Passagens sobre Estilo

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Frases sobre estilo, poemas sobre estilo e outras passagens sobre estilo para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Soneto III

A D. Fern√£o Martins Mascarenhas quando o fizeram Bispo.

Espanta crecer tanto o Crocodilo
Só por seu acanhado nascimento,
Que se maior nascera, mais isento
Estivera d’espanto o p√°trio Nilo.

Em v√£o levantar√° meu baixo estilo
Vosso Pontifical novo ornamento,
Pois no ventre o imortal merecimento
Vo-lo talhou, para despois visti-lo.

Tardou, mas veio, que a quem mais merece
Muito mais tarde vir o prémio é certo,
E sempre tarda, inda que venha cedo.

Os Céus, que do primeiro estão mais perto,
Mais devagar se movem; quem soubesse
Tr√°s d’aquele segredo, este segredo?

A compreensão torna-se difícil às pessoas das classes mais elevadas, que estão acostumadas a estilos de vida falsos que não envolvem trabalho diário.

Carta à Minha Filha

Lembras-te de dizer que a vida era uma fila?
Eras pequena e o cabelo mais claro,
mas os olhos iguais. Na met√°fora dada
pela inf√Ęncia, perguntavas do espanto
da morte e do nascer, e de quem se seguia
e porque se seguia, ou da total ausência
de raz√£o nessa cadeia em sonho de novelo.

Hoje, nesta noite t√£o quente rompendo-se
de junho, o teu cabelo claro mais escuro,
queria contar-te que a vida é também isso:
uma fila no espaço, uma fila no tempo
e que o teu tempo ao meu se seguir√°.

Num estilo que gostava, esse de um homem
que um dia lembrou Goya numa carta a seus
filhos, queria dizer-te que a vida é também
isto: uma espingarda às vezes carregada
(como dizia uma mulher sozinha, mas grande
de jardim). Mostrar-te leite-creme, deixar-te
testamentos, falar-te de tigelas Рé sempre
olhar-te amor. Mas é também desordenar-te à
vida, entrincheirar-te, e a mim, em fila descontínua
de mentiras, em carinho de verso.

E o que queria dizer-te é dos nexos da vida,
de quem a habita para além do ar.

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N√£o Existe Prosa

N√£o existe prosa. A menos que se refiram os escritos, em prosa ou verso, que pretendem ensinar. N√£o h√° nada a ensinar embora haja tudo a aprender. Aquilo que se aprende vem do nosso pr√≥prio ensino, vem da pergunta; v√£o-se aprendendo, pelas esperas, pela imobilidade √†s portas, pela invisibilidade dos rostos depois de vistos t√£o prometedoramente, pela emenda sucessiva, pela ins√≥nia sucessiva dos olhos e das figura√ß√Ķes, sempre, v√£o-se aprendendo sempre as maneiras da pergunta. Uma pergunta em perguntas, um poema em poemas, uma rebarbativa constela√ß√£o de objectos ofuscantes. Aprende-se que a pergunta se desloca com a luz inerente; ilumina-se a si mesma, a pergunta constelar; ensina a si mesma, ao longo de si mesma, os estilos de ser dotada dessa luz para fora e para dentro. Leio romances desde que perceba que n√£o est√£o a responder. Alguns s√£o extraordin√°rias m√°quinas interrogativas: “Ulisses”, “Filhos e Amantes”, “O Doutor Fausto”, “O Processo”, “A Morte de Virg√≠lio”, “O Som e a F√ļria”, “Debaixo do Vulc√£o”, “A Obra ao Negro”, “Lolita”, “Di√°rio do Ladr√£o”, todos os romances de C√©line como se fossem um s√≥, alguns outros, antes, agora. Os romances de Agustina Bessa-Lu√≠s, porventura os menos amados, s√£o entre n√≥s as quase √ļnicas m√°quinas vivas de perguntar.

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Para mim? Para ti? Para ningu√©m. Quero atirar para aqui, negligentemente, sem pretens√Ķes de estilo, sem an√°lises filos√≥ficas, o que os ouvidos dos outros n√£o recolhem: reflex√Ķes, impress√Ķes, ideias, maneiras de ver, de sentir ‚ÄĒ todo o meu esp√≠rito paradoxal, talvez fr√≠volo, talvez profundo.

O Cerne da Escrita e da Leitura

Não se é escritor por se ter preferido dizer certas coisas, mas por se ter preferido dizê-las duma certa maneira. E o estilo faz, evidentemente, o valor da prosa. Mas deve passar despercebido. Uma vez que as palavras são transparentes e que o olhar as atravessa, seria absurdo meter entre elas vidros despolidos. Aqui, a beleza é apenas uma força doce e insensível.
Num quadro, brilha antes de mais nada; num livro, esconde-se, age por persuas√£o como o encanto duma voz ou dum rosto, n√£o obriga, faz curvar sem que se d√™ por isso e pensa-se ceder aos argumentos quando afinal se √© solicitado por um encanto impercept√≠vel. A cerim√≥nia da missa n√£o √© a f√©, ela disp√Ķe a isso; a harmonia das palavras, a sua beleza, o equil√≠brio das frases, disp√Ķem as paix√Ķes do leitor sem que ele d√™ por isso, ordenam-nas como a missa, como a m√ļsica, como uma dan√ßa; se acaba por as considerar em si mesmas, perde o sentido, apenas restam oscila√ß√Ķes aborrecidas.

Soneto 278 A Salvador Dali

Pra mim, Picasso perto dele é pinto.
Qual cubo nem Guernica! O catal√£o
p√īs fogo na girafa, e d√° li√ß√£o
de como você pinta como eu pinto.

Relógios derreteu, deu ao recinto
bagunça formidável de ilusão.
Bigodes retorceu, e a posição
do Cristo subverteu: estilo extinto.

Talvez fez na pintura o que Gaudí
ergueu, fenomenal, na arquitetura:
delírio, porém nítido. Não vi

no século atual maior textura
que o fruto da estranheza de Dali,
o gênio do ocular na cor. Loucura!

O Calend√°rio Ardente dos Teus Dias

o calend√°rio ardente dos teus dias
a lista das tuas agonias

como se atreve
como n√£o ousa serenar
serenar-te

no ímpeto fugidio e secreto
o sorriso
a alva gravidade do estilo

Dói-me a Vida aos Poucos

Estou num daqueles dias em que nunca tive futuro. H√° s√≥ um presente im√≥vel com um muro de ang√ļstia em torno. A margem de l√° do rio nunca, enquanto √© a de l√°, √© a de c√°, e √© esta a raz√£o intima de todo o meu sofrimento. H√° barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida n√£o doer, nem h√° desembarque onde se esque√ßa. Tudo isto aconteceu h√° muito tempo, mas a minha m√°goa √© mais antiga.
Em dias da alma como hoje eu sinto bem, em toda a consciência do meu corpo, que sou a criança triste em quem a vida bateu. Puseram-me a um canto de onde se ouve brincar. Sinto nas mãos o brinquedo partido que me deram por uma ironia de lata. Hoje, dia catorze de Março, às nove horas e dez da noite, a minha vida sabe a valer isto.
No jardim que entrevejo pelas janelas caladas do meu sequestro, atiraram com todos os balouços para cima dos ramos de onde pendem; estão enrolados muito alto, e assim nem a ideia de mim fugido pode, na minha imaginação, ter balouços para esquecer a hora.
Pouco mais ou menos isto, mas sem estilo,

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Mas 10 anos depois, quando desenvolv√≠amos o primeiro computador Machintosh tudo veio √† mim. E colocamos tudo no Mac. Foi o primeiro computador com tipografia bonita. Se eu nunca tivesse feito aquele espec√≠fico curso na faculdade, o Mac nunca teria m√ļltiplos estilos de letras, ou espa√ßos proporcionais. E j√° que o Windows copiou o Mac, talvez nenhum computador pessoal as tivesse.

Como pastores, sede simples no estilo de vida, desprendidos, pobres e misericordiosos, para andar depressa e nada interpor entre vós e os outros

As comodidades aniquilam-nos: o medo do sacrif√≠cio e do compromisso; a aten√ß√£o exclusiva a n√≥s mesmos e √†queles da nossa mais restrita cercania, mas n√£o mais al√©m; um estilo de vida em que conta mais o ¬ęestar bem¬Ľ do que ¬ęfazer o bem¬Ľ. √® tudo isto que adormece o esp√≠rito.

O Saber Ajuda em Todas as Actividades

O mero fil√≥sofo √© geralmente uma personalidade pouco admis¬≠s√≠vel no mundo, pois sup√Ķe-se que ele em nada contribui para o be¬≠nef√≠cio ou para o prazer da sociedade, porquanto vive distante de toda comunica√ß√£o com os homens e envolto em princ√≠pios e no√ß√Ķes igualmente distantes de sua compreens√£o. Por outro lado, o mero ig¬≠norante √© ainda mais desprezado, pois n√£o h√° sinal mais seguro de um esp√≠rito grosseiro, numa √©poca e uma na√ß√£o em que as ci√™ncias florescem, do que permanecer inteiramente destitu√≠do de toda esp√©cie de gosto por estes nobres entretenimentos. Sup√Ķe-se que o car√°cter mais perfeito se encontra entre estes dois extremos: conserva igual capacidade e gosto para os livros, para a sociedade e para os neg√≥cios; mant√©m na conversa√ß√£o discernimento e delicadeza que nascem da cultura liter√°ria; nos neg√≥cios, a probidade e a exatid√£o que resultam naturalmente de uma filosofia conveniente. Para difundir e cultivar um car√°cter t√£o aperfei√ßoado, nada pode ser mais √ļtil do que as com¬≠posi√ß√Ķes de estilo e modalidade f√°ceis, que n√£o se afastam em demasia da vida, que n√£o requerem, para ser compreendidas, profunda apli¬≠ca√ß√£o ou retraimento e que devolvem o estudante para o meio de homens plenos de nobres sentimentos e de s√°bios preceitos,

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