Passagens sobre Ladrões

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Frases sobre ladrões, poemas sobre ladrões e outras passagens sobre ladrões para ler e compartilhar. Leia as melhores citações em Poetris.

As citações, no meu trabalho, são como ladrões à beira da estrada, que irrompem armados e arrebatam o consciente do ocioso viajante.

O Corpo Insurrecto

Sendo com o seu ouro, aurĂ­fero,
o corpo Ă© insurrecto.
Consome-se, combustĂ­vel,
no sexo, boca e recto.

Ainda antes que pegue
aos cinco sentidos a chama,
por um aceso acesso
da imaginação
ateiam-se Ă  cama
ou a sĂ­tio algures,
terra de ninguém,
(quem desliza é o espaço
para o corpo que vem),

labaredas tais
que, lume, crepitam
nos ciclos mais extremos,
nas réstias mais íntimas,
as glândulas, esponjas
que os corpos apoiam,
zonas aquáticas
onde os ĂłrgĂŁos boiam.

No amor, dizendo acto de o sagrar,
apertado o corpo do recém-nascido
no ovo solar, há ainda um outro
corpo incluĂ­do,
mas um corpo aquém
de ser sĂŁo ou podre,
um repuxo, um magma,
substância solta,
com pulmões.

Neste amor equĂ­voco
(ou respiração),
sendo um corpo humano,
sendo outro mais alto,
suspenso da morte,
mortalmente intenso,
mais alto e mais denso,

mais talhado Ă© o golpe
quando o põem em prática
com desassossego na respiração
e o sossego cru de quem,

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Sepultura d’um Poeta Maldito

Se, em noite horrorosa, escura,
Um cristĂŁo, por piedade,
te conceder sepultura
Nas ruĂ­nas d’alguma herdade,

As aranhas hĂŁo-de armar
No teu coval suas teias,
E nele irĂŁo procriar
VĂ­boras e centopeias.

E sobre a tua cabeça,
A impedi-la que adormeça.
– Em constantes comoções,

Hás-de ouvir lobos uivar,
Das bruxas o praguejar,
E os conluios dos ladrões.

Tradução de Delfim Guimarães

Saber Estar

És impaciente e difícil de contentar. Se estás só, queixas-te da solidão; se na companhia dos outros, tu os chamas de conspiradores e de ladrões, e achas defeitos nos teus próprios pais, filhos, irmãos e vizinhos. No entanto, quando estás sozinho, deves falar em tranquilidade e liberdade e te considerares igual aos deuses. E quando estás em companhia numerosa, não a deves chamar de turba aborrecida ou ruidosa, mas de assembleia e tribunal, dessarte aceitando tudo com contentamento.

Desde que se cumpram certas cerimĂłnias ou se respeitem certas fĂłrmulas, consegue-se ser ladrĂŁo e escrupulosamente honesto – tudo ao mesmo tempo. A honradez deste homem assenta sobre uma primitiva infâmia. O interesse e a religiĂŁo, a ganância e o escrĂşpulo, a honra e o interesse, podem viver na mesma casa, separados por tabiques. Agora Ă© a vez da honra – agora Ă© a vez do dinheiro – agora Ă© a vez da religiĂŁo. Tudo se acomoda, outras coisas heterogĂ©neas se acomodam ainda. Com um bocado de jeito arranja-se-lhes sempre lugar nas almas bem formadas.

O Teu Amor, Bem Sei

o teu amor, bem sei, Ă© uma palavra musical,
espalha-se por todos nós com a mesma ignorância,
o mesmo ar alheio com que fazes girar, suponho, os epiciclos;
ergues os ombros e dizes, hoje, amanhĂŁ, nunca mais,
surpreende o vigor, a plenitude
das coxas masculinas, habituadas ao cansaço,
separamo-nos, Ă  procura de sinais mais fixos,
e o circuito das chamas recomeça.

Ă© um paĂ­s subtil, o olho franco das mulheres,
há nos passeios garrafas com leite apenas cinzento,
os teus pais disseram: o melhor de tudo Ă© ser engenheiro,
morrer de casaco, com todas as pirâmides acesas,
viajar de navio de buenos aires a montevideu.
esta Ă© a viagem que nĂŁo faremos nunca, soltos
na minuciosa tarde dos lábios,
ágil pobreza.

permanentemente floresce o horizonte em colinas,
os animais olham por dentro, cheios de vazio,
como um ladrĂŁo de pouca perĂ­cia a luz
desfaz devagarmente os corpos.
ele exclama: quando me libertarás da tosca voz dormida,
para que seja
alto e altivo o coração da coisas? até quando aguardarei,
no harmonioso beliche, que a tua visĂŁo cesse?

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NĂŁo Existe Prosa

NĂŁo existe prosa. A menos que se refiram os escritos, em prosa ou verso, que pretendem ensinar. NĂŁo há nada a ensinar embora haja tudo a aprender. Aquilo que se aprende vem do nosso prĂłprio ensino, vem da pergunta; vĂŁo-se aprendendo, pelas esperas, pela imobilidade Ă s portas, pela invisibilidade dos rostos depois de vistos tĂŁo prometedoramente, pela emenda sucessiva, pela insĂłnia sucessiva dos olhos e das figurações, sempre, vĂŁo-se aprendendo sempre as maneiras da pergunta. Uma pergunta em perguntas, um poema em poemas, uma rebarbativa constelação de objectos ofuscantes. Aprende-se que a pergunta se desloca com a luz inerente; ilumina-se a si mesma, a pergunta constelar; ensina a si mesma, ao longo de si mesma, os estilos de ser dotada dessa luz para fora e para dentro. Leio romances desde que perceba que nĂŁo estĂŁo a responder. Alguns sĂŁo extraordinárias máquinas interrogativas: “Ulisses”, “Filhos e Amantes”, “O Doutor Fausto”, “O Processo”, “A Morte de VirgĂ­lio”, “O Som e a FĂşria”, “Debaixo do VulcĂŁo”, “A Obra ao Negro”, “Lolita”, “Diário do LadrĂŁo”, todos os romances de CĂ©line como se fossem um sĂł, alguns outros, antes, agora. Os romances de Agustina Bessa-LuĂ­s, porventura os menos amados, sĂŁo entre nĂłs as quase Ăşnicas máquinas vivas de perguntar.

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