Textos sobre População

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Textos de população escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

O Desejo de Discutir

Se as discuss√Ķes pol√≠ticas se tornam facilmente in√ļteis, √© porque quando se fala de um pa√≠s se pensa tanto no seu governo como na sua popula√ß√£o, tanto no Estado como na no√ß√£o de Estado enquanto tal. Pois o Estado como no√ß√£o √© uma coisa diferente da popula√ß√£o que o comp√Ķe, igualmente diferente do governo que o dirige. √Č qualquer coisa a meio caminho entre o f√≠sico e o metaf√≠sico, entre a realidade e a ideia.
√ą a esse g√©nero de estirilidade que est√£o geralmente condenadas, tal como acontece com as discuss√Ķes pol√≠ticas, as que incidem sobre a religi√£o, pois a religi√£o pode ser sin√≥nima de dogmas, ou de ritual, ou referir-se a posi√ß√Ķes pessoais do indiv√≠duo sobre quest√Ķes ditas eternas, o infinito e a eternidade, problemas do livre arb√≠trio e da responsabilidade ou, como se diz tamb√©m: Deus.
E o mesmo acontece com as discuss√Ķes que t√™m a ver com a maior parte dos assuntos abstractos, sobretudo a √©tica e os temas filos√≥ficos, mas tamb√©m com campos de an√°lise mais restritos, incidindo sobre os problemas mais imediatos, como por exemplo o socialismo, o capitalismo, a aristocracia, a democracia, etc…, em que as no√ß√Ķes s√£o tomadas tanto no sentido amplo como no restrito,

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O Medo do Aborrecimento

O género de aborrecimento de que sofre a população das cidades modernas está intimamente ligado à sua separação da vida da Terra. Essa separação torna o seu viver ardente, poeirento e ansioso, tal como uma peregrinação no deserto. Nos que são suficientemente ricos para escolher o seu género de vida, o estigma peculiar de insuportável aborrecimento que os distingue é devido, por muito paradoxal que isso possa parecer, ao seu medo do aborrecimento. Ao fugirem do aborrecimento que é fecundo, são vítimas de outro de natureza pior. Uma vida feliz deve ser, em grande medida, uma vida tranquila, pois só numa atmosfera calma pode existir o verdadeiro prazer.

Escuta, Amor

Quando damos as mãos, somos um barco feito de oceano, a agitar-se sobre as ondas, mas ancorado ao oceano pelo próprio oceano. Pode estar toda a espécie de tempo, o céu pode estar limpo, verão e vozes de crianças, o céu pode segurar nuvens e chumbo, nevoeiro ou madrugada, pode ser de noite, mas, sempre que damos as mãos, transformamo-nos na mesma matéria do mundo. Se preferires uma imagem da terra, somos árvores velhas, os ramos a crescerem muito lentamente, a madeira viva, a seiva. Para as árvores, a terra faz todo o sentido. De certeza que as árvores acreditam que são feitas de terra.

Por isto e por mais do que isto, tu estás aí e eu, aqui, também estou aí. Existimos no mesmo sítio sem esforço. Aquilo que somos mistura-se. Os nossos corpos só podem ser vistos pelos nossos olhos. Os outros olham para os nossos corpos com a mesma falta de verdade com que os espelhos nos reflectem. Tu és aquilo que sei sobre a ternura. Tu és tudo aquilo que sei. Mesmo quando não estavas lá, mesmo quando eu não estava lá, aprendíamos o suficiente para o instante em que nos encontrámos.

Aquilo que existe dentro de mim e dentro de ti,

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O Tédio é a Raiz de Todo o Mal

Não admira, pois, que o mundo vá de mal a pior e que os males aumentem cada vez mais, à medida que aumenta o tédio, e o tédio é a raiz de todo o mal. A história deste pode acompanhar-se desde os primórdios do mundo. Os deuses estavam entediados, pelo que criaram o homem. Adão estava entediado por estar sozinho, e por isso foi criada Eva. Assim o tédio entrou no mundo e aumentou na proporção do aumento da população. Adão aborrecia-se sozinho, depois Adão e Eva aborreceram-se juntos, depois Adão e Eva e Caim e Abel aborreceram-se en famille; depois a população do mundo aumentou e os povos aborreceram-se en masse. Para se divertirem congeminaram a ideia de construir uma torre tão alta que chegasse ao céu. Esta ideia, por sua vez, é tão aborrecida como a torre era alta, e constitui uma prova terrível de como o tédio se tornou dominante.

Uma Civilização de Elevado Nível

√Č preciso termos presente que uma civiliza√ß√£o de elevado n√≠vel √© como uma planta delicada, cuja vida depende de condi√ß√Ķes complexas e que por vezes s√≥ consegue desenvolver-se em determinados s√≠tios. Para se desenvolver √© preciso, em primeiro lugar, um certo bem-estar que permita a determinada frac√ß√£o da popula√ß√£o dum pa√≠s trabalhar em coisas que n√£o sejam imediatamente necess√°rias √† manuten√ß√£o da vida quotidiana. √Č necess√°rio tamb√©m existir uma tradi√ß√£o moral de respeito pelos benef√≠cios e produtos da civiliza√ß√£o, em virtude da qual as camadas de popula√ß√£o que trabalham para satisfazer as necessidades imediatas da vida da comunidade, assegurem condi√ß√Ķes de vida ao sector que se consagra a actividades ligadas ao progresso da civiliza√ß√£o.

Um Século de Discursos sem Resultados

O eterno ¬ędeficit¬Ľ; o mist√©rio tenebroso das contas e da d√≠vida p√ļblica; o espectro da bancarrota; a quebra da moeda; o ¬ędeficit¬Ľ da balan√ßa comercial; a insufici√™ncia econ√≥mica; a mis√©ria agr√≠cola; a irriga√ß√£o do Alentejo; o repovoamento florestal; as estradas; os portos; o analfabetismo; o abandono das popula√ß√Ķes rurais; a pesca; a marinha mercante ; a administra√ß√£o colonial; a instru√ß√£o e rearmamento do Ex√©rcito; a reconstru√ß√£o da marinha de guerra; a viciosa educa√ß√£o da gente portuguesa; a emigra√ß√£o; o quadro das nossas rela√ß√Ķes internacionais; a quest√£o religiosa ‚ÄĒ tudo isto absorveu literalmente um s√©culo de discursos, toneladas de artigos e n√£o deu um passo, salvo sempre o respeito pelos esfor√ßos honestos e realiza√ß√Ķes parciais √ļteis, entre as quais se destacam o fomento das comunica√ß√Ķes e a ocupa√ß√£o colonial.

Ser Português é Difícil

Os Portugueses t√™m algum medo de ser portugueses. Olhamos em nosso redor, para o nosso pa√≠s e para os outros e, como aquilo que vemos pode doer, temos medo, ou vergonha, ou ¬ęculpa de sermos portugueses¬Ľ. N√£o queremos ser primos desta pobreza, madrinhas desta mis√©ria, filhos desta fome, amigos desta amargura. Os Portugueses t√™m o defeito de querer pertencer ao maior e ao melhor pa√≠s do mundo. Se lhes perguntarmos ‚ÄúQual √© actualmente o melhor e o maior pa√≠s do mundo?‚ÄĚ, n√£o arranjam resposta. Nem dizem que √© a Uni√£o Sovi√©tica nem os Estados Unidos nem o Jap√£o nem a Fran√ßa nem o Reino Unido nem a Alemanha. Dizem s√≥, pesarosos como os kilogramas nos tempos em que tinham kapa: ¬ęPodia ter sido Portugal…¬Ľ E isto que vai salvando os Portugueses: t√™m vergonha, culpa, nojo, medo de serem portugueses mas ¬ętamb√©m n√£o v√£o ao ponto de quererem ser outra coisa¬Ľ.

Revela-se aqui o que n√≥s temos de mais insuport√°vel e de comovente: s√≥ nos custa sermos portugueses por n√£o sermos os melhores do mundo. E, se formos pensar, verificamos que o verdadeiro patriotismo n√£o √© aquele de quem diz ‚ÄúPortugal √© o melhor pa√≠s do mundo‚ÄĚ (esse √© simplesmente parvo ou parvamente simples),

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A Aspiração de Todo o Bom Português

Enquanto a aspira√ß√£o de todo o bom portugu√™s for, na frase de um escritor, um casamento rico e um emprego p√ļblico; enquanto o diploma for o caminho mais seguro e c√≥modo para uma coloca√ß√£o certa embora pouco rendosa, e nos n√£o disserem como um ingl√™s ilustre a um professor da Fran√ßa que lhe mostrava os numerosos certificados das suas habilita√ß√Ķes: ¬ęN√≥s n√£o precisamos de diplomas, Senhor, precisamos de homens¬Ľ; enquanto for uma inferioridade a vida de trabalho e um sinal de distin√ß√£o a ociosidade, uma popula√ß√£o numerosa e f√ļtil h√°-de cursar as escolas secund√°rias e superiores, e tudo o que exige trabalho e rasgada iniciativa ser√° abandonado; a agricultura, o com√©rcio, a ind√ļstria, todas as fontes de riqueza nacional ficar√£o desaproveitadas, desprezadas, a meterem d√≥, quando podiam ser a honrosa ocupa√ß√£o de tantos e a salva√ß√£o e a prosperidade de todos n√≥s.

Indivíduo e Colectividade

Uma antiquada concep√ß√£o, cuja carreira n√£o terminou de todo em Portugal, faz constituir a hist√≥ria na evoca√ß√£o dos homens e dos eventos singulares, faustosa galeria de retratos e pain√©is de batalhas, a que se acrescenta quando muito o quadro das institui√ß√Ķes. Dir-se-ia desta sorte que os factos de ocupa√ß√£o do solo e agrupamento da popula√ß√£o, as varia√ß√Ķes do regime econ√≥mico, a elabora√ß√£o de um esp√≠rito colectivo, os movimentos e transforma√ß√Ķes da massa, isto √©, os factos pr√≥priamente sociais n√£o t√™m import√Ęncia na vida da sociedade. Longe de n√≥s negar a parte da cria√ß√£o individual na hist√≥ria. Mas todas as na√ß√Ķes, antes de atingirem a sua defini√ß√£o pol√≠tica suprema, atravessam um demorado per√≠odo de forma√ß√£o, onde ocultam quase exclusivamente esses factos gerais.
A consci√™ncia de uma solidariedade e de um ideal colectivo, o sentimento e a ideia de uma p√°tria elaboram-se lentamente atrav√©s desses movimentos de grupos e das lutas entre eles suscitadas. E por via de regra os grandes homens s√£o tanto mais representativos quanto melhor encarnam e orientam as aspira√ß√Ķes colectivas.

Consumismo Cego

A nossa vida √© influenciada em grande medida pelos jornais. A publicidade √© feita unicamente no interesse dos produtores e nunca dos consumidores. Por exemplo, convenceu-se o p√ļblico de que o p√£o branco √© superior ao p√£o escuro. A farinha, cada vez mais finamente peneirada, foi privada dos seus princ√≠pios mais √ļteis. Mas conserva-se melhor e o p√£o faz-se mais facilmente. Os moleiros e os padeiros ganham mais dinheiro. Os consumidores comem, sem o saber, um produto inferior. E em todos os pa√≠ses em que o p√£o √© a parte principal da alimenta√ß√£o, as popula√ß√Ķes degeneram. Gastam-se enormes quantias na publicidade comercial. Assim, imensos produtos alimentares e farmac√™uticos in√ļteis, e muitas vezes prejudiciais, tornaram-se uma necessidade para os homens civilizados. Deste modo, a avidez dos indiv√≠duos suficientemente h√°beis para orientar o gosto das massas populares para os produtos √† venda desempenha um papel capital na nossa civiliza√ß√£o.

Símios Aperfeiçoados

√Č preciso viver em estado de preven√ß√£o. N√£o ir na enxurrada do colectivismo e morrer afogado num bairro econ√≥mico ou numa col√≥nia balnear, resistir √†s press√Ķes pol√≠ticas mirabolantes, quer sejam de uma banda ou de outra, manter a condi√ß√£o do homem-artista em luta com o homem-massa foi sempre o que em mim se tornou claro desde que aos poucos tomei posse da minha personalidade. √Č fatal que se caminhe para a sanidade de vida das classes baixas, √© humano que isso se fa√ßa, no entanto tamb√©m √© humano, mais talvez, que se lute desesperadamente para que a condi√ß√£o mais sagrada do homem evolua libertando-se das massas satisfeitas com a assist√™ncia m√©dica, televis√£o e funeral pago. Essa massa vai criar um novo esp√≠rito animal, vai catalogar-se em Darwin e, convencidos que essa massa est√° feliz, constatamos ao fim de pouco tempo que esses grandes grupos de popula√ß√Ķes standardizadas deixaram de pensar e o seu sentir √© apenas tactual, sem nada de sublima√ß√£o em momentos mais √≠ntimos.
O mundo que pensa, do artista e do intelectual, tem de libertar-se do incómodo desses homens que trouxeram como contribuição para a humanidade uma ideia abstracta do colectivo em marcha, que passaram a emitir sons,

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Como se Faz uma Declaração de Amor?

Mas ent√£o como se faz uma declara√ß√£o de amor? Em papel selado, na presen√ßa de um advogado. Por que n√£o? As piores declara√ß√Ķes s√£o as p√≠fias e clandestinas, do g√©nero ¬ęAcho-te uma pessoa muito interessante¬Ľ. As melhores s√£o aquelas que comprometem quem as faz, que se baseiam em provas capazes de serem apresentadas em tribunal, que fazem corar as testemunhas. As declara√ß√Ķes do tipo ¬ęExperimentar-a-ver-se-d√°¬Ľ nunca d√£o. √Č melhor mandar imprimir 2000 folhetos e distribu√≠-los por avioneta √† popula√ß√£o, devidamente identificados, do que um bilhetinho an√≥nimo de ¬ęum admirador¬Ľ. As declara√ß√Ķes de amor t√™m de cortar a respira√ß√£o de quem as recebe, t√™m de rebentar na cara de quem as l√™. O amor e o terrorismo s√£o quest√Ķes de objectivo, e n√£o de grau.

Como estamos todos a zero, ningu√©m pode dar conselhos a ningu√©m. H√° s√©culos que as maiores cabe√ßas do mundo procuram a frase perfeita de apresenta√ß√£o. H√° as deixas rascas, do g√©nero ¬ęDeixe-me adivinhar o seu signo¬Ľ ou ¬ęN√£o costuma c√° estar √†s ter√ßas-feiras, pois n√£o?¬Ľ. H√° as deixas pirosas, do g√©nero ¬ęImporta-se que eu lhe diga que voc√™ √© muito bonita?¬Ľ ou ¬ęPosso s√≥ dizer-lhe uma coisa? O seu namorado tem muita sorte!¬Ľ. Depois,

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As Três Realidades Sociais

H√° tr√™s realidades sociais – o indiv√≠duo, a Na√ß√£o, a Humanidade. Tudo mais √© fict√≠cio. S√£o fic√ß√Ķes a Fam√≠lia, a Religi√£o, a Classe. √Č fic√ß√£o o Estado. √Č fic√ß√£o a Civiliza√ß√£o.
O indiv√≠duo, a Na√ß√£o, a Humanidade s√£o realidades porque s√£o perfeitamente definidos. T√™m contorno e forma. O indiv√≠duo √© a realidade suprema porque tem um contorno material e mental ‚ÄĒ √© um corpo vivo e uma alma viva.
A Na√ß√£o √© tamb√©m uma realidade, pois a definem o territ√≥rio, ou o idioma, ou a continuidade hist√≥rica ‚ÄĒ um desses elementos, ou todos. O contorno da na√ß√£o √© contudo mais esbatido, mais contingente, quer geograficamente, porque nem sempre as fronteiras s√£o as que deviam ser; quer linguisticamente, porque largas dist√Ęncias no espa√ßo separam pa√≠ses de igual idioma e que naturalmente deveriam formar uma s√≥ na√ß√£o; quer historicamente, porque, por uma parte, crit√©rios diferentes do passado nacional quebram, ou tendem para o quebrar, o vas√≠culo nacional, e, por outra, a continuidade hist√≥rica opera diferentemente sobre camadas da popula√ß√£o, diferentes por √≠ndole, costumes ou cultura.
A Humanidade é outra realidade social, tão forte como o indivíduo, mais forte ainda que a Nação, porque mais definida do que ela. O indivíduo é,

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O Futuro da Espécie Humana

N√£o sei se as popula√ß√Ķes est√£o a aumentar ou a diminuir. √Č claro que, com o aborto, com a p√≠lula, com as “camisas de V√©nus”, com a soma dessas coisas todas, a procria√ß√£o diminui, a velhice aumenta; a receita dos impostos diminui, porque h√° menos jovens no trabalho e h√° mais velhos a ser remunerados. √Č preciso que a popula√ß√£o aumente sempre e que n√£o se fa√ßa a desertifica√ß√£o da prov√≠ncia, como est√° a acontecer. Tiram escolas, hospitais e as pessoas desertificam essas cidades. Porque √© da prov√≠ncia, da cultura da terra, que n√≥s vivemos, e ela est√° desertificada.

[Mas eu referia-me mesmo à sobrevivência do planeta Terra. Acha que ele está em perigo?]

Está em perigo, claro. De tal modo que a gente pergunta: onde está a inteligência do homem? Há um progresso, é certo, mas esse progresso encaminha-se para a morte.

O Antagonismo Racial

O elemento puramente instintivo n√£o constitui sen√£o uma pequena parte do √≥dio racial e n√£o √© dif√≠cil de vencer. O medo do que √© estrangeiro, que √© a sua principal ess√™ncia, desaparece com a familiaridade. Se nenhum outro elemento o formasse, toda a perturba√ß√£o desapareceria logo que pessoas de ra√ßas diferentes se habituassem umas √†s outras. Mas h√° sempre pretextos para se odiarem os grupos estrangeiros. Os seus h√°bitos s√£o diferentes dos nossos e portanto (em nossa opini√£o) piores. Se triunfam, √© porque nos roubam as oportunidades; se n√£o triunfam, √© porque s√£o miser√°veis vagabundos. A actual popula√ß√£o do mundo descende dos sobreviventes de longos s√©culos de guerras e por instinto est√° √† espreita de ocasi√Ķes de hostilidade colectiva.

O desejo de ter um inimigo fixa-se no cora√ß√£o desse instinto racista e constr√≥i √† sua volta um edif√≠cio monstruoso de crueldade e de loucura. Tais conflitos representam hoje uma cat√°strofe universal e n√£o j√° somente, como outrora, um desastre para os vencidos: da√≠ as inquieta√ß√Ķes do nosso tempo. √Č por isso que √© mais importante do que nunca conseguir um certo grau de dom√≠nio racional sobre os nossos sentimentos destruidores.

Em geral o ódio racial tem duas origens,

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A Desvantagem da Sabedoria

A sua inteligência estorvava-o. Que podia esperar da sabedoria e das suas cinco propriedades?
Primeiro, ele saberia como tratar os problemas dif√≠ceis ligados √† conduta humana e ao sentido da vida. Mas isso n√£o era priorit√°rio para ningu√©m, iam ach√°-lo desalmado e p√īr-lhe toda a esp√©cie de obst√°culos pela frente.
Segundo, a sabedoria exprime uma qualidade superior do conhecimento. Antecipa a avalia√ß√£o das situa√ß√Ķes, por tudo e nada reanima a aten√ß√£o dos outros com os seus conselhos. Depressa √© tratada como importuna e ter√° que recuar ao abrigo da frivolidade.
Terceiro, a sabedoria √© moderada e v√™ as coisas em profundidade. √Č, portanto, inimiga do ju√≠zo f√°cil e das paix√Ķes que s√£o requestadas para dar emo√ß√£o √†s exist√™ncias f√ļteis e cinzentas.
Quarto, a sabedoria é exercida tendo em vista o bem-estar da humanidade. Tem, por isso, mau nome em qualquer publicidade que faz vender produtos de grande lucro, como a guerra, o amor e as máquinas.
Quinto, finalmente: a sabedoria é reconhecida como valor estável pela maioria da população, o que é nocivo para o envolvimento dessa mesma população em qualquer campanha, seja de poder ou de ganho de negócios.
Enfim, ele teria que formar-se e esquecer os seus sonhos de grandeza,

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Reflex√Ķes sobre a Guerra

As vantagens do aumento da amplitude das unidades sociais s√£o principalmente evidentes em caso de guerra. De resto, a guerra foi em todos os tempos a causa principal desse crescimento, da transforma√ß√£o das fam√≠lias em tribos, das tribos em na√ß√Ķes e das na√ß√Ķes em coliga√ß√Ķes. Nas muito embora seja grande o interesse das na√ß√Ķes poderosas em triunfar, algumas come√ßam a compreender que h√° qualquer coisa prefer√≠vel √† pr√≥pria vit√≥ria, que √© evitar a guerra. No passado, a guerra era √†s vezes uma empresa proveitosa. A Guerra dos Sete Anos, por exemplo, proporcionou aos ingleses excelente rendimento em rela√ß√£o ao capital nela empregado, e os lucros conseguidos pelos vencedores nas guerras primitivas foram ainda mais evidentes. Mas o mesmo n√£o sucede nos conflitos modernos, por duas raz√Ķes principais: primeiro, porque os armamentos se tornaram extremamente caros; segundo, porque os grupos sociais envolvidos numa guerra moderna s√£o muito importantes.
√Č um erro pensar que a guerra moderna √© mais destruidora de vidas do que o foram os conflitos menos importantes de outrora. Antigamente, a percentagem das perdas em rela√ß√£o aos efectivos envolvidos na luta era por vezes t√£o elevada como hoje; e al√©m das perdas em combate, as mortes causadas pelas epidemias eram em geral numerosas.

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Os Comunistas

… Passaram bastantes anos desde que ingressei no Partido… Estou contente… Os comunistas constituem uma boa fam√≠lia… T√™m a pele curtida e o cora√ß√£o valoroso… Por todo o lado recebem pauladas… Pauladas exclusivamente para eles… Vivam os espiritistas, os mon√°rquicos, os aberrantes, os criminosos de v√°rios graus… Viva a filosofia com fumo mas sem esqueletos… Viva o c√£o que ladra e que morde, vivam os astr√≥logos libidinosos, viva a pornografia, viva o cinismo, viva o camar√£o, viva toda a gente menos os comunistas… Vivam os cintos de castidade, vivam os conservadores que n√£o lavam os p√©s ideol√≥gicos h√° quinhentos anos… Vivam os piolhos das popula√ß√Ķes miser√°veis, viva a for√ßa comum gratuita, viva o anarco-capitalismo, viva Rilke, viva Andr√© Gide com o seu coribantismo, viva qualquer misticismo… Tudo est√° bem… Todos s√£o her√≥icos… Todos os jornais devem publicar-se… Todos devem publicar-se, menos os comunistas… Todos os pol√≠ticos devem entrar em S√£o Domingos sem algemas… Todos devem festejar a morte do sanguin√°rio Trujillo, menos os que mais duramente o combateram… Viva o Carnaval, os derradeiros dias do Carnaval… H√° disfarces para todos… Disfarces de idealistas crist√£os, disfarces de extrema-esquerda, disfarces de damas beneficentes e de matronas caritativas… Mas, cuidado, n√£o deixem entrar os comunistas…

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