Passagens sobre Orelhas

35 resultados
Frases sobre orelhas, poemas sobre orelhas e outras passagens sobre orelhas para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Não Temos um Projecto de País

Mas a realidade é esta: não temos um projecto de país. Vivemos ao deus-dará, conforme o lado de que o vento sopra. As pessoas já não pensam só no dia-a-dia, pensam no minuto a minuto. Estamos endividados até às orelhas e fazemos uma falsa vida de prosperidade. Aparência, aparência, aparência Рe nada por trás. Onde estão as ideias? Onde está uma ideia de futuro para Portugal? Como vamos viver quando se acabarem os dinheiros da Europa? Os governos todos navegam à vista da costa e parece que ninguém quer pensar nisto, ninguém ousa ir mais além.

Hora de Ponta

Apanhar um lugar a esta hora é uma sorte, poder olhar
pela janela e fingir que tenho imunidade diplom√°tica,
que estou de l√° do vidro com o h√°lito das folhas, o sabor
a hortel√£ e um ar fresco interrompido pela velha senhora
a quem cedo o assento e um sorriso enquanto me agradece
de nada, de ir agora em pé empurrada, de cá do vidro
a apanhar uma overdose de realidade com o bafo quente
do homem gordo na minha orelha, com a m√£o livre
apertada contra o peito, contra o visco da hora apinhada
na minha pele p√ļblica, na minha pele de todos.
No banco em frente uma mulher afaga a neta com o sorriso
doce e cansado, os olhos brilhantes, a candura intacta
toma-me toda como se eu fosse um anjo
descendo à terra com um corpo real para que a minha pele
receba a d√°diva da tua, aceite os cheiros de um dia de trabalho,
o calor excessivo, a proximidade insustent√°vel e leia no teu rosto
cada mandamento nos solavancos que nos atiram uns para
os outros. No teu rosto √£ hora de ponta aprendo a compaix√£o
até sair na próxima paragem com um suspiro de alívio.

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Tive um Cavalo de Cart√£o

Mulher. A tua pele branca foi um verão que quis viver e me foi negado. Um caminho que não me enganou. Enganou-me a luz e os olhos foscos das manhãs revividas. Enganou-me um sonho de poder ser o filho que fui, a correr pelos campos todo o dia, a medir as searas pelo tamanho dos braços abertos; enganou-me um sonho de poder ser o filho que fui no teu homem e no teu rosto, no teu filho, nosso. Não há manhãs para reviver, sei-o hoje. Não se podem construir dias novos sobre manhãs que se recordam. Inventei-te talvez, partindo de uma estrela como todas estas. Quis ter uma estrela e dar-lhe as manhãs de julho. As grandes manhãs de julho diante de casa e a minha mãe a acabar o almoço bom e o meu pai a chegar e a ralhar, sem ser a sério, por o almoço não estar pronto e eu sentado na terra, talvez a fazer um barroco, talvez a brincar com o cavalo de cartão. Tive um cavalo de cartão. Nunca te contei, pouco te contei, mas tive um cavalo de cartão. Brincava com ele e era bonito. Gostava muito dele. Tanto. Tanto. Tanto. Quando o meu pai mo trouxe,

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Lucidez sem Ignor√Ęncia nem Sobranceria

Possivelmente n√£o √© sem raz√£o que atribu√≠mos √† ingenuidade e ignor√Ęncia a facilidade de crer e de se deixar persuadir: pois parece-me haver aprendido outrora que a cren√ßa era como uma impress√£o que se fazia na nossa alma; e, na medida em que esta se encontrava mais mole e com menor resist√™ncia, era mais f√°cil imprimir-lhe algo. Assim como, necessariamente, os pesos que nele colocamos fazem pender o prato da balan√ßa, assim a evid√™ncia arrasta a mente (C√≠cero). Quanto mais vazia e sem contrapeso est√° a alma, mais facilmente ela cede sob a carga da primeira persuas√£o. Eis porque as crian√ßas, o vulgo, (…) e os doentes est√£o mais sujeitos a ser conduzidos pelas orelhas (ou seja, pelo que ouvem). Mas tamb√©m, por outro lado, √© uma tola presun√ß√£o ir desdenhando e condenando como falso o que n√£o nos parece veross√≠mil; esse √© um v√≠cio habitual nos que pensam ter algum discernimento al√©m do comum. Outrora eu agia assim, e, se ouvia falar de esp√≠ritos que retornam, ou do progn√≥stico das coisas futuras, de encantamentos, de feiti√ßarias, ou contarem alguma outra hist√≥ria que eu n√£o conseguisse compreender, vinha-me compaix√£o pelo pobre povo logrado por essas loucuras. Mas actualmente acho que eu pr√≥prio era no m√≠nimo igualmente digno de pena;

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Amor Comparado

Queres ter uma ideia do amor, v√™ os pardais do teu jardim; v√™ os teus pombos; contempla o touro que se leva √† tua vitela; olha esse orgulhoso cavalo que dois valetes teus conduzem √† √©gua em paz que o espera, e que desvia a cauda para receb√™-lo; v√™ como os seus olhos cintilam; ouve os seus relinchos; contempla os seus saltos, camabalhotas, orelhas eri√ßadas, boca que se abre com pequenas convuls√Ķes, narinas que se inflam, sopro inflamado que delas sai, crinas que se revolvem e flutuam, movimento imperioso com o qual o cavalo se lan√ßa para o objecto que a natureza lhe destinou; mas n√£o tenhas inveja, e pensa nas vantagens da esp√©cie humana: elas compensam com amor todas as que a natureza deu aos animais, for√ßa, beleza, ligeireza, rapidez. H√° at√© mesmo animais que n√£o sabem o que √© o gozo. Os peixes escamados s√£o privados dessa do√ßura: a f√™mea lan√ßa no lodo milh√Ķes de ovos; o macho que os encontra passa sobre eles e fecunda-os com a sua semente, sem saber a que f√™mea eles pertencem. A maior parte dos animais que copulam s√≥ t√™m prazer por um sentido; e, assim que esse apetite √© satisfeito, tudo se extingue.

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O Pecado da Gula

Ontem à tarde saí.
Queria passear as lembranças
que um dia de chuva faz crescer em nós.
H√° dias que o vento rondava a casa
cheio de segredos incompletos
a roçar-me a orelha. E eu não resisto
ao sabor do vento
e a uma boa história para enganar o frio.

√Č f√°cil perdermo-nos nas ruas.
Nunca se regressa pelos mesmos caminhos
mas todos parecem iguais
com o cheiro da chuva a deixar o alcatr√£o
e a subir na memória
de outras ruas.
Mas há só um caminho que trilhamos. O corpo
√© uma b√ļssola fiel que segue pela estrada
enquanto o pó se levanta
muito para além dos nossos passos.

Conveniências de não Usar os Olhos, os Ouvidos e a Língua

Ouvir, ver e calar remédio era
nesse tempo em que os olhos e o ouvido
e a língua puderam ser sentido
e n√£o delito que ofender pudera.
Surdos, hoje, os remeiros com a cera,
um mar navegarei que (encanecido
de ossos, mas n√£o de espumas) com bramido
sepulta quem ouviu voz insincera.
Sem ser ouvido e sem ouvir, ociosos
olhos e orelhas, serei olvidado
pelo cenho dos homens poderosos.
Se é delito saber quem é culpado,
o vício que o indaguem os curiosos
e viva eu ignorante e ignorado.

Tradução de José Bento

Pietro Crespi pediu-lhe que se casasse com ele. Ela não interrompeu o trabalho. Esperou que passasse o quente rubor das orelhas e imprimiu a serena ênfase de maturidade.

O que conto neste livro (N√ļmero Zero), salvo a fantasia desse Braggadocio sobre o corpo de Mussolini, √© verdadeiro, teve processos judiciais e j√° foi publicado. O pior do que conto no meu romance n√£o √© o que se fez de terr√≠vel, mas que as pessoas se estejam nas tintas para todos esses acontecimentos. Vejo que tudo entra por uma orelha e sai pela outra das pessoas, como se as coisas terr√≠veis que se passaram h√° 50 anos n√£o preocupem ningu√©m e sejam aceites tranquilamente.

Ciumes

Pierrot dorme sobre a relva junto ao lago. Os cisnes junto d’elle passam s√™de, n√£o n’o acordem ao beber.

Uma andorinha trav√™ssa, linda como todas, av√īa brincando rente √° relva e beija ao passar o nariz de Pierrot. Elle accorda e a andorinha, fugindo a muito, olha de medo atraz, n√£o venha o Pierrot de zangado persegui-la pelos campos. E a andorinha perdia-se nos montes, mas, porque elle se queda, de n√īvo volta em zig-zags trav√™ssos e chilreios de tro√ßa. E chilreia de tro√ßa, muito alto, por cima d’elle. Pierrot j√° se adormecia, e a andorinha em descida que faz calafrios pousou-lhe no peito duas ginjas bicadas, e fugiu de n√īvo.

De contente, ergueu-se sorrindo e de joelhos, braços erguidos, seus olhos foram tão longe, tão longe como a andorinha fugida nos montes.

De repente viu-se cego – os dedos finissimos da Colombina brincavam com elle. Desceu-lhe os dedos aos labios e trocou com beijos o ar√īma das palmas perfumadas. Depois dependurou-lhe de cada orelha uma ginja, √° laia de brincos com joias de carmim. Rolaram-se na relva e uniram as boccas, e j√° se esqueciam de que as tinham juntas…

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A Dor

Que venha, ref√ļgio ou ins√≥nia, futuro
antigo e comece no campo ou no flanco, à
direita, onde consome a alma, à esquerda
onde exclama no corpo, na seiva ou no ch√£o

dos sobressaltos. Venha, amantíssima e espessa,
orelha ou folha acesa, fugaz ou rasgada,
planície vermelha, doce, gélida ou rápida.
Obedeça ao enleio, desperte ou descanse,

corre pelo sangue como cervo na noite,
sol que despedaça o peito. O rosto se cobre
de grandes cinzas, pesado como uma l√°grima,

a alma, sendo ar, em nenhum lugar sereno.
√önica posse de que dispomos. √Č seu
absurdo desejo, subtil e sem domínio.

Vi Jesus Cristo Descer à Terra

Num meio-dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e √°rvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustra√ß√Ķes.
Nem sequer o deixavam ter pai e m√£e
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que n√£o era pai dele;
E o outro pai era uma pomba est√ļpida,

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Escutem esse silêncio, o grandioso ruído que ele carrega; e não serve de nada cobrir as orelhas.

Um Povo Resignado e Dois Partidos sem Ideias

Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macamb√ļzio, fatalista e son√Ęmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de mis√©rias, sem uma rebeli√£o, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem j√° com as orelhas √© capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, n√£o se lembrando nem donde vem, nem onde est√°, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e √© bom, e guarda ainda na noite da sua inconsci√™ncia como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em sil√™ncio escuro de lagoa morta. [.]

Uma burguesia, c√≠vica e politicamente corrupta at√© √† medula, n√£o descriminando j√° o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem car√°cter, havendo homens que, honrados na vida √≠ntima, descambam na vida p√ļblica em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a inf√Ęmia, da mentira a falsifica√ß√£o, da viol√™ncia ao roubo, donde provem que na pol√≠tica portuguesa sucedam, entre a indiferen√ßa geral, esc√Ęndalos monstruosos, absolutamente inveros√≠meis no Limoeiro. Um poder legislativo, esfreg√£o de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdica√ß√£o un√Ęnime do Pa√≠s.

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