Passagens sobre Rapazes

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Às Cambalhotas Sempre Anda a Través

Às cambalhotas sempre anda a través
O Mundo, sem poder-se endireitar.
Velho, bêbado e tonto, a cambalear,
Já não pode suster-se sobre os pés.

Tudo nele se vê hoje de invés
Pois seu eixo quebrou, anda a rolar
N√£o h√° homem que o possa consertar:
Só se for, do Arquitecto a mão que o fez.

Tornou-se num pi√£o: qualquer rapaz
O faz dar quatro voltas c’um cordel
E na palma da mão dançar o faz.

O que hoje fez de grande o seu papel,
Amanh√£ representa de Gil Bl√°s
Neste imenso teatro de Babel.

As Empregadas Fabris

Arregaçam a manhã (as empregadas fabris)
pernas como tesouras
recortando a calçada
ferem o lenho da mesa com
sortes
de boletim. Uma sirene as trouxe aqui
(às
empregadas febris)
ancas de esboço perfeito sob
vestes de oper√°ria
tocam umas nas outras como
inda fossem meninas mas a
delas que vai noivar j√°
traz o primeiro a caminho. E
quando o cigarro se apaga
(ou a
cerveja se escoa) o
que resta é a dor da tarde
que nem esta chuva afaga
o
gasóleo dos rapazes que
lhes cantam a cantiga e
as tomam pela cintura. Um
foguete fecha a festa
(pelo lado de dentro da coxa)
h√° nelas a incerteza de
n√£o saberem se s√£o
incompletamente infelizes.

Pastelaria

Afinal o que importa não é a literatura
nem a cr√≠tica de arte nem a c√Ęmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
– ele h√° tanta maneira de compor uma estante!

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

Não é verdade, rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda h√° muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite est√° azedo!

Que afinal o que importa √© p√īr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora Рah, lá fora! Рrir de tudo

No riso admir√°vel de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra

O mistério da Encarnação é talvez maior ainda do que o da Ressurreição. Porque um Deus que se faz menino e depois rapaz e depois homem, quando morre não pode senão ressuscitar.

N√£o h√° Dicas para Namorar e Casar

Nunca me ensinaram as coisas realmente √ļteis: como √© que um rapaz arranja uma noiva, que tipo de anel deve comprar, se pode continuar a sair para os copos com os amigos, se √© preciso pedir primeiro aos pais, se tem de usar anel tamb√©m. Palavra que fui um rapaz que estudou muito e nunca me souberam ensinar isto. Ensinaram-me tudo e mais alguma coisa sobre o sexo e a reprodu√ß√£o, sobre o prazer e a sedu√ß√£o, mas quanto ao namorar e casar, nada. E agora, como √© que eu fa√ßo?

Passei a pente fino as melhores livrarias de Lisboa e n√£o encontrei uma √ļnica obra que me elucidasse. Se quisesse fazer cozinha macrobi√≥tica, descobrir o ¬ęponto G¬Ľ da minha companheira para ajud√°-la a atingir um orgasmo mais recompensador, montar um aqu√°rio, criar m√≠scaros ou construir um tanque Sherman em casa, sim, existe toda uma vasta bibliografia. Para casar, nem um folheto. Nem um ¬ęd√©pliant¬Ľ. Nada. Nem um autocolante. Para apanhar SIDA sei exactamente o que devo fazer. Para apanhar a minha noiva n√£o fa√ßo a mais pequena ideia.

Porque √© que o Minist√©rio da Juventude, em vez de esbanjar fortunas com iniciativas patetas (como aquela piroseira fascist√≥ide dos Descobrimentos) e an√ļncios rid√≠culos (como aqueles ¬ęYa meu,

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O Amor entre o Trigo

Cheguei ao acampamento dos Hern√°ndez antes do meio-dia, fresco e alegre. A minha cavalgada solit√°ria pelos caminhos desertos, o repouso do sono, tudo isso refulgia na minha taciturna juventude.
A debulha do trigo, da aveia, da cevada, fazia-se ainda com éguas. Nada no mundo é mais alegre que ver rodopiar as éguas, trotando à volta do calcadouro do cereal, sob o grito espicaçante dos cavaleiros. Brilhava um sol esplêndido e o ar era um diamante silvestre que fazia brilhar as montanhas. A debulha é uma festa de ouro. A palha amarela acumula-se em montanhas douradas. Tudo é actividade e bulício, sacos que correm e se enchem, mulheres que cozinham, cavalos que tomam o freio nos dentes, cães que ladram, crianças que a cada momento é preciso livrar, como se fossem frutos da palha, das patas dos cavalos.

Oe Hernández eram uma tribo singular. Os homens, despenteados e por barbear, em mangas de camisa e com revólver à cinta, andavam quase sempre besuntados de óleo, de poeiras, de lama, ou molhados até aos ossos pela chuva. Pais, filhos, sobrinhos, primos, eram todos da mesma catadura. Estavam horas inteiras ocupados debaixo de um motor, em cima de um tecto,

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Desde o livro do Génesis que a Bíblia não se cansa de repetir-nos que no coração do homem, e também do rapaz ou do jovem Рpensai no jovem Caim Рestão presentes o trigo e o joio, as forças do mal e as energias do bem. Mercê da sua liberdade, o homem é livre de fazer prevalecer a sua parte boa e luminosa ou a que é malvada e sombria.

Rapazes: os rapazes novos desejam: amor, dinheiro e sa√ļde. Um dia, dir√£o antes: sa√ļde, dinheiro e amor.

A Uma Senhora Que Me Pediu Versos

Pensa em ti mesma, achar√°s
Melhor poesia,
Viveza, graça, alegria,
Doçura e paz.

Se j√° dei flores um dia,
Quando rapaz,
As que ora dou têm assaz
Melancolia.

Uma só das horas tuas
Valem um mês
Das alma j√° ressequidas.

Os sóis e as luas
Creio bem que Deus os fez
Para outras vidas.

A Vida

√ď grandes olhos outomnaes! mysticas luzes!
Mais tristes do que o amor, solemnes como as cruzes!
√ď olhos pretos! olhos pretos! olhos cor
Da capa d’Hamlet, das gangrenas do Senhor!
√ď olhos negros como noites, como po√ßos!
√ď fontes de luar, n’um corpo todo ossos!
√ď puros como o c√©u! √≥ tristes como levas
De degredados!

√ď Quarta-feira de Trevas!

Vossa luz é maior, que a de trez luas-cheias:
Sois vós que allumiaes os prezos, nas cadeias,
√ď velas do perd√£o! candeias da desgra√ßa!
√ď grandes olhos outomnaes, cheios de Gra√ßa!
Olhos accezos como altares de novena!
Olhos de genio, aonde o Bardo molha a penna!
√ď carv√Ķes que accendeis o lume das velhinhas,
Lume dos que no mar andam botando as linhas…
√ď pharolim da barra a guiar os navegantes!
√ď pyrilampos a allumiar os caminhantes,
Mais os que v√£o na diligencia pela serra!
√ď Extrema-Unc√ß√£o final dos que se v√£o da Terra!
√ď janellas de treva, abertas no teu rosto!
Thuribulos de luar! Luas-cheias d’Agosto!
Luas d’Estio! Luas negras de velludo!
√ď luas negras,

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Campesinas VIII

Orgulho das raparigas,
Encanto ideal dos rapazes,
Acendes crenças vivazes
Com tuas belas cantigas.

No louro ondear das espigas,
Boca cheirosa a lilazes,
Carne em polpa de ananases
Lembras baladas antigas.

Tens uns tons enevoados
De castelos apagados
Nas eras medievais.

Falta-te o pajem na ameia
Dedilhando, a lua cheia,
O bandolim dos seus ais!

Opi√°rio

Ao Senhor M√°rio de S√°-Carneiro

√Č antes do √≥pio que a minh’alma √© doente.
Sentir a vida convalesce e estiola
E eu vou buscar ao ópio que consola
Um Oriente ao oriente do Oriente.

Esta vida de bordo h√°-de matar-me.
São dias só de febre na cabeça
E, por mais que procure até que adoeça,
j√° n√£o encontro a mola pra adaptar-me.

Em paradoxo e incompetência astral
Eu vivo a vincos de ouro a minha vida,
Onda onde o pundonor é uma descida
E os pr√≥prios gozos g√Ęnglios do meu mal.

√Č por um mecanismo de desastres,
Uma engrenagem com volantes falsos,
Que passo entre vis√Ķes de cadafalsos
Num jardim onde h√° flores no ar, sem hastes.

Vou cambaleando através do lavor
Duma vida-interior de renda e laca.
Tenho a impress√£o de ter em casa a faca
Com que foi degolado o Precursor.

Ando expiando um crime numa mala,
Que um av√ī meu cometeu por requinte.
Tenho os nervos na forca, vinte a vinte,
E caí no ópio como numa vala.

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Nunca fui bonita , e sempre vi em volta de mim mais rapazes do que talvez nenhuma rapariga visse em toda a vida, e, como vês, sou hoje a criatura mais desprendida de tudo isso que tu poderias ter encontrado no teu caminho.

O Dinheiro

O dinheiro é tão bonito,
T√£o bonito, o magan√£o!
Tem tanta graça, o maldito,
Tem tanto chiste, o ladr√£o!
O falar, fala de um modo…
Todo ele, aquele todo…
E elas acham-no t√£o guapo!
Velhinha ou moça que veja,
Por mais esquiva que seja,
Tlim!
Papo.

E a cegueira da justiça
Como ele a tira num ai!
Sem lhe tocar com a pinça;
E s√≥ dizer-lhe: ¬ęA√≠ vai…¬Ľ
Operação melindrosa,
Que não é lá qualquer coisa;
Catarata, tome conta!
Pois n√£o faz mais do que isto,
Diz-me um juiz que o tem visto:
Tlim!
Pronta.

Nessas espécies de exames
Que a gente faz em rapaz,
S√£o milagres aos enxames
O que aquele demo faz!
Sem saber nem patavina
De gram√°tica latina,
Quer-se um rapaz dali fora?
Vai ele com tais falinhas,
Tais gaifonas, tais coisinhas…
Tlim!
Ora…

Aquela fisionomia
√Č l√°bia que o demo tem!
Mas numa secretaria
Aí é que é vê-lo bem!
Quando ele de grande gala,
Entra o ministro na sala,

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O Prolongamento da Adolescência

No dia a seguir ao casamento os noivos est√£o mais velhos cinco anos. Biol√≥gicamente, a idade madura come√ßa com o casamento, porque o descuidoso brincar de at√© ali substitui-se pelo trabalho e pela responsabilidade, a paix√£o cede diante das limita√ß√Ķes da ordem social – a poesia passa a prosa. Esta mudan√ßa varia com os costumes e o clima; o casamento vem mui tardiamente nas cidades modernas, facto que prolonga a adolesc√™ncia; mas entre os povos do Sul e do Oriente realiza-se em idade bem verde. Os rapazes orientais, diz Stanley Hall, come√ßam a exercer as fun√ß√Ķes de marido aos treze anos, e aos trinta, j√° gastos, recorrem a afrodis√≠acos… Aos trinta anos as mulheres dos climas quentes j√° est√£o velhas. Est√° verificado que o dilatar da adolesc√™ncia prolonga a vida. Se pud√©ssemos retardar a nossa maturidade sexual de modo a coincidir com a nossa maturidade econ√≥mica, prolongando assim a adolesc√™ncia e a fase educativa, erguer√≠amos a civiliza√ß√£o a n√≠vel jamais alcan√ßado.

Minhas notas na escola variaram de abaixo da média a abaixo de zero. Fui reprovado no exame de Metafísica. O professor me acusou de estar olhando para a alma do rapaz sentado ao meu lado.

A Nossa Avidez Infinita

Todos n√≥s sofremos de uma avidez infinita. As nossas vidas s√£o-nos preciosas, estamos sempre alerta contra os desperd√≠cios. Ou talvez fosse melhor chamar a isso Sentido de Destino Pessoal. Sim. Creio que √© melhor do que avidez. Dever√° a minha vida perder um mil√©simo de polegada da sua plenitude? √Č uma coisa diferente avaliar-se a si pr√≥prio ou vangloriar-se loucamente. E h√° ent√£o os nossos planos, os nossos ideais. Tamb√©m eles s√£o perigosos. Podem consumir-nos como parasitas, comer-nos, sorver-nos e deixar-nos exangues e prostrados. E no entanto estamos constantemente a convidar os parasitas, como se estiv√©ssemos ansiosos por sermos sorvidos e comidos. Isto porque nos ensinaram que n√£o h√° limites para o que um homem pode ser.

Há seiscentos anos um homem era o que o seu nascimento demarcava para ele. Satanás e a Igreja, representante de Deus, lutavam por ele. Ele, pela sua escolha, decidia em parte qual seria o resultado. Mas quer fosse, depois da morte, para o céu ou para o inferno, o seu lugar entre os vivos estava marcado. Não podia ser contestado. Desde então o palco foi novamente arranjado e os seres humanos apenas passeiam nele e, sob este novo ponto de vista,

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Queremos um lugar ao sol Рé normal, meu rapaz; então faz o sol em vez de tentar ganhar o lugar.

O Valor da Crónica de Jornal

A cr√≥nica √© como que a conversa √≠ntima, indolente, desleixada, do jornal com os que o l√™em: conta mil coisas, sem sistema, sem nexo, espalha-se livremente pela natureza, pela vida, pela literatura, pela cidade; fala das festas, dos bailes, dos teatros, dos enfeites, fala em tudo baixinho, como quando se faz um ser√£o ao braseiro, ou como no Ver√£o, no campo, quando o ar est√° triste. Ela sabe anedotas, segredos, hist√≥rias de amor, crimes terr√≠veis; espreita, porque n√£o lhe fica mal espreitar. Olha para tudo, umas vezes melancolicamente, como faz a Lua, outras vezes alegre e robustamente, como faz o Sol; a cr√≥nica tem uma doidice jovial, tem um estouvamento delicioso: confunde tudo, tristezas e fac√©cias, enterros e actores ambulantes, um poema moderno e o p√© da imperatriz da China; ela conta tudo o que pode interessar pelo esp√≠rito, pela beleza, pela mocidade; ela n√£o tem opini√Ķes, n√£o sabe do resto do jornal; est√° nas suas colunas contando, rindo, pairando; n√£o tem a voz grossa da pol√≠tica, nem a voz indolente do poeta, nem a voz doutoral do cr√≠tico; tem uma pequena voz serena, leve e clara, com que conta aos seus amigos tudo o que andou ouvindo, perguntando, esmiu√ßando.

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