Passagens sobre Calma

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Frases sobre calma, poemas sobre calma e outras passagens sobre calma para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Amor

Tu acendeste-me o lume,
Naquela tarde de frio. E do jardim,
Solit√°rio e sombrio,
Vinha até mim
Um suave perfume
De goivos a morrer.

Sobre a cidade calma,
As nuvens, uma a uma,
Como flocos de espuma,
Passavam a correr.

Era uma tarde, das tardes mais frias!
E as coisas n√£o me sorriam.
Somente,
Doente,
Tu me sorrias.

Na vidraça, como gelo,
Soluçaram gotas de água.
Afaguei o teu cabelo,
Com alegria e com m√°goa.

Era uma tarde sombria,
De luz bem singular.
Tarde t√£o fria,
Até parecia
Que tudo ia gelar.

A Noite Desce

Como p√°lpebras roxas que tombassem
Sobre uns olhos cansados, carinhosas,
A noite desce… Ah! doces m√£os piedosas
Que os meus olhos tristíssimos fechassem!

Assim m√£os de bondade me beijassem!
Assim me adormecessem! Caridosas
Em braçados de lírios, de mimosas,
No crep√ļsculo que desce me enterrassem!

A noite em sombra e fumo se desfaz…
Perfume de baunilha ou de lil√°s,
A noite p√Ķe embriagada, louca!

E a noite vai descendo, sempre calma…
Meu doce Amor tu beijas a minh’alma
Beijando nesta hora a minha boca!

Elogio da Morte

I

Altas horas da noite, o Inconsciente
Sacode-me com força, e acordo em susto.
Como se o esmagassem de repente,
Assim me pára o coração robusto.

N√£o que de larvas me pov√īe a mente
Esse v√°cuo nocturno, mudo e augusto,
Ou forceje a raz√£o por que afugente
Algum remorso, com que encara a custo…

Nem fantasmas nocturnos vision√°rios,
Nem desfilar de espectros mortu√°rios,
Nem dentro de mim terror de Deus ou Sorte…

Nada! o fundo dum po√ßo, h√ļmido e morno,
Um muro de silêncio e treva em torno,
E ao longe os passos sepulcrais da Morte.

II

Na floresta dos sonhos, dia a dia,
Se interna meu dorido pensamento.
Nas regi√Ķes do vago esquecimento
Me conduz, passo a passo, a fantasia.

Atravesso, no escuro, a névoa fria
D’um mundo estranho, que pov√īa o vento,
E meu queixoso e incerto sentimento
S√≥ das vis√Ķes da noite se confia.

Que místicos desejos me enlouquecem?
Do Nirvana os abismos aparecem,
A meus olhos, na muda imensidade!

N’esta viagem pelo ermo espa√ßo,

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Mealheiro De Almas

L√°, das colheitas do celeste trigo,
Deus ainda escolhe a mais louçã colheita:
√Č a alma mais serena e mais perfeita
Que ele destina conservar consigo.

Fica l√°, livre, isenta de perigo,
Tranq√ľila, pura, l√≠mpida, direita
A alma sagrada que resume a seita
Dos que fazem do Amor eterno Abrigo.

Ele quer essas almas, os p√£es alvos
Das aras celestiais, claros e salvos
Da Terra, em busca das Esferas calmas.

Ele quer delas todo o amor primeiro
Para formar o c√Ęndido mealheiro
Que h√° de estrelar todo o Infinito de almas.

Revelação

I

Escafandrista de insondado oceano
Sou eu que, aliando Buda ao sibarita,
Penetro a essência plásmica infinita,
-Mãe promíscua do amor e do ódio insano!

Sou eu que, hirto, auscultando o absconso arcano,
Por um poder de ac√ļstica esquisita,
Ouço o universo ansioso que se agita
Dentro de cada pensamento humano!

No abstrato abismo equóreo, em que me Inundo,
Sou eu que, revolvendo o ego profundo
E a ódio dos cérebros medonhos,

Restituo triunfalmente à esfera calma
Todos os cosmos que circulam na alma
Sob a forma embriológica de sonhos!

Julga-Me A Gente Toda Por Perdido

Julga-me a gente toda por perdido,
vendo-me, t√£o entregue a meu cuidado,
andar sempre dos homens apartado,
e dos tratos humanos esquecido.

Mas eu, que tenho o mundo conhecido,
e quase que sobre ele ando dobrado,
tenho por baixo, r√ļstico, enganado,
quem não é com meu mal engrandecido.

V√£o revolvendo a terra, o mar e o vento,
busquem riquezas, honras a outra gente,
vencendo ferro, fogo, frio e calma;

que eu só em humilde estado me contento,
de trazer esculpido eternamente
vosso fermoso gesto dentro n’alma.

Aos que a Felicidade é Sol, Virá a Noite

Quero ignorado, e calmo
Por ignorado, e próprio
Por calmo, encher meus dias
De n√£o querer mais deles.

Aos que a riqueza toca
O ouro irrita a pele.
Aos que a fama bafeja
Embacia-se a vida.

Aos que a felicidade
√Č sol, vir√° a noite.
Mas ao que nada ‘spera
Tudo que vem é grato.

A Flauta Calma de P√£

De Apolo o carro rodou pra fora
Da vista. A poeira que levantara
Ficou enchendo de leve névoa
O horizonte;

A flauta calma de P√£, descendo
Seu tom agudo no ar pausado,
Deu mais tristezas ao moribundo
Dia suave.

C√°lida e loura, n√ļbil e triste,
Tu, mondadeira dos prados quentes,
Ficas ouvindo, com os teus passos
Mais arrastados,

A flauta antiga do deus durando
Com o ar que cresce pra vento leve,
E sei que pensas na deusa clara
Nada dos mares,

E que v√£o ondas l√° muito adentro
Do que o teu seio sente cansado
Enquanto a flauta sorrindo chora
Palidamente.

M√ļsica e Literatura

No M√©xico, enquanto escrevia ¬ęCem Anos de Solid√£o¬Ľ ‚ÄĒ entre 1965 e 1966 -, s√≥ tive dois discos que se gastaram de tanto serem ouvidos: os Prel√ļdios de Debussy e ¬ęA hard day’s night¬Ľ dos Beatles. Mais tarde, quando por fim tive em Barcelona quase tantos como sempre quis, pareceu-me demasiado convencional a classifica√ß√£o alfab√©tica e adoptei para minha comodidade privada a ordem por instrumentos: o violoncelo, que √© o meu favorito, de Vivaldi a Brahms; o violino, desde Corelli at√© Sch√Ķnberg; o cravo e o piano, de Bach a Bart√≥k. At√© descobrir o milagre de que tudo o que soa √© m√ļsica, inclu√≠dos os pratos e os talheres no lava-loi√ßas, sempre que criem a ilus√£o de nos indicar por onde vai a vida.

A minha limita√ß√£o era que n√£o podia escrever com m√ļsica porque prestava mais aten√ß√£o ao que ouvia do que ao que escrevia, e ainda hoje assisto a muito poucos concertos porque sinto que na cadeira se estabelece uma esp√©cie de intimidade um pouco impudica com vizinhos estranhos. No entanto, com o tempo e as possibilidades de ter boa m√ļsica em casa, aprendi a escrever com um fundo musical de acordo com o que escrevo.

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A Flor Do Sonho

A Flor do Sonho, alvíssima, divina,
Miraculosamente abriu em mim,
Como se uma magnólia de cetim
Fosse florir num muro todo em ruína.

Pende em meu seio a haste branda e fina
E não posso entender como é que, enfim,
Essa t√£o rara flor abriu assim! …
Milagre… fantasia… ou, talvez, sina…

√ď flor que em mim nasceste sem abrolhos,
Que tem que sejam tristes os meus olhos
Se eles s√£o tristes pelo amor de ti?!…

Desde que em mim nasceste em noite calma,
Voou ao longe a asa da minh’alma
E nunca, nunca mais eu me entendi…

A Despedida da Morte

Falo de mim porque bem sei que a vida
lava o meu rosto com o suor dos outros,
que também sou, pois sou tudo o que posto

ao meu redor se cala, e é pedra, ou, água,
cicia apenas ‚ÄĒ O teu tempo √© a trava
que te impede de ter a calma clara

do ch√£o de lajes que o sol recobre,
este esperar por tudo que n√£o corre,
nem pára e nem se apressa, e é só estado,

e nem sequer murmura: ‚ÄĒ O que te trazem
é o riso e o lamento, o ser amado
e o roçar cada dia a tua morte,

que n√£o rep√Ķe em ti o, sem passado,
ficar no teu escuro, pois herdaste
e legas um sussurro, um som de passos,

uma sombra, um olhar sobre a paisagem,
mem√≥ria, c√°lcio, h√ļmus, eis que o mundo
nada rejeita, sendo pobre e triste
no esplendor que nos d√°. A madrugada.

Opi√°rio

Ao Senhor M√°rio de S√°-Carneiro

√Č antes do √≥pio que a minh’alma √© doente.
Sentir a vida convalesce e estiola
E eu vou buscar ao ópio que consola
Um Oriente ao oriente do Oriente.

Esta vida de bordo h√°-de matar-me.
São dias só de febre na cabeça
E, por mais que procure até que adoeça,
j√° n√£o encontro a mola pra adaptar-me.

Em paradoxo e incompetência astral
Eu vivo a vincos de ouro a minha vida,
Onda onde o pundonor é uma descida
E os pr√≥prios gozos g√Ęnglios do meu mal.

√Č por um mecanismo de desastres,
Uma engrenagem com volantes falsos,
Que passo entre vis√Ķes de cadafalsos
Num jardim onde h√° flores no ar, sem hastes.

Vou cambaleando através do lavor
Duma vida-interior de renda e laca.
Tenho a impress√£o de ter em casa a faca
Com que foi degolado o Precursor.

Ando expiando um crime numa mala,
Que um av√ī meu cometeu por requinte.
Tenho os nervos na forca, vinte a vinte,
E caí no ópio como numa vala.

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O certo é que todo lugar é lugar de livros, todo lugar é bom para livros, mesmo um banheiro, uma copa, uma sala caseira de cinema, uma brinquedoteca, uma varanda… Queremos ficar sempre perto desses nossos amigos leais, francos, divertidos, eloquentes, silenciosos, calmos e sábios, que são os livros.

Só Esta Liberdade nos Concedem os Deuses

Só esta liberdade nos concedem
Os deuses: submetermo-nos
Ao seu domínio por vontade nossa.
Mais vale assim fazermos
Porque só na ilusão da liberdade
A liberdade existe.

Nem outro jeito os deuses, sobre quem
O eterno fado pesa,
Usam para seu calmo e possuído
Convencimento antigo
De que é divina e livre a sua vida.

Nós, imitando os deuses,
T√£o pouco livres como eles no Olimpo,
Como quem pela areia
Ergue castelos para encher os olhos,
Ergamos nossa vida
E os deuses saber√£o agradecer-nos
O sermos t√£o como eles.

A Infelicidade da Juventude

O que faz da juventude um período infeliz é a caça à felicidade, na firme pressuposição de que ela tem de ser encontrada na existência. Disso resulta a esperança sempre malograda e, desta, o descontentamento. Imagens enganosas de uma vaga felicidade onírica pairam perante nós revestidas de formas caprichosamente escolhidas, fazendo-nos procurar em vão o seu original. Por isso, nos anos da juventude, estamos quase sempre descontentes com a nossa situação e o nosso ambiente, não importando quais sejam; porque lhes atribuímos o que na verdade pertence, em toda a parte, à vacuidade e à indigência da vida humana, com as quais só então travamos o primeiro conhecimento, após termos esperado coisas bem diversas. Ganhar-se-ia bastante se, pela instrução em tempo apropriado, fosse erradicada nos jovens a ilusão de que há muito a encontrar no mundo. Porém, é o contrário que acontece: na maioria das vezes, conhecemos a vida primeiro pela poesia, e depois pela realidade.
Na aurora da nossa juventude, as cenas descritas pela poesia resplandecem diante dos nossos olhos, e o anelo atormenta-nos para vê-las realizadas, a tocar o arco-íris. O jovem espera que o curso da sua vida se dê na forma de um romance interessante.

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Somente em Ser Mud√°vel Tem Firmeza

Todo animal da calma repousava,
Só Liso o ardor dela não sentia;
Que o repouso do fogo, em que ele ardia,
Consistia na Ninfa que buscava.

Os montes parecia que abalava
O triste som das m√°goas que dizia:
Mas nada o duro peito comovia,
Que na vontade de outro posto estava.

Cansado j√° de andar pela espessura,
No tronco de uma faia, por lembrança
Escreve estas palavras de tristeza:

Nunca ponha ninguém sua esperança
Em peito feminil, que de natura
Somente em ser mud√°vel tem firmeza.

De seu calmo esconderijo,
o ouro vem, dócil e ingênuo;
torna-se pó, folha, barra,
prest√≠gio, poder, engenho…
√Č t√£o claro! – e turva tudo:
honra, amor e pensamento

O Meu Desejo

Vejo-te só a ti no azul dos céus,
Olhando a nuvem de oiro que flutua…
√ď minha perfei√ß√£o que criou Deus
E que num dia lindo me fez sua!

Nos vultos que diviso pela rua,
Que cruzam os seus passos com os meus…
Minha boca tem fome só da tua!
Meus olhos têm sede só dos teus!

Sombra da tua sombra, doce e calma,
Sou a grande quimera da tua alma
E, sem viver, ando a viver contigo…

Deixa-me andar assim no teu caminho
Por toda a vida, amor, devagarinho,
At√© a Morte me levar consigo…

Quando a dor cortante o cora√ß√£o maltrata e tristes gemidos ferem nossa alma, apenas a m√ļsica e seus sons de prata, r√°pido nos trazem outra vez a calma!

Uma Significação para a Vida

Como √© que o homem vai viver sem uma significa√ß√£o para a vida? Donde essa significa√ß√£o? Os suced√Ęneos dos deuses atropelam-se tumultuosos, mas duram menos que os deuses, duram menos que um homem. Imaginei um dia que o homem viria a aceitar a sua condi√ß√£o em plenitude. S√≥ n√£o imagino esse homem. Porque imaginando-o como me √© poss√≠vel, penso que admitir√° uma transcend√™ncia inomin√°vel, uma dimens√£o que supere o imediato da vida. S√≥ que o pens√°-lo n√£o me afecta o sentir. Tenho o enigma mas n√£o a chave que o desvende. Sei a interroga√ß√£o, mas n√£o posso convert√™-la na pergunta a que se d√° uma resposta. Da integra√ß√£o do homem no mist√©rio do universo o que me fica √© a vertigem. Mas aguento-me a√≠ sem me retirar do abismo nem cair nele. O curioso √© que s√£o os ¬ęracionalistas¬Ľ quem menos se perturba com a sem-raz√£o de tudo isto. Porque eles √© que deviam saber, mais do que os outros, o porqu√™ e o para qu√™. N√£o querem. O mundo existe-lhes assim mesmo, sem significa√ß√£o. Para mim me existe tamb√©m. Mas isso aturde-me. A velhice que se anuncia, anuncia-me a aceita√ß√£o e a serenidade. Mas n√£o me anuncia a liquida√ß√£o do problema.

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