Passagens sobre Rigor

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LXIX

Se à memória trouxeres algum dia,
Belíssima tirana, ídolo amado,
Os ternos ais, o pranto magoado,
Com que por ti de amor Alfeu gemia;

Confunda-te a soberba tirania,
O ódio injusto, o violento desagrado,
Com que atr√°s de teu olhos arrastado
Teu ingrato rigor o conduzia.

E já que enfim tão mísero o fizeste,
Vê-lo-ás, cruel, em prêmio de adorar-te,
Vê-lo-ás, cruel, morrer; que assim quiseste.

Dir√°s, lisonjeando a dor em parte:
Fui-te ingrata, pastor; por mim morreste;
Triste remédio a quem não pode amar-te!

Crítica e Auto-Crítica

Assim como o homem carrega o peso do pr√≥prio corpo sem o sentir, mas sente o de qualquer outro corpo que quer mover, tamb√©m n√£o nota os pr√≥prios defeitos e v√≠cios, mas s√≥ os dos outros. Entretanto, cada um tem no seu pr√≥ximo um espelho, no qual v√™ claramente os pr√≥prios v√≠cios, defeitos, maus h√°bitos e repugn√Ęncias de todo o tipo. Por√©m, na maioria da vezes, faz como o c√£o, que ladra diante do espelho por n√£o saber que se v√™ a si mesmo, crendo ver outro c√£o.
Quem critica os outros trabalha em prol da sua pr√≥pria melhoria. Portanto, quem tem a inclina√ß√£o e o h√°bito de submeter secretamente a conduta dos outros, e em geral tamb√©m as suas ac√ß√Ķes e omiss√Ķes, a uma atenta e severa cr√≠tica, trabalha na verdade em prol da pr√≥pria melhoria e do pr√≥prio aperfei√ßoamento, pois possui o suficiente de justi√ßa, ou de orgulho e vaidade, para evitar o que ami√ļde censura com tanto rigor.

Sonho

De suspirar em v√£o j√° fatigado,
Dando trégua a meus males eu dormia;
Eis que junto de mim sonhei que via
Da Morte o gesto lívido e mirrado:

Curva fouce no punho descarnado
Sustentava a cruel, e me dizia:
“Eu venho terminar tua agonia;
Morre, n√£o penes mais, √≥ desgra√ßado!”

Quis ferir-me, e de Amor foi atalhada,
Que armado de cruentos passadores
Aparece, e lhe diz com voz irada:

“Emprega noutro objecto teus rigores;
Que esta vida infeliz est√° guardada
Para v√≠tima s√≥ de meus furores.”

Este é o Papel Singular da Alegria

Este é o papel singular da alegria
a lei errante do país
é o maior dos silêncios.

Caminhei por entre rios pontos de √°gua
esta√ß√Ķes de novembro
pequena raz√£o dos ventos da manh√£.

N√£o trafiquei n√£o porque seja forte
mas porque falo da alegria do estar sobre vós
nestes pontos de √°gua
na acidez da flor
neste país frequentado

algumas coisas nunca mudar√£o. O rigor
da luz torna invulner√°vel o desejo de perder
esta pressa de ver√£o.

Algumas coisas ser√£o sempre as mesmas: manh√£
encosta o teu ouvido sobre a porta escuta
era a voz os cavaleiros roubados a Ucello
longínquos.

(Profanamos a casa n√£o o corpo
esta forma desenhada ruga a ruga
esta cor amarela sobre a praia.)

Perguntemo-nos quem √© propriamente ‘mau’, no sentido da moral do ressentimento. A resposta, com todo o rigor: precisamente o ‘bom’ da outra moral.

XXIII

Tu sonora corrente, fonte pura,
Testemunha fiel da minha pena,
Sabe, que a sempre dura, e ingrata
Almena Contra o meu rendimento se conjura:

Aqui me manda estar nesta espessura,
Ouvindo a triste voz da filomena,
E bem que este martírio hoje me ordena,
Jamais espero ter melhor ventura.

Veio a dar me somente uma esperança
Nova idéia do ódio; pois sabia,
Que o rigor n√£o me assusta, nem me cansa:

Vendo a tanto crescer minha porfia,
Quis mudar de tormento; e por vingança
Foi buscar no favor a tirania.

Só aceitamos uma verdade quando primeiro a negamos do fundo da alma, que não devemos fugir de nosso próprio destino, e que a mão de Deus é infinitamente generosa, apesar de seu rigor.

Assi, despois, a descorada rosa,
Se reverdece, fica mais fermosa;
Assi, despois do Inverno e seus rigores,
Se mostra a Primavera com mais flores.

Paisagem Citadina

A pele por fulgurantes
instantes muitas vezes abre-se até onde
seria impens√°vel que exercesse
com tão grande rigor o seu domínio.

N√£o temos ent√£o dela sen√£o r√°pidas
vis√Ķes, onde os reclames
do coração se cruzam, solitários
e agrestes, reflectidos

por tr√°s nos ossos empedrados.
Em certas posi√ß√Ķes v√™em-se as cordas
do nosso espírito esticadas num terraço.

A roupa dói-nos porque, embora
nos cubra a pele, é dentro
do espírito que estão os tecidos amarrados.

Perfeição é Virtude e não Ausência de Defeitos

A virtude √© a perfei√ß√£o no estado de homem e n√£o a aus√™ncia de defeitos. Se eu quero construir uma cidade, pego na malandragem e na ral√©. O poder h√°-de nobilit√°-las. Ofere√ßo-lhes uma embriaguez, diferente da embriaguez med√≠ocre da rapina, da usura ou da viola√ß√£o. √Č ver aqueles bra√ßos nodosos que edificam. O orgulho vai-se transformando em torres, templos e muralhas. A crueldade torna-se grandeza e rigor na disciplina. E ei-los a servirem uma cidade nascida deles pr√≥prios. Trocaram-se por ela no fundo dos cora√ß√Ķes. E morrer√£o de p√©, nas muralhas, para a salvarem. S√≥ descobrir√°s neles virtudes resplandecentes.
¬ęMas tu, que p√Ķes m√° cara diante do poder da terra, diante da grosseria, da podrid√£o e dos vermes dos homens, come√ßas por pedir ao homem que n√£o seja e que n√£o tenha nem sequer cheiro. Reprovas-lhe a express√£o da sua for√ßa. Instalas capados √† frente do imp√©rio. E eles entram a perseguir o v√≠cio, que n√£o passa de poder mal empregado. √Č o poder e a vida que eles perseguem e, no entanto, tornam-se guardi√Ķes de museu e vigiam um imp√©rio morto¬Ľ

Amor Sem Fruto, Amor Sem Esperança

Amor sem fruto, amor sem esperança
√Č mais nobre, mais puro,
Que o que, domando a ríspida esquivança,
Jaz dos agrados nas pris√Ķes seguro.
Meu leal coração, constante e forte,
Vendo a teu lado acesos,
Flérida ingrata, os ódios, os desprezos,
O rigor, a tristeza, a raiva, a morte,
Forjando contra mim, por ordem tua,
Mil setas venenosas,
Em prémio destas lágrimas saudosas,
Inda assim continua
A abrasar-se em teus olhos… Vis amantes,
Cora√ß√Ķes inconstantes,
De s√≥rdidas paix√Ķes envenenados,
Vós, a cujos ardores,
A cujos desbocados
Infames apetites
A Virtude, a Raz√£o n√£o p√Ķe limites,
Suspirai por ilícitos favores,
Cevai-vos em torpíssimos desejos,
Tratai, tratai de louco um amor casto,
Que eu nos grilh√Ķes que arrasto;
T√£o limpos como o Sol, darei mil beijos.
Peçonhenta aliança,
Vergonhoso prazer, de vós não curo;
De ti, sim, porque és puro,
Amor sem fruto, amor sem esperança.

Marília

√ď Mar√≠lia! √ď Dirceu! Eram dois ninhos
Os vossos cora√ß√Ķes, ninhos de flores;
Mas, entre os quais, sentíeis os rigores
Lacerantes de incógnitos espinhos;

Tremiam, como em fl√°cidos arminhos,
Promiscuamente, neles os amores,
As saudades, os c√Ęnticos, as dores,
Como uma multid√£o de passarinhos…

O sulco profundíssimo que traça
Nos cora√ß√Ķes amantes a desgra√ßa,
Ambos nos cora√ß√Ķes tra√ßados vistes,

Quando os vossos olhares, no momento,
Cruzaram-se, do negro afastamento,
Marejados de l√°grimas e tristes…

A um Mosquito

Invencível mosquito,
√Čmulo do mais livre pensamento,
Sem corpo, e de todo espírito,
Que deste fim a um t√£o alto intento,
Quando precipitado
O céu de Délia acometeste ousado.

As portas de diamante
Cerradas ao clamor de tanta gente
Abriste triunfante,
Zombando da esperança impertinente,
Que entre temor, e espanto
Nunca acabou comigo esperar tanto.

Cupido, que inquieta
Délia sentiu ferida,
Espera, que o sinta,
A lança, que tiraste em sangue tinta,
Que o peito endurecido
√Č prova das setas de Cupido.

Porém de nada disto
Te mostres t√£o soberbo, e presumido,
Que podes sem ser visto
Passar a mais ferir, sem ser sentido,
E para castigar-te,
N√£o ocupas lugar nalguma parte.

Foras de amor ferido,
Se tivera o teu erro algum desconto,
Ou se achara Cupido
Aonde a ponta da seta p√īr o ponto.
Condolação bastante;
Pois não picaste a Délia como amante.

Buscaste a noite escura
Por cometer a Délia mais oculto;
Quem medo te afigura,
Se n√£o faz o teu corpo nenhum vulto,

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A Vaidade no Sofrimento

H√° ocasi√Ķes, em que contra√≠mos a obriga√ß√£o connosco, de n√£o admitirmos al√≠vio nas nossas m√°goas, e nos armamos de rigor, e de aspereza contra tudo o que pode consolar-nos, como querendo, que a const√Ęncia na pena nos justifique, e sirva de mostrar a injusti√ßa da fortuna: parece-nos, que o ser firme a nossa dor, √© prova de ser justa; esta ideia nos inspira a vaidade, menos cuidadosa no sossego do nosso √Ęnimo, do que atenta em procurar a estima√ß√£o dos homens. Uma grande pena admira-se, e respeita-se; √© o que basta para que a vaidade nos fa√ßa persistir no sentimento.

Se a justiça empregasse todo o seu rigor, em breve a terra seria um deserto. Onde se encontra quem não tenha, grave ou leve, uma culpa? Examinemos, e veremos que é raro encontrar um juiz inocente do erro que castiga.

XXIV

Sonha em torrentes d’√°gua, o que abrasado
Na sede ardente est√°; sonha em riqueza
Aquele, que no horror de uma pobreza
Anda sempre infeliz, sempre vexado:

Assim na agitação de meu cuidado
De um contínuo delírio esta alma presa,
Quando é tudo rigor, tudo aspereza,
Me finjo no prazer de um doce estado.

Ao despertar a louca fantasia
Do enfermo, do mendigo, se descobre
Do torpe engano seu a imagem fria:

Que importa pois, que a idéia alívios cobre,
Se apesar desta ingrata aleivosia,
Quanto mais rico estou, estou mais pobre.

XVI

Toda a mortal fadiga adormecia
No silêncio, que a noite convidava;
Nada o sono suavíssimo alterava
Na muda confus√£o da sombra fria:

Só Fido, que de amor por Lise ardia,
No sossego maior n√£o repousava;
Sentindo o mal, com l√°grimas culpava
A sorte; porque dela se partia.

Vê Fido, que o seu bem lhe nega a sorte;
Querer enternec√™-na √© in√ļtil arte;
Fazer o que ela quer, é rigor forte:

Mas de modo entre as penas se reparte;
Que à Lise rende a alma, a vida à morte:
Por que uma parte alente a outra parte.

De Duas Maneiras Cega a Fortuna

No golfo de uma privan√ßa, nunca o perigo √© mais certo, que quando a fortuna √© mais pr√≥spera. De duas maneiras cega a fortuna, porque cega como luz e cega como fouce; com uma m√£o abra√ßa, e com outra corta; com a que abra√ßa introduz a cegueira, e com a que corta mostra o desengano. Consiste a prud√™ncia em que se temam os resplendores da luz, para que se n√£o cegue aos rigores do golpe. N√£o faz mal √† embarca√ß√£o o penedo que sobressai por cima da √°gua; porque para evitar o perigo sabe o piloto desviar a nau, por ver manifesto o perigo. Nos penedos que as √°guas escondem, a√≠ naufraga sempre o baixel; porque cobriu com capa de cristal uma ru√≠na de penhasco, e os que, navegando pelo mar, caminham com os olhos nas ondas, facilmente se esvaem, e quanto maior √© na cabe√ßa o esvaecimento, vem a ser mais no cora√ß√£o a fraqueza. N√£o sabe o que navega quanto tem vencido de dist√Ęncia, se do mesmo mar n√£o tira os olhos, e s√≥ fazendo balizas na terra sabe o quanto no mar caminham. √Č um golfo grande o da privan√ßa, e a maior prud√™ncia consiste em que se divirtam de alguma vez os olhos,

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LVI

Tu, ninfa, quando eu menos penetrado
Das violências de Amor vivia isento,
Propondo-te ent√£o bela a meu tormento,
Foste doce ocasi√£o de meu cuidado.

Roubaste o meu sossego, um doce agrado,
Um gesto lindo, um brando acolhimento
Foram somente o √ļnico instrumento,
Com que deixaste o triunfo assegurado.

J√° n√£o espero ter felicidade,
Salvo se for aquela, que confio,
Por amar-te, apesar dessa impiedade.

Em prêmio dos suspiros, que te envio,
Ou modera o rigor da crueldade,
Ou torna-me outra vez meu alvedrio.