Passagens sobre Maledicência

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Em Portugal, Ter Amor às Nossas Coisas Implica Dizer Mal Delas

Em Portugal, ter amor às nossas coisas implica dizer mal delas, já que a maior parte delas não anda bem. Nem uma coisa nem outra constitui novidade. Nem dizer mal delas, nem o facto de elas não andarem bem. Será que se diz mal na esperança de que elas se ponham boas? Também não. As nossas causas são quase sempre perdidas. Porquê então?

Porque o nosso maior bem, como António Vieira contradizia, é nunca estarmos satisfeitos. Nas nossas cabeças perversas e almas amarguradas, onde se acham todas as coisas portuguesas tal e qual achamos que deviam ser, Portugal é o país mais perfeito do mundo. Já isso é uma espécie de país, melhor do que os países reais onde as pessoas estão realmente convencidas que as coisas correm muito bem. Aprendemos a viver com esse país. E alguns conseguiram mesmo viver nele.

Desdenhar o que se tem e elogiar o que têm os outros, mas sem querer trocar, é a principal característica do aristocrático feitio do povo português. Às vezes penso que dizemos tanto mal de Portugal e dos portugueses para que não sejam os estrangeiros a fazê-lo. Monopolizamos a maledicência para nos defendermos; para evitar a concorrência.

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O mundo […], que coisa estranha √© o mundo! A maledic√™ncia geral, por exemplo. Como todo mundo gosta de falar dos outros!

Maledicência é um costume que muita gente tem de dizer o que é inteiramente certo, quando a pessoa a quem se referem não os ouve.

√Č Mais Simples e Mais √ötil Adaptar-se Aos Outros

Supondo que s√≥ existiam hoje dois homens na terra que a possuissem sozinhos, e a dividam entre si, estou convencido de que nascer√° logo entre eles algum motivo de disc√≥rdia, nem que seja pelos limites. √Äs vezes √© mais simples e mais √ļtil adaptar-se aos outros do que fazer os outros se adaptarem a n√≥s.
(…) H√° uma coisa que nunca se viu sob o c√©u e segundo todas as apar√™ncias, nunca se ver√°: √© uma cidade pequena que n√£o esteja dividida em partidos; onde as fam√≠lias sejam unidas e os primos se vejam com confian√ßa; onde um casamento n√£o gere guerra civil; onde a querela dos partidos n√£o desperte a todo o momento, por fraude, incenso e p√£o bento, prociss√Ķes e enterros; de onde se baniram os linguarudos, a mentira e a maledic√™ncia: onde se vejam falar juntos o juiz e o presidente da c√Ęmara, os eleitores e os assessores; onde o de√£o viva bem com o c√≥nego, onde os c√≥negos n√£o desdenhem os capel√£es e estes suportem os padres-mestres.
Os provincianos e os tolos est√£o sempre prontos a se zangarem e a pensarem que se est√° a zombar deles, ou a desprez√°-los; nunca se deve arriscar uma brincadeira,

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Sempre que a maledic√™ncia conclui pela nega√ß√£o de qualquer qualidade, √© contar que tal qualidade existe em determinado grau. ¬ęFulano n√£o tem talento!¬Ľ ouvireis afirmar; imp√Ķe-se, todavia, que possua um pouco esse de quem se fala, para que tanto se empenhe o maledicente em dizer o contr√°rio.

Calarei os maldizentes continuando a viver bem; eis o melhor uso que podemos fazer da maledicência.

Somos Cidadãos Sem Laços de Cidadania

√Č escusado. Em nenhuma √°rea do comportamento social conseguimos encontrar um denominador comum que nos torne a conviv√™ncia harmoniosa. Procedemos em todos os planos da vida colectiva como figadais advers√°rios. Guerreamo-nos na pol√≠tica, na literatura, no com√©rcio e na ind√ļstria. Onde est√£o dois portugueses est√£o dois concorrentes hostis √† Presid√™ncia da Rep√ļblica, √† chefia dum partido, √† ger√™ncia dum banco, ao comando de uma corpora√ß√£o de bombeiros. N√£o somos capazes de reconhecer no vizinho o talento que nos falta, as virtudes de que carecemos. Diante de cada sucesso alheio ficamos transtornados. E vingamo-nos na s√°tira, na mordacidade, na maledic√™ncia. Nas cidades ou nas aldeias, por f√°s e por nefas, n√£o h√° ningu√©m sem alcunha, a todos √© colado um rabo-leva pejorativo. Quem quiser conhecer a natureza do nosso relacionamento, leia as pol√©micas que trav√°mos ao longo dos tempos. S√£o reveladoras. A celebrada carta de E√ßa a Camilo ou a tamb√©m conhecida deste ao conselheiro Forjaz de Sampaio d√£o a medida exacta da verrina em que nos comprazemos no trato di√°rio. Gregariamente, somos um somat√≥rio de cidad√£os sem la√ßos de cidadania.

A ociosidade √© a m√£e da maledic√™ncia, da cal√ļnia e da intriga, coisas a que eu j√° n√£o sei se hei-de chamar v√≠cios se virtudes, t√£o habituada estou a v√™-los morar em l√°bios tidos como santos por este mundo que √© com certeza o melhor dos mundos poss√≠veis e imagin√°veis.

Do mexerico à maledicência vai apenas um passo, pode até afirmar-se que a maledicência é o sol do mexerico.

Plantemos o amor, todos os dias, como a boa semente que se planta nos campos. Assim, breve, árvores do bem brotarão frondosas e não haverá espaço para as ervas daninhas das maledicências!

Uma das causas capitais da maledicência é a inveja, causa vergonhosa que não se confessa, mas que transpira do modo de proceder. Sob qualquer aspecto que a maledicência se mostre, temei-a como serpente.

Eu defino desta arte a maledicência: um secreto pendor da alma a julgar maus todos os homens, manifestando-se por palavras.

N√£o Louvar nem Censurar

Parece-me que quando se relata uma ac√ß√£o boa ou m√° n√£o se deve nem louv√°-la, nem censur√°-la, pois ela faz sentir muito bem o que √©, sendo melhor deixar livre o julgamento a seu respeito. E, depois, como a maior parte dos louvores prov√™m da adula√ß√£o, a sociedade raramente se compraz com isso, e a maledic√™ncia leva a pensar que se √© invejoso ou maldoso. √Č bem poss√≠vel exaltar as pessoas que se ama, sem falar muito do seu m√©rito; e para os outros que n√£o se estima, √© um favor n√£o dizer nada deles.
Acho também que todo o tipo de gente, mesmo a mais modesta, estima que a consideremos e que a tratemos afavelmente. Há poucas pessoas, não obstante, que toleram ser louvadas quando estão presentes, pois, normalmente, procede-se desastradamente, expondo-as e embaraçando-as. Mas os louvores que honram aquele que os faz, assim como aquele que os recebe, agradam muito quando são descobertos por meio de alguém que os relata, e quando não são suspeitos nem de interesse, nem de adulação e particularmente se são de boa origem. Pois, assim como o afecto é bem acolhido apenas quando vem de uma pessoa amável, também é necessário ter mérito,

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O Verdadeiro e o Falso Ci√ļme

O ci√ļme √© uma esp√©cie de temor, que se relaciona com o desejo de conservarmos a posse de algum bem; e n√£o prov√©m tanto da for√ßa das raz√Ķes que levam a julgar que podemos perd√™-lo, como da grande estima que temos por ele, a qual nos leva a examinar at√© os menores motivos de suspeita e a tom√°-los por raz√Ķes muito dignas de considera√ß√£o.
E como devemos empenhar-nos mais em conservar os bens que s√£o muito grandes do que os que s√£o menores, em algumas ocasi√Ķes essa paix√£o pode ser justa e honesta. Assim, por exemplo, um chefe de ex√©rcito que defende uma pra√ßa de grande import√£ncia tem o direito de ser zeloso dela, isto √©, de suspeitar de todos os meios pelos quais ela poderia ser assaltada de surpresa; e uma mulher honesta n√£o √© censurada por ser zelosa de sua honra, isto √©, por n√£o apenas abster-se de agir mal como tamb√©m evitar at√© os menores motivos de maledic√™ncia.
Mas zombamos de um avarento quando ele é ciumento do seu tesouro, isto é, quando o devora com os olhos e nunca quer afastar-se dele, com medo que ele lhe seja furtado; pois o dinheiro não vale o trabalho de ser guardado com tanto cuidado.

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