Passagens sobre Entranhas

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Frases sobre entranhas, poemas sobre entranhas e outras passagens sobre entranhas para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

A Matança

N√£o penses
que a carne apenas é aquela oca
lívida carcaça
em imóvel galope alucinado,
embarrada numa trave da adega.

N√£o penses
que o milagre anual da salgadeira
vem sem morte e sem trabalhos. N√£o:

Contar-te-ei
que primeiro atam o porco em sua loja
com uma corda em torno do focinho
e o arrastam à força para o ar lavado e frio.

Contar-te-ei
que o porco luta e resiste: ora sentado
sobre os quartos traseiros (os futuros presuntos),
ora comicamente no solo as quatro patas
fincando com bravura se defende
da mal-agourada violação. Por fim, cedendo,
colocam-no, ainda contrafeito,
entre roncos, bufos e sac√Ķes,
no banco, deitado sobre o lado,
por forma a expor o vulner√°vel,
comestível coração.

Contar-te-ei
que quando a faca penetra nas entranhas,
qual punhal vingador de antiga fome,
o grito é tal, tão desolado e aflito,
t√£o humano, t√£o digno de compaix√£o,
t√£o de criatura insultada e indefesa –
que tenho de tapar a m√£os ambas os ouvidos
e recuar para os fundos da casa,

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O estilo não é a roupa, mas a pele de um romance. Faz parte da sua anatomia como as entranhas.

Onde acharei lugar t√£o apartado

Onde acharei lugar t√£o apartado
E t√£o isento em tudo da ventura,
Que, n√£o digo eu de humana criatura,
Mas nem de feras seja frequentado?

Algum bosque medonho e carregado,
Ou selva solit√°ria, triste e escura,
Sem fonte clara ou pl√°cida verdura,
Enfim, lugar conforme a meu cuidado?

Porque ali, nas entranhas dos penedos,
Em vida morto, sepultado em vida,
Me queixe copiosa e livremente;

Que, pois a minha pena é sem medida,
Ali triste serei em dias ledos
E dias tristes me far√£o contente.

Que horror é meter entranhas em entranhas, engordar um corpo com outro corpo, viver da morte de seres vivos.

Onde Ser√° a Terra Prometida?

Triste época a nossa! Para que oceano correrá esta torrente de iniquidades? Para onde vamos nós, numa noite tão profunda? Os que querem tactear este mundo doente retiram-se depressa, aterrorizados com a corrupção que se agita nas suas entranhas.
Quando Roma se sentiu agonizar, tinha pelo menos uma esperança, entrevia por detrás da mortalha a Cruz radiosa, brilhando sobre a eternidade. Essa religião durou dois mil anos, mas agora começa a esgotar-se, já não basta, troçam dela; e as suas igrejas caem em ruínas, os seus cemitérios transbordam de mortos.
E nós, que religião teremos nós? Sermos tão velhos como somos, e caminharmos ainda no deserto, como os Hebreus que fugiam do Egipto.
Onde ser√° a Terra prometida?
Tentámos tudo e renegámos tudo, sem esperança; e depois uma estranha ambição invadiu-nos a alma e a humanidade, há uma inquietação imensa que nos rói, há um vazio na nossa multidão; sentimos à nossa volta um frio de sepulcro.
A humanidade come√ßou a mexer em m√°quinas, e ao ver o ouro que nelas brilhava, exclamou: ¬ę√Č Deus!¬Ľ E come esse Deus. H√° – e √© porque tudo acabou, adeus! adeus! – vinho antes da morte! Cada um se precipita para onde o seu instinto o impele,

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A guerra √© uma parteira: das entranhas do mundo faz emergir um outro mundo. N√£o o faz por c√≥lera nem por qualquer sentimento. √Č a sua profiss√£o: mergulha as m√£os no Tempo, com a altivez de um peixe que pensa que ele √© que faz despontar o mar.

O amor √© duas coisas ao mesmo tempo; uma, muito fraca, quebra √† m√≠nima oscila√ß√£o; e outra, de uma fortaleza sobrenatural, aliada a um poder que vem das entranhas, for√ßa c√≥smica, para al√©m das conven√ß√Ķes, das leis morais, dos requisitos t√©cnicos das religiosidades.

Esta Noite Morrer√°s

Esta noite morrer√°s.
Quando a lua vier tocar-me o rosto
ter√°s partido do meu leito
e aquele que procurar a marca dos teus passos
encontra urtigas crescendo
por sobre o teu nome.
Esta noite morrer√°s.
Quando a lua vier tocar-me o rosto
ter√°s partido do meu leito
e uma gota de sangue ressequido
é a marca dos teus passos.
No coração do tempo pulsa um maquinismo ínscio
e na casa do tempo a hora é adorno.
Quando a lua vier tocar-me o rosto a tua sombra extinta marca
o fim de um eclipse hor√°rio de uma partida iminente e o tempo
apaga a marca dos teus passos sobre o meu nome.
Constante.
O mar é isso.
A lua vir tocar-me o rosto e encontrar urtigas crescendo
por sobre o teu nome.
O mar é tu morreste.
O mar é ser noite e vir a lua tocar-me o rosto quando tu par-
tiste e no meu leito crescem folhas sangue.
A febre é uma pira incompreensível como a aparição da lua
e a opacidade do mar.
No meu leito a lua vai tocar-me o rosto e a tua ausência é um
prisma,

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Ser Feliz é uma Responsabilidade Muito Grande

Ser feliz √© uma responsabilidade muito grande. Pouca gente tem coragem. Tenho coragem mas com um pouco de medo. Pessoa feliz √© quem aceitou a morte. Quando estou feliz demais, sinto uma ang√ļstia amorda√ßante: assusto-me. Sou t√£o medrosa. Tenho medo de estar viva porque quem tem vida um dia morre. E o mundo me violenta. Os instintos exigentes, a alma cruel, a crueza dos que n√£o t√™m pudor, as leis a obedecer, o assassinato ‚ÄĒ tudo isso me d√° vertigem como h√° pessoas que desmaiam ao ver sangue: o estudante de medicina com o rosto p√°lido e os l√°bios brancos diante do primeiro cad√°ver a dissecar. Assusta-me quando num relance vejo as entranhas do esp√≠rito dos outros. Ou quando caio sem querer bem fundo dentro de mim e vejo o abismo intermin√°vel da eternidade, abismo atrav√©s do qual me comunico fantasmag√≥rica com Deus.

Poupar a Vontade

Em compara√ß√£o com o comum dos homens, poucas coisas me atingem, ou, dizendo melhor, me prendem; pois √© razo√°vel que elas atinjam, contanto que n√£o nos possuam. Tenho grande zelo em aumentar pelo estudo e pela reflex√£o esse privil√©gio de insensibilidade, que em mim √© naturalmente muito saliente. Desposo – e consequentemente me apaixono por – poucas coisas. A minha vis√£o √© clara, mas detenho-a em poucos objectos; a sensibilidade, delicada e male√°vel. Mas a apreens√£o e aplica√ß√£o, tenho-a dura e surda: dificilmente me envolvo. Tanto quanto posso, emprego-me todo em mim; por√©m mesmo nesse objecto eu refrearia e suspenderia de bom grado a minha afei√ß√£o para que ela n√£o se entregasse por inteiro, pois √© um objecto que possuo por merc√™ de outr√©m e sobre o qual a fortuna tem mais direito do que eu. De maneira que at√© a sa√ļde, que tanto estimo, ser-me-ia preciso n√£o a desejar e n√£o me dedicar a ela t√£o desenfreadamente a ponto de achar insuport√°veis as doen√ßas. Devemos moderar-nos entre o √≥dio e o amor √† voluptuosidade; e Plat√£o receita um caminho mediano de vida entre ambos.
Mas √†s paix√Ķes que me distraem de mim e me prendem alhures, a essas certamente me oponho com todas as minhas for√ßas.

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As Entranhas da Terra na Vida de um Homem

Ao fim dos primeiros dias de trabalho, deu por si de p√© no centro do corredor, percorrendo as divis√Ķes com o olhar, e julgou perceber melhor a massa de que era feito o seu povo. Tudo oxidava. Os metais oxidavam, as madeiras oxidavam, as paredes e os tecidos e os objectos oxidavam ‚ÄĒ e o que n√£o oxidava enchia-se de salitre, ressequia ao sol ou, sobrevivendo aos abalos de terra, tombava √† f√ļria do vento. E, no entanto, havia algo de belo nisso tamb√©m, como se ao cabo de uma s√≥ vida um homem pudesse dizer, sem grande esfor√ßo meton√≠mico, que as entranhas da Terra se revolviam no interior do seu pr√≥prio est√īmago.

O sil√™ncio √© a minha maior tenta√ß√£o. As palavras, esse v√≠cio ocidental, est√£o gastas, envelhecidas, envilecidas. Fatigam, exasperam. E mentem, separam, ferem. Tamb√©m apaziguam, √© certo, mas √© t√£o raro! Por cada palavra que chega at√© n√≥s, ainda quente das entranhas do ser, quanta baba nos escorre em cima a fingir de m√ļsica suprema! A plenitude do sil√™ncio s√≥ os orientais a conhecem.

Eu Peneiro o Espírito e Crivo o Ritmo

Eu peneiro o espírito e crivo o ritmo
Do sangue no amor, o movimento para fora
O desabrigo completo. Peneiro os m√ļltiplos
Sentidos da palavra que sopra a sua voz
Nos pulsos. Crivo a pulsação do canto
E encontro
O silêncio inigualável de quem escuta

Eis porque as minhas entranhas vibram de modo igual
Ao da cítara

Eu peneiro as entranhas e encontro a dor
De quem toca a cítara. A frágil raiz
De quem criva horas e horas a vida e encontra
A corda mais azul, a veia inesgot√°vel
De quem ama
Encontro o silêncio nas entranhas de quem canta

Eis porque o amor vibra no espírito de quem criva

O m√ļsico incompleto peneira a ideia das formas
Eu sopro a √°gua viva. Crivo
O sofrimento demorado do canto
Encontro o mistério
Da cítara

As Paix√Ķes Humanas

Eu considero inteligente o homem que em vez de desprezar este ou aquele semelhante √© capaz de o examinar com olhar penetrante, de lhe sondar por assim dizer a alma e descobrir o que se encontra em todos os seus desv√£os. Tudo no homem se transforma com grande rapidez; num abrir e fechar de olhos, um terr√≠vel verme pode corroer-lhe as entranhas e devorar-lhe toda a sua subst√Ęncia vital. Muitas vezes uma paix√£o, grande ou mesquinha pouco importa, nasce e cresce num indiv√≠duo para melhor sorte, obrigando-o a esquecer os mais sagrados deveres, a procurar em √≠nfimas bagatelas a grandeza e a santidade. As paix√Ķes humanas n√£o t√™m conta, s√£o tantas, tantas, como as areias do mar, e todas, as mais vis como as mais nobres, come√ßam por ser escravas do homem para depois o tiranizarem.
Bem-aventurado aquele que, entre todas as paix√Ķes, escolhe a mais nobre: a sua felicidade aumenta de hora a hora, de minuto a minuto, e cada vez penetra mais no ilimitado para√≠so da sua alma. Mas existem paix√Ķes cuja escolha n√£o depende do homem: nascem com ele e n√£o h√° for√ßa bastante para as repelir. Uma vontade superior as dirige, t√™m em si um poder de sedu√ß√£o que dura toda a vida.

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A natureza da opress√£o das mulheres √© √ļnica: as mulheres s√£o oprimidas enquanto mulheres, sem considera√ß√Ķes de classe ou ra√ßa; algumas mulheres t√™m acesso √† riqueza significativa, mas essa riqueza n√£o significa poder; mulheres podem ser encontradas em todo lugar, mas n√£o possuem ou controlam nenhum territ√≥rio apreci√°vel; mulheres vivem com aqueles que as oprimem, dormem com eles, t√™m seus filhos ‚ÄĒ n√≥s estamos entrela√ßadas, desesperadamente parece, nas entranhas do mecanismo e do modo de vida que √© danoso para n√≥s.

O quotidiano contém em si o abuso do quotidiano: o quotidiano tem a tragédia do tédio da repetição. Mas há uma escapatória: é que a grande realidade é fora de série, como um sonho nas entranhas do dia.

Sou a Tua Casa

Sou a tua casa, a tua rua, a tua seguran√ßa, o teu destino. Sou a ma√ß√£ que comes e a roupa que vestes. Sou o degrau por onde sobes, o copo por onde bebes, o teu riso e o teu choro, o teu frio e a tua lareira. O pedinte que ajudas, o asilo que te quer acolher. Sou o teu pensamento, a tua recorda√ß√£o, a tua vontade. E tamb√©m o artes√£o que para ti trabalha, o medo que te perturba e o c√£o que te guia quando entras pela noite. Sou o s√≠tio onde descansas, a √°rvore que te d√° sombra, o vento que contigo se comove. Sou o teu corpo, o teu esp√≠rito, o teu brilho, a tua d√ļvida. Sou a tua m√£e, o teu amante, o marfim dos teus dentes. E sou, na luz do outono, o teu olhar. Sou a tua parteira e a tua l√°pide. Os teus vinte anos. O cora√ß√£o sepultado em ti. Sou as tuas asas, a tua liberdade, e tudo o que se move no teu interior. Sou a tua ressaca, o teu transtorno, o rel√≥gio que mede o tempo que te resta. Sou a tua mem√≥ria, a mem√≥ria da tua mem√≥ria,

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As catacumbas n√£o eram apenas lugares para escapar √†s persegui√ß√Ķes, mas eram, sobretudo, lugares de ora√ß√£o, para santificar os domingos e para elevar, das entranhas da terra, a adora√ß√£o a um Deus que nunca esquece os Seus filhos.

O homem n√£o nasceu para ser grande. Um m√≠nimo de grandeza j√° o desumaniza. Por exemplo: um ministro. N√£o √© nada, dir√£o. Mas o fato de ser ministro j√° o empalha. √Č como se ele tivesse algod√£o por dentro, e n√£o entranhas vivas.

F√°bula

Estavam ali diante dos meus olhos: era terrível e ao mesmo tempo fascinante.
Ao princípio pensei que ele a estava a matar, logo a seguir percebi que não, que talvez ambos estivessem a morrer, só depois qualquer apelo distante se fez carne em mim. Então todo eu fiquei amarrado aos seus gestos, àquela respiração fatigada e difícil, àquele balbucio que lhes saía ralo da boca.
Os seio de Maria ca√≠am nus da blusa. Uma das m√£os do carpinteiro perdia-se nos seus cabelos emaranhados, a outra parecia ter-se enterrado na areia. O resto era aquele corpo todo d√® homem: r√≠gido e fremente, ao mesmo tempo, √† for√ßa de concentrar todo o √≠mpeto nas n√°degas, arco de onde a flecha partia, para se cravar exasperada nas entranhas da rapariga. Parecia um cavalo ofegante ‚ÄĒ os olhos cerrados, o suor escorrendo da raiz dos cabelos, espa-lhando-se pelas costas, pelos flancos, pelas pernas, quase todas descobertas. Um cavalo cego mordendo o c√©u branco de agosto. Mas a terra chamou-o, e um relincho prolongado encheu o leito do ribeiro, morreu no alto dos amieiros. Por fim a paz desceu ao mundo.
Maria olhava o carpinteiro com olhos rasos de espanto, como quem tivesse perdido tudo naquele instante.

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