Passagens sobre Ca├žadores

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Frases sobre ca├žadores, poemas sobre ca├žadores e outras passagens sobre ca├žadores para ler e compartilhar. Leia as melhores cita├ž├Áes em Poetris.

A uma Dama

Por fazer lisonja às flores
De flores touca o cabelo
Nise, a gala do donaire,
Nise, a gl├│ria dos desejos.
Invejosas as estrelas
Murmuraram tanto emprego,
Se as não contentara Nise
Com tê-las nos olhos negros.
De garbo, postura e talhe
Vai luzida em tanto extremo,
Que nas vidas que cativa
Tem muita parte o asseio.
Quanto pisa e quanto fala,
Vai brotando e florescendo
Uma rosa em cada passo,
Um jasmim em cada alento.
Ca├žadora ufana e dextra,
Quem viu ca├žadora V├ęnus?
Pede as armas emprestadas
Dizem que a um menino cego.
Galharda o arco exercita,
E, com movimento dextro,
De quantas setas lhe fia,
Nenhuma lhe leva o vento.
Guarde-se todo o alvedrio,
Que não dão as frechas erro,
Pois para acertar as vidas
Tomam nos olhos preceitos.
Despejada comunica
Ao monte seus raios belos,
Que nem sempre o majestoso
Há-de afectar o encoberto.
E, com deixar-se admirar,
Nada lhe perde o respeito;
Mas tais amas traz consigo…
Pastores, diga-o Fileno.

Os Ca├žadores de Simulacros

O artista, o poeta, o escritor, os que perguntam: todos s├úo ca├žadores de simulacros, incans├íveis calculadores de improbabilidades. Pombas ou abutres, fr├ígeis can├írios ou escondidos melros, raspam, rasgam, rompem, sempre roendo as suas pr├│prias garras. O invis├şvel que h├í neles ent├úo emerge.

O ca├žador furtivo vive nas matas; o contrabandista nas montanhas ou no mar. As cidades produzem homens ferozes porque corrompem. A montanha, o mar e a mata, criam homens selvagens.

Soneto XXXIX

Argos para outras cousas, Polifemo
S├│ para esta, despois que a noite abra├ža,
Que astuto ca├žador da surda ca├ža,
Que sereia te p├┤s em tanto extremo?

Torna mancebo em ti, que a vida temo
Te seja a sombra deste teixo escassa,
Ou qual figueira ao touro te desfa├ža
O lustre, o brio, o teu valor supremo.

Deixa seco e sem gl├│ria o tronco verde
Com seus torcidos n├│s a branca hera,
Este de honra, ser, vida, te despoja.

Porque despois n├úo digas “quem soubera?”
O nome funeral de quem te perde,
Se ousa a l├şngua diz├¬-lo, aqui se arroja.

Todas as Ideologias Profissionais São Nobres

Todas as ideologias profissionais s├úo nobres: os ca├žadores, por exemplo, nunca sonhariam em se denominar carniceiros da floresta, afirmando, pelo contr├írio, a sua condi├ž├úo de leg├ştimos amigos dos animais e da natureza; do mesmo modo, os comerciantes defendem o princ├şpio do lucro honesto e os ladr├Áes, por sua vez, adoptaram como seu o deus dos comerciantes, o distinto promotor das rela├ž├Áes internacionais, Merc├║rio. N├úo adianta muito, por isso, acreditar na imagem que uma determinada actividade assume na consci├¬ncia daqueles que a exercem.

Ornitologia

Chegado o Outono, o conhecimento concentra-se nas asas
dos pássaros que pousam lentos sobre as cores dos frutos.
Sem sentimentos, as aves entregam-se ao sabor do vento
e deixam que no c├ęrebro cres├ža a febre negra das urzes.
Aquieta-os a experi├¬ncia que conservam do espa├žo
e que todas as tardes os inibe de partir para continentes
mais pr├│speros e seguros. Sust├ęm-os um atavismo
apenas explicável pelo saber dos signos e o seu desejo
colectivo de suic├şdio. Porque n├úo escolhem antes
perder-se na tempestade? Talvez visto do ar,
aos seus olhos o mundo se torne mais pesado
e o pensamento se confunda, na mem├│ria,
com uma paisagem festiva de piras f├║nebres.
E contudo, apesar do carácter cerrado da atmosfera,
o seu peso parece ter-se já deixado de sentir
sobre o discurso. Virados para dentro,
as imagens em que se reflectem são
as de um mundo banhado pela pen├║mbra.
Afogado na sua razão de ser. Mediúnico.
Imagine-se agora o ca├žador a entrar
paisagem dentro para abater as pe├žas
de que se comp├Áe o cen├írio uma a uma:
vista de dentro,

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Quem se encontra empenhado numa controv├ęrsia preocupa-se tanto com a verdade quanto um ca├žador se preocupa com a lebre.

Está O Lascivo E Doce Passarinho

Está o lascivo e doce passarinho
com o biquinho as penas ordenando;
o verso sem medida, alegre e brando,
espedindo no r├║stico raminho;

o cruel ca├žador (que do caminho
se vem calado e manso desviando)
na pronta vista a seta endireitando,
lhe d├í no Est├şgio lago eterno ninho.

Dest’ arte o cora├ž├úo, que livre andava,
(posto que já de longe destinado)
onde menos temia, foi ferido.

Porque o Frecheiro cego me esperava,
para que me tomasse descuidado,
em vossos claros olhos escondido.

A Curva dos Teus Olhos

A curva dos teus olhos dá a volta ao meu peito
├ë uma dan├ža de roda e de do├žura.
Ber├žo nocturno e aur├ęola do tempo,
Se já não sei tudo o que vivi
É que os teus olhos não me viram sempre.

Folhas do dia e musgos do orvalho,
Hastes de brisas, sorrisos de perfume,
Asas de luz cobrindo o mundo inteiro,
Barcos de c├ęu e barcos do mar,
Ca├žadores dos sons e nascentes das cores.

Perfume esparso de um manancial de auroras
Abandonado sobre a palha dos astros,
Como o dia depende da inocência
O mundo inteiro depende dos teus olhos
E todo o meu sangue corre no teu olhar.

Tradu├ž├úo de Ant├│nio Ramos Rosa

Trevas

De dia n├úo se via nada, mas p’la tardinha j├í se apercebia gente que vinha de punhaes na m├úo, devagar, silenciosamente, nascendo dos pinheiros e morrendo nelles. E os punhaes n├úo brilhavam: eram luzes distantes, eram guias de len├žoes de linho escorridos de hombros franzinos. E a briza que vinha dava gestos de azas vencidas aos len├žoes de linho, azas brancas de gar├žas ca├şdas por faunos ca├žadores. E o vento segredava por entre os pinheiros os m├¬dos que nasciam.

E vinha vindo a Noite por entre os pinheiros, e vinha descal├ža com p├ęs de surdina por m├┤r do barulho, de bra├žos estendidos p’ra n├úo topar com os troncos; e vinha vindo a noite c├ęguinha como a lanterna que lhe pendia da cinta. E vinha a sonhar. As sombras ao v├¬-la esconderam os punhaes nos peitos vazios.

A lua ├ę uma laranja d’oiro num prato azul do Egypto com perolas desirmanadas. E as silhuetas negras dos pinheiros embaloi├žados na briza eram um bailado de estatuas de sonho em vitraes azues. M├úos ladras de sombra lev├íram a laranja, e o prato enlutou-se.

Por entre os pinheiros esgalgados, por entre os pinheiros entristecidos, havia gemidos da briza dos tumulos,

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Um Ser Humano n├úo ├ę Grande Coisa

N├úo tenhamos ilus├Áes: um ser humano n├úo ├ę grande coisa. De facto, h├í tantos que os governos n├úo sabem o que fazer com eles. Seis mil milh├Áes de humanos ├á face da Terra e apenas seis ou sete mil tigres de Bengala – ora digam l├í qual das esp├ęcies necessita de mais prote├ž├úo, de cuidados especiais. Sim, escolham voc├¬s mesmos. Um negro, um chin├¬s, um escoc├¬s, ou um belo tigre que cai v├ştima de um ca├žador. Um tigre, com a sua pelagem listrada de cores incompar├íveis e os seus olhos coruscantes, ├ę bastante mais belo do que um velhote cheio de varizes como eu. Que diferen├ža de porte. Comparem a agilidade de um com a in├ępcia do outro. Vejam como se movem. Metam-nos em jaulas do jardim zool├│gico, lado a lado. Diante da jaula do velho concentram-se as crian├žas que riem ao v├¬-lo catar-se e p├┤r-se de c├│coras para defecar; diante da do tigre, arregalam os olhos de admira├ž├úo. Acabou essa ilus├úo segundo a qual o homem ├ę o centro do universo. ├ë verdade que no animal humano distinguimos os gestos, os rostos e as vozes, o que estimula a nossa empatia, mas tamb├ęm distinguimos caracter├şsticas particulares, que associamos a sentimentos,

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O Princ├şpio do Amor Tem Oito Dias de Aliena├ž├úo Moral

Nada de l├│gica nem de ret├│rica. Os principiantes do amor cuidam que ├ę da tarifa devorarem no sil├¬ncio, antes de se revelarem, as melhores frases que tinham para convencer. Grande contrasenso. Parecem-se com os ca├žadores novatos, que atiram ├á perdiz quando ela vai muito longe do alcance do chumbo. Fia-te em mim, Castro. A mulher que principia a amar tem oito dias de aliena├ž├úo moral. O espirito anda-lhe ├á solta, e um h├íbil ca├žador apanha-lho, e depois… como sabes do teu Genuense, a alma ├ę uma subst├óncia acomodada para governar o corpo. Pilhada a alma, o corpo, sem governo, ├ę uma nau desmastreada, sem leme, ├á merc├¬ das ondas…

A Boa e a Má Fama

No mundo sempre correu igual risco a boa como a m├í opini├úo, e na opini├úo de muitos, mais arriscada foi sempre a boa que a m├í fama; porque as grandes prendas s├úo muito ruidosas, e muitas vezes foi reclamo para o perigo mais certo o mais estrondoso ru├şdo. O impertinente canto de uma cigarra nunca motivou aten├ž├Áes ao curioso ca├žador das aves. A melodia, sim, do rouxinol, que este sempre despertou o cuidado ao ca├žador, para lhe aparelhar o la├žo. A primeira cousa que se esconde dos ca├žadores com instinto natural, suposta a hist├│ria por verdadeira, que muitos t├¬m por fabulosa, ├ę o carb├║nculo, aquele diamante de luz, que lhe comunicou a natureza, como quem conhece que, em seu maior luzir, est├í o seu maior perigar. O ru├şdo que faz a grande fama tamb├ęm faz com que o grande seja de todos ro├şdo, quando nas asas da fama se v├¬ mais sublimado. Quem em as asas da fama voa tamb├ęm padece; porque n├úo h├í asas sem penas, ainda que estas sejam as plumagens, com que o benem├ęrito se adorna. S├│ aos mortos costumamos dizer se fazem honras, e ser├í porque, a n├úo acabarem as honras com a morte, a ningu├ęm consentiria aplausos o mundo,

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