Cita√ß√Ķes sobre Maledic√™ncia

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Sempre que a maledic√™ncia conclui pela nega√ß√£o de qualquer qualidade, √© contar que tal qualidade existe em determinado grau. ¬ęFulano n√£o tem talento!¬Ľ ouvireis afirmar; imp√Ķe-se, todavia, que possua um pouco esse de quem se fala, para que tanto se empenhe o maledicente em dizer o contr√°rio.

Calarei os maldizentes continuando a viver bem; eis o melhor uso que podemos fazer da maledicência.

Somos Cidadãos Sem Laços de Cidadania

√Č escusado. Em nenhuma √°rea do comportamento social conseguimos encontrar um denominador comum que nos torne a conviv√™ncia harmoniosa. Procedemos em todos os planos da vida colectiva como figadais advers√°rios. Guerreamo-nos na pol√≠tica, na literatura, no com√©rcio e na ind√ļstria. Onde est√£o dois portugueses est√£o dois concorrentes hostis √† Presid√™ncia da Rep√ļblica, √† chefia dum partido, √† ger√™ncia dum banco, ao comando de uma corpora√ß√£o de bombeiros. N√£o somos capazes de reconhecer no vizinho o talento que nos falta, as virtudes de que carecemos. Diante de cada sucesso alheio ficamos transtornados. E vingamo-nos na s√°tira, na mordacidade, na maledic√™ncia. Nas cidades ou nas aldeias, por f√°s e por nefas, n√£o h√° ningu√©m sem alcunha, a todos √© colado um rabo-leva pejorativo. Quem quiser conhecer a natureza do nosso relacionamento, leia as pol√©micas que trav√°mos ao longo dos tempos. S√£o reveladoras. A celebrada carta de E√ßa a Camilo ou a tamb√©m conhecida deste ao conselheiro Forjaz de Sampaio d√£o a medida exacta da verrina em que nos comprazemos no trato di√°rio. Gregariamente, somos um somat√≥rio de cidad√£os sem la√ßos de cidadania.

A ociosidade √© a m√£e da maledic√™ncia, da cal√ļnia e da intriga, coisas a que eu j√° n√£o sei se hei-de chamar v√≠cios se virtudes, t√£o habituada estou a v√™-los morar em l√°bios tidos como santos por este mundo que √© com certeza o melhor dos mundos poss√≠veis e imagin√°veis.

Do mexerico à maledicência vai apenas um passo, pode até afirmar-se que a maledicência é o sol do mexerico.

Plantemos o amor, todos os dias, como a boa semente que se planta nos campos. Assim, breve, árvores do bem brotarão frondosas e não haverá espaço para as ervas daninhas das maledicências!

Uma das causas capitais da maledicência é a inveja, causa vergonhosa que não se confessa, mas que transpira do modo de proceder. Sob qualquer aspecto que a maledicência se mostre, temei-a como serpente.

Eu defino desta arte a maledicência: um secreto pendor da alma a julgar maus todos os homens, manifestando-se por palavras.

N√£o Louvar nem Censurar

Parece-me que quando se relata uma ac√ß√£o boa ou m√° n√£o se deve nem louv√°-la, nem censur√°-la, pois ela faz sentir muito bem o que √©, sendo melhor deixar livre o julgamento a seu respeito. E, depois, como a maior parte dos louvores prov√™m da adula√ß√£o, a sociedade raramente se compraz com isso, e a maledic√™ncia leva a pensar que se √© invejoso ou maldoso. √Č bem poss√≠vel exaltar as pessoas que se ama, sem falar muito do seu m√©rito; e para os outros que n√£o se estima, √© um favor n√£o dizer nada deles.
Acho também que todo o tipo de gente, mesmo a mais modesta, estima que a consideremos e que a tratemos afavelmente. Há poucas pessoas, não obstante, que toleram ser louvadas quando estão presentes, pois, normalmente, procede-se desastradamente, expondo-as e embaraçando-as. Mas os louvores que honram aquele que os faz, assim como aquele que os recebe, agradam muito quando são descobertos por meio de alguém que os relata, e quando não são suspeitos nem de interesse, nem de adulação e particularmente se são de boa origem. Pois, assim como o afecto é bem acolhido apenas quando vem de uma pessoa amável, também é necessário ter mérito,

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O Verdadeiro e o Falso Ci√ļme

O ci√ļme √© uma esp√©cie de temor, que se relaciona com o desejo de conservarmos a posse de algum bem; e n√£o prov√©m tanto da for√ßa das raz√Ķes que levam a julgar que podemos perd√™-lo, como da grande estima que temos por ele, a qual nos leva a examinar at√© os menores motivos de suspeita e a tom√°-los por raz√Ķes muito dignas de considera√ß√£o.
E como devemos empenhar-nos mais em conservar os bens que s√£o muito grandes do que os que s√£o menores, em algumas ocasi√Ķes essa paix√£o pode ser justa e honesta. Assim, por exemplo, um chefe de ex√©rcito que defende uma pra√ßa de grande import√£ncia tem o direito de ser zeloso dela, isto √©, de suspeitar de todos os meios pelos quais ela poderia ser assaltada de surpresa; e uma mulher honesta n√£o √© censurada por ser zelosa de sua honra, isto √©, por n√£o apenas abster-se de agir mal como tamb√©m evitar at√© os menores motivos de maledic√™ncia.
Mas zombamos de um avarento quando ele é ciumento do seu tesouro, isto é, quando o devora com os olhos e nunca quer afastar-se dele, com medo que ele lhe seja furtado; pois o dinheiro não vale o trabalho de ser guardado com tanto cuidado.

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Quem ataca um preconceito, seja ele qual for, tem contra si o escárnio e a maledicência. Que tais ironias e que tais cruéis invectivas não sejam a barreira para determos a razão de proceder convenientemente!