Passagens sobre Mesquinhos

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Frases sobre mesquinhos, poemas sobre mesquinhos e outras passagens sobre mesquinhos para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Pensar Portugal

Pensar Portugal √© pens√°-lo no que ele √© e n√£o iludirmo-nos sobre o que ele √©. Ora o que ele √© √© a inconsci√™ncia, um infantilismo org√Ęnico, o repentismo, o desequil√≠brio emotivo que vai da abjec√ß√£o e l√°grima f√°cil aos actos grandiosos e her√≥icos, a credulidade, o embasbacamento, a dif√≠cil assump√ß√£o da pr√≥pria liberdade e a paralela e c√≥moda entrega do pr√≥prio destino √†s m√£os dos outros, o mesquinho esp√≠rito de intriga, o entendimento e valoriza√ß√£o de tudo numa dimens√£o curta, a zanga f√°cil e a reconcilia√ß√£o f√°cil como se tudo fossem rixas de fam√≠lia, a tend√™ncia para fazermos sempre da nossa vida um teatro, o berro, o espalhafato, a desinibi√ß√£o tumultuosa, o despudor com que exibimos facilmente o que devia ficar de portas adentro, a grosseria de um novo-rico sem riqueza, o ego√≠smo feroz e indiscreto balanceado com o altru√≠smo, se houver gente a ver ou a saber, a inautenticidade vis√≠vel se queremos subir al√©m de n√≥s, a superficialidade vistosa, a improvisa√ß√£o de expediente, o arrivismo, a trafulhice e o gozo e a vaidade de intrujar com a nossa ¬ęesperteza saloia¬Ľ, o fatalismo, a crendice milagreira, a parolice. Decerto, temos tamb√©m as nossas virtudes. Mas, na sua maioria, elas t√™m a sua raiz nestas mis√©rias.

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Os Grandes Forjam-se na Adversidade

Todo o ambiente √© favor√°vel ao forte; de um modo ou de outro ele o ajuda a cumprir a miss√£o que se imp√īs e a conseguir ir porventura mais al√©m das barreiras marcadas. A derrota deve mais atribuir-se √† invalidez do impulso interior do que aos obst√°culos que lhe ponham diante, mais √† alma incapaz de se bater com vigor e tenazmente do que √†s resist√™ncias, √†s invejas e √†s dificuldades que o mundo possa levantar perante H√©rcules que luta.
O mal que se v√™ √© aguilh√£o para o bem que se deseja; e quanto mais duro, quanto mais agressivo, se bate em peito de a√ßo, tanto mais valioso auxiliar num caminho de progresso; o querer se apura, a vis√£o do futuro nos surge mais intensa a cada golpe novo; o contentamente e a mansa quietude s√£o estufa para homens; por a√≠ se habituaram a ser escravos de outros homens, ou da cega Natureza; e eu quero a terra povoada de rijos cora√ß√Ķes que seguem os calmos pensamentos e a mais nada se curvam.
Mais custa quebrar rochar do que escavar a terra; mais sólido, porém, o edifício que nela se firmou. A grandeza da obra é quase sempre devida à dificuldade que se encontra nos meios a empregar,

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As crianças, nem é preciso dizê-lo, são crudelíssimas. Nascem selvagens, infinitamente mais mesquinhas do que pretendeu Rousseau Рe naquelas idades, desprovidas tantas vezes dos mais básicos códigos de socialização (que muitas não chegarão a integrar), estão ainda perigosamente próximas da irracionalidade absoluta.

√Č mesquinho passarmos a vida a dizer de que maneira os outros foram grandes.

A Giganta

No tempo em que a Natura, augusta, fecundanta,
Seres descomunais dava à terra mesquinha,
Eu quisera viver junto d’uma giganta,
Como um gatinho manso aos p√©s d’uma rainha!

Gosta de assistir-lhe ao desenvolvimento
Do corpo e da razão, aos seus jogos terríveis;
E ver se no seu peito havia o sentimento
Que faz nublar de pranto as pupilas sensíveis

Percorrer-lhe a vontade as formas gloriosas,
Escalar-lhe, febril, as colunas grandiosas;
E às vezes, no verão, quando no ardente solo

Eu visse deitar, numa quebreira estranha estranha,
Dormir serenamente à sombra do seu colo,
Como um pequeno burgo ao sopé da montanha!

Tradução de Delfim Guimarães

N√£o te Queixes

N√£o te queixes. Recolhe em ti a amargura, n√£o a disperses, n√£o a esbanjes com os outros. Ela √© tua, nasceu de ti, da tua mis√©ria, pertence-te como os ossos e as v√≠sceras. Concentra-te nela, absorve-a, faz dela a tua grandeza. Porque s√≥ se √© grande pelo sofrimento, n√£o pela futilidade do prazer. As pedras n√£o sofrem, Cristo esteve ¬ętriste at√© √† morte¬Ľ. Tem desprezo pelos homens felizes, porque dos homens felizes ¬ęn√£o reza a hist√≥ria¬Ľ. S√≥ a dor pode medir o teu tamanho de excep√ß√£o, s√≥ ela pode medir o que tu vales. O sofrimento med√≠ocre n√£o d√° mais do que a com√©dia, mas a grandeza da trag√©dia s√≥ pode atribuir-se aos grandes. N√£o te aconselho a que v√°s ao encontro da amargura, mas se ela vier ter contigo, acolhe-a com serenidade. N√£o sucumbas aos seus golpes, aguenta-os at√© onde puderes. E se √©s homem de verdade, tu a aguentar√°s.
Também as grandes alegrias são do destino dos grandes, porque elas são irmãs dos grandes sofrimentos. Só os pequenos e mesquinhos se alegram e sofrem com o que é mesquinho e pequeno. Aquilo que é pequeno é imperceptível a quem o não é. Que juízo fazem de ti,

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N√£o Pode Amor Por Mais Que As Falas Mude

N√£o pode Amor por mais que as falas mude
exprimir quanto pesa ou quanto mede.
Se acaso a comoção falar concede
é tão mesquinho o tom que o desilude.

Busca no rosto a cor que mais o ajude,
magoado parecer aos olhos pede,
pois quando a fala a tudo o mais excede
n√£o pode ser Amor com tal virtude.

Também eu das palavras me arreceio,
também sofro do mal sem saber onde
busque a express√£o maior do meu anseio.

E acaso perde, o Amor que a fala esconde,
em verdade, em beleza, em doce enleio?
Olha bem os meus olhos, e responde.

As sensa√ß√Ķes fortes entontecem-me e fazem-me sofrer. A nossa vida neste velho Portugal, vida toda de resigna√ß√£o e sentimentalidade, vida estreita e mesquinha, sem horizontes nem ondas largas, conv√©m mais a uma velhota de 27 anos que vive pela imagina√ß√£o mais do que tu podes imaginar; na minha cadeira da Ilha, com um livro que me encanta sobre o rega√ßo eu viajo, √†s vezes, mais do que os maiores vagabundos, pelo mundo fora.

Somente quem tem a voca√ß√£o da pol√≠tica ter√° certeza de n√£o desmoronar quando o mundo, do seu ponto de vista, for demasiado est√ļpido ou demasiado mesquinho para o que ele deseja oferecer. Somente quem, frente a todas as dificuldades, pode dizer ‚ÄėApesar de tudo!‚Äô tem a voca√ß√£o para a pol√≠tica.

A Vida Que Nos Escapa Entre os Dedos

Volta-se o rico para os prazeres da carne e a maior parte do mundo faz o mesmo. E n√£o sem acerto, porque todas as coisas agrad√°veis devem ser tidas como inocentes, e at√© que se provem culpadas todas as presun√ß√Ķes pendem a seu favor. A vida j√° √© bastante penosa para que ainda a agravemos com proibi√ß√Ķes e obst√°culos aos seus deleites; t√£o arisca se mostra a felicidade que todas as portas por onde ela queira entrar devem permanecer escancaradas. A carne enfraquece muito precocemente – e os olhos olham com melancolia para os prazeres de outrora. Muito r√°pidamente todas as alegrias perdem a vivacidade – e admiramo-nos de como pudessem ter-nos interessado tanto. O pr√≥prio amor torna-se grotesco logo que atinge os seus fins. Guardemos o ascetismo para a esta√ß√£o pr√≥pria – a velhice.
√Č este o grande drama do prazer; todas as coisas agrad√°veis acabam por amargar; todas as flores murcham quando as colhemos, e o amor morre tanto mais depressa quanto √© mais retribu√≠do. Por isso o passado parece-nos sempre melhor que o presente; esquecemos os espinhos das rosas colhidas; saltamos por cima dos insultos e inj√ļrias e demoramo-nos sobre as vit√≥rias. O presente parece muito mesquinho diante de um passado do qual s√≥ retemos na mem√≥ria o bom,

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O Jogo da Conformidade Ofusca a Vis√£o

A objec√ß√£o contra o conformar-se a usos que se tornaram peremptos para ti √© a de que dissipam a tua for√ßa. Fazem-te perder tempo e borram a nitidez do teu car√°cter. Se mant√©ns uma Igreja morta; se contribuis para uma Sociedade B√≠blica morta; se votas com um grande partido tanto a favor como contra o governo; se p√Ķes a mesa de igual modo ao das donas de casa mesquinhas – tenho dificuldade em descobrir, sob todos esses mantos, a tua exacta personalidade. E, claro est√°, muita e muita for√ßa √©-te subtra√≠da da tua pr√≥pria vida.
Mas age, que te conhecerei. Executa o teu trabalho e te fortificar√°s. Um homem deve ter em mente que o jogo da conformidade ofusca a vis√£o.
Se conheço a tua seita, antecipo o teu argumento.

Quarenta Anos

a Carlos Nejar

Sinto a velhice em mim oculta e rude
em meio ao sol e ao riso da manh√£,
nesse engano das horas, nessa v√£
esperança de eterna juventude
que se desfaz de mim, e sou maça
mordida, podre, e rio e n√£o me ilude
esse carinho, essa algazarra. O alude
dentro de mim começa. Mesmo sã,
a estrutura se abala em sombra e ruga
e os caminhos só descem, pesa o fardo,
e entre cinzas de mim, alheio, ardo,
de um fogo j√° morrente em sua fuga.

Mesquinho embora, curvo e pungitivo,
meu corpo vibra e se deseja vivo.

Um homem pode ser um her√≥i se ele √© um cientista, ou um soldado, ou um viciado em drogas, ou um locutor, ou um med√≠ocre pol√≠tico mesquinho. Um homem pode ser um her√≥i porque ele sofre e se desespera; ou porque ele pensa logicamente e analiticamente; ou porque ele √© ‚Äúsens√≠vel‚ÄĚ; ou porque ele √© cruel. Riqueza estabelece um homem como um her√≥i, assim como a pobreza. Virtualmente qualquer circunst√Ęncia na vida de um homem o tornar√° um her√≥i para algum grupo de pessoas e tem uma vers√£o m√≠tica na cultura ‚ÄĒ na literatura, arte, teatro, ou nos jornais di√°rios.