Textos sobre Espelho

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Textos de espelho escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Para Um Homem Se Ver a Si Mesmo

Para um homem se ver a si mesmo, são necessárias três cousas: olhos, espelho e luz. Se tem espelho e é cego, não se pode ver por falta de olhos; se tem espelho e olhos, e é de noite, não se pode ver por falta de luz. Logo, há mister luz, há mister espelho e há mister olhos. Que cousa é a conversão de uma alma, senão entrar um homem dentro em si e ver-se a si mesmo? Para essa vista são necessários olhos, é necessário luz e é necessário espelho. O pregador concorre com o espelho, que é a doutrina; Deus concorre com a luz, que é a graça; o homem concorre com os olhos, que é o conhecimento.

Por um Mundo Escutador

N√£o existe alternativa: a globaliza√ß√£o come√ßou com o primeiro homem. O primeiro homem (se √© que alguma vez existiu ¬ęum primeiro¬Ľ homem) era j√° a humanidade inteira. Essa humanidade produziu infinitas respostas adaptativas. O que podemos fazer, nos dias de hoje, √© responder √† globaliza√ß√£o desumanizante com uma outra globaliza√ß√£o, feita √† nossa maneira e com os nossos prop√≥sitos. N√£o tanto para contrapor. Mas para criar um mundo plural em que todos possam mundializar e ser mundializados. Sem hegemonia, sem domina√ß√£o. Um mundo que escuta as vozes diversas, em que todos s√£o, em simult√Ęneo, centro e periferia.

S√≥ h√° um caminho. Que n√£o √© o da imposi√ß√£o. Mas o da sedu√ß√£o. Os outros necessitam conhecer-nos. Porque at√© aqui ¬ęeles¬Ľ conhecem uma miragem. O nosso retrato – o retrato feito pelos ¬ęoutros¬Ľ – foi produzido pela sedimenta√ß√£o de estere√≥tipos. Pior do que a ignor√Ęncia √© essa presun√ß√£o de saber. O que se globalizou foi, antes de mais, essa ignor√Ęncia disfar√ßada de arrog√Ęncia. N√£o √© o rosto mas a m√°scara que se veicula como retrato.
A questão é, portanto, a de um outro conhecimento. Se os outros nos conhecerem, se escutarem a nossa voz e, sobretudo, se encontrarem nessa descoberta um motivo de prazer,

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Arte Com ou Sem Nacionalidade

O que se deve entender por arte portuguesa? Concorda com este termo? H√° arte verdadeiramente portuguesa?
‚ÄĒ Por arte portuguesa deve entender-se uma arte de Portugal que nada tenha de portugu√™s, por nem sequer imitar o estrangeiro. Ser portugu√™s no sentido decente da palavra, √© ser europeu sem a m√°-cria√ß√£o de nacionalidade. Arte portuguesa ser√° aquela em que a Europa ‚ÄĒ entendendo por Europa principalmente a Gr√©cia antiga e o universo inteiro ‚ÄĒ se mire e se reconhe√ßa sem se lembrar do espelho. S√≥ duas na√ß√Ķes ‚ÄĒ a Gr√©cia passada e Portugal futuro ‚ÄĒ receberam dos deuses a concess√£o de serem n√£o s√≥ elas mas tamb√©m todas as outras. Chamo a sua aten√ß√£o para o facto, mais importante que geogr√°fico, de que Lisboa e Atenas est√£o quase na mesma latitude.

Uma Revolução Mental e Moral nos Portugueses

As ideias que, no modo de ver do Governo, devem constituir as bases do futuro estatuto constitucional n√£o s√£o s√≥ para ser aceites pela nossa intelig√™ncia, mas para ser sentidas, vividas, executadas. Passadas para uma Constitui√ß√£o, n√£o vamos julgar ter encontrado o rem√©dio de todos os males pol√≠ticos. Mortas, enterradas em textos de lei, podem ser inofensivas ‚ÄĒ o que √© j√° uma vantagem, porque outras o n√£o s√£o ‚ÄĒ mas n√£o ser√£o eficazes. As leis, verdadeiramente, fazem-nas os homens que as executam, e acabam por ser na pr√°tica, por debaixo do v√©u da sua pureza abstracta, o espelho dos nossos defeitos de entendimento e dos nossos desvios de vontade.
√Č este o motivo por que, sempre que olho para o futuro, para a consolida√ß√£o e prosseguimento do que se h√° feito em favor da ordem, da disciplina, da economia e do progresso do Pa√≠s, eu vejo nitidamente n√£o se estar construindo nada de s√≥lido fora de uma revolu√ß√£o mental e moral nos portugueses de hoje, e de uma cuidadosa prepara√ß√£o das gera√ß√Ķes de amanh√£. Eu pergunto se na alma dos que dizem acompanhar-nos h√° o amor da P√°tria at√© ao sacrif√≠cio, o desejo de bem servir, a vontade de obedecer ‚ÄĒ √ļnica escola para aprender a mandar ‚ÄĒ,

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Quando Falo com Sinceridade n√£o sei com que Sinceridade Falo

N√£o sei quem sou, que alma tenho.
Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo. Sou váriamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros).
Sinto cren√ßas que n√£o tenho. Enlevam-me √Ęnsias que repudio. A minha perp√©tua aten√ß√£o sobre mim perp√©tuamente me ponta trai√ß√Ķes de alma a um car√°cter que talvez eu n√£o tenha, nem ela julga que eu tenho.
Sinto-me m√ļltiplo. Sou como um quarto com in√ļmeros espelhos fant√°sticos que torcem para reflex√Ķes falsas uma √ļnica anterior realidade que n√£o est√° em nenhuma e est√° em todas.
Como o panteísta se sente árvore [?] e até a flor, eu sinto-me vários seres. Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente, como se o meu ser participasse de todos os homens, incompletamente de cada [?], por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço.

Os Tent√°culos da Escrita

Os tent√°culos da escrita. A escrita √© um polvo, um molusco vers√°til. Tem infinitos recursos. Escapa sempre. Abstractiza-se. Disfar√ßa-se, adensa-se, adelga√ßa-se, esconde-se. Impele-se r√°pida. Compreende tudo: ascese, consolo √≠ntimo, entrega; fluxos, refluxos, invas√Ķes, esvaziamentos, obstina√ß√£o feroz. O seu rigor √© m√≠stico. √Č uma infinita demanda. Perscruta o inaudito. Sideral Alice atravessa todas as portas, todos os espelhos. Cruza, descobre, inventa universos. A escrita √© um fragmento do espanto, j√° algu√©m o disse.

O Homem é um Animal Irracional

1. O homem √© um animal irracional, exactamente como os outros. A √ļnica diferen√ßa √© que os outros s√£o animais irracionais simples, o homem √© um animal irracional complexo. √Č esta a conclus√£o que nos leva a psicologia cient√≠fica, no seu estado actual de desenvolvimento. O subconsciente, inconsciente, √© que dirige e impera, no homem como no animal. A consci√™ncia, a raz√£o, o racioc√≠nio s√£o meros espelhos. O homem tem apenas um espelho mais polido que os animais que lhe s√£o inferiores.

2. Sendo assim, toda a vida social procede de irracionalismos vários, sendo absolutamente impossível (excepto no cérebro dos loucos e dos idiotas) a ideia de uma sociedade racionalmente organizada, ou justiceiramente organizada, ou, até, bem organizada.

3. A √ļnica coisa superior que o homem pode conseguir √© um disfarce do instinto, ou seja o dom√≠nio do instinto por meio de instinto reputado superior. Esse instinto √© o instinto est√©tico. Toda a verdadeira pol√≠tica e toda a verdadeira vida social superior √© uma simples quest√£o de senso est√©tico, ou de bom gosto.
4. A humanidade, ou qualquer nação, divide-se em três classes sociais verdadeiras: os criadores de arte; os apreciadores de arte; e a plebe.

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Crítica e Auto-Crítica

Assim como o homem carrega o peso do pr√≥prio corpo sem o sentir, mas sente o de qualquer outro corpo que quer mover, tamb√©m n√£o nota os pr√≥prios defeitos e v√≠cios, mas s√≥ os dos outros. Entretanto, cada um tem no seu pr√≥ximo um espelho, no qual v√™ claramente os pr√≥prios v√≠cios, defeitos, maus h√°bitos e repugn√Ęncias de todo o tipo. Por√©m, na maioria da vezes, faz como o c√£o, que ladra diante do espelho por n√£o saber que se v√™ a si mesmo, crendo ver outro c√£o.
Quem critica os outros trabalha em prol da sua pr√≥pria melhoria. Portanto, quem tem a inclina√ß√£o e o h√°bito de submeter secretamente a conduta dos outros, e em geral tamb√©m as suas ac√ß√Ķes e omiss√Ķes, a uma atenta e severa cr√≠tica, trabalha na verdade em prol da pr√≥pria melhoria e do pr√≥prio aperfei√ßoamento, pois possui o suficiente de justi√ßa, ou de orgulho e vaidade, para evitar o que ami√ļde censura com tanto rigor.

Agradar a Todos e a Ninguém

Aqueles que procuram agradar andam muito enganados. Para agradar, tornam-se male√°veis e d√ļcteis, apressam-se a corresponder a todos os desejos. E acabam por trair em todas as coisas, para serem como os desejam. Que hei-de eu fazer dessas alforrecas que n√£o t√™m ossos nem forma? Vomito-os e restituo-os √†s suas nebulosas: vinde ver-me quando estiverdes constru√≠dos.
As pr√≥prias mulheres se cansam quando algu√©m, para lhes demonstrar amor, aceita fazer-se eco e espelho, porque ningu√©m tem necessidade da sua pr√≥pria imagem. Mas eu tenho necessidade de ti. Est√°s constru√≠do como fortaleza e eu bem sinto o teu n√ļcleo. Senta-te ali, porque tu existes.
A mulher desposa e torna-se serva daquele que é de um império.

Amo-te, Portugal

Portugal,

Estou há que séculos para te escrever. A primeira vez que dei por ti foi quando dei pela tua falta. Tinha 19 anos e estava na Inglaterra. De repente, deixei de me sentir um homem do mundo e percebi, com tristeza, que era apenas mais um dos teus desesperados pretendentes.

Apaixonaste-me sem que eu desse por isso. Deve ter sido durante os meus primeiros 18 anos de vida, quando estava em Portugal e só queria sair de ti. Insinuaste-te. Não fui eu que te escolhi. Quando descobri que te amava, já era tarde de mais.

Eu n√£o queria ficar preso a ti; queria correr mundo. Passei a querer correr para ti – e foi para ti que corri, mal pude.

Teria preferido chegar √† conclus√£o que te amava por uma lenta acumula√ß√£o de raz√Ķes, emo√ß√Ķes e vantagens. Mas foi ao contr√°rio. Apaixonei-me de um dia para o outro, sem qualquer esp√©cie de aviso, e desde esse dia, que rem√©dio, l√° fui acumulando, lentamente, as raz√Ķes por que te amo, retirando-as uma a uma dentre todas as outras raz√Ķes, para n√£o te amar, ou n√£o querer saber de ti.

Custou-me justificar o meu amor por ti.

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O Prestígio da Poesia

O prest√≠gio da poesia √© menos ela n√£o acabar nunca do que propriamente come√ßar. √Č um in√≠cio perene, nunca uma chegada seja ao que for. E ficamos estendidos nas camas, enfrentando a perturbada imagem da nossa imagem, assim, olhados pelas coisas que olhamos. Aprendemos ent√£o certas ast√ļcias, por exemplo: √© preciso apanhar a ocasional distrac√ß√£o das coisas, e desaparecer; fugir para o outro lado, onde elas nem suspeitam da nossa consci√™ncia; e apanh√°-las quando fecham as p√°lpebras, um momento, r√°pidas, e rapidamente p√ī-las sob o nosso senhorio, apanhar as coisas durante a sua fortuita distrac√ß√£o, um interregno, um instante obl√≠quo, e enriquecer e intoxicar a vida com essas misteriosas coisas roubadas. Tamb√©m roub√°mos a cara chamejante aos espelhos, roub√°mos √† noite e ao dia as suas inextric√°veis imagens, roub√°mos a vida pr√≥pria √† vida geral, e fomos conduzidos por esse roubo a um equ√≠voco: a condena√ß√£o ou condana√ß√£o de inquilinos da irrealidade absoluta. O que excede a insolv√™ncia biogr√°fica: com os nomes, as coisas, os s√≠tios, as horas, a medida pequena de como se respira, a morte que se n√£o refuta com nenhum verbo, nenhum argumento, nenhum latroc√≠nio.
Vivemos demoniacamente toda a nossa inocência.

Luto por uma Novidade de Espírito

Procuro me manter isolada contra a agonia de viver dos outros, e essa agonia que lhes parece um jogo de vida e morte mascara uma outra realidade, t√£o extraordin√°ria essa verdade que os outros cairiam de espanto diante dela, como num esc√Ęndalo. Enquanto isso, ora estudam, ora trabalham, ora amam, ora crescem, ora se afanam, ora se alegram, ora se entristecem. A vida com letra mai√ļscula nada pode me dar porque vou confessar que tamb√©m eu devo ter entrado por um beco sem sa√≠da como os outros. Porque noto em mim, n√£o um bocado de fatos, e sim procuro quase tragicamente ser. √Č uma quest√£o de sobreviv√™ncia assim como a de comer carne humana quando n√£o h√° alimento. Luto n√£o contra os que compram e vendem apartamentos e carros e procuram se casar e ter filhos mas luto com extrema ansiedade por uma novidade de esp√≠rito. Cada vez que me sinto quase um pouco iluminada vejo que estou tendo uma novidade de esp√≠rito.
Minha vida é um reflexo deformado assim como se deforma num lago ondulante e instável o reflexo de um rosto. Imprecisão trémula. Como o que acontece com a água quando se mergulha a mão na água.

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O Outono da Vida

Come√ßa devagarinho. √Č como tudo. A gente andamos na nossa vida, andamos influ√≠dos e est√° claro que n√£o reparamos. De manh√£, temos de pensar no caf√©.
Depois, h√°-de vir o almo√ßo. Est√° claro que nem reparamos numa aragem. Mal uma aragem mais fresca que se mistura com o sol-p√īr. J√° setembro quer acabar e ainda temos a torrina do sol na pele, a hora do calor, (quase cansada, para a cadela invis√≠vel) Anda c√°, Ladina… Tamb√©m est√°s a ficar velha… Arriba, cadela… (voltando ao tom e √† direc√ß√£o inicial) A gente nem d√° f√©. Primeiro, √© umas pontadas nas costas, umas sez√Ķes, umas coisas assim. Primeiro, a gente julga que vai passar, como passavam os esfol√Ķes nas pernas quando √©ramos pequenos e and√°vamos a correr pelas ruas ou quando encontr√°vamos alguma √°rvore a jeito de subir. Come√ßa mesmo devagarinho. Aos poucos, (com ternura, para a cadela) Ah, Ladina… Bochinha, bochinha… Ent√£o, n√£o queres vir? Anda c√°, cadela… (voltando √† direc√ß√£o inicial) E as m√£os come√ßam a tremer um bocadinho. E o trabalho come√ßa a ser mais custoso. E um dia a gente j√° quase que n√£o conhece a nossa cara no espelho no lavat√≥rio. √Č nesse dia, √© nessa hora que come√ßa o outono.

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Um Ser Revoltante e Falso

Quanta felicidade d√° a grata suavidade das coisas! Como a vida √© cintilante e de bela apar√™ncia! S√£o as grandes falsifica√ß√Ķes, as grandes interpreta√ß√Ķes que sempre nos t√™m elevado acima da satisfa√ß√£o animal, at√© chegarmos ao humano. Inversamente: que nos trouxe a chiadeira do mecanismo l√≥gico, a rumina√ß√£o do esp√≠rito que se contempla ao espelho, a disseca√ß√£o dos instintos?
Suponde v√≥s que tudo era reduzido a f√≥rmulas e que a vossa cren√ßa era confinada √† aprecia√ß√£o de graus de verosimilhan√ßa, e que vos era insuport√°vel viver com tais premissas… que faz√≠eis v√≥s?

A Exist√™ncia Baseada Em Justifica√ß√Ķes

Ningu√©m aqui gera mais do que a sua possibilidade espiritual de viver; pouco importa que d√™ a apar√™ncia de trabalhar para se alimentar, para se vestir, etc.; com cada bocada vis√≠vel uma invis√≠vel lhe √© estendida, com cada vestimenta vis√≠vel uma invis√≠vel vestimenta. Est√° nisso a justifica√ß√£o de cada homem. Parece fundamentar a sua exist√™ncia com justifica√ß√Ķes ulteriores, mas essa √© apenas a imagem invertida que oferece o espelho da psicologia, de facto erege a sua vida sobre as suas justifica√ß√Ķes. √Č verdade que cada homem deve poder justificar a sua vida (ou a sua morte, o que vem dar no mesmo), n√£o pode furtar-se a essa tarefa.

Ver Correr a Esperança

De bru√ßos sobre o lavat√≥rio, abro a torneira, tapo o ralo, fico alguns momentos a ver correr a esperan√ßa, que vai enchendo aos poucos a bacia. Depois fecho a torneira e, retirando a tampa, vejo-a escoar-se em gorgolejos que cada vez s√£o mais humanos e mais fundos. √Č a respira√ß√£o do ralo, que s√≥ ent√£o dou conta de que est√° dentro de mim, por uma dessas distor√ß√Ķes a que √© costume eu ser atreito e que me impede ainda de me ver no pr√≥prio espelho, que, apesar de se encontrar √† minha frente, n√£o consigo deslocar do avesso dos meus olhos.

Os meus sentidos rangem, solid√°rios com os canos, eles que eu gostaria de poder assimilar ao mar, a um c√©u azul, desanuviado, e que jamais me d√£o do esp√≠rito vis√Ķes onde n√£o se encastoem nuvens e rebentem tempestades.

Repito a operação. Mergulho às vezes as mãos na minha esperança, mas retiro-as ao cabo de algum tempo, antes que se transformem em raízes. Destapo uma vez mais o ralo. Assim corre a amizade Рpenso, olhando o redemoinho -, assim correm os afectos, que, depois de encherem a bacia onde a custo nos lavamos sem os fazermos transbordar,

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A Censura de Um Deve Pesar Mais que uma Plateia de Ignorantes

Hamlet (para um dos actores): Portanto, nada de conten√ß√£o exagerada. O seu discernimento deve ser o seu guia. Ajuste o gesto √† palavra, a palavra ao gesto, e cuide de n√£o perder a simples naturalidade. Pois tudo o que √© for√ßado foge do prop√≥sito da actua√ß√£o, cuja finalidade, tanto na origem como agora, era e √© erguer um espelho diante da natureza. Mostrar √† virtude as suas fei√ß√Ķes; ao orgulho, o desprezo, e a cada √©poca e gera√ß√£o, sua figura e estampa. O exagero e a imper√≠cia podem divertir os incultos, mas causam apenas desconforto aos judiciosos; √†queles cuja censura, ainda que de um s√≥, deve pesar mais em sua estima que toda uma plateia de ignorantes.

Sou J√° Meus Pensamentos Mas N√£o Eu

Tornei-me uma figura de livro, uma vida lida. O que sinto é (sem que eu queira) sentido para se escrever que se sentiu. O que penso está logo em palavras, misturado com imagens que o desfazem, aberto em ritmos que são outra coisa qualquer. De tanto recompor-me destruí-me. De tanto pensar-me, sou já meus pensamentos mas não eu. Sondei-me e deixei cair a sonda; vivo a pensar se sou fundo ou não, sem outra sonda agora senão o olhar que me mostra, claro a negro no espelho do poço alto, meu próprio rosto que me contempla contemplá-lo.

A Inveja só Incide sobre os Vivos

Por mais que vivamos juntos, e nos vejamos sempre, √© por um modo como vago, e passageiro: as cousas nem por estarem muito perto se v√™em melhor, e os Her√≥is o que os faz mais vis√≠veis, √© a dist√Ęncia, e despropor√ß√£o dos outros homens em que os p√Ķem as suas ac√ß√Ķes; n√£o s√≥ os homens, mas ainda os sucessos, quanto mais longe v√£o ficando, mais crescem, e nos v√£o parecendo maiores, at√© que os vimos a perder de vista, e muitas vezes da mem√≥ria; porque no tempo tamb√©m h√° um ponto de perspectiva, donde como em espelho v√£o crescendo todos os objectos, e em chegando a um certo termo, desaparecem. As empresas, que hoje vemos, talvez n√£o sejam inferiores √†s que a tradi√ß√£o refere do tempo do hero√≠smo; por√©m t√™m de menos o estarem pr√≥ximas a n√≥s, e as outras t√™m de mais, o valor que recebem de uma antiguidade vener√°vel: aquelas admiramos porque n√£o temos inveja, nem vaidade, que nos preocupe contra os que passaram h√° muitos s√©culos; contra os que existem sim, e destes, se sabemos as ac√ß√Ķes, tamb√©m sabemos as circunst√Ęncias delas; por isso as desprezamos, porque √© rara a empresa her√≥ica, em que n√£o entre algum fim indigno,

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O Prazer do Beneficiador é Sempre Maior do que o do Beneficiado

– N√£o me podes negar um facto, disse ele; √© que o prazer do beneficiador √© sempre maior do que o do beneficiado. Que √© o benef√≠cio? √Č um acto que faz cessar certa priva√ß√£o do beneficiado. Uma vez produzido o efeito essencial, isto √©, uma vez cessada a priva√ß√£o, torna o organismo ao estado anterior, ao estado indiferente. Sup√Ķe que tens apertado em demasia o c√≥s das cal√ßas; para fazer cessar o inc√≥modo, desabotoas o c√≥s, respiras, saboreias um instante de gozo, o organismo torna √† indiferen√ßa, e n√£o te lembras dos teus dedos que praticaram o acto. N√£o havendo nada que perdure, √© natural que a mem√≥ria se esvae√ßa, porque ela n√£o √© uma planta a√©rea, precisa de ch√£o. A esperan√ßa de outros favores, √© certo, conserva sempre no beneficiado a lembran√ßa do primeiro; mas este facto, ali√°s um dos mais sublimes que a filosofia pode achar em seu caminho, explica-se pela mem√≥ria da priva√ß√£o, ou, usando de outra f√≥rmula, pela priva√ß√£o continuada na mem√≥ria, que repercute a dor passada e aconselha a precau√ß√£o do rem√©dio oportuno.
N√£o digo que, ainda sem esta circunst√Ęncia, n√£o aconte√ßa, algumas vezes, persistir a mem√≥ria do obs√©quio, acompanhada de certa afei√ß√£o mais ou menos intensa;

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