Cita√ß√Ķes sobre Exagero

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O Intelecto Como Exagero

A beleza, a verdadeira beleza, acaba onde a a express√£o intelectual come√ßa. O intelecto √© j√° uma forma de exagero e destr√≥i a harmonia de qualquer rosto. Assim que nos sentamos a pensar, ficamos s√≥ nariz, ou s√≥ testa, ou uma coisa horr√≠vel do g√©nero. Olha para os homens bem sucedidos em qualquer das profiss√Ķes eruditas. Como s√£o perfeitamente hediondos! A n√£o ser, evidentemente, na Igreja. Mas a verdade √© que na Igreja eles n√£o pensam. Um bispo continua a dizer aos oitenta anos o que lhe mandaram dizer quando era um rapaz de dezoito e, por conseguinte, parece sempre perfeitamente encantador.

O Vício do Exagero

Hoje, no caf√©, aqui-del-rei que eu exagero, aqui-del-rei que conto uma anedota e a anedota sai da minha boca transfigurada. Aqui-del-rei que descrevo um indiv√≠duo e ponho bigodes de pol√≠cia onde havia somente uma discreta penugem. √Č certo, exagero. Come√ßo a pintar um bot√£o, e √© capaz de me sair o cosmos.

O Conceito de Nós Próprios

Cada homem, desde que sai da nebulose da inf√Ęncia e da adolesc√™ncia, √© em grande parte um produto do seu conceito de si mesmo. Pode dizer-se sem exagero mais que verbal, que temos duas esp√©cies de pais: os nossos pais, propriamente ditos, a quem devemos o ser f√≠sico e a base heredit√°ria do nosso temperamento; e, depois, o meio em que vivemos, e o conceito que formamos de n√≥s pr√≥prios – m√£e e pai, por assim dizer, do nosso ser mental definitivo.
Se um homem criar o h√°bito de se julgar inteligente, n√£o obter√° com isso, √© certo, um grau de intelig√™ncia que n√£o tem; mas far√° mais da intelig√™ncia que tem do que se julgar est√ļpido. E isto, que se d√° num caso intelectual, mais marcadamente se d√° num caso moral, pois a plasticidade das nossas qualidades morais √© muito mais acentuada que a das faculdades da nossa mente.
Ora, ordinariamente, o que é verdade da psicologia individual Рabstraindo daqueles fenómenos que são exclusivamente individuais Рé também verdade da psicologia colectiva. Uma nação que habitualmente pense mal de si mesma acabará por merecer o conceito de si que anteformou. Envenena-se mentalmente.
O primeiro passo passou para uma regeneração,

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A heresia e a ortodoxia n√£o derivam de um exagero fan√°tico dos mecanismos doutrin√°rios, elas lhes pertencem fundamentalmente.

O Homem é o Animal Menos Preparado

A capacidade do homem para o pensamento abstracto, que parece faltar √† maioria dos outros mam√≠feros, conferiu-lhe sem d√ļvida o seu actual dom√≠nio sobre a superf√≠cie da Terra ‚Äď um dom√≠nio disputado apenas por centenas de milhares de tipos de insectos e organismos microsc√≥picos. Este pensamento abstracto √© o respons√°vel pela sua sensa√ß√£o de superioridade e pelo que, sob esta sensa√ß√£o, corresponde a uma certa medida de realidade, pelo menos dentro de estreitos limites. Mas o que √© frequentemente subestimado √© o facto de que a capacidade de desempenhar um acto n√£o √©, de forma alguma, sin√≥nima de seu exerc√≠cio salubre. √Č f√°cil observar que a maior parte do pensamento do homem √© est√ļpida, sem sentido e injuriosa para ele. Na realidade, de todos os animais, ele parece o menos preparado para tirar conclus√Ķes apropriadas nas quest√Ķes que afectam mais desesperadamente o seu bem-estar.
Tente imaginar um rato, no universo das ideias dos ratos, chegando a no√ß√Ķes t√£o ocas de plausibilidade como, por exemplo, o Swedenborgianismo, a homeopatia ou a telepatia mental. O instinto natural do homem, de facto, nunca se dirige para o que √© s√≥lido e verdadeiro; prefere tudo que √© especioso e falso. Se uma grande na√ß√£o moderna se confrontar com dois problemas antag√≥nicos ‚Äď um deles baseado em argumentos prov√°veis e racionais,

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√ďdios e Rancores

Recusa ser testemunha em processos: serias necessariamente alvo do rancor de uma das partes. Nunca forne√ßas informa√ß√Ķes acerca de um homem que n√£o seja bem nascido – e menos ainda se √© de baixa extrac√ß√£o -, e faz como se tudo ignorasses a seu respeito. Se, em conversa, resolveres lan√ßar uma ofensa contra algu√©m, sobretudo n√£o tomes um ar pesado, mas continua a falar como se nada fosse. Em presen√ßa de terceiros, n√£o manifestes a ningu√©m favores especiais, pois considerar-se-ia que desprezas os outros e serias votado a um √≥dio constante.
Evita avan√ßar na carreira de modo demasiado r√°pido ou vistoso. √Č necess√°rio que, perante uma luz que se torna cada vez mais brilhante, os olhos se habituem a pouco e pouco; caso contr√°rio, desviam-se. Nunca v√°s contra o que agrada √† gente do povo, quer se trate de simples tradi√ß√Ķes ou mesmo de h√°bitos que te repugnam.
Se és forçado a admitir que cometeste uma acção odiosa, não atices o ódio que desperta dando a impressão que não a lastimas ou, pior ainda, troçando das tuas vítimas, ou orgulhando-te do que fizeste: serias odiado duas vezes mais. O melhor é ausentares-te, deixares agir o tempo e não te manifestares.

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Reclamar com Espalhafato

Pelo facto de uma situa√ß√£o de crise (por exemplo, os v√≠cios de uma administra√ß√£o, a corrup√ß√£o e o favoritismo em agremia√ß√Ķes pol√≠ticas ou eruditas) ser descrita com forte exagero, essa descri√ß√£o perde, na verdade, o seu efeito junto das pessoas sensatas, mas actua tanto mais fortemente sobre as que o n√£o s√£o (as quais teriam permanecido indiferentes ante uma exposi√ß√£o bem comedida). Como estas, por√©m, constituem uma significativa maioria e albergam em si uma maior for√ßa de vontade e um gosto mais impetuoso pela ac√ß√£o, esse exagero torna-se pretexto para inqu√©ritos, puni√ß√Ķes, promessas, reorganiza√ß√Ķes. √Č nessa medida que √© rent√°vel descrever situa√ß√Ķes cr√≠ticas em termos exagerados.

Incontentado

Paix√£o sem grita, amor sem agonia,
Que n√£o oprime nem magoa o peito,
Que nada mais do que possui queria,
E com t√£o pouco vive satisfeito.

Amor, que os exageros repudia,
Misturado de estima e de respeito,
E, tirando das m√°goas alegria,
Fica farto, ficando sem proveito.

Viva sempre a paix√£o que me consome,
Sem uma queixa, sem um só lamento!
Arda sempre este amor que desanimas!

Eu eu tenha sempre, ao murmurar teu nome,
O coração, malgrado o sofrimento,
Como um rosal desabrochado em rimas.

Jornais e Jornalistas

Os jornais são o ponteiro dos segundos no relógio da história. Na maioria das vezes, porém, além de ser fabricado com metais menos nobres do que o dos outros dois ponteiros, raramente funciona de modo correcto.
Uma grande quantidade de maus escritores vive unicamente da estultice do p√ļblico, que s√≥ quer ler o que foi impresso no mesmo dia: os jornalistas. A sua designa√ß√£o vem mesmo a calhar, no entanto deveriam chamar-se ‘diaristas’. O exagero de toda a esp√©cie √© para eles t√£o essencial quanto para a arte dram√°tica: com efeito, trata-se de extrair o m√°ximo poss√≠vel de todo o incidente. Devido √† profiss√£o, todos os jornalistas s√£o tamb√©m alarmistas: este √© o seu modo de se tornarem interessantes. No entanto, mediante tal expediente acabam por se igualar aos c√£ezinhos que, t√£o logo percebem algum movimento, p√Ķem-se a latir fortemente. Sendo assim, √© preciso dar aos seus sinais de alerta apenas a aten√ß√£o necess√°ria para n√£o prejudicar a pr√≥pria digest√£o.

Aos Realistas

√ď seres frios que vos sentis t√£o coura√ßados contra a paix√£o e a quimera e que tanto gostar√≠eis de fazer da vossa doutrina um adorno e um objecto de orgulho, dais-vos o nome de realistas e dais a entender que o mundo √© verdadeiramente tal como vos aparece; que sois os √ļnicos a ver a verdade isenta de v√©us e que sois v√≥s talvez a melhor parte dessa verdade… √≥ queridas imagens de Sais! Mas n√£o sereis ainda v√≥s pr√≥prios, mesmo no vosso estado mais despojado, seres surpreendentemente obscuros e apaixonados se vos compararmos aos peixes? N√£o sereis ainda demasiado parecidos com artistas apaixonados? E o que vem a ser a ¬ęrealidade¬Ľ aos olhos de um artista apaixonado? Ainda n√£o deixaste de julgar as coisas como f√≥rmulas que t√™m a sua origem nas paix√Ķes e nos complexos amorosos dos s√©culos passados! A vossa frieza est√° ainda cheia de uma secreta e inextirp√°vel embriaguez!
O vosso amor pela ¬ęrealidade¬Ľ, se for necess√°rio escolher-vos um exemplo, que coisa antiga! Que velho ¬ęamor¬Ľ! N√£o h√° sentimento, sensa√ß√£o, que n√£o contenham uma certa dose, que n√£o tenham sido, tamb√©m, trabalhados e alimentados por qualquer exagero da imagina√ß√£o, por um preconceito, uma sem-raz√£o, uma incerteza,

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A Mediocridade que Vulgariza o Talento

N√£o se tem ideia como abunda a mediocridade. (…) S√£o pessoas como essas que travam sempre, em todos os lados, a m√°quina accionada pelos homens de talento. Os homens superiores s√£o por natureza inovadores. Quando surgem deparam com o disparate e a mediocridade por todos os lados (ela que tudo domina e que se manifesta em tudo o que se faz). O seu impulso natural √© assentar tudo de novo em terreno s√≥lido e experimentar caminhos novos, para fugir a essa vulgaridade e parvo√≠ce. Se por acaso eles triunfam e acabam por levar a melhor sobre a rotina, t√™m de ser ver a contas, por seu turno, com os incapazes – que fazem ponto de honra da c√≥pia grosseira dos seus processos e estragam tudo o que lhes vem √†s m√£os.
Depois deste primeiro movimento, que leva os inovadores a sairem das sendas j√° tra√ßadas, segue-se quase sempre outro que os faz, no fim da sua carreira, conter o indiscreto entusiasmo que vai sempre demasiado longe e que, pelo exagero, arruina o que inventaram. Ao se darem conta do triste uso que √© feito das inova√ß√Ķes que eles lan√ßaram no mundo, come√ßam a elogiar aquilo que, afinal, gra√ßas a eles,

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Os próprios vícios podem engendrar o orgulho desmedido ou a humildade levada ao exagero.