Passagens sobre Esc√Ęndalos

34 resultados
Frases sobre esc√Ęndalos, poemas sobre esc√Ęndalos e outras passagens sobre esc√Ęndalos para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

A Um Mascarado

Rasga esta máscara ótima de seda
E atira-a √† arca ancestral dos palimpsestos…
√Č noite, e, √† noite, a esc√Ęndalos e incestos
√Č natural que o instinto humano aceda!

Sem que te arranquem da garganta queda
A interjeição danada dos protestos,
H√°s de engolir, igual a um porco, os restos
Duma comida horrivelmente azeda!

A sucess√£o de hebd√īmadas medonhas
Reduzir√° os mundos que tu sonhas
Ao microcosmos do ovo primitivo…

E tu mesmo, após a árdua e atra refrega,
Ter√° somente uma vontade cega
E uma tendência obscura de ser vivo!

A arte √© uma esp√©cie de esc√Ęndalo, um exibicionismo cuja √ļnica desculpa √© ser praticado entre cegos.

Saber Terminar uma Amizade Indesej√°vel

Sucede, tamb√©m, como por calamidade, que algumas vezes √© necess√°rio romper uma amizade: porque passo agora das amizades dos s√°bios √†s liga√ß√Ķes vulgares. Muitas vezes quando os v√≠cios se revelam num homem, os seus amigos s√£o as suas v√≠timas como todos os outros: contudo √© sobre eles que recai a vergonha. √Č preciso, pois, desligar-se de tais amizades ‚ÄĒ, afrouxando o la√ßo pouco a pouco e, como ouvi dizer a Cat√£o, √© necess√°rio descoser antes que despeda√ßar, a menos que se n√£o haja produzido um esc√Ęndalo de tal modo intoler√°vel, que n√£o fosse nem justo nem honesto, nem mesmo poss√≠vel, deixar de romper imediatamente.

Mas se o car√°cter e os gostos vierem a mudar, o que acontece muitas vezes; se algum dissentimento pol√≠tico separar dois amigos (n√£o falo mais, repito-o, das amizades dos s√°bios, mas das afei√ß√Ķes vulgares), √© preciso tomar cuidado em, desfazendo a amizade, n√£o a substituir logo pelo √≥dio. Nada mais vergonhoso, com efeito, que estar em guerra com aquele que se amou por muito tempo.
(…) Apliquemo-nos, pois, antes de tudo, em afastar toda a causa de ruptura: se contudo, acontecer alguma, que a amizade pare√ßa antes extinta do que estrangulada. Temamos sobretudo que ela n√£o se transforme em √≥dio violento,

Continue lendo…

Cartas Trocadas para o Marido e para o Amante

Anais,

Uma terr√≠vel asneira foi feita. Enviaste a carta para o Hugo, no dia em que chegaste, e mandaste-lhe a minha. O Hugo est√° freneticamente a tentar entrar em contacto comigo. Mandou a Am√©lia aqui, que deixou debaixo da porta o bilhete que junto. Ela esteve aqui de manh√£ e outra vez esta noite. Pensei de manh√£ que era o pr√≥prio Hugo e que ele tinha vindo para me “apanhar”… Por isso, n√£o abri a porta.

J√° que eu tinha recebido a carta dele na noite anterior (a tua carta para ele), tive um pressentimento de que as cartas tinham sido postas nos envelopes errados e fiquei apreensivo. Esta noite enviei-lhe a sua carta para o n√ļmero 18 da Ave. de Versailles, sem dar a minha morada. N√£o posso dizer nesta carta se chegarei a receber a que me era devida. Espero que sim. Suponho que ele saiba tudo agora. Mas estou a evit√°-lo, porque n√£o quero admitir nem negar. Ele deve estar furioso, mas, ao mesmo tempo, num estado terr√≠vel. Eu pr√≥prio estou exausto de apreens√£o. Trouxe o Fred para ficar aqui comigo, porque at√© o Hugo partir vou estar em pulgas. Sei que, se ele me matasse,

Continue lendo…

Amizade Correcta

O s√°bio, ainda que se baste a si mesmo, deseja ter um amigo, quanto mais n√£o fosse para exercer a amizade, para n√£o deixar definhar t√£o grande virtude. Ele n√£o busca, como dizia Epicuro, ¬ęalgu√©m que lhe vele √† cabeceira em caso de doen√ßa, que o socorra quando esteja em grilh√Ķes ou na indig√™ncia¬Ľ. Busca algu√©m a cuja cabeceira de doente possa velar; algu√©m que, quando implicado numa contenda, ele possa salvar dos c√°rceres inimigos. Pensar em si pr√≥prio, e empenhar-se numa amizade com esse pensamento preconcebido, √© cometer um erro de c√°lculo. A empresa terminar√° como come√ßou. Fulano arranjou um amigo para dispor, um dia, de um libertador que o preserve dos grilh√Ķes. Ao primeiro tinido de cadeias, l√° se vai o amigo.
Tais s√£o as amizades que o mundo chama de ¬ęliga√ß√Ķes tempor√°rias¬Ľ. O homem a quem se escolhe para prestar servi√ßos deixar√° de agradar no dia em que n√£o sirva para mais nada. Da√≠ a constela√ß√£o de amigos ao redor das grandes fortunas. Vinda a ru√≠na, faz-se, √† volta, a solid√£o: os amigos esquivam-se dos lugares onde s√£o postos √† prova. Da√≠, todos esses esc√Ęndalos: amigos abandonados, amigos tra√≠dos, sempre por medo! √Č inevit√°vel que o fim concorde com o come√ßo: o interesse fez de sicrano teu amigo;

Continue lendo…

Um √önico Poema

Quando olho para esse livro (¬ęPoesia Toda¬Ľ), vejo que n√£o fabriquei ou instru√≠ ou afei√ßoei objectos ‚ÄĒ estas palavras n√£o sup√Ķem o mesmo modo de fazer‚ÄĒ, vejo que escrevi apenas um poema, um poema em poemas; durante a vida inteira brandi em todas as direc√ß√Ķes o mesmo aparelho, a mesma arma furiosa. Fui um inocente, porque s√≥ se consegue isso com inoc√™ncia. E se a inoc√™ncia √© uma condi√ß√£o insubstitu√≠vel de esc√Ęndalo, uma transparente e mobilizadora familiaridade com a terra, constitui tamb√©m um rev√©s: pois h√° uma altura em que se sabe: as coisas ludibriaram-nos, ludibri√°mo-nos nas coisas; a inoc√™ncia deveria ter-nos oferecido uma vida estupenda, um tumulto: o ar em torno proporcionado como pura levita√ß√£o; ver, tocar; os mais simples actos e factos pr√≥ximos como instant√Ęneo e completo conhecimento. Era assim, foi assim, mas a dor, as vozes demon√≠acas, o abismo junto √† dan√ßa, a noite que se vai insinuando a toda a altura e largura da luz, tudo Isso invade a inoc√™ncia ‚ÄĒ e ent√£o j√° n√£o sabemos nada, por exemplo: ser√° inocente a nossa inoc√™ncia? A inoc√™ncia √© um estado clandestino na ditadura do mundo; tem se der astuta, tem de recorrer a todas as torpezas para lutar e escapar,

Continue lendo…

A Cegueira da Governação

Pr√≠ncipes, Reis, Imperadores, Monarcas do Mundo: vedes a ru√≠na dos vossos Reinos, vedes as afli√ß√Ķes e mis√©rias dos vossos vassalos, vedes as viol√™ncias, vedes as opress√Ķes, vedes os tributos, vedes as pobrezas, vedes as fomes, vedes as guerras, vedes as mortes, vedes os cativeiros, vedes a assola√ß√£o de tudo? Ou o vedes ou o n√£o vedes. Se o vedes como o n√£o remediais? E se o n√£o remediais, como o vedes? Estais cegos. Pr√≠ncipes, Eclesi√°sticos, grandes, maiores, supremos, e v√≥s, √≥ Prelados, que estais em seu lugar: vedes as calamidades universais e particulares da Igreja, vedes os destro√ßos da F√©, vedes o descaimento da Religi√£o, vedes o desprezo das Leis Divinas, vedes o abuso do costumes, vedes os pecados p√ļblicos, vedes os esc√Ęndalos, vedes as simonias, vedes os sacril√©gios, vedes a falta da doutrina s√£, vedes a condena√ß√£o e perda de tantas almas, dentro e fora da Cristandade? Ou o vedes ou n√£o o vedes. Se o vedes, como n√£o o remediais, e se o n√£o remediais, como o vedes? Estais cegos. Ministros da Rep√ļblica, da Justi√ßa, da Guerra, do Estado, do Mar, da Terra: vedes as obriga√ß√Ķes que se descarregam sobre vosso cuidado, vedes o peso que carrega sobre vossas consci√™ncias,

Continue lendo…

N√£o h√° absolutamente nenhuma vantagem em se defender a n√£o ser em certas cincunst√Ęncias em

N√£o h√° absolutamente nenhuma vantagem em se defender a n√£o ser em certas cincunst√Ęncias em que o sil√™ncio causaria desgosto ou esc√Ęndalo.

Coragem √© afrontar a opini√£o p√ļblica; avali√°-la no seu justo pre√ßo; atirar-lhe √† cara com os esc√Ęndalos e com o ouro; passar com a cabe√ßa alta por diante dos ¬ętartufos¬Ľ… Matilha de c√£es que nos rasgam as franjas dos vestidos, mas s√≥ isso!…

Luto por uma Novidade de Espírito

Procuro me manter isolada contra a agonia de viver dos outros, e essa agonia que lhes parece um jogo de vida e morte mascara uma outra realidade, t√£o extraordin√°ria essa verdade que os outros cairiam de espanto diante dela, como num esc√Ęndalo. Enquanto isso, ora estudam, ora trabalham, ora amam, ora crescem, ora se afanam, ora se alegram, ora se entristecem. A vida com letra mai√ļscula nada pode me dar porque vou confessar que tamb√©m eu devo ter entrado por um beco sem sa√≠da como os outros. Porque noto em mim, n√£o um bocado de fatos, e sim procuro quase tragicamente ser. √Č uma quest√£o de sobreviv√™ncia assim como a de comer carne humana quando n√£o h√° alimento. Luto n√£o contra os que compram e vendem apartamentos e carros e procuram se casar e ter filhos mas luto com extrema ansiedade por uma novidade de esp√≠rito. Cada vez que me sinto quase um pouco iluminada vejo que estou tendo uma novidade de esp√≠rito.
Minha vida é um reflexo deformado assim como se deforma num lago ondulante e instável o reflexo de um rosto. Imprecisão trémula. Como o que acontece com a água quando se mergulha a mão na água.

Continue lendo…

Cristo certamente n√£o esteve dividido. Mas devemos reconhecer sinceramente e com dor que as nossas comunidades continuam a viver divis√Ķes que s√£o escandalosas. As divis√Ķes entre crist√£os s√£o um esc√Ęndalo. N√£o h√° outra palavra: um esc√Ęndalo.

Opi√°rio

Ao Senhor M√°rio de S√°-Carneiro

√Č antes do √≥pio que a minh’alma √© doente.
Sentir a vida convalesce e estiola
E eu vou buscar ao ópio que consola
Um Oriente ao oriente do Oriente.

Esta vida de bordo h√°-de matar-me.
São dias só de febre na cabeça
E, por mais que procure até que adoeça,
j√° n√£o encontro a mola pra adaptar-me.

Em paradoxo e incompetência astral
Eu vivo a vincos de ouro a minha vida,
Onda onde o pundonor é uma descida
E os pr√≥prios gozos g√Ęnglios do meu mal.

√Č por um mecanismo de desastres,
Uma engrenagem com volantes falsos,
Que passo entre vis√Ķes de cadafalsos
Num jardim onde h√° flores no ar, sem hastes.

Vou cambaleando através do lavor
Duma vida-interior de renda e laca.
Tenho a impress√£o de ter em casa a faca
Com que foi degolado o Precursor.

Ando expiando um crime numa mala,
Que um av√ī meu cometeu por requinte.
Tenho os nervos na forca, vinte a vinte,
E caí no ópio como numa vala.

Continue lendo…

Vencido

No auge de atordoadora e √°vida sanha
Leu tudo, desde o mais prístino mito,
Por exemplo: o do boi √Āpis do Egito
Ao velho Niebelungen da Alemanha.

Acometido de uma febre estranha
Sem o esc√Ęndalo f√īnico de um grito,
Mergulhou a cabeça no Infinito,
Arrancou os cabelos na montanha!

Desceu depois à gleba mais bastarda,
Pondo a áurea insígnia heráldica da farda
A vontade do v√īmito plebeu…

E ao vir-lhe o cuspo diário à boca fria
O vencido pensava que cuspia
Na célula infeliz de onde nasceu.

Nunca devemos debutar por um esc√Ęndalo. Dev√≠amos reserv√°-lo para dar interesse √† nossa velhice.

Adoro os esc√Ęndalos dos outros. Os que me dizem respeito n√£o me interessam. N√£o tem o atrativo da novidade.

O Acto Poético

O acto po√©tico √© o empenho total do ser para a sua revela√ß√£o. Este fogo do conhecimento, que √© tamb√©m fogo de amor, em que o poeta se exalta e consome, √© a sua moral. E n√£o h√° outra. Nesse mergulho do homem nas suas √°guas mais silenciadas, o que vem √† tona √© tanto uma singularidade como uma pluralidade. Mas, curiosamente, o esp√≠rito humano atenta mais facilmente nas diferen√ßas do que nas semelhan√ßas, esquecendo-se, e √© Goethe quem o lembra, que o particular e o universal coincidem, e assim a palavra do poeta, t√£o fiel ao homem, acaba por ser palavra de esc√Ęndalo no seio do pr√≥prio homem. Na verdade, ele nega onde outros afirmam, desoculta o que outros escondem, ousa amar o que outros nem sequer s√£o capazes de imaginar. Palavra de afli√ß√£o mesmo quando luminosa, de desejo apesar de serena, rumorosa at√© quando nos diz o sil√™ncio, pois esse ser sedento de ser, que √© o poeta, tem a nostalgia da unidade, e o que procura √© uma reconcilia√ß√£o, uma suprema harmonia entre luz e sombra, presen√ßa e aus√™ncia, plenitude e car√™ncia.