Passagens sobre Gémeos

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Frases sobre g√©meos, poemas sobre g√©meos e outras passagens sobre g√©meos para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

A dor e o prazer n√£o s√£o imagens g√©meas ou sim√©tricas uma da outra, pelo menos n√£o o s√£o em termos de suas fun√ß√Ķes no apoio √† sobreviv√™ncia. De certa forma, e a maior parte das vezes, √© a informa√ß√£o associada √† dor que nos desvia do perigo iminente, tanto no momento presente como no futuro antecipado, √Č dif√≠cil imaginar que os indiv√≠duos e as sociedades que se regem pela busca do prazer, tanto ou ainda mais que pela fuga √† dor, consigam sobreviver.

Não Existe Início Nem Fim da Civilização

√Č minha convic√ß√£o que aquilo a que decidimos chamar civiliza√ß√£o n√£o come√ßou em nenhum desses pontos do tempo que os nossos eruditos, com o seu saber e intelig√™ncia limitados, fixam como origens. N√£o vejo in√≠cio nem fim em lugar nenhum. Vejo a vida e a morte, avan√ßando lado a lado, como g√©meos unidos pela cintura. Vejo que em todos os estados de evolu√ß√£o ou de involu√ß√£o, independentemente da paz ou da guerra, da ignor√£ncia ou da cultura, da idolatria ou da espiritualidade, h√° apenas e sempre a luta do indiv√≠duo, o seu triunfo ou derrota, a sua emancipa√ß√£o ou servid√£o, a sua liberta√ß√£o ou exterm√≠nio. Essa luta, de natureza c√≥smica, desafia toda a an√°lise, quer cient√≠fica, quer metaf√≠sica, religiosa ou hist√≥rica.

Ave Dolorosa

Ave perdida para sempre Рcrença
Perdida Рsegue a trilha que te traça
O Destino, ave negra da Desgraça,
G√™mea da M√°goa e n√ļncia da Descren√ßa!

Dos sonhos meus na Catedral imensa
Que nunca pouses. Lá, na névoa baça
Onde o teu vulto l√ļrido esvoa√ßa,
Seja-te a vida uma agonia intensa!

Vives de crenças mortas e te nutres,
Empenhada na sanha dos abutres,
Num desespero r√°bido, assassino…

E h√°s de tombar um dia em m√°goas lentas,
Negrejadas das asas lutulentas
Que te emprestar o corvo do Destino!

A Insustent√°vel Leveza do Ser

Eis que ao despedir-vos, esse teu amigo te diz que ele n√£o √© esse teu amigo mas sim um seu irm√£o g√©meo. Imediatamente uma altera√ß√£o profunda se instalou nas vossas rela√ß√Ķes. Mas se te perguntares em qu√™, n√£o √© f√°cil responderes. Naturalmente dirias que esse teu amigo n√£o era ele, que era outra pessoa. Mas outra em qu√™? O corpo √© igual nos m√≠nimos pormenores, igual a face e os gestos e a voz e os olhos. Iguais as ideias, os sentimentos, as recorda√ß√Ķes, o todo integral da sua vida e do que ele √©. Se percorreres todos os pormenores, encontr√°-los-√°s em hip√≥tese absolutamente iguais. Come√ßa onde quiseres, examina cada min√ļcia que constitui o teu amigo, progride at√© ao mais extremo limite e verificar√°s que nada escapa a uma integral igualdade. Mas se isto √© assim, deveria ser-te indiferente seres amigo deste como eras amigo do outro. Pois se uma pessoa √© aquilo que ela nos √©, se uma pessoa √© aquilo que a manifesta, se aquilo que nos define √© aquilo que somos e se esse algu√©m que encontr√°mos em nada difere, em hip√≥tese, do algu√©m que esper√°vamos encontrar, nenhuma raz√£o havia para que as rela√ß√Ķes com ele se perurbassem.

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N√£o Canto a Noite

N√£o canto a noite porque no meu canto
O sol que canto acabara em noite.
Não ignoro o que esqueço.
Canto por esquecê-lo.

Pudesse eu suspender, inda que em sonho,
O apolíneo curso, e conhecer-me,
Inda que louco, gêmeo
De uma hora imperecível!

O sonho e a vida s√£o dois galhos g√™meos; s√£o dois irm√£os que um la√ßo amigo aperta. A noite √© o la√ßo…

Porque o Povo Diz Verdades

Porque o povo diz verdades,
Tremem de medo os tiranos,
Pressentindo a derrocada
Da grande pris√£o sem grades
Onde h√° j√° milhares de anos
A raz√£o vive enjaulada.

Vem perto o fim do capricho
Dessa nobreza postiça,
Irmã gémea da preguiça,
Mais asquerosa que o lixo.

J√° o escravo se convence
A lutar por sua prol
J√° sabe que lhe pertence
No mundo um lugar ao sol.

Do céu não se quer lembrar,
J√° n√£o se deixa roubar,
Por medo ao tal satan√°s,
J√° n√£o adora bonecos
Que, se os fazem em canecos,
Nem d√£o estrume capaz.

Mostra-lhe o saber moderno
Que levou a vida inteira
Preso àquela ratoeira
Que há entre o céu e o inferno.

O Cerimonial das M√£os

M√£e, onde foi que deixaste a outra metade,
a que anunciava o sol na turvação das noites,
a que iluminava a sombra no cerimonial das m√£os?
Em que c√īncavo de rochas buscava abrigo
essa outra metade que eu via projectada
para fora de mim como um sonho evadindo-se
do c√≠rculo de medos em que a f√ļria se jogava?
Eu era gémeo de todos os assombros
e os meus segredos era com essa outra metade
que os partilhava à revelia das bocas
que em surdina me traçavam o destino.
Quanto de mim se perdia nessa metade
que me furtava o riso e me deixava a culpa,
que me feria o ventre e me fustigava a pele?
Quanto de mim me flagelava
sem que eu lhe conhecesse morada ou nome?
Mãe, eu pedia uma trégua ao vento
e um punhal à chuva e com ambos queria
separar de mim a metade incandescente
que à beira dos meus gestos
ganhava altura de nuvem e fulgor de estrela.
M√£e, eu vejo-me outro nesta cama
que guarda os instrumentos liquefeitos da insónia
e sei que n√£o sou eu quem l√° est√°,

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Um Cérebro Sempre Jovem

A sociedade est√° a ser varrida por um movimento chamado nova velhice. A norma social para as pessoas de idade era passiva e sombria; confinadas a cadeiras de baloi√ßo, esperava-se que entrassem em decl√≠nio f√≠sico e mental. Agora o inverso √© verdade. As pessoas mais velhas t√™m expetativas mais elevadas de que permanecer√£o ativas e com vitalidade. Consequentemente, a defini√ß√£o de velhice mudou. Num inqu√©rito perguntou-se a uma amostra de baby boomers: “Quando tem in√≠cio a velhice?” A resposta m√©dia foi aos 85. √Ä medida que aumentam as expetativas, o c√©rebro deve claramente manter-se a par e adaptar-se √† nova velhice. A antiga teoria do c√©rebro fixo e estagnado sustentava ser inevit√°vel um c√©rebro que envelhecesse. Supostamente as c√©lulas cerebrais morriam continuamente ao longo do tempo √† medida que uma pessoa envelhecia, e a sua perda era irrevers√≠vel.

Agora que compreendemos qu√£o flex√≠vel e din√Ęmico √© o c√©rebro, a inevitabilidade da perda celular j√° n√£o √© v√°lida. No processo de envelhecimento ‚ÄĒ que progride √† raz√£o de 1% ao ano depois dos trinta anos de idade ‚ÄĒ n√£o h√° duas pessoas que envelhe√ßam de maneira igual. At√© os g√©meos id√™nticos, nascidos com os mesmos genes, ter√£o muito diferentes padr√Ķes de atividade gen√©tica aos setenta anos,

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A Verdadeira Conversa

O sinal de uma verdadeira conversa está em que os ditos espirituosos dificilmente podem ser transportados com todo o seu brilho para fora do círculo dos íntimos. Para conservarem toda a sua força, devem aparecer numa biografia juntamente com o retrato de quem os profere. Uma boa conversa é teatral; é como uma representação improvisada onde cada um se deve apresentar na sua melhor forma; e o melhor género de conversa é aquele onde cada participante se mostra mais completa e sinceramente ele mesmo e onde, se invertêssemos as réplicas, se perderia totalmente o sentido e a clareza.
(…) A maior parte de n√≥s, proteiforme que √© o ser humano, pode falar com toda a gente at√© certo ponto; mas a verdadeira conversa, que a anima a melhor parte de n√≥s mesmos, tantas vezes apagada, acontece apenas com as nossas almas g√©meas; encontra-se t√£o profundamente ancorada quanto o amor na constitui√ß√£o do nosso ser, e devemos sabore√°-la com toda a energia de que dispusermos e estar-lhes gratos para todo o sempre.

A Diferença do Amor Sexual Entre Homem e Mulher

O homem tende, por natureza, √† inconst√Ęncia no amor; a mulher, √† const√Ęncia. O amor do homem diminui sensivelmente t√£o logo √© satisfeito: quase todas as outras mulheres o excitam mais do que aquela que ele j√° possui, por isso sente a necessidade de variar. Em contrapartida, o amor da mulher aumenta justamente a partir desse momento. Isso constitui uma consequ√™ncia do objectivo da natureza, que visa conservar a esp√©cie e, portanto, multiplic√°-la o m√°ximo poss√≠vel. Com efeito, o homem pode comodamente gerar mais de cem crian√ßas em um ano se tiver √† disposi√ß√£o outras tantas mulheres; j√° a mulher poderia, por mais homens que tivesse, dar √† luz apenas um filho por ano (excepto no caso de g√©meos). Por essa raz√£o, o homem est√° sempre √† procura de novas mulheres, enquanto estas prendem-se firmemente a apenas um homem: pois a natureza as leva a conservar, instintivamente e sem reflex√£o, aquele que nutrir√° e proteger√° a futura prole.

Duplo

Olho-me adentro sem cessar e no silêncio
e na penumbra de mim mesmo n√£o me exprimo
nesse mim que se esconde e se retrai no vago
espaço de urna célula e vai construindo
outro mim de mim, disposto em gêmeos compassos,
e não aparece ao olho, ao espelho, à imagem
casualmente em máscara, fechado à curio-
sidade de meus olhos lacerados, cegos
de tanta luz enganosa, nem se derrama
sobre a superfície polida e indiferente,
enquanto cresce em mim a presença de estranho
ser não eu, de irrevelada e própria pessoa,
que domina esse meu corpo, casca de ang√ļstia
e contradi√ß√Ķes sim√©tricas envolventes,
e me explora e me assimila; mas sou eu só
a me percorrer e nele me vejo e sinto,
como de dois corpos iguais matéria viva,
e me faço e refaço e me desfaço sempre
e recomeço e junto a mim eu mesmo, gêmeo,
nada acabo e tudo abandono, dividido
entre mim e mim na batalha intermin√°vel…

Amar Ajuda

Hoje, no dia antes do dia de São Valentim, quero escrever sobre o amor nos outros dias do ano. Ontem foi um deles. Recebi uma má notícia e imediatamente a Maria João recebeu-a como se fosse ela a recebê-la.
Recebemos a m√° not√≠cia e, ao receb√™-la no plural, diluiu-se por muito mais do que dois. O plural de um n√£o √© dois: s√£o muitos. Sentimo-nos como se f√īssemos muitos.
Existe o espalhar o mal pelas aldeias. Mas com o amor, com o casamento de almas que, virando-se uma para a outra, se voltam, viradas, contra o mundo, o mal multiplica-se e exagera-se ao ponto dos dois apaixonados se tornarem numa multid√£o de revoltados que se revolta tanto como se ama.
A boa ideia Рmas talvez errada Рvem de Platão, das duas metades que se encontram para alcançarem a unidade de um só ser completo. Sendo assim, as almas gémeas são apenas duas metades que se completam: precisam de completar-se para se transformarem numa unidade.
Não é verdade. O amor junta duas unidades Рa Maria João e eu, por exemplo Рe faz com que tenham muito mais do que a força de uma só pessoa.

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A um Poeta

Longe do estéril turbilhão da rua,
Beneditino, escreve! No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego,
Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!

Mas que na forma de disfarce o emprego
Do esforço; e a trama viva se construa
De tal modo, que a imagem fique nua,
Rica mas sóbria, como um templo grego.

Não se mostre na fábrica o suplício
Do mestre. E, natural, o efeito agrade,
Sem lembrar os andaimes do edifício:

Porque a Beleza, gêmea da Verdade,
Arte pura, inimiga do artifício,
√Č a for√ßa e a gra√ßa na simplicidade.

Elegia de Natal

Era também de noite    Era também Dezembro
Vieram-me dizer que o meu irm√£o nascera
J√° n√£o sei afinal se o recordo ou se penso
que estou a recordá-lo à força de o dizerem

Mas o teu berço foi o primeiro presépio
em que pouco depois o meu olhar pousava
Não era mais real do que existirem prédios
nem menos irreal do que haver madrugadas

Dezembro retornava e nunca soube ao certo
se o intruso era eu se o intruso eras tu
Quase aceitava até que alguém te supusesse
mais do que meu irmão um gémeo de Jesus

Para ti se encenava o palco da surpresa
Entravas no papel de que eu ia descrendo
Mas sabia-me bem salvar a tua crença
E era sempre de noite    Era sempre em Dezembro

Entretanto em que mês em que dia é que estamos
Que verdete corrói prédios e madrugadas
De que muro retiro o musgo desses anos
que entre os dedos depois se me desfaz em √°gua

Para onde levaste a criança que foste
Em vez da tua voz que ciprestes s√£o estes
Como dizer Natal se te n√£o vejo hoje
Como dizer Natal agora que morreste

Antes De Conhecer-Te, Eu J√° Te Amava

Antes de conhecer-te, eu j√° te amava.
Porque sempre te amei a vida inteira:
Eras a irm√£, a noiva, a companheira,
A alma gêmea da minha que eu sonhava.

Com o coração, à noite, ardendo em lava
Em meus versos vivias, de maneira
Que te contemplo a imagem verdadeira
E acho a mesma que outrora contemplava.

Amo-te. Sabes que me tens cativo.
Retribuis a afeição que em mim fulgura,
Transfigurada nos anseios da Arte.

Mas, se te quero assim, por que motivo
Tardaste tanto em vir, que hoje é loucura,
Mais que loucura, um crime desejar-te?