Passagens sobre Horror

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Frases sobre horror, poemas sobre horror e outras passagens sobre horror para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

VIII

Este é o rio, a montanha é esta,
Estes os troncos, estes os rochedos;
S√£o estes inda os mesmos arvoredos;
Esta √© a mesma r√ļstica floresta.

Tudo cheio de horror se manifesta,
Rio, montanha, troncos, e penedos;
Que de amor nos suavíssimos enredos
Foi cena alegre, e urna é já funesta.

Oh qu√£o lembrado estou de haver subido
Aquele monte, e as vezes, que baixando
Deixei do pranto o vale umedecido!

Tudo me está a memória retratando;
Que da mesma saudade o infame ruído
Vem as mortas espécies despertando.

O tempo √© uma constru√ß√£o artificial que sobrepomos a n√≥s e √† qual nos submetemos como a um boneco de horror ou lascivo que pint√°ssemos e que nos subjugasse na sua realidade exterior e inventada por n√≥s. √Č quando perdemos a no√ß√£o do tempo que medimos bem o seu artificialismo.

Eu Deliro, Gertr√ļria, eu Desespero

Eu deliro, Gertr√ļria, eu desespero
No inferno de suspeitas e temores.
Eu da morte as ang√ļstias e os horrores
Por mil vezes sem morrer tolero.

Pelo Céu, por teus olhos te assevero
Que ferve esta alma em c√Ęndidos amores;
Longe o prazer de ilícitos favores!
Quero o teu coração, mais nada quero.

Ah! não sejas também qual é comigo
A cega divindade, a Sorte dura.
A v√°ria Deusa, que me nega abrigo!

Tudo perdi: mas valha-me a ternura
Amor me valha, e pague-me contigo
Os roubos que me faz a m√° ventura.

O Provincianismo Liter√°rio

O provincianismo do querer fazer ¬ęcomo l√° fora¬Ľ n√£o √© pecha s√≥ portuguesa. A maior parte dos pa√≠ses s√£o importadores de cultura. No entanto, redimem-se no desafogo de casos geniais, como um Lorca em Espanha e como um Ghelderode na B√©lgica. Cito estes dois exemplos porque eles acusam o verdadeiro alcance que pode ter o universal quando mergulha nos mais √≠ntimos recessos do popular. Quer Lorca, quer o autor de Mademoiselle Jair, apreenderam na psique espanhola e flamenga algo que encerra o universal em bruto na sua forma mais primitiva e, por isso mesmo, de toda a gente. Entre n√≥s pratica-se o inverso. Tem-se horror do popular pelo grande embasbacamento em que se est√° perante uma cultura que n√£o sendo vivificada pela experi√™ncia, redunda em erudi√ß√£o.

Os Mortos

Ao menos junto dos mortos pode a gente
Crer e esperar n’alguma suavidade:
Crer no doce consolo da saudade
E esperar do descanso eternamente.

Junto aos mortos, por certo, a fé ardente
N√£o perde a sua viva claridade;
Cantam as aves do céu na intimidade
Do coração o mais indiferente.

Os mortos dão-nos paz imensa à vida,
Dão a lembrança vaga, indefinida
Dos seus feitos gentis, nobres, altivos.

Nas lutas v√£s do tenebroso mundo
Os mortos s√£o ainda o bem profundo
Que nos faz esquecer o horror dos vivos.

Soneto de um Céptico

Febo h√° muito desceu no Ocidente
Por tr√°s dos montes de rosa tingidos;
Eu, sofrendo, cerro os olhos doridos
Olhando o mundo que ante mim se estende.

Pois pela noite o rio silente desce,
Oculto no escuro j√° voa o morcego;
Mas, nocturna, a alma n√£o tem sossego,
√Č na escurid√£o que meu horror cresce.

Odeio a noite que a mim se assemelha,
Só que em mim, nem astro ou centelha
Dispersa as nuvens da alma e da mente.

Mas como a noite em seu manto sombrio,
Calado e escondido me quedo no frio,
Envolto em d√ļvidas e delas temente.

O horror será a minha responsabilidade até que se complete a metamorfose e que o horror se transforme em claridade.

Que horror é meter entranhas em entranhas, engordar um corpo com outro corpo, viver da morte de seres vivos.

Tenho horror a tudo quanto de perto ou de longe se assemelha √† popularidade. Abomino mesmo o meu pobre nome por n√£o ser um nome como o de toda a gente; desta maneira, dentro do movimento liter√°rio portugu√™s, sou no meu tempo, e guardadas as devidas dist√Ęncias, um Gustave Flaubert rabugento, desdenhoso das turbas e fechada em mim como num sacr√°rio.

Onde Ser√° a Terra Prometida?

Triste época a nossa! Para que oceano correrá esta torrente de iniquidades? Para onde vamos nós, numa noite tão profunda? Os que querem tactear este mundo doente retiram-se depressa, aterrorizados com a corrupção que se agita nas suas entranhas.
Quando Roma se sentiu agonizar, tinha pelo menos uma esperança, entrevia por detrás da mortalha a Cruz radiosa, brilhando sobre a eternidade. Essa religião durou dois mil anos, mas agora começa a esgotar-se, já não basta, troçam dela; e as suas igrejas caem em ruínas, os seus cemitérios transbordam de mortos.
E nós, que religião teremos nós? Sermos tão velhos como somos, e caminharmos ainda no deserto, como os Hebreus que fugiam do Egipto.
Onde ser√° a Terra prometida?
Tentámos tudo e renegámos tudo, sem esperança; e depois uma estranha ambição invadiu-nos a alma e a humanidade, há uma inquietação imensa que nos rói, há um vazio na nossa multidão; sentimos à nossa volta um frio de sepulcro.
A humanidade come√ßou a mexer em m√°quinas, e ao ver o ouro que nelas brilhava, exclamou: ¬ę√Č Deus!¬Ľ E come esse Deus. H√° – e √© porque tudo acabou, adeus! adeus! – vinho antes da morte! Cada um se precipita para onde o seu instinto o impele,

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O Céu, de Opacas Sombras Abafado

O céu, de opacas sombras abafado,
Tornando mais medonha a noite fea,
Mugindo sobre as rochas, que saltea,
O mar, em crespos montes levantado;

Desfeito em furac√Ķes o vento irado;
Pelos ares zunindo a solta area;
O p√°ssaro nocturno, que vozea
No agoireiro cipreste além pousado;

Formam quadro terrível, mas aceito,
Mas grato aos olhos meus, grato à fereza
Do ci√ļme e saudade, a que ando afeito.

Quer no horror igualar-me a Natureza;
Porém cansa-se em vão, que no meu peito
H√° mais escuridade, h√° mais tristeza.

Ter Opini√Ķes Definidas e Certas

Ter opini√Ķes definidas e certas, instintos, paix√Ķes e car√°cter fixo e conhecido – tudo isto monta ao horror de tornar a nossa alma um facto, de a materializar e tornar exterior. Viver num doce e fluido estado de desconhecimento das coisas e de si pr√≥prio √© o √ļnico modo de vida que a um s√°bio conv√©m e aquece.

Cam√Ķes, Grande Cam√Ķes, qu√£o Semelhante

Cam√Ķes, grande Cam√Ķes, qu√£o semelhante
Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!
Igual causa nos fez, perdendo o Tejo,
Arrostar co’o sacr√≠lego gigante;

Como tu, junto ao Ganges sussurrante,
Da pen√ļria cruel no horror me vejo;
Como tu, gostos v√£os, que em v√£o desejo,
Também carpindo estou, saudoso amante.

Ludíbrio, como tu, da Sorte dura
Meu fim demando ao Céu, pela certeza
De que só terei paz na sepultura.

Modelo meu tu √©s, mas… oh, tristeza!…
Se te imito nos transes da Ventura,
N√£o te imito nos dons da Natureza.

A Grande Dor Das Cousas Que Passaram

A grande dor das cousas que passaram
transmutou-se em finíssimo prazer
quando, entre fotos mil que se esgarçavam,
tive a fortuna e graça de te ver.

Os beijos e amavios que se amavam,
descuidados de teu e meu querer,
outra vez reflorindo, esvoaçaram
em orvalhada luz de amanhecer.

√ď bendito passado que era atroz,
e gozoso hoje terno se apresenta
e faz vibrar de novo minha voz

para exaltar o redivivo amor
que de memória-imagem se alimenta
e em doçura converte o próprio horror!

Em Busca Da Beleza III

Só que puder obter a estupidez
Ou a loucura pode ser feliz.
Buscar, querer, amar… tudo isto diz
Perder, chorar, sofrer, vez após vez.

A estupidez achou sempre o que quis
Do círculo banal da sua avidez;
Nunca aos loucos o engano se desfez
Com quem um falso mundo seu condiz.

Há dois males: verdade e aspiração,
E há uma forma só de os saber males:
√Č conhec√™-los bem, saber que s√£o

Um o horror real, o outro o vazio –
Horror n√£o menos – dois como que vales
Duma montanha que ninguém subiu.

P√°ra, Funesto Destino

P√°ra, funesto destino,
Respeita a minha const√Ęncia;
Pouco vences, se n√£o vences
De minha alma a toler√Ęncia.

Se eu sobrevivo aos estragos
Dos males que me fizeste,
Inutil é combater-me,
Nem me vences, nem venceste.

Com secos olhos diviso
Esse horror que se apresenta:
Os meus existem de glória;
Morrendo a glória os alenta.