Cita├ž├úo de

Ornitologia

Chegado o Outono, o conhecimento concentra-se nas asas
dos pássaros que pousam lentos sobre as cores dos frutos.
Sem sentimentos, as aves entregam-se ao sabor do vento
e deixam que no c├ęrebro cres├ža a febre negra das urzes.
Aquieta-os a experi├¬ncia que conservam do espa├žo
e que todas as tardes os inibe de partir para continentes
mais pr├│speros e seguros. Sust├ęm-os um atavismo
apenas explicável pelo saber dos signos e o seu desejo
colectivo de suic├şdio. Porque n├úo escolhem antes
perder-se na tempestade? Talvez visto do ar,
aos seus olhos o mundo se torne mais pesado
e o pensamento se confunda, na mem├│ria,
com uma paisagem festiva de piras f├║nebres.
E contudo, apesar do carácter cerrado da atmosfera,
o seu peso parece ter-se já deixado de sentir
sobre o discurso. Virados para dentro,
as imagens em que se reflectem são
as de um mundo banhado pela pen├║mbra.
Afogado na sua razão de ser. Mediúnico.
Imagine-se agora o ca├žador a entrar
paisagem dentro para abater as pe├žas
de que se comp├Áe o cen├írio uma a uma:
vista de dentro, o Sol em que se esgota
a paisagem deixa cair as suas penas
sobre a imensidão que a chuva perturba.