Passagens sobre Projetos

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A juventude de todo o mundo está a perder a capacidade de sonhar. Os jovens têm muitos desejos, mas poucos sonhos. Os desejos não resistem às dificuldades da vida, os sonhos são projectos de vida, sobrevivem ao caos.

Marília De Dirceu

Soneto 12

Obrei quando o discurso me guiava,
Ouvi aos s√°bios quando errar temia;
Aos Bons no gabinete o peito abria,
Na rua a todos como iguais tratava.

Julgando os crimes nunca os votos dava
Mais duro, ou pio do que a Lei pedia;
Mas devendo salvar ao justo, ria,
E devendo punir ao réu, chorava.

N√£o foram, Vila Rica, os meus projetos
Meter em f√©rreo cofre c√≥pia d’ouro
Que farte aos filhos, e que chegue aos netos:

Outras s√£o as fortunas, que me agouro,
Ganhei saudades, adquiri afetos,
Vou fazer destes bens melhor tesouro.

Quando n√≥s consideramos um novo projeto, n√≥s realmente estudamos ele ‚Äď n√£o apenas superficialmente, mas tudo sobre ele.

O Que Verdadeiramente Mata Portugal

O que verdadeiramente nos mata, o que torna esta conjuntura inquietadora, cheia de ang√ļstia, estrelada de luzes negras, quase lutuosa, √© a desconfian√ßa. O povo, simples e bom, n√£o confia nos homens que hoje t√£o espectaculosamente est√£o meneando a p√ļrpura de ministros; os ministros n√£o confiam no parlamento, apesar de o trazerem amaciado, acalentado com todas as doces cantigas de empregos, rendosas conezias, pingues sinecuras; os eleitores n√£o confiam nos seus mandat√°rios, porque lhes bradam em v√£o: ¬ęSede honrados¬Ľ, e v√™em-nos apesar disso adormecidos no seio ministerial; os homens da oposi√ß√£o n√£o confiam uns nos outros e v√£o para o ataque, deitando uns aos outros, combatentes amigos, um turvo olhar de amea√ßa. Esta desconfian√ßa perp√©tua leva √† confus√£o e √† indiferen√ßa. O estado de expectativa e de demora cansa os esp√≠ritos. N√£o se pressentem solu√ß√Ķes nem resultados definitivos: grandes torneios de palavras, discuss√Ķes aparatosas e sonoras; o pa√≠s, vendo os mesmos homens pisarem o solo pol√≠tico, os mesmos amea√ßos de fisco, a mesma gradativa decad√™ncia. A pol√≠tica, sem actos, sem factos, sem resultados, √© est√©ril e adormecedora.

Quando numa crise se protraem as discuss√Ķes, as an√°lises reflectidas, as lentas cogita√ß√Ķes, o povo n√£o tem garantias de melhoramento nem o pa√≠s esperan√ßas de salva√ß√£o.

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Tenho que come√ßar por aceitar-me e n√£o sentir o horror punitivo de cada vez que eu caio, pois quando eu caio a ra√ßa humana em mim tamb√©m cai. Cada mudan√ßa, cada projecto novo causa espanto: meu cora√ß√£o est√° espantado. √Č por isso que toda a minha palavra tem um cora√ß√£o onde circula sangue.

Sinto que precisava de viver mais 50 anos para concretizar todos os projectos que tenho. Se tivesse os meios, não me custava nada fazer dois filmes por ano. Ideias não me faltam, seja através de projecto escritos por mim ou por grandes escritores.

Viver pela Evidência

Creio que já falei disto. Mas de que é que diabo se não falou já? Se não falámos nós, falaram os outros, que também são gente. E no entanto, de cada vez se fala pela primeira vez, porque o que importa não é o que se sabe mas o que se vê. E ver é ver sempre de outra maneira para aquele que vê. Quantas vezes se falou da morte e da vida e do amor e de mil outras coisas sisudas? Mas volta-se sempre à mesma, porque o saber pela evidência é saber pela primeira vez; e uma dor que nos dói ou uma alegria que nos alegra não doeu nem alegrou senão a nós. De modo que de novo me intriga a extraordinária desproporção entre o complexo de uma vida e a coisa chilra que dela resulta.
Mesmo os grandes homens, que s√£o maiores do que n√≥s, que √© que nos deixaram em testamento? Um livro, uma ideia, uma f√≥rmula. E os que nada nos deixaram? Mas uma vida √© fant√°stica pelo que nela aconteceu. H√° assim um desperd√≠cio extraordin√°rio, uma pura perda do que se amealhou. Rela√ß√Ķes, sentimentos, projectos, ac√ß√Ķes correntes que foram desencadear mil efeitos maus ou √ļteis.

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A Grande Diferença da Vida é o Entusiasmo

A grande diferen√ßa da vida √© o entusiasmo. √Č a for√ßa do vento. O entusiasmo √© o nome feio que chamam √†s pessoas que acham gra√ßa a tudo o que existe na vida.

A vida √© a √ļnica volta que damos. Todos os nossos projectos – de sermos melhores ou mais ego√≠stas, mais corajosos ou comedidos – v√£o contra o facto de n√£o termos tempo para corresponder √†s nossas expectativas.

Somos como somos. Mais vale dizermos como somos, com as palavras que temos, do que morrermos à espera de nos exprimirmos mais bem. Não há nenhuma pessoa viva que possa viver mais do que nós. Existem apenas aquelas pessoas práticas e abusadoras que aproveitam as vidas para fazer avançar tudo o que esperam da vida.

A igualdade n√£o √© uma conquista: √© um facto. Exprimirmo-nos √© mais justo quanto menos jeito tivermos para isso. Falar em p√ļblico n√£o √© um desafio: √© uma prova de proximidade.

O entusiasmo é uma vontade de perder tempo. Nada se aprende sem se querer Рdesejar avidamente Рperder tempo. O entusiasmo é uma coisa dos ventos e os ventos vêm de onde quiserem, quando menos se esperam.

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Natureza de Escravo

Desde quando √© que se tornou digno de louvor o facto de algu√©m possuir uma natureza de escravo? Depois de todos os s√≠mbolos do poder terem desaparecido, j√° n√£o tinhas qualquer raz√£o para obedecer, mas continuaste a faz√™-lo. Que for√ßa misteriosa te impelia a obedecer √†s ordens de pessoas t√£o desgra√ßadas como tu, t√£o nuas e miser√°veis como tu? Eras demasiado cobarde para tentares fazer como os outros, para experimentares dizer uma vez que fosse ao capit√£o: vai buscar lenha, preciso de me aquecer √† fogueira. N√£o, tinhas descoberto uma outra solu√ß√£o; enquanto estavas ainda saciado, calculavas friamente que chegaria a hora em que a tua fome seria maior do que a dos outros todos. E ent√£o pensavas: em breve ficarei faminto, tornar-me-ei selvagem e sem escr√ļpulos, revoltar-me-ei, n√£o abertamente, mas de modo dissimulado, contra estes terroristas. Com a cabe√ßa fria, fazias projectos sobre a maneira como utilizarias a tua embriaguez, e √© isso que √© desprez√≠vel.

Os Verdadeiros Males

Vejo uma objec√ß√£o a qualquer esfor√ßo para melhorar a condi√ß√£o humana: √© que os homens s√£o talvez indignos dele. Mas repilo-a sem dificuldade: enquanto o sonho de Cal√≠gula se mantiver irrealiz√°vel e todo o g√©nero humano se n√£o reduzir a uma √ļnica cabe√ßa oferecida ao cutelo, teremos que o tolerar, conter e utilizar para os nossos fins; sem d√ļvida que o nosso interesse ser√° servi-lo. O meu processo baseava-se numa s√©rie de observa√ß√Ķes feitas desde h√° muito tempo em mim pr√≥prio: toda a explica√ß√£o l√ļcida me convenceu sempre, toda a delicadeza me conquistou, toda a felicidade me tornou moderado. E nunca prestei grande aten√ß√£o √†s pessoas bem intencionadas que dizem que a felicidade excita, que a liberdade enfraquece e que a humanidade corrompe aqueles sobre quem √© exercida. Pode ser: mas, no estado habitual do mundo, √© como recusar a alimenta√ß√£o necess√°ria a um homem emagrecido com receio de que alguns anos depois ele possa sofrer de superabund√Ęncia. Quando se tiver diminu√≠do o mais poss√≠vel as servid√Ķes in√ļteis, evitado as desgra√ßas desnecess√°rias, continuar√° a haver sempre, para manter vivas as virtudes her√≥icas do homem, a longa s√©rie de verdadeiros males, a morte, a velhice, as doen√ßas incur√°veis, o amor n√£o correspondido,

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Dispers√£o

Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
√Č com saudades de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na √Ęnsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida…

Para mim é sempre ontem,
N√£o tenho amanh√£ nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.

(O Domingo de Paris
Lembra-me o desaparecido
Que sentia comovido
Os Domingos de Paris:

Porque um domingo é familia,
√Č bem-estar, √© singeleza,
E os que olham a beleza
Não têm bem-estar nem familia).

O pobre mo√ßo das √Ęnsias…
Tu, sim, tu eras alguém!
E foi por isso também
Que te abismaste nas √Ęnsias.

A grande ave dourada
Bateu asas para os céus,
Mas fechou-as saciada
Ao ver que ganhava os céus.

Como se chora um amante,
Assim me choro a mim mesmo:
Eu fui amante inconstante
Que se traíu a si mesmo.

Não sinto o espaço que encerro
Nem as linhas que projecto:
Se me olho a um espelho,

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Grandes Planos de Vida

Uma das maiores e mais frequentes asneiras consiste em fazer grandes planos para a vida, qualquer que seja a sua natureza. Para come√ßar, esses planos pressup√Ķem uma vida humana inteira e completa, que, no entanto, somente pouqu√≠ssimos conseguem alcan√ßar. Al√©m disso, mesmo que estes consigam viver muito, esse per√≠odo de vida ainda √© demasiado curto para tais planos, uma vez que a sua realiza√ß√£o exige sempre muito mais tempo do que se imaginava; esses projectos, ademais, como todas as coisas humanas, est√£o de tal modo sujeitos a fracassos e obst√°culos, que raramente chegam a bom termo. E, mesmo se no final tudo √© alcan√ßado, n√£o se leva em conta o facto de que no decorrer dos anos o pr√≥prio ser humano se modifica e n√£o conserva as mesmas capacidades nem para agir, nem para usufruir:

aquilo que se prop√īs fazer durante a vida toda, na velhice parece-lhe insuport√°vel – j√° n√£o tem condi√ß√Ķes de ocupar a posi√ß√£o conquistada com tanta dificuldade, e portanto as coisas chegaram-lhe tarde demais; ou o inverso, quando ele quis fazer algo de especial e realiz√°-lo, √© ele que chega tarde demais com respeito √†s coisas. O gosto da √©poca mudou, a nova gera√ß√£o n√£o se interessa pelas suas conquistas,

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Amo-te Tanto

amo-te tanto mas hoje tenho de levar o carro ao mec√Ęnico, as rodas fazem um barulho estranho, n√£o deve ser nada, mas √© melhor prevenir, amanh√£ prometo que vamos ver que tal se come naquele restaurante novo junto √† rotunda, e depois levo-te ao cinema, ai n√£o que n√£o levo,
amo-te tanto mas hoje tenho de ver o treino do mi√ļdo, o treinador ligou e disse-me que temos craque, o nosso menino a jogar como gente grande, v√™ l√° tu, quando chegar com ele v√™ se tens prontinha aquela comida que ele adora, o puto merece, ai n√£o que n√£o merece,
amo-te tanto mas hoje tenho de ficar at√© tarde no escrit√≥rio, h√° aquele projecto do estrangeiro para fechar, est√° aqui tudo perdido de nervos, n√£o sei se aguento, daqui a pouco ligo-te para saber como vai tudo, o mi√ļdo e as coisas a√≠ em casa, agora tenho de ir mostrar a esta gente toda como se trabalha, ai n√£o que n√£o tenho,
amo-te tanto mas hoje tenho de me deitar cedo, amanhã é aquela reunião importante de que te falei, se conseguir o cliente vamos ser tão felizes, aquela casa, o carro novo, quem sabe?, só tenho de o conseguir convencer,

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Os Partidos Forçaram-me à Ditadura

Sinceramente desejei evitar a ditadura, para onde os acontecimentos pareciam querer arrastar-me, e tive para isso de suportar duas crises ministeriais sucessivas. S√£o esses mesmos, os partidos, que me for√ßam agora a ela. Um, recusando-se a colaborar no governo, contra o que eu desejava e devia esperar; o outro, fazendo causa comum nos tumultos da C√Ęmara. N√£o h√°, por agora, outro meio de governar. Chegassem os republicanos ao poder, e teriam de recorrer √† ditadura. Pois bem: se qualquer governo tem de a usar, e sem governo n√£o se passa, ningu√©m com mais direito a faz√™-lo do que voc√™s. Deram uma sess√£o parlamentar ininterrupta de seis meses. Ningu√©m poder√° acus√°-los de fugir do parlamento, onde tiveram os seus melhores dias, e que ainda hoje estaria aberto, se materialmente lho n√£o houvessem impedido. T√™m governado com tal lisura e t√£o firmes prop√≥sitos de acertar, que ganharam a simpatia e a confian√ßa geral. Mostraram larga iniciativa de governo nos numerosos e complexos projectos apresentados nas C√Ęmaras. T√™m, enfim, unidade de vistas, resolu√ß√£o de mando, vontade de governar. Continuem a governar bem, como at√© aqui, e dar-lhes-ei todo o meu apoio.

Valoriza-se mais o Ter que o Ser

A primeira fase da domina√ß√£o da economia sobre a vida social levou, na defini√ß√£o de toda a realiza√ß√£o humana, a uma evidente degrada√ß√£o do ser em ter. A fase presente da ocupa√ß√£o total da vida social em busca da acumula√ß√£o de resultados econ√≥micos conduz a uma busca generalizada do ter e do parecer, de forma que todo o ¬ęter¬Ľ efectivo perde o seu prest√≠gio imediato e a sua fun√ß√£o √ļltima. Assim, toda a realidade individual tornou-se social e directamente dependente do poderio social obtido.

(…) O espect√°culo √© o herdeiro de toda a fraqueza do projecto filos√≥fico ocidental, que foi uma compreens√£o da actividade dominada pelas categorias do ver; assim como se baseia no incessante alargamento da racionalidade t√©cnica precisa, proveniente deste pensamento. Ele n√£o realiza a filosofia, ele filosofa a realidade. √Č a vida concreta de todos que se degradou em universo especulativo.
A filosofia, enquanto poder do pensamento separado, e pensamento do poder separado, nunca pode por si própria superar a teologia. O espectáculo é a reconstrução material da ilusão religiosa. A técnica espectacular não dissipou as nuvens religiosas onde os homens tinham colocado os seus próprios poderes desligados de si: ela ligou-os somente a uma base terrestre.

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Não Temos um Projecto de País

Mas a realidade é esta: não temos um projecto de país. Vivemos ao deus-dará, conforme o lado de que o vento sopra. As pessoas já não pensam só no dia-a-dia, pensam no minuto a minuto. Estamos endividados até às orelhas e fazemos uma falsa vida de prosperidade. Aparência, aparência, aparência Рe nada por trás. Onde estão as ideias? Onde está uma ideia de futuro para Portugal? Como vamos viver quando se acabarem os dinheiros da Europa? Os governos todos navegam à vista da costa e parece que ninguém quer pensar nisto, ninguém ousa ir mais além.

Às vezes não conseguimos realizar os nossos projetos, porque surge um imprevisto urgente que perturba os nossos planos e requer flexibilidade e disponibilidade para as necessidades dos outros.

Espíritos Dirigentes e seus Instrumentos

Vemos grandes estadistas e, em geral, todos aqueles, que devem servir-se de muitas pessoas para a execu√ß√£o dos seus planos, comportarem-se ora de uma maneira, ora de outra: ou seleccionam muito apurada e cuidadosamente as pessoas que conv√™m aos seus projectos e lhes deixam, depois, uma liberdade relativamente grande, porque sabem que a natureza desses indiv√≠duos escolhidos os impele precisamente para onde eles pr√≥prios querem que eles v√£o; ou, ent√£o, escolhem mal, pegam mesmo no que t√™m √† m√£o, mas formam a partir desse barro algo que serve para os seus fins. Este √ļltimo g√©nero √© o mais violento, tamb√©m o que procura instrumentos mais submissos; o seu conhecimento dos homens √©, habitualmente, muito mais escasso, o seu desprezo pelos homens √© maior do que no caso dos esp√≠ritos mencionados em primeiro lugar, mas a m√°quina, que eles constroem, trabalha melhor, de maneira geral, que a m√°quina sa√≠da da oficina daqueles.