Passagens sobre Comoção

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Frases sobre como√ß√£o, poemas sobre como√ß√£o e outras passagens sobre como√ß√£o para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

VI

Brandas ribeiras, quanto estou contente
De ver nos outra vez, se isto é verdade!
Quanto me alegra ouvir a suavidade,
Com que Fílis entoa a voz cadente!

Os rebanhos, o gado, o campo, a gente,
Tudo me est√° causando novidade:
Oh como é certo, que a cruel saudade
Faz tudo, do que foi, mui diferente!

Recebei (eu vos peco) um desgraçado,
Que andou té agora por incerto giro
Correndo sempre atr√°s do seu cuidado:

Este pranto, estes ais, com que respiro,
Podendo comover o vosso agrado,
Façam digno de vós o meu suspiro.

O Sarcófago

Senhor da alta hermenêutica do Fado
Perlustro o atrium da Morte… √Č frio o ambiente
E a chuva corta inexoravelmente
O dorso de um sarcófago molhado!

Ah! Ninguém ouve o soluçante brado
De dor profunda, acérrima e latente.
Que o sarcófago, ereto e imóvel sente
Em sua própria sombra sepultado!

Dói-lhe (quem sabe?!) essa grandeza horrível
Que em toda a sua m√°scara se expande,
√Ä humana como√ß√£o impondo-a, inteira…

Dói-lhe, em suma, perante o Incognoscível
Essa fatalidade de ser grande
Para guardar unicamente poeira!

Bem comido, a minha alma de nada quer saber. E nem os maiores desgostos a conseguem comover.

√Č motivo de como√ß√£o para mim saber que tantos pobres se identificaram com o cego Bartimeu, do qual fala o evangelista Marcos (10:46-52).

Bartimeu ¬ęestava sentado √† beira da estrada a pedir esmola¬Ľ e, tendo ouvido que passava Jesus,¬† ¬ęcome√ßou a gritar¬Ľ e a pedir ao ¬ęfilho de David¬Ľ que tivesse d√≥ dele. ¬ęMuitos o repreenderam para que se calasse, mas ele gritava ainda mais alto.¬Ľ

Cristo E A Ad√ļltera

(Grupo de Bernardelli)

Sente-se a extrema comoção do artista
No grupo ideal de pl√°cida candura,
Nesse esplendor t√£o fino da escultura
Para onde a luz de todo o olhar enrista.

Que campo, ali, de r√ļtila conquista
Deve rasgar, do m√°rmore na alvura,
O estatu√°rio — que amplid√£o segura
Tem — de alma e bra√ßo, de raz√£o e vista!

Vê-se a mulher que implora, ajoelhada,
A mais serena compaix√£o sagrada
De um Cristo feito a largos tons gloriosos.

De um Nazareno compassivo e terno,
D’olhos que lembram, cheios de falerno,
Dois inef√°veis cora√ß√Ķes piedosos!

Dia de Natal

Hoje é dia de ser bom.
√Č dia de passar a m√£o pelo rosto das crian√ßas,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.
√Č dia de pensar nos outros ‚Äď coitadinhos ‚Äď nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que n√£o merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
√Č s√≥ abrir o r√°dio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?)
N√£o seja est√ļpido! Compre imediatamente um rel√≥gio de pulso antimagn√©tico.)
Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente acotovela,

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Felicidade e Cultura

A vis√£o das imedia√ß√Ķes da nossa inf√Ęncia comove-nos: a casa de campo, a igreja com as sepulturas, a lagoa e o bosque… √© sempre com padecimento que voltamos a ver isso. Apodera-se de n√≥s a compaix√£o para com n√≥s pr√≥prios, pois por que sofrimentos n√£o pass√°mos, desde ent√£o! E ali continua a estar tudo t√£o calmo, t√£o eterno: s√≥ n√≥s estamos mudados, t√£o agitados; at√© tornamos a encontrar algumas pessoas, nas quais o tempo n√£o meteu dente mais do que num carvalho: camponeses, pescadores, habitantes da floresta… s√£o os mesmos. Como√ß√£o, compaix√£o consigo pr√≥prio, √† vista da cultura inferior, √© sinal de cultura superior; donde se conclui que, por interm√©dio desta, a felicidade, em todo o caso, n√£o foi acrescida. Justamente, quem quiser colher da vida felicidade e deleite s√≥ tem que se desviar sempre da cultura superior.

Soneto De Intimidade

Nas tardes da fazenda h√° muito azul demais.
Eu saio às vezes, sigo pelo pasto agora
Mastigando um capim, o peito nu de fora
No pijama irreal de há três anos atrás.

Desço o rio no vau dos pequenos canais
Para ir beber na fonte a √°gua fria e sonora
E se encontro no mato o rubro de uma amora
Vou cuspindo-lhe o sangue em torno dos currais.

Fico ali respirando o cheiro bom do estrume
Entre as vacas e os bois que me olham sem ci√ļme
E quando por acaso uma mijada ferve

Seguida de um olhar não sem malícia e verve
Nós todos, animais sem comoção nenhuma
Mijamos em comum numa festa de espuma.

O Meu Primeiro Poema

T√™m-me perguntado muitas vezes quando escrevi o primeiro poema, quando nasceu a minha poesia. Tentarei record√°-lo. Muito para tr√°s, na minha inf√Ęncia, mal sabendo ainda escrever, senti uma vez uma intensa como√ß√£o e rabisquei umas quantas palavras semi-rimadas, mas estranhas para mim, diferentes da linguagem quotidiana. Passei-as a limpo num papel, dominado por uma ansiedade profunda, um sentimento at√© ent√£o desconhecido, misto de ang√ļstia e de tristeza. Era um poema dedicado √† minha m√£e, ou seja, √†quela que conheci como tal, a ang√©lica madrasta cuja sombra suave me protegeu toda a inf√Ęncia. Completamente incapaz de julgar a minha primeira produ√ß√£o, levei-a aos meus pais. Eles estavam na sala de jantar, afundados numa daquelas conversas em voz baixa que dividem mais que um rio o mundo das crian√ßas e o dos adultos. Estendi-lhes o papel com as linhas, tremente ainda da primeira visita da inspira√ß√£o. O meu pai, distraidamente, tomou-o nas m√£os, leu-o distraidamente, devolveu-mo distraidamente, dizendo-me:
‚ÄĒ Donde o copiaste?

E continuou a falar em voz baixa com a minha mãe dos seus importantes e remotos assuntos. Julgo recordar que nasceu assim o meu primeiro poema e que assim tive a primeira amostra distraída de crítica literária.

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√Č mais f√°cil imaginar a morte de uma pessoa que de cem ou mil… multiplicado, o sofrimento torna-se abstracto. N√£o √© f√°cil a como√ß√£o por coisas abstractas.

As literaturas s√£o os registos condensados do pensamento p√ļblico. Os grandes livros n√£o se produzem sen√£o quando as grandes ideias agitam o mundo, quando os povos praticam os grandes feitos, quando os poetas recebem da sociedade as grandes como√ß√Ķes.

L√ļbrica

Mandaste-me dizer,
No teu bilhete ardente,
Que h√°s de por mim morrer,
Morrer muito contente.

Lançastes, no papel
As mais lascivas frases;
A carta era um painel
De cenas de rapazes!

√ď c√°lida mulher,
Teus dedos delicados
Traçaram do prazer
Os quadros depravados!

Contudo, um teu olhar
√Č muito mais fogoso,
Que a febre epistolar
Do teu bilhete ansioso:

Do teu rostinho oval
Os olhos t√£o nefandos
Traduzem menos mal
Os vícios execrandos.

Teus olhos sensuais,
Libidinosa Marta,
Teus olhos dizem mais
Que a tua própria carta.

As grandes como√ß√Ķes
Tu neles, sempre, espelhas;
S√£o l√ļbricas paix√Ķes
As v√≠vidas centelhas…

Teus olhos imorais,
Mulher, que me dissecas,
Teus olhos dizem mais
Que muitas bibliotecas!

Êxtase De Mármore

√Ä grande atriz Apol√īnia.

O m√°rmore profundo e cinzelado
De uma est√°tua viril, deliciosa;
Essa pedra que geme, anseia e goza
Num misticismo altíssimo e calado;

Essa pedra imortal — campo rasgado
A comoção mais íntima e nervosa
Da alma do artista, de um frescor de rosa,
Feita do azul de um céu muito azulado;

Se te visse o clar√£o que pelos ombros
Teus, rola, cai, nos m√ļltiplos assombros
Da Arte sonora, plena de harmonia;

O mármore feliz que é muito artista
Tamb√©m — como tu √©s — √† tua vista
De humildade e ci√ļme, coraria!

Delicadeza

Essa delicadeza, cada vez mais difícil, pela qual se perde
a vida, como a entendo,
pratico.
Essa subtileza de pesadelo branco, como a sinto
extrema sempre,
às vezes.
Ingénua Рum animal discreto; sem dono
e sem direitos.
Por ela arrisco um aceitar alguém
que nunca foi
criança.
Um ler que me não prende mais a atenção, um ser gentil
para com uma pessoa ingrata
– um cultivar uma paix√£o isenta
“dos cardos do contacto”.
Um n√£o precisar esclarecer seja o que for,
pois tudo na vida é afinal
bem mais sério
do que parece.
√Č por essa gentileza
que se um grito me chega ao ouvido
prefiro escutar nele o cheiro de um corpo que se perdeu
do meu
e ainda assim dizer
Deus seja louvado,
oxal√° ele consiga agora ficar
silencioso qual rasto de leitura sem palavra.
Sim, é por essa gentileza, mulher poeta ou homem sensível
– n√£o me distingo nem de um nem do outro -,
que muito embora as minhas esperanças
se tenham desfeito h√° muito
me permito,

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Impassível

Teu coração de mármore não ama
Nem um dia sequer, nem um só dia.
Essa inclemente natureza fria
Jamais na luz dos astros se derrama.

Mares e céus, a imensidade clama
Por esse olhar d’estrelas e harmonia,
Sem uma névoa de melancolia,
Do amor nas pompas e na vida chama.

A Imensidade nunca mais quer vê-lo,
Indiferente √†s como√ß√Ķes, de gelo
Ao mar, ao sol, aos roseirais de aromas.

Ama com o teu olhar, que a tudo encantas,
Ou se antes de pedra, como as santas,
Mudas e tristes dentro das redomas.

Uma como√ß√£o descomunal imobilizou-a no seu centro de gravidade, plantou-a no lugar, e a sua vontade defensiva foi demolida pela ansiedade irresist√≠vel de descobrir o que eram os apitos alaranjados e os bal√Ķes invis√≠veis que a esperavam do outro lado da morte.

Elegia do Amor

Lembras-te, meu amor,
Das tardes outonais,
Em que íamos os dois,
Sozinhos, passear,
Para fora do povo
Alegre e dos casais,
Onde só Deus pudesse
Ouvir-nos conversar?
Tu levavas, na m√£o,
Um lírio enamorado,
E davas-me o teu braço;
E eu, triste, meditava
Na vida, em Deus, em ti…
E, além, o sol doirado
Morria, conhecendo
A noite que deixava.
Harmonias astrais
Beijavam teus ouvidos;
Um crep√ļsculo terno
E doce diluía,
Na sombra, o teu perfil
E os montes doloridos…
Erravam, pelo Azul,
Can√ß√Ķes do fim do dia.
Can√ß√Ķes que, de t√£o longe,
O vento vagabundo
Trazia, na mem√≥ria…
Assim o que partiu
Em fr√°gil caravela,
E andou por todo o mundo,
Traz, no seu coração,
A imagem do que viu.

Olhavas para mim,
Às vezes, distraída,
Como quem olha o mar,
√Ä tarde, dos rochedos…
E eu ficava a sonhar,
Qual névoa adormecida,
Quando o vento também
Dorme nos arvoredos.
Olhavas para mim…
Meu corpo rude e bruto
Vibrava,

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O Peso Bruto da Irritação

Se f√īssemos contabilizar as paix√Ķes desta vida, os √≥dios e os amores, os grandes sobressaltos, as como√ß√Ķes, os transtornos, os arrebatamentos e os arroubos, os momentos de terror e de esperan√ßa, os ataques de ansiedade e de ternura, a viol√™ncia dos desejos, os acessos de saudade e as eleva√ß√Ķes religiosas e se as som√°ssemos todas numa s√≥ sensa√ß√£o, n√£o seria nada comparada com o peso bruto da irrita√ß√£o. Passamos mais tempo e gastamos mais cora√ß√£o a sermos irritados do que em qualquer outro estado de esp√≠rito.
Apaixonamo-nos uma vez na vida, odiamos duas, sofremos tr√™s, mas somos irritados pelo menos vinte vezes por dia. Mais que o div√≥rcio, mais que o despedimento, mais que ser tra√≠do por um amigo, a irrita√ß√£o √© a principal causa de ¬ęstress¬Ľ ‚ÄĒ e logo de mortalidade ‚ÄĒ da nossa exist√™ncia.
√Č a torneira que pinga e o colega que funga, a crian√ßa que bate com o garfinho no rebordo do prato, a empregada que se esquece sempre de comprar maionnaise, a namorada que n√£o enche o tabuleiro de gelo, o namorado que se esquece de tapar a pasta dentr√≠fica, a nossa pr√≥pria incompet√™ncia ao tentar programar o v√≠deo, o homem que mete um conto de gasolina e pede para verificar a press√£o dos pneus,

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Aspiração

Sinto que h√° na minha alma um v√°cuo imenso e fundo,
E desta meia morte o frio olhar do mundo
Não vê o que há de triste e de real em mim;
Muita vez, ó poeta, a dor é casta assim;
Refolha-se, não diz no rosto o que ela é,
E nem que o revelasse, o vulgo n√£o p√Ķe f√©
Nas tristes como√ß√Ķes da verde mocidade,
E responde sorrindo à cruel realidade.

Não assim tu, ó alma, ó coração amigo;
Nu, como a consciência, abro-me aqui contigo;
Tu que corres, como eu, na vereda fatal
Em busca do mesmo alvo e do mesmo ideal.
Deixemos que ela ria, a turba ignara e v√£;
Nossas almas a sós, como irmã junto a irmã,
Em santa comunhão, sem cárcere, sem véus.
Conversarão no espaço e mais perto de Deus.

Deus quando abre ao poeta as portas desta vida
Não lhe depara o gozo e a glória apetecida;
Tarja de luto a folha em que lhe deixa escritas
A suprema saudade e as dores infinitas.
Alma errante e perdida em um fatal desterro,

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