Cita√ß√Ķes sobre Grama

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Frases sobre grama, poemas sobre grama e outras cita√ß√Ķes sobre grama para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Ver√£o

Eu te chamo tumulto
e virei sobre ti
ao fogo dos frutos
na hora em que a polpa da tarde
fende
e pelo campo escorrem farelos de ouro
à luz azul da bruma.

Para ti alço
com a rigidez de um bico,
garras, córneas, penas descendo
em teu tremor,
instante todo de corpo a n√£o ser
mais que carcassa, maré, esvaimento.

E quando, inerte
‚ÄĒ casca ou pele, gretado
o teu querer não for mais que apetência
ou saudade,
o sangue a escorrer ainda
escondendo os talos da grama mais pequena,
há-de permanecer aos olhos que o não vêem
íntimo sinal de união
entre a fêmea e o macho
‚ÄĒ o que penetra
e quanto, deixando penetrar
inaugura.

Uma rela√ß√£o sem ci√ļme √© uma rala√ß√£o. Uma tremenda seca. Algu√©m que √© capaz de se entregar a outro sem temer, nem por um segundo, que esse outro n√£o o retribua s√≥ a si √© algu√©m que n√£o ama; √© algu√©m, isso sim, que grama. Que grama estar acompanhado, que grama saber que tem algu√©m ao lado, que grama o conforto de uma rela√ß√£o. Mas quem grama n√£o ama.

AL√ČM ALMA

(UMA GRAMA DEPOIS)

Meu coração lá de longe
faz sinal que quer voltar.
J√° no peito trago em bronze:
NÃO TEM VAGA NEM LUGAR.
Pra que me serve um negócio
que n√£o cessa de bater?
Mais parece um relógio
que acaba de enlouquecer.
Pra que é que eu quero quem chora,
se estou t√£o bem assim,
e o vazio que vai l√° fora
cai macio dentro de mim?

Corpo

quantas cidades
te percorrem passo a passo
antes de entrar nos mil lares
que te aguardam
é mesmo preciso usar sapatos
porque n√£o gastar na pedra
uma pele que se lixa longe do
tacto
dentro do √īnibus os dias
viajam sentados
em meio a ombros colados
t√ļneis esgoto bichos
sorvetes coxas an√ļncios
uma criança um adulto
modelam a cidade
na areia
longe

perto do coração onde
uma cabeça gira o
mundo
correndo na grama a sombra
de quantos assistem sentados
enquanto das traves pende
o corpo de um de todos
enforcado
enquanto as orelhas ouvem
ouvem
e n√£o gritam
h√° um fora dentro da gente
e fora da gente um dentro
demonstrativos pronomes
o tempo o mundo as pessoas
o olho

N√£o me sinto insubstitu√≠vel… N√£o passo de grama que cresce no ch√£o; quando a grama morre, nasce outra no lugar…

A Castidade com que Abria as Coxas

A castidade com que abria as coxas
e reluzia a sua flora brava.
Na mansuetude das ovelhas mochas,
e t√£o estrita, como se alargava.

Ah, coito, coito, morte de t√£o vida,
sepultura na grama, sem dizeres.
Em minha ardente subst√Ęncia esva√≠da,
eu não era ninguém e era mil seres

em mim ressuscitados. Era Ad√£o,
primeiro gesto nu ante a primeira
negritude de corpo feminino.

Roupa e tempo jaziam pelo ch√£o.
E nem restava mais o mundo, à beira
dessa moita orvalhada, nem destino.

Luta de Classes

N√£o contem comigo para defender o elitismo cultural. Pelo contr√°rio, contem comigo para rebentar cada detalhe do seu preconceito.
A cultura √© usada como s√≠mbolo de status por alguns, alfinete de lapela, bot√£o de punho. A raridade √© condi√ß√£o indispens√°vel desse exibicionismo. S√≥ pertencendo a poucos se pode ostentar como diferenciadora. Essa colec√ß√£o de s√≠mbolos √© descrita com pron√ļncia mais ou menos afectada e tem o objectivo de definir socialmente quem a enumera.
Para esses indiv√≠duos raros, a cultura √© caracterizada por aqueles que a consomem. Assim, conv√©m n√£o haver misturas. Conhe√ßo melhor o mundo da leitura, por isso, tomo-o como exemplo: se, no in√≠cio da madrugada, uma dessas mulheres que acorda cedo e faz limpeza em escrit√≥rios for vista a ler um determinado livro nos transportes p√ļblicos, os snobs que assistam a essa imagem s√£o capazes de enjeit√°-lo na hora. Come√ßar√£o a definir essa obra como “leitura de empregadas de limpeza” (com muita probabilidade utilizar√£o um sin√≥nimo mais depreciativo para descrev√™-las).
Este exemplo aplica-se em qualquer outra √°rea cultural que possa chegar a muita gente: m√ļsica, cinema, televis√£o, etc. Aquilo que mais surpreende √© que estes “argumentos”, esta forma de falar e de pensar seja utilizada em meios supostamente culturais por indiv√≠duos supostamente cultos,

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Deixar Sempre as Coisas a Meio

A grandeza, o verdadeiro luxo, est√° nessa displic√™ncia algo aristocr√°tica, n√£o na pior ace√ß√£o da palavra, de deixar sempre as coisas a meio: esse copo de conhaque que se abandona na varanda do bar, as moedas que nunca mais se acabam de recolher da bandejinha em que o criado nos trazia o troco, os pratos por limpar, as tardes inteiras de torpor e moleza, desperdi√ßadas sem culpa porque sobra vida, porque haver√° tempo. Essa √© a atitude que se op√Ķe √† do miser√°vel a quem a necessidade mais visceral e mesquinha faz ver poesia nesse sorver at√© √† √ļltima gota o que a vida lhe oferece. E n√£o deita nada fora, ent√£o, e guarda para amanh√£, e mesquinhamente esconde as sobras para as aproveitar depois como um c√£o saciado que enterra os ossos junto de uma √°rvore para n√£o desperdi√ßar nem um grama de alimento; e molha no chocolate todos os churros que fazem parte da dose, mesmo a rebentar de cheio, caibam ou n√£o dentro do seu est√īmago. E mil vezes prefer√≠vel deixar sempre qualquer coisa no prato, desdenhar com eleg√Ęncia de parte do festim; jantar, por exemplo, com uma senhora admir√°vel e permitir graciosamente que escape viva. E,

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Marília De Dirceu

Soneto 2

Num fértil campo de soberbo Douro,
Dormindo sobre a relva, descansava,
Quando vi que a Fortuna me mostrava
Com alegre semblante o seu tesouro.

De uma parte, um mont√£o de prata e ouro
Com pedras de valor o ch√£o curvava;
Aqui um cetro, ali um trono estava,
Pendiam coroas mil de grama e louro.

– Acabou – diz-me ent√£o – a desventura:
De quantos bens te exponho qual te agrada,
Pois benigna os concedo, vai, procura.

Escolhi, acordei, e n√£o vi nada:
Comigo assentei logo que a ventura
Nunca chega a passar de ser sonhada.

Noite Afora

A quem devo dizer que em tua carne
se sobreleva o tempo e o duradouro,
mancha de óleo no azul, alaga e intensifica
o contratempo a que chamei amor?

A quem devo dizer dos meus perigos
quando, o corcel furioso, olhei ao longe
e n√£o vi mais limites que o oceano
nem mais convites que o das ondas frias?

Como antepor o corte nas montanhas
‚ÄĒ Liberdade ‚ÄĒ ao dever que a si mesma imp√Ķe a terra
de estender-se conforme o espaço havido?

Mal√≠cia do destino, ardil composto outrora…
Arde a grama da noite em que te vais embora,
e essa chama caminha, essa chama, essas vinhas,

essas uvas, cortadas noite afora.

Manh√£ de Sol com Azulejos

Tudo se veste da cor de teu vestido azul
Tudo ‚ÄĒ menos a dona do vestido:
meus olhos te passeiam nua
pela grama do campo de golfe

Uma curva e eis-nos diante de meu coração

Não amiga   não temas
meu coração;
é apenas um chapéu surrado
que humildemente estendo
para colher um pouco de tua alegria
de tua graça distraída
de teu dia

Para Que Serve A Poesia?

De servir-se utensílio dia a dia
utilidade pr√°tica aplicada,
o nada sobre o nada anula o nada
por desvendar mistério na magia.

O sonho em fantasia iluminada
aqui se oferta em módica quantia
por camel√īs de palavras aladas
marreteiros de mansa mercancia.

De pagamento, apenas um sorriso
de nuvens, uma fatia de grama
de orvalho e o fugaz fulgor de astro arisco.
Serena sentença em sina servida,

seu valor se aquilata e se esparrama
na livre chama acesa de quem ama.