Passagens sobre Disfarce

45 resultados
Frases sobre disfarce, poemas sobre disfarce e outras passagens sobre disfarce para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Quem se atinge pela despersonalização reconhecerá o outro sob qualquer disfarce: o primeiro passo em relação ao outro é achar em si mesmo o homem de todos os homens.

Carta (Esboço)

Lembro-me agora que tenho de marcar um
encontro contigo, num sítio em que ambos
nos possamos falar, de facto, sem que nenhuma
das ocorrências da vida venha
interferir no que temos para nos dizer. Muitas
vezes me lembrei de que esse sítio podia
ser, até, um lugar sem nada de especial,
como um canto de café, em frente de um espelho
que poderia servir de pretexto
para reflectir a alma, a impress√£o da tarde,
o √ļltimo estertor do dia antes de nos despedirmos,
quando é preciso encontrar uma fórmula que
disfarce o que, afinal, n√£o conseguimos dizer. √Č
que o amor nem sempre é uma palavra de uso,
aquela que permite a passagem à comunicação ;
mais exacta de dois seres, a n√£o ser que nos fale,
de s√ļbito, o sentido da despedida, e que cada um de n√≥s
leve, consigo, o outro, deixando atrás de si o próprio
ser, como se uma troca de almas fosse possível
neste mundo. Então, é natural que voltes atrás e
me pe√ßas: ¬ęVem comigo!¬Ľ, e devo dizer-te que muitas
vezes pensei em fazer isso mesmo,

Continue lendo…

A Literatura é a Mais Ameaçada das Formas de Arte

Justamente porque a literatura se funda genericamente na ideia, ela √© a mais amea√ßada das formas de arte, para l√° do que sabemos da sua aparente maior dura√ß√£o. Ou portanto a mais equ√≠voca. Ou a mais mortal. Porque nas outras artes, a ideia √© a nossa tradu√ß√£o do seu sil√™ncio, o modo de uma emo√ß√£o ser dita ou seja transaccion√°vel, um modo irresist√≠vel de explicar, uma forma afinal de dominarmos o que nos domina, porque nomear √© reduzir ao nosso poder aquilo que se nomeia. Mas a forma de arte n√£o discursiva permanece intacta ao nosso nomear. A literatura, por√©m, √© nesse nomear que come√ßa. Na rela√ß√£o da emo√ß√£o com a palavra que a diz, o seu movimento √© inverso do que acontece com a m√ļsica ou a pintura. A emo√ß√£o de um quadro resolve-se numa palavra terminal. Mas a literatura parte-se dessa palavra para se chegar √° emo√ß√£o. Assim pois a ¬ęideia¬Ľ √© o seu elemento nuclear, ainda que uma associa√ß√£o imprevis√≠vel de palavras a disfarce.

Hoje fala-se com disfarces e com palidez e as ac√ß√Ķes s√£o o oposto das palavras e a sociedade √© t√£o corrompida, que pais e maridos ofendidos passeiam de bra√ßo dado com os her√≥is de sala.

Os Comunistas

… Passaram bastantes anos desde que ingressei no Partido… Estou contente… Os comunistas constituem uma boa fam√≠lia… T√™m a pele curtida e o cora√ß√£o valoroso… Por todo o lado recebem pauladas… Pauladas exclusivamente para eles… Vivam os espiritistas, os mon√°rquicos, os aberrantes, os criminosos de v√°rios graus… Viva a filosofia com fumo mas sem esqueletos… Viva o c√£o que ladra e que morde, vivam os astr√≥logos libidinosos, viva a pornografia, viva o cinismo, viva o camar√£o, viva toda a gente menos os comunistas… Vivam os cintos de castidade, vivam os conservadores que n√£o lavam os p√©s ideol√≥gicos h√° quinhentos anos… Vivam os piolhos das popula√ß√Ķes miser√°veis, viva a for√ßa comum gratuita, viva o anarco-capitalismo, viva Rilke, viva Andr√© Gide com o seu coribantismo, viva qualquer misticismo… Tudo est√° bem… Todos s√£o her√≥icos… Todos os jornais devem publicar-se… Todos devem publicar-se, menos os comunistas… Todos os pol√≠ticos devem entrar em S√£o Domingos sem algemas… Todos devem festejar a morte do sanguin√°rio Trujillo, menos os que mais duramente o combateram… Viva o Carnaval, os derradeiros dias do Carnaval… H√° disfarces para todos… Disfarces de idealistas crist√£os, disfarces de extrema-esquerda, disfarces de damas beneficentes e de matronas caritativas… Mas, cuidado, n√£o deixem entrar os comunistas…

Continue lendo…

A mentira, senhora do mundo, √© h√°bil, astuta e refolhada: rebu√ßa-se com o dolo, veste-se de mil disfarces, mascara-se com a hipocrisia, enfeita-se toda de ilus√Ķes e vence.

Soneto de amor

Não me peças palavras, nem baladas,
Nem express√Ķes, nem alma… Abre-me o seio,
Deixa cair as p√°lpebras pesadas,
E entre os seios me apertes sem receio.

Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossas l√≠nguas se busquem, desvairadas…
E que os meus flancos nus vibrem no enleio
Das tuas pernas √°geis e delgadas.

E em duas bocas uma l√≠ngua…, ‚ÄĒ unidos,
Nós trocaremos beijos e gemidos,
Sentindo o nosso sangue misturar-se.

Depois… ‚ÄĒ abre os teus olhos, minha amada!
Enterra-os bem nos meus; n√£o digas nada…
Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!

A modéstia, quando é excessiva e se aproxima do acanhamento, ao qual no mundo se chama falta de uso Рpode ser num homem quase defeito inteiro. Na mulher é sempre virtude, realce de beleza às formosas, disfarce de fealdade às que o não são.

A Hipocrisia do Amor-Próprio

A natureza do amor-pr√≥prio e deste eu humano √© de s√≥ se amar a si e de s√≥ se considerar a si. Mas que h√°-de fazer? N√£o saberia impedir que este objecto que ama esteja cheio de defeitos e de mis√©rias: quer ser grande e v√™-se pequeno; quer ser feliz e v√™-se miser√°vel; quer ser perfeito – v√™-se cheio de imperfei√ß√Ķes; quer ser objecto do amor e da estima dos homens e v√™ que os seus defeitos s√≥ merecem a sua avers√£o e o seu desprezo. Este embara√ßo em que se encontra produz nele a mais injusta e a mais criminosa paix√£o que √© poss√≠vel imaginar; porque concebe um √≥dio mortal contra esta verdade que o repreende, e que o convence dos seus defeitos. Ele desejaria aniquil√°-la, e n√£o a podendo destruir em si mesma, destr√≥i-a, tanto quanto pode, no seu conhecimento e no dos outros, isto √©, p√Ķe todos os cuidados em encobrir os seus defeitos, aos outros e a si mesmo, e n√£o suporta que lhos fa√ßam ver, nem que lhos vejam.
√Č sem d√ļvida um mal estar cheio de defeitos; mas √© ainda um mal muito maior estar cheio e n√£o os querer reconhecer, visto que √© acrescentar-lhe ainda o de uma ilus√£o volunt√°ria.

Continue lendo…

A Floresta

Em v√£o com o mundo da floresta privas!…
РTodas as hermenêuticas sondagens,
Ante o hieróglifo e o enigma das folhagens,
S√£o absolutamente negativas!

Araucárias, traçando arcos de ogivas,
Bracejamentos de √°lamos selvagens,
Como um convite para estranhas viagens,
Tornam todas as almas pensativas!

Há uma força vencida nesse mundo!
Todo o organismo florestal profundo
√Č dor viva, trancada num disfarce…

Vivem só, nele, os elementos broncos,
– As ambi√ß√Ķes que se fizeram troncos,
Porque nunca puderam realizar-se!

Civilização Racional

O nosso conhecimento do valor hist√≥rico de certas doutrinas religiosas aumenta o nosso respeito por elas, mas n√£o invalida a nossa posi√ß√£o, segundo a qual devem deixar de ser apresentadas como os motivos para os preceitos da civiliza√ß√£o. Pelo contr√°rio! Esses res√≠duos hist√≥ricos auxiliaram-nos a encarar os ensinamentos religiosos como rel√≠quias neur√≥ticas, por assim dizer, e agora podemos arguir que provavelmente chegou a hora, tal como acontece num tratamento anal√≠tico, de substituir os efeitos da repress√£o pelos resultados da opera√ß√£o racional do intelecto. Podemos prever, mas dificilmente lamentar, que tal processo de remodela√ß√£o n√£o se deter√° na ren√ļncia √† transfigura√ß√£o solene dos preceitos culturais, mas que a sua revis√£o geral resultar√° em que muitos deles sejam eliminados. Desse modo, a nossa tarefa de reconciliar os homens com a civiliza√ß√£o estar√°, at√© um grande ponto, realizada. N√£o precisamos de deplorar a ren√ļncia √† verdade hist√≥rica quando apresentamos fundamentos racionais para os preceitos da civiliza√ß√£o. As verdades contidas nas doutrinas religiosas s√£o, afinal de contas, t√£o deformadas e sistematicamente disfar√ßadas, que a massa da humanidade n√£o pode identific√°-las como verdade. O caso √© semelhante ao que acontece quando dizemos a uma crian√ßa que os rec√©m-nascidos s√£o trazidos pela cegonha. Aqui, tamb√©m estamos a contar a verdade sob uma roupagem simb√≥lica,

Continue lendo…

Sonhar é Preciso

Sem sonhos, as pedras do caminho tornam-se montanhas, os pequenos problemas s√£o insuper√°veis, as perdas s√£o insuport√°veis, as decep√ß√Ķes transformam-se em golpes fatais e os desafios em fonte de medo.
Voltaire disse que os sonhos e a esperan√ßa nos foram dados como compensa√ß√£o √†s dificuldades da vida. Mas precisamos de compreender que os sonhos n√£o s√£o desejos superficiais. Os sonhos s√£o b√ļssolas do cora√ß√£o, s√£o projectos de vida. Os desejos n√£o suportam o calor das dificuldades. Os sonhos resistem √†s mais altas temperaturas dos problemas. Renovam a esperan√ßa quando o mundo desaba sobre n√≥s.

John F. Kennedy disse que precisamos de seres humanos que sonhem o que nunca foram. Tem fundamento o seu pensamento, pois os sonhos abrem as janelas da mente, arejam a emoção e produzem um agradável romance com a vida.
Quem n√£o vive um romance com a sua vida ser√° um miser√°vel no territ√≥rio da emo√ß√£o, ainda que habite em mans√Ķes, tenha carros luxuosos, viaje em primeira classe nos avi√Ķes e seja aplaudido pelo mundo.

Precisamos de perseguir os nossos mais belos sonhos. Desistir é uma palavra que tem de ser eliminada do dicionário de quem sonha e deseja conquistar, ainda que nem todas as metas sejam atingidas.

Continue lendo…

Véspera

Amor: em teu regaço as formas sonham
o instante de existir: ainda é bem cedo
para acordar, sofrer. Nem se conhecem
os que se destruir√£o em teu bruxedo.

Nem tu sabes, amor, que te aproximas
a passo de veludo. √Čs t√£o secreto,
reticente e ardiloso, que semelhas
uma casa fugindo ao arquitecto.

Que presságios circulam pelo éter,
que signos de paix√£o, que suspir√°lia
hesita em consumar-se, como fl√ļor,
se não a roça enfim tua sandália?

Não queres morder célere nem forte.
Evitas o clar√£o aberto em susto.
Examinas cada alma. √Č fogo inerte?
O sacrifício há de ser lento e augusto.

Ent√£o, amor, escolhes o disfarce.
Como brincas (e és sério) em cabriolas,
em risadas sem modo, pés descalços,
no círculo de luz que desenrolas!

Contempla este jardim: os namorados,
dois a dois, l√°bio a l√°bio, v√£o seguindo
de teu capricho o hermético astrolábio,
e perseguem o sol no dia findo.

E se deitam na relva; e se enlaçando
num desejo menor, ou na indecisa
procura de si mesmos,

Continue lendo…

C√Ęntico de Humanidade

Hinos aos deuses, n√£o.
Os homens é que merecem
Que se lhes cante a virtude.
Bichos que lavram no ch√£o,
Actuam como parecem,
Sem um disfarce que os mude.

Apenas se os deuses querem
Ser homens, nós os cantemos.
E à soga do mesmo carro,
Com os aguilh√Ķes que nos ferem,
Nós também lhes demonstremos
Que s√£o mortais e de barro.

Vivemos sob rótulos e amarras, mascarados de verdades postiças e de disfarces emprestados.

Como uma Voz de Fonte que Cessasse

Como uma voz de fonte que cessasse
(E uns para os outros nossos v√£os olhares
Se admiraram), p’ra além dos meus palmares
De sonho, a voz que do meu tédio nasce

Parou… Apareceu j√° sem disfarce
De m√ļsica long√≠nqua, asas nos ares,
O mistério silente como os mares,
Quando morreu o vento e a calma pasce…

A paisagem longínqua só existe
Para haver nela um silêncio em descida
P‚Äôra o mist√©rio, sil√™ncio a que a hora assiste…

E, perto ou longe, grande lago mudo,
O mundo, o informe mundo onde h√° a vida…
E Deus, a Grande Ogiva ao fim de tudo…

A guerra é o maior dos crimes, mas não existe agressor que não disfarce seu crime com pretexto de justiça.