.
Quando somos realmente confrontados com situa√ß√Ķes invulgares (por exemplo, rivalidades que prev√≠amos e n√£o se verificam, e em vez disso se transformam num amor que nos deixa s√≥s), a primeira coisa a que nos agarramos s√£o esses padr√Ķes sentimentais livrescos.

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O Homem é um Deus que se Ignora

Dentro do homem existe um Deus desconhecido: n√£o sei qual, mas existe – dizia S√≥crates soletrando com os olhos da raz√£o, √† luz serena do c√©u da Gr√©cia, o problema do destino humano. E Cristo com os olhos da f√© lia no horizonte anuveado das vis√Ķes do profeta esta outra palavra de consola√ß√£o – dentro do homem est√° o reino dos c√©us. Profundo, alt√≠ssimo, acordo de dois g√©nios t√£o distantes pela p√°tria, pela ra√ßa, pela tradi√ß√£o, por todos os abismos que uma fatalidade misteriosa cavou entre os irm√£os infelizes, violentamente separados, duma mesma fam√≠lia! Dos dois p√≥los extremos da hist√≥ria antiga, atrav√©s dos mares insond√°veis, atrav√©s dos tempos tenebrosos, o g√©nio luminoso e humano das ra√ßas √≠ndicas e o g√©nio sombrio, mas profundo, dos povos sem√≠ticos se enviam, como primeiro mas firme penhor da futura unidade, esta sauda√ß√£o fraternal, palavra de vida que o mundo esperava na ang√ļstia do seu caos – o homem √© um Deus que se ignora.
Grande, soberana consolação de ver essa luz de concórdia raiar do ponto do horizonte aonde menos se esperava, de ver uma vez unidos, conciliados esses dois extremos inimigos, esses dois espíritos rivais cuja luta entristecia o mundo, ecoava como um tremendo dobre funeral no coração retalhado da humanidade antiga!

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Rosto Afogado

Para sempre um luar de naufr√°gio
anunciar√° a aurora fria.
Para sempre o teu rosto afogado,
entre retratos e vendedores ambulantes,
entre cigarros e gente sem destino,
flutuar√° rodeado de escamas cintilantes.

Se me pudesse matar,
seria pela curva doce dos teus olhos,
pela tua fronte de bosque adormecido,
pela tua voz onde sempre amanhecia,
pelos teus cabelos onde o rumor da sombra
era um rumor de festa,
pela tua boca onde os peixes se esqueciam
de continuar a viagem nupcial.
Mas a minha morte é este vaguear contigo
na parte mais débil do meu corpo,
com uma espinha de silêncio
atravessada na garganta.

Não sei se te procuro ou se me esqueço
de ti quando acaso me debruço
nuns olhos subitamente acesos
ao dobrar de uma esquina,
na boca dos anjos embriagados
de tanta solid√£o bebida pelos bares,
nas m√£os levemente adolescentes
poisadas na indolência dos joelhos.
Quem me dirá que não é verdade
o teu rosto afogado, o teu rosto perdido,
de sombra em sombra, nas ruas da cidade?

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Chove ? Nenhuma Chuva Cai…

Chove? Nenhuma chuva cai…
Então onde é que eu sinto um dia
Em que ruído da chuva atrai
A minha in√ļtil agonia ?

Onde é que chove, que eu o ouço?
Onde é que é triste, ó claro céu?
Eu quero sorrir-te, e n√£o posso,
√ď c√©u azul, chamar-te meu…

E o escuro ruído da chuva
√Č constante em meu pensamento.
Meu ser é a invisível curva
Tra√ßada pelo som do vento…

E eis que ante o sol e o azul do dia,
Como se a hora me estorvasse,
Eu sofro… E a luz e a sua alegria
Cai aos meus pés como um disfarce.

Ah, na minha alma sempre chove.
H√° sempre escuro dentro de mim.
Se escuro, alguém dentro de mim ouve
A chuva, como a voz de um fim…

Os céus da tua face, e os derradeiros
Tons do poente segredam nas arcadas…

No claustro sequestrando a lucidez
Um espasmo apagado em √≥dio √† √Ęnsia
P√Ķe dias de ilhas vistas do conv√©s

No meu cansaço perdido entre os gelos,

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Esqueço-Me Das Horas Transviadas

Esqueço-me das horas transviadas
o Outono mora m√°goas nos outeiros
E p√Ķe um roxo vago nos ribeiros…
H√≥stia de assombro a alma, e toda estradas…

Aconteceu-me esta paisagem, fadas
De sepulcros a org√≠aco… Trigueiros
Os céus da tua face, e os derradeiros
Tons do poente segredam nas arcadas…

No claustro seq√ľestrando a lucidez
Um espasmo apagado em √≥dio √† √Ęnsia
P√Ķe dias de ilhas vistas do conv√©s

No meu cansaço perdido entre os gelos
E a cor do outono é um funeral de apelos
Pela estrada da minha disson√Ęncia…

Lacrimae Rerum

Noite, irm√£ da Raz√£o e irm√£ da Morte,
Quantas vezes tenho eu interrogado
Teu verbo, teu or√°culo sagrado,
Confidente e intérprete da Sorte!

Aonde são teus sóis, como corte
De almas inquietas, que conduz o Fado?
E o homem porque vaga desolado
E em v√£o busca a certeza que o conforte?

Mas, na pompa de imenso funeral,
Muda, a noite, sinistra e triunfal,
Passa volvendo as horas vagarosas…

√Č tudo, em torno a mim, d√ļvida e luto;
E, perdido num sonho imenso, escuto
O suspiro das coisas tenebrosas…