Passagens sobre Farrapos

21 resultados
Frases sobre farrapos, poemas sobre farrapos e outras passagens sobre farrapos para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Uma mulher, que n√£o seja est√ļpida, cedo ou tarde encontra um farrapo humano e tenta salv√°-lo. √Äs vezes consegue. Por√©m, uma mulher, que n√£o seja est√ļpida, cedo ou tarde encontra um homem s√£o e reduze-o a um farrapo. Sempre consegue.

Deslumbramentos

Milady, é perigoso contemplá-la,
Quando passa arom√°tica e normal,
Com seu tipo t√£o nobre e t√£o de sala,
Com seus gestos de neve e de metal.

Sem que nisso a desgoste ou desenfade,
Quantas vezes, seguindo-lhe as passadas,
Eu vejo-a, com real solenidade,
Ir impondo toilettes complicadas!…

Em si tudo me atrai como um tesouro:
O seu ar pensativo e senhoril,
A sua voz que tem um timbre de ouro
E o seu nevado e l√ļcido perfil!

Ah! Como me estonteia e me fascina…
E é, na graça distinta do seu porte,
Como a Moda supérflua e feminina,
E t√£o alta e serena como a Morte!…

Eu ontem encontrei-a, quando vinha,
Brit√Ęnica, e fazendo-me assombrar;
Grande dama fatal, sempre sozinha,
E com firmeza e m√ļsica no andar!

O seu olhar possui, num jogo ardente,
Um arcanjo e um dem√īnio a ilumin√°-lo;
Como um florete, fere agudamente,
E afaga como o pêlo dum regalo!

Pois bem. Conserve o gelo por esposo,
E mostre, se eu beijar-lhe as brancas m√£os,
O modo diplom√°tico e orgulhoso
Que Ana de √Āustria mostrava aos cortes√£os.

Continue lendo…

A Quimera da Felicidade

(…) do alto de uma montanha, inclinei os olhos a uma das vertentes, e contemplei, durante um tempo largo, ao longe, atrav√©s de um nevoeiro, uma cousa √ļnica. Imagina tu, leitor, uma redu√ß√£o dos s√©culos, e um desfilar de todos eles, as ra√ßas todas, todas as paix√Ķes, o tumulto dos imp√©rios, a guerra dos apetites e dos √≥dios, a destrui√ß√£o rec√≠proca dos seres e das cousas. Tal era o espect√°culo, acerbo e curioso espect√°culo. A hist√≥ria do homem e da terra tinha assim uma intensidade que n√£o lhe podiam dar nem a imagina√ß√£o nem a ci√™ncia, porque a ci√™ncia √© mais lenta e a imagina√ß√£o mais vaga, enquanto que o que eu ali via era a condensa√ß√£o viva de todos os tempos. Para descrev√™-la seria preciso fixar o rel√Ęmpago. Os s√©culos desfilavam num turbilh√£o, e, n√£o obstante, porque os olhos do del√≠rio s√£o outros, eu via tudo o que passava diante de mim, – flagelos e del√≠cias, – desde essa cousa que se chama gl√≥ria at√© essa outra que se chama mis√©ria, e via o amor multiplicando a mis√©ria, e via a mis√©ria agravando a debilidade. A√≠ vinham a cobi√ßa que devora, a c√≥lera que inflama, a inveja que baba,

Continue lendo…

Símbolos

S√≠mbolos? Estou farto de s√≠mbolos…
Mas dizem-me que tudo é símbolo,
Todos me dizem nada.
Quais s√≠mbolos? Sonhos. ‚ÄĒ
Que o sol seja um s√≠mbolo, est√° bem…
Que a lua seja um s√≠mbolo, est√° bem…
Que a terra seja um s√≠mbolo, est√° bem…
Mas quem repara no sol sen√£o quando a chuva cessa,
E ele rompe as nuvens e aponta para tr√°s das costas,
Para o azul do céu?
Mas quem repara na lua sen√£o para achar
Bela a luz que ela espalha, e n√£o bem ela?
Mas quem repara na terra, que é o que pisa?
Chama terra aos campos, às árvores, aos montes,
Por uma diminuição instintiva,
Porque o mar tamb√©m √© terra…
Bem, v√°, que tudo isso seja s√≠mbolo…
Mas que símbolo é, não o sol, não a lua, não a terra,
Mas neste poente precoce e azulando-se
O sol entre farrapos finos de nuvens,
Enquanto a lua é já vista, mística, no outro lado,
E o que fica da luz do dia
Doura a cabeça da costureira que pára vagamente à esquina
Onde se demorava outrora com o namorado que a deixou?

Continue lendo…

Os Hiperbóreos

Cabeça erguida, o céu no olhar, que o céu procura,
Baixa o humano caudal, dos desertos de gelo…
Em farrapos, ao sol, derrete-se a brancura
Da neve boreal sobre o ouro do cabelo.

Ulula, e desce; e tudo invade: a atra espessura
Dos bosques entra, a urrar e a uivar. E, uivando, pelo
Continente, a descer, ganha a √ļmida planura,
E a brenha secular, em sonoro atropelo.

Assustam-se os chacais pelas selvas serenas.
A turba ulula, o druida canta, enchendo os ares.
Entre os uivos dos c√£es e o grunhido das renas…

Escutando o tropel, rincha o poldro, e galopa.
Derrama-se, a rugir, das geleiras polares,
A semente feraz dos B√°rbaros, na Europa…

Gosto dos epitáfios; eles são, entre a gente civilizada, uma expressão daquele pio e secreto egoísmo que induz o homem a arrancar à morte um farrapo ao menos da sombra que passou.

De Onde é quase o Horizonte

De onde é quase o horizonte
Sobe uma névoa ligeira
E afaga o pequeno monte
Que p√°ra na dianteira.

E com braços de farrapo
Quase invisíveis e frios,
Faz cair seu ser de trapo
Sobre os contornos macios.

Um pouco de alto medito
A névoa só com a ver.
A vida? N√£o acredito.
A crença? Não sei viver.

O Natal de Minha M√£e

A abstracção não precisa de mãe nem pai
nem t√£o pouco de t√£o tolo infante

mas o natal de minha mãe é ainda o meu natal
com restos de Beira Alta

ano após ano via surgir figura nova nesse
pres√©pio de vaca burro banda de m√ļsica

ribeiro com patos farrapos de algod√£o muito
musgo percorrido por ovelhas e pastores

multid√£o de gente judaizante estremenha pela
m√£o de meu pai descendo de montes contando

moedas azenhas movendo √°gua levada pela estrela
de Belém

um galo bate as asas um frade est√° de acordo
com a nossa circuncis√£o galinhas debicam milho

de mistura com um porco a que minha avó juntava
sempre um gato para dar sorte era preto

assim íamos todos naquela figuração animada
até ao dia de Reis aí estão

um de joelhos outro em pé
e o rei preto vinha sentado no

camelo. Era o mais bonito.
depois eram filhoses o acordar de prenda no

sapato tudo t√£o real como o abrir das lojas no dia
de feira

e eu ia ao Sanguinhal visitar a minha prima que
tinha um cavalo debaixo do quarto

subindo de vales descendo de montes
acompanhando a banda do carvalhal com ferrinhos

e roucas trompas o meu Natal é ainda o Natal de
minha m√£e com uns restos de canela e Beira Alta.

Continue lendo…

Compreende que este turbilhão é assim mesmo, leva as folhas do mato e os farrapos do caminho, sem exceção nem piedade.

Bóiam farrapos de sombra

Bóiam farrapos de sombra
Em torno ao que n√£o sei ser.
√Č todo um c√©u que se escombra
Sem me o deixar entrever.

O mistério das alturas
Desfaz-se em ritmos sem forma
Nas desregradas negruras
Com que o ar se treva torna.

Mas em tudo isto, que faz
O universo um ser desfeito,
Guardei, como a minha paz,
A ‘sp’ran√ßa, que a dor me traz,
Apertada contra o peito.

A Vida como Luta entre a Realidade e o Sonho

Somos um sonho divino que n√£o se condensou, por completo, dentro dos nossos limites materiais. Existe, em n√≥s, um limbo interior; um vago sentimental e original que nos d√° a faculdade mitol√≥gica de idealizar todas as coisas. (…) Se f√īssemos um ser definido, ser√≠amos ent√£o um ser perfeito, mas limitado, materializado como as pedras. Ser√≠amos uma est√°tua divina, mas n√£o poder√≠amos atingir a Divindade. Ser√≠amos uma obra de arte e n√£o vivente criatura, pois a vida √© um excesso, um √≠mpeto para al√©m, uma for√ßa imaterial, indefinida, a alma, a imperfei√ß√£o.
A vida √© uma luta entre os seus aspectos revelados e o limbo em que eles se perdem e ampliam at√© √† suprema dist√Ęncia imagin√°vel; uma luta entre a realidade e o sonho, a Carne e o Verbo.
Entre n√≥s, o Verbo n√£o encarnou inteiramente. Somos corpo e alma, verbo encarnado e verbo n√£o encarnado, a mat√©ria e o limbo, o esqueleto de pedra e um fumo que o enconbre e ondula em volta dele, e dan√ßa aos ventos da loucura…
E aí tendes um pobre tolo sentimental, uma caricatura elegíaca.
Neste limbo interior, neste infinito espiritual, vive a lembrança de Deus que alimenta a nossa esperança,

Continue lendo…

Um Pouco Mais de Nós

Podes dar uma centelha de lua,
um colar de pétalas breves
ou um farrapo de nuvem;
podes dar mais uma asa
a quem tem sede de voar
ou apenas o tesouro sem preço
do teu tempo em qualquer lugar;
podes dar o que és e o que sentes
sem que te perguntem
nome, sexo ou endereço;
podes dar em suma, com emoção,
tudo aquilo que, em silêncio,
te segreda o coração;
podes dar a rima sem rima
de uma m√ļsica s√≥ tua
a quem sofre a miséria dos dias
na noite sem tecto de uma rua;
podes juntar o diamante da d√°diva
ao h√ļmus de uma cren√ßa forte e antiga,
sob a forma de poema ou de cantiga;
podes ser o livro, o sonho, o ponteiro
do relógio da vida sem atraso,
e sendo tudo isso ser√°s ainda mais,
anónimo, pleno e livre,
nau sempre aparelhada para deixar o cais,
porque o que conta, vendo bem,
é dar sempre um pouco mais,
sem factura, sem fama, sem hor√°rio,
que a m√°xima recompensa de quem d√°
√© o j√ļbilo de um gesto volunt√°rio.

Continue lendo…

C√Ęntico Negro

“Vem por aqui” – dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
– Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus pr√≥prios passos…

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por a√≠…

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obst√°culos?…
Corre,

Continue lendo…

Tenho Saudades da Carícia dos Teus Braços

Tenho saudades da car√≠cia dos teus bra√ßos, dos teus bra√ßos fortes, dos teus bra√ßos carinhosos que me apertam e que me embalam nas horas alegres, nas horas tristes. Tenho saudades dos teus beijos, dos nossos grandes beijos que me entontecem e me d√£o vontade de chorar. Tenho saudades das tuas m√£os (…) Tenho saudades da seda amarela t√£o leve, t√£o suave, como se o sol andasse sobre o teu cabelo, a polvilh√°-lo de oiro. Minha linda seda loira, como eu tenho vontade de te desfiar entre os meus dedos! Tu tens-me feito feliz, como eu nunca tivera esperan√ßas de o ser. Se um dia algu√©m se julgar com direitos a perguntar-te o que fizeste de mim e da minha vida, tu dize-lhe, meu amor, que fizeste de mim uma mulher e da minha vida um sonho bom; podes dizer seja a quem for, a meu pai como a meu irm√£o, que eu nunca tive ningu√©m que olhasse para mim como tu olhas, que desde crian√ßa me abandonaram moralmente que fui sempre a isolada que no meio de toda a gente √© mais isolada ainda. Podes dizer-lhe que eu tenho o direito de fazer da minha vida o que eu quiser,

Continue lendo…

O homem morre quando Deus faz uma dobra na ponta do livro. A morte é beijo da boca sepultura: procura proceder bem, corta um farrapo de uma boa acção durante a rugidora noite, e este será o teu sudário no seio da terra. A morte é a exaltação da verdade.

Desenganado da Aparência Exterior

DESENGANADO DA APARÊNCIA EXTERIOR COM O EXAME INTERIOR E VERDADEIRO

Vês tu este gigante corpulento
que solene e soberbo se reclina?
Pois por dentro é farrapos e faxina,
e é um carregador seu fundamento.

Com sua alma vive e é movimento,
e onde ele quer sua grandeza inclina;
mas quem seu modo rígido examina
despreza tal figura e ornamento.

S√£o assim as grandezas aparentes
da presunção vazia dos tiranos:
fantásticas escórias eminentes.

V√™s que, em p√ļrpura ardendo, s√£o humanos?
As m√£os com pedrarias s√£o diferentes?
Pois dentro nojo s√£o, terra e gusanos.

Tradução de José Bento

Canção da Inocência Perdida

1

O que a minha m√£e dizia
N√£o pode ser bem verdade:
Que uma vez emporcalhada
Nunca passa a sujidade.
Se isto n√£o vale pra a roupa
Também não vale pra mim.
Que o rio lhe passe por cima
Breve fica branca, assim.

2

Como qualquer pataqueira
Aos onze anos j√° pecava.
Mas só ao fazer catorze
O meu corpo castigava.
A roupa j√° estava parda,
No rio a fui mergulhar.
No cesto est√° virginal
C’mo sem ningu√©m lhe tocar.

3

Sem ter conhecido algum
J√° eu tinha escorregado.
Fedia aos Céus, como uma
Babilónia de pecado.
A roupa branca no rio
Enxaguada à roda, à roda,
Sente que as ondas a beijam:
¬ęVolta-me a brancura toda¬Ľ.

4

Quando o primeiro me amou
Abracei-o eu também.
Senti no ventre e no peito
Ir-se a maldade pra além.
Assim acontece à roupa
E a mim acontecer√°.
A √°gua corre depressa,
Sujidade diz: Vem c√°!

5

Mas quando os outros vieram
Um ano mau começou.

Continue lendo…

Pelicano

Onda que vais morrendo em nova onda,
mar que vais morrendo noutro mar,
assim a minha vida se desprenda e do meu sumo
escorra a vida para as bocas que se finam
de desejar.

√ď dia que vais escoando como os rios
e empalideces rostos e cabelos,
traze a palavra para a incerteza
dos que vagueiam à deriva;
a bandeira amarela se rasgue
e dos farrapos se gere outra cor.

√ď dia correndo e findando,
some-te l√° no cimo da fraga
mas deixa que no teu rasto fique o sangue
anunciando a esperança noutro dia.

Sê como a onda que morre para outra começar.